setembro 21, 2026
NGC 1672, a espiral barrada de Dorado: guia completo de observação e astrofotografia

Poucas galáxias do céu do sul reúnem tanta estrutura num espaço tão pequeno quanto NGC 1672. Na constelação de Dorado, o Peixe-Espada, ela é uma espiral barrada de aparência quase de manual: uma barra central comprida e brilhante, dois braços principais que a partem dos extremos e um anel de regiões de formação estelar em volta do núcleo. Nas fotografias, mostra quatro braços; ao ocular, quase sempre só um. Essa diferença entre o que a câmera entrega e o que o olho consegue extrair é o coração deste guia. Vista do Rio de Janeiro, a galáxia passa a mais de 50° de altura, o que é bom, mas o brilho por ponto é baixo, e em céu urbano ela é um alvo para quem já tem prática e um telescópio de pelo menos 200 mm.
Texto em revisão. Este guia segue o novo formato de guia de objeto. As fontes estão listadas no final; onde os livros são escassos, isso está dito no texto.

Ficha técnica e designações
| Designação principal | NGC 1672 |
|---|---|
| Outras designações | NGC NGC 1672 PGC / UGC PGC 15941 |
| Tipo de objeto | Galáxia |
| Constelação | Dorado |
| Coordenadas (J2000) | RA 04h 45m 43s | Dec −59° 14′ 50″ |
| Distância da Terra | ~59 milhões anos-luz |
| Magnitude aparente | +10,2 |
| Tamanho aparente | 6,1′ |
| Melhor época (BR) | Dezembro, Janeiro, Fevereiro |
Visão geral: o que é uma espiral barrada
Uma galáxia espiral é um disco achatado de estrelas, gás e poeira que gira em torno de um núcleo. Em muitas, as estrelas do centro se organizam numa barra: uma faixa alongada de onde os braços espirais partem. A barra funciona como uma esteira que canaliza o gás do disco em direção ao centro, o que costuma alimentar a formação de estrelas e, às vezes, o núcleo ativo. Nossa própria Galáxia tem uma barra, e cerca de dois terços das espirais próximas também (conhecimento geral).
NGC 1672 é um exemplo de manual desse grupo. O Data Book classifica-a como SBb, isto é, uma espiral barrada com braços de enrolamento moderado, e o SIMBAD adota um tipo morfológico parecido, além de listá-la como galáxia Seyfert, ou seja, com um núcleo mais brilhante e ativo que o das galáxias comuns. O Bakich resume o objeto como uma espiral barrada de quatro braços.
A galáxia em números. O SIMBAD dá magnitude visual de cerca de 9,7 e dimensões de 6,8′ × 4,1′ (as demais fontes variam de 4,8′ a 6,8′; ver pendências). O diâmetro aparente maior, cerca de um quinto do tamanho da Lua cheia, corresponde a algo entre 100.000 e 120.000 anos-luz na distância adotada, comparável ao da nossa Via Láctea (cálculo nosso).
Distância. Os livros consultados não trazem uma distância para NGC 1672. As medidas listadas no SIMBAD ficam entre 15 e 18 megaparsecs, o que dá cerca de 50 a 60 milhões de anos-luz. É um intervalo largo, típico de galáxias sem estrelas cefeidas medidas, e por isso o texto evita uma precisão que os dados não têm.
O que o núcleo faz. O centro de NGC 1672 é mais ativo que o de uma espiral comum (SIMBAD: tipo Seyfert), e imagens de observatório mostram um anel luminoso de formação estelar em volta da barra, com nuvens de gás ionizado em vermelho (conhecimento geral, sem página de livro).
Estruturas notáveis
- A barra. É a característica mais óbvia nas fotos: um traço brilhante atravessando o centro, orientado aproximadamente de leste para oeste, com os braços saindo das pontas (conhecimento geral; conferir na imagem do Aladin abaixo).
- Os braços. O Bakich fala em quatro braços. Nas fotografias, dois braços principais, robustos, partem das pontas da barra, e ramos mais fracos se abrem em volta deles. Ao ocular, só um braço aparece e só com aumento alto: começa no leste da galáxia e curva para o norte (Bakich).
- O anel central. Um anel de formação estelar em volta do núcleo, visível em imagens longas.
- O núcleo. Brilhante e compacto, o que explica por que a galáxia é fácil de reconhecer mesmo quando o resto não aparece.
Como localizar
NGC 1672 fica em Dorado, no céu do extremo sul, numa região sem estrelas brilhantes. Pelo Bakich, o ponto de partida é a estrela Kappa Doradus, de magnitude 5,3: a galáxia está cerca de 0,5° a nor-nordeste dela, ou seja, uma distância menor que o diâmetro da Lua cheia. Kappa Dor não é vistosa, mas aparece num buscador ou num binóculo, e o resto é uma questão de centralizar o campo.
Se você tem um telescópio com apontamento eletrônico (go-to), o mais simples é mandar o telescópio para as coordenadas e conferir o campo com uma carta. Sem go-to, use o buscador de campo largo para achar Kappa Dor e um ocular de baixo aumento para procurar uma mancha oval pouco brilhante ao norte-nordeste dela. A Grande Nuvem de Magalhães fica a leste, a alguns graus, e serve de referência grosseira para saber que você está na região certa.

Quando e como observar
A galáxia tem declinação de aproximadamente −59°, e do Rio (latitude −23°) ela culmina a cerca de 54° de altura, bem alta e longe da poluição luminosa do horizonte. Não é circumpolar, mas passa muitas horas acima do horizonte. A melhor época é de novembro a fevereiro, com o auge por volta de dezembro (o Bakich também a indica para dezembro): a essa altura, ela culmina perto da meia-noite no início de dezembro e no começo da noite em janeiro e fevereiro. Como ela está a sul do zênite, olhando para o sul o norte da galáxia fica para cima e o leste, à esquerda; a barra aparece, portanto, na horizontal ou levemente inclinada, conforme o instrumento.
Os dois gráficos abaixo mostram a altura do objeto ao longo do ano e o caminho dela nesta noite.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
- Melhor horário
- 03:10 · 54° S
- Horas acima de 45°
- 3,3 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 55 / 100
- Posição no céu
- 62
- Brilho
- 36 mag 10,2
- Enquadramento
- 55 ocupa 14 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 7° | SSE 152° | 96° |
| 20:00 | 11° | SSE 150° | 96° |
| 20:30 | 14° | SSE 149° | 96° |
| 21:00 | 18° | SSE 148° | 96° |
| 21:30 | 22° | SSE 147° | 96° |
| 22:00 | 26° | SSE 146° | 96° |
| 22:30 | 29° | SSE 146° | 96° |
| 23:00 | 33° | SSE 147° | 96° |
| 23:30 | 37° | SSE 148° | 96° |
| 00:00 | 41° | SSE 150° | 96° |
| 00:30 | 44° | SSE 153° | 96° |
| 01:00 | 47° | SSE 156° | 96° |
| 01:30 | 50° | SSE 160° | 96° |
| 02:00 | 52° | SSE 165° | 96° |
| 02:30 | 53° | S 171° | 96° |
| 03:00 | 54° | S 178° | 96° |
| 03:30 | 54° | S 184° | 96° |
| 04:00 | 53° | S 190° | 96° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Invisível. |
| Binóculo (10×50 a 15×70) | Provavelmente só uma mancha muito fraca, se tanto. É um alvo para instrumento com abertura, não para binóculo (estimativa; sem fonte nos livros). |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Em céu escuro, uma mancha oval difusa com centro mais brilhante. Em Bortle 7, quase certamente nada. |
| Telescópio de 200 a 250 mm | Núcleo evidente em céu razoável e halo oval; com paciência e visão indireta, um indício de alongamento da barra. |
| Telescópio de 300 mm ou mais | Com aumento alto, um braço (Bakich): começa no leste e curva para o norte. Os outros braços e o anel de formação estelar continuam fora do alcance visual em céu urbano. |
Expectativa honesta. O Bakich diz que, com 300 mm e aumento alto, só um braço aparece, e isso vale para um céu bem melhor que o do Rio. Em Bortle 7, conte com o núcleo e, com sorte, o halo. A vantagem é a altura: a essa declinação, a galáxia passa a mais de 50° de altura, o que é um ganho considerável em relação ao que os observadores do hemisfério norte, que a veem baixa ou nunca a veem, têm à disposição.
Astrofotografia: estratégia de captura
NGC 1672 não é abordada por Kier, o autor que usamos para a maioria dos guias de astrofotografia, por isso as orientações abaixo combinam o que ele recomenda para galáxias parecidas (NGC 2903, barrada, e NGC 4725, com braços tênues) com prática geral. São orientações de partida, não instruções dos livros.
Enquadramento
A galáxia mede cerca de 7′ × 4′: é pequena, e pede distância focal longa para render detalhe. Com 1.000 mm de focal e sensor pequeno (como o da ASI294MC Pro), o campo é de cerca de 1,1° × 0,75°, e a galáxia ocupa uma fração pequena do quadro. Para explorar a barra e o anel, 1.500 a 2.000 mm são melhores, desde que a guiagem seja boa. Kier, em galáxias similares, recomenda inclinar o objeto em vez de deixá-lo alinhado com o quadro (NGC 2903).
Desafios do alvo
- Brilho superficial moderado. A galáxia é razoavelmente brilhante, mas os braços externos são muito tênues; céu escuro e muitas horas de exposição fazem diferença.
- Estrelas de campo. Está numa região sem grandes estrelas, mas o campo tem muitas estrelas fracas; cuidado para não saturar o núcleo, que é brilhante.
- Detalhe interno. A barra e o anel pedem foco preciso e boa qualidade de imagem (seeing). Kier, para NGC 2903, recomenda coletar a luminância nas noites de céu mais estável e com o alvo perto do meridiano; a galáxia passa mais de 50° de altura, o que ajuda.
Equipamento e filtros
Uma câmera colorida de um disparo já revela barra, braços e núcleo. Em câmera monocromática, o método LRGB é o caminho recomendado por Kier para galáxias do tipo: luminância longa para os braços tênues e cor mais curta. Filtros de banda estreita (H-alfa) realçam as regiões de formação estelar do anel central e dos braços, e um filtro anti-poluição (tipo "light pollution") ajuda em Bortle 7.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (LRGB ou colorida) | 80 a 120 | 120 a 180 s | Braços e anel; o tempo total é o mais importante |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida e não vêm dos livros.
Smart telescopes e campo de visão
Em um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), NGC 1672 cabe com muita folga e aparece pequena no quadro, mas o núcleo e a forma oval saem. Como o brilho é moderado, cerca de uma hora a duas de empilhamento já mostram a barra e os braços mais brilhantes; para os braços externos, o objetivo é acumular várias noites. Escolha seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre a galáxia.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
NGC 1672 é um alvo modesto ao ocular e generoso na câmera: o visual entrega um núcleo e, com sorte, um braço; a foto, uma barra clássica e quatro braços. Serve como comparação didática com outras galáxias do céu do sul, como a Galáxia da Fornalha (NGC 1097), também barrada e de núcleo ativo, e a Cata-vento do Sul (M 83). Como está em Dorado, na direção da Grande Nuvem de Magalhães, vale combiná-la numa mesma noite com a Nebulosa da Tarântula (NGC 2070).
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 916 (NGC 1672).
- MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Tabela de galáxias de Dorado e vizinhança, p. 422.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo, dimensões, tipo morfológico e medidas de distância de NGC 1672, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.