setembro 21, 2026

Céu de primavera no hemisfério sul: Fomalhaut, Aquário, o Grou e o céu de setembro a novembro

Mapa do céu de primavera visto do Rio de Janeiro, com norte em cima e leste à esquerda: Fomalhaut perto do zênite, o quadrado de Pégaso ao norte, Altair e Vega a noroeste, a Via Láctea de Sagitário e Escorpião a oeste e o polo sul celeste embaixo

Quando chega setembro no Brasil, o céu da noite se abre para o lado sul e a Via Láctea intensa do inverno vai embora com as constelações de Escorpião e Sagitário. É um céu discreto, com poucas estrelas brilhantes e muito espaço escuro entre elas. O interesse dele está em outro ponto: é a estação em que o zênite é ocupado por Fomalhaut, a "boca do peixe", enquanto o quadrado de Pégaso sobe ao norte e as constelações do sul profundo (Tucano, Fênix, Pavão, Índio, Grou) ficam altas e disponíveis. Este guia cobre o céu de setembro a novembro visto do Brasil, com foco nas latitudes do Sudeste. É o mesmo céu, na mesma data e hora, que se vê no outono do hemisfério norte, mas o ponto de vista é oposto: veja o artigo par, Céu de outono no hemisfério norte.

Texto em revisão. Este é um rascunho escrito a partir de fontes de referência; as fontes estão listadas no final.

O que é o céu de primavera no hemisfério sul

A primavera astronômica no sul começa no equinócio de setembro, por volta do dia 22, e vai até o solstício de dezembro. Nessas noites, às 21 horas, o Sol se pôs há pouco e o céu mostra as constelações do "lado do outono" da eclíptica: Capricórnio, Aquário, Peixes e Peixe Austral. Sagitário e Escorpião, dominantes no inverno, estão se pondo a oeste, e Órion e o Touro só nascem depois da meia-noite.

Dois traços definem esse céu. O primeiro é a escassez de estrelas brilhantes: além de Fomalhaut, Achernar e Altair, sobram poucas de primeira grandeza. O segundo é que, longe do plano da Via Láctea, a visão para fora da nossa galáxia é limpa. Por isso essa é uma estação de galáxias como a NGC 253, e de globulares como o 47 Tucanae, que estão altos.

O mapa e como ler

Mapa do céu de primavera visto do Rio de Janeiro, com norte em cima e leste à esquerda: Fomalhaut perto do zênite, o quadrado de Pégaso ao norte, Altair e Vega a noroeste, a Via Láctea de Sagitário e Escorpião a oeste e o polo sul celeste embaixo
Céu de 15 de outubro, 21h locais, latitude 23° S (Rio de Janeiro). Visto olhando para cima: norte em cima e leste à esquerda (ao contrário de um mapa de rua). O zênite está no centro e a borda é o horizonte. A linha dourada é a eclíptica; a azul, o equador celeste. Repare no vazio do lado sul e em Vega e Altair baixas a noroeste.

Segure o mapa sobre a cabeça, com a parte de cima (norte) voltada para o norte real: as direções então coincidem com o que você vê. A borda circular é o horizonte, o centro é o zênite (o ponto sobre a cabeça) e a distância do centro indica a altura: quanto mais perto da borda, mais baixo o objeto. Como leste fica à esquerda, o mapa parece espelhado em relação a um mapa de rua.

Como se orientar em outubro

Ache o sul primeiro. No hemisfério sul não há uma "Estrela Polar": a região do polo sul celeste é escura, e a estrela visível mais próxima, Sigma do Oitante, é fraca demais para cidade. O método clássico usa o Cruzeiro do Sul, prolongando o braço maior cerca de 4,5 vezes (Ridpath, capítulo sobre o céu do hemisfério sul; Vieira, Identificação do Céu), mas em outubro às 21 horas o Cruzeiro já se pôs no Rio. Use então duas referências: Achernar, a sudeste, e Hadar (Beta do Centauro), baixa a sudoeste. O polo fica a 23° de altura, igual à latitude do lugar, mais ou menos a meio caminho entre as duas e um pouco para o sul; no mapa, é a cruz embaixo, entre Mesa, Oitante e Camaleão.

Fomalhaut é o marco. Quase no zênite do Rio (o centro do Peixe Austral está a 82°, do lado sul), Fomalhaut é a estrela solitária da estação: as vizinhas são fracas. Fica a cerca de 25 anos-luz e é de tipo A4 V (SIMBAD). Achada ela, você está no centro do céu. Daí, olhe para o norte para chegar ao quadrado de Pégaso e para o sudeste para chegar a Achernar.

O Quadrado de Pégaso. Ao norte, a 48° de altura, o grande quadrado de estrelas modestas é o principal desenho do céu do outono no hemisfério norte, e aqui também domina o quadrante. Prolongando um dos lados na direção do nordeste, você chega a Andrômeda.

O Triângulo de Verão. Vega, Altair e Deneb ainda aparecem no noroeste no começo da noite, mas baixos: a Lira está a 13° de altura em outubro, a Águia a 43° e o Cisne a 18°. É a última temporada do "Triângulo de Verão" no sul.

Constelações altas e do hemisfério sul

As zodiacais: Capricórnio, Aquário e Peixes

Capricórnio (72° de altura, a oeste) tem forma de triângulo ou de sorriso, com estrelas discretas, e é fácil de achar. O globular M 30 fica perto da extremidade sul da constelação.

Aquário (78°, a norte) é grande, de estrelas fracas, com o "vaso" formado por um pequeno Y de quatro estrelas. Abriga o globular M 2 e a Nebulosa da Hélice, NGC 7293, uma das nebulosas planetárias mais próximas e maiores do céu, a poucos graus de Fomalhaut, e o planetário NGC 7009, a Nebulosa Saturno.

Peixes (41°, a nordeste) é uma constelação fraca, em forma de V, ao redor do quadrado de Pégaso; Áries nasce depois, também a nordeste (13°). Ambas ficam melhor no fim da primavera e no verão.

Sagitário e o Escorpião estão se pondo a oeste e sudoeste (47° e 19°). O bule de Sagitário ainda oferece, logo depois do pôr do Sol, os globulares M 22 e M 55, a Nebulosa da Lagoa e a Nuvem Estelar M 24.

Peixe Austral, Grou e Escultor

O Peixe Austral (Piscis Austrinus) é pequeno: Fomalhaut e uma fileira de estrelas fracas para leste. O Grou (67°) tem duas estrelas de 2ª magnitude e um desenho de pescoço longo; Alnair, a mais brilhante, está a cerca de 101 anos-luz (SIMBAD). O Escultor (60°, a sudeste) é quase vazio a olho nu, mas guarda a galáxia NGC 253 e o globular NGC 288. Mais ao sul, as galáxias NGC 55 e NGC 300 são alvos para telescópio.

O sul profundo: Fênix, Tucano, Índio, Pavão e Oitante

A Fênix (50°, a sudeste) tem Ankaa, uma gigante laranja a cerca de 85 anos-luz. O Tucano (45°, sul) traz duas joias: o 47 Tucanae, NGC 104, um dos globulares mais brilhantes do céu, e o NGC 362; ao lado, fica a Nuvem Pequena de Magalhães. O Índio (49°) é fraco. O Pavão (40°) tem Alfa do Pavão (179 anos-luz), o globular NGC 6752 e a galáxia NGC 6744. Microscópio (68°) e Telescópio (46°), a sudoeste, são figuras modernas de estrelas fracas, criadas no século XVIII por Lacaille.

Hidra Macho, Oitante, Mesa, Camaleão, Ave-do-Paraíso, Mosca e Peixe Voador são circumpolares no Rio: nunca se põem. Oitante contém o polo sul celeste, com estrelas fracas. A Grande Nuvem de Magalhães fica na fronteira entre Dourado e Mesa, no lado sudeste.

Achernar, a Alfa do Eridano, é a estrela brilhante do sul desta estação: cerca de 35° acima do horizonte sudeste às 21 horas (lida do mapa), a cerca de 139 anos-luz (SIMBAD). O restante do Eridano, com centro a 23° de altura, é um rio de estrelas fracas que sobe do horizonte a leste.

Constelações equatoriais e o que elas têm em comum com o norte

As figuras perto do equador celeste são vistas dos dois hemisférios, em alturas parecidas nas noites de outono ou primavera. Em outubro, do Rio, são Pégaso (48°, norte), Aquário, Peixes, Baleia (39°, leste), Golfinho (48°) e Cavalo Menor (55°) a noroeste, e Águia (43°) com Altair. Andrômeda (21°) e Triângulo (12°) aparecem baixos no nordeste: M 31, a Grande Galáxia de Andrômeda, e M 33, no Triângulo, são difíceis a olho nu com o céu do Rio, e o hemisfério norte leva vantagem para elas.

O que o hemisfério norte vê de diferente

Nas mesmas noites de outubro, quem está a 40° N (Nova York, Madri) está no outono. Ele vê:

  • Cassiopeia, Cefeu, Ursa Menor, Dragão e Girafa circumpolares (nunca se põem), com a Ursa Maior perto do horizonte norte. No Brasil, essas constelações não aparecem.
  • Lagarto, Cisne, Pégaso e Andrômeda a 60 a 84° de altura, com Andrômeda e M 31 bem no alto.
  • Perseu subindo a nordeste.
  • Aquário, Capricórnio e o Peixe Austral baixos, a 19 a 39°, e as constelações do sul profundo (Fênix, Tucano, Pavão, Índio) abaixo do horizonte.

As figuras que os dois hemisférios enxergam aparecem invertidas uma em relação à outra: o mesmo efeito que faz Órion parecer de cabeça para baixo no sul, no verão. O quadrado de Pégaso, por exemplo, fica ao sul e alto para o observador do norte, e ao norte para nós.

Dicas de observação

No Rio de Janeiro (Bortle 7). Com céu de cidade, você vê Fomalhaut, Achernar, Altair, Vega e as estrelas principais de Capricórnio e do quadrado de Pégaso. As Nuvens de Magalhães e a maior parte das galáxias pedem céu escuro; para elas, vale ir a uma serra ou ao litoral fora da cidade. Deixe o celular em modo noturno para preservar a adaptação da visão.

Melhor horário. O céu de outubro fica bom entre 21 e 23 horas. No início da primavera, a Via Láctea de Sagitário e Escorpião ainda está alta ao entardecer: aproveite logo depois do pôr do Sol. No fim de novembro, Órion e o Touro já nascem antes da meia-noite, e o céu de verão começa a se armar.

Binóculo e telescópio. Um binóculo 10×50 mostra os globulares M 2 e M 15 como manchas e, em céu escuro, a galáxia NGC 253 como um fuso. O globular M 22 rende mais com telescópio.

Planetas. Podem aparecer em qualquer ponto da eclíptica (linha dourada no mapa), na faixa de Capricórnio, Aquário e Peixes; consulte um almanaque para saber onde estão em cada data.

Considerações finais

O céu de primavera no hemisfério sul parece vazio, mas é uma janela para longe da nossa galáxia: Fomalhaut no zênite, Achernar no sul, as Nuvens de Magalhães altas e as galáxias do Escultor ao alcance de um telescópio. É uma boa estação para aprender a se orientar sem apoios óbvios e para caçar objetos discretos. Para ver como o mesmo céu aparece do outro lado da Terra, com Cassiopeia, Andrômeda e o quadrado de Pégaso no alto, leia o par deste artigo: Céu de outono no hemisfério norte.

Referências

  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges; revisão técnica de Alexandre Cherman. 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Capítulos sobre o céu do hemisfério sul e verbetes de constelações (páginas impressas a conferir).
  • VIEIRA, Fernando. Identificação do Céu. Capítulo sobre orientação e localização do polo sul celeste (edição e páginas a conferir).
  • MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário Enciclopédico de Astronomia e Astronáutica. 1987. Verbetes de estrelas e constelações citadas (páginas a conferir).
  • MOORE, Patrick (ed.). Philip's Astronomy Encyclopedia. Londres: Philip's. Verbetes de constelações (páginas a conferir).
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. Springer (Patrick Moore's Practical Astronomy Series). Seções de setembro a novembro (páginas a conferir).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. Springer (Practical Astronomy Series). DOI 10.1007/978-0-387-85355-0. Capítulos de Aquário, Capricórnio, Escultor e Tucano (páginas a conferir).
  • CDS. SIMBAD Astronomical Database. Estrasburgo: Centre de Données astronomiques de Strasbourg. Tipos espectrais e paralaxes; distâncias calculadas por 3.261,56 dividido pela paralaxe em milissegundos de arco.
  • Mapa: catálogo de estrelas HYG v4.1 (CC BY-SA 4.0); linhas de constelação: d3-celestial/IAU. Gerado por Astronomia no Telhado.