setembro 21, 2026
NGC 7009 (Caldwell 55), a Nebulosa Saturno: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos
Poucos objetos do céu recebem um nome tão enganoso e tão certeiro ao mesmo tempo. A Nebulosa Saturno, em Aquário, não tem nada de planeta, e ao ocular também não parece Saturno: o desenho dos anéis vistos de lado só aparece em fotografias. O que se vê é um pequeno ovo azul-esverdeado, brilhante, que num aumento baixo passa por uma estrela um pouco estranha e que, com 150 mm e um pouco de paciência, revela um disco nítido e cor. É um dos alvos mais fáceis e recompensadores entre as planetárias do céu de primavera do hemisfério sul, e no Rio de Janeiro ele passa quase no alto do céu. Este guia reúne os dados, o mapa de localização, os gráficos de altura e a estratégia de observação e captura.
Texto em revisão. Este é um guia no novo formato de objeto, ainda em rascunho. As fontes estão no final; as divergências entre elas estão listadas como pendências.

Ficha técnica e designações
Visão geral: o que é uma nebulosa planetária
Uma nebulosa planetária é o envoltório de gás que uma estrela de massa parecida com a do Sol expele nos últimos milhares de anos da vida. O que sobra da estrela, uma anã branca muito quente, ilumina o gás e o faz brilhar. O nome vem de William Herschel, que no século XVIII achou que o disco esverdeado de alguns desses objetos lembrava um planeta visto ao telescópio (Mourão). É um fenômeno passageiro, na escala do universo. Para comparar, a Nebulosa da Hélice (NGC 7293), na mesma constelação, tem maior tamanho aparente e brilho por ponto bem menor: a Saturno é pequena, mas concentra a luz, o que a torna fácil de ver.
A Saturno em números. A luz total é de magnitude próxima de 8 (8,0 em Mobberley; 8,3 em Bakich) e o objeto tem um tamanho de dezenas de segundos de arco: as fontes vão de 25″ a 45″ no eixo maior, e o SIMBAD lista cerca de 42″ × 31″. A estrela central é de magnitude 12 e é uma anã azul de cerca de 55.000 K, segundo Mourão. O gás é rico em oxigênio duplamente ionizado, que emite na faixa verde-azulada e explica a cor (Mourão); Coe descreve um tom aqua fluorescente.
Distância. É onde os livros mais divergem: 1.400 anos-luz (Mobberley), cerca de 3.000 (Coe) e 3.900 (Mourão). A paralaxe do SIMBAD, de 0,81 milissegundo de arco, dá cerca de 4.000 anos-luz, e é esse o valor adotado aqui; a essa distância o objeto teria cerca de 0,8 ano-luz de extensão. Mobberley dá idade de cerca de 6.000 anos.
Nome e descoberta. Herschel a descobriu no fim do século XVIII (1782 ou 1792, conforme a fonte). O apelido "Saturno" veio de Lord Rosse, que viu duas projeções laterais e as comparou aos anéis do planeta (Mourão; Moore). É também o objeto 55 da lista Caldwell.
Estruturas notáveis
- O disco oval. Um elipsoide de alto brilho superficial, de cor azul-esverdeada. É a parte que qualquer telescópio mostra.
- As ansae (as "asas"). Duas projeções fracas nas pontas do eixo maior, que lembram os anéis de Saturno vistos de perfil. Ao ocular aparecem como dois pequenos bulbos, e só em aberturas grandes: Mobberley fala de 25 a 50 cm, Bakich de 300 mm para os bulbos das pontas, e Coe as vê com facilidade em um refletor de 20″ (cerca de 500 mm).
- A estrela central. De magnitude 12, não impressiona; é mais um alvo para aberturas médias e grandes (Mobberley; Mourão).
- As camadas do Hubble. As imagens do Hubble mostram uma estrutura interna e externa que nenhum telescópio amador revela (Mobberley; Coe).
Como localizar
A Saturno fica no sul de Aquário, junto à divisa com Capricórnio, numa região sem estrelas muito brilhantes. Mobberley sugere partir de Sadalsuud (beta Aquarii, magnitude 2,9) e andar cerca de 6° para o sul e um pouco menos de 7° para oeste. O caminho mais curto é a estrela Nu Aquarii (magnitude 4,5): a nebulosa fica pouco mais de 1° a oeste dela (Bakich; Mourão). Como marcadores, os dois Messier vizinhos, o globular M72 e o aglomerado aberto M73, ficam cerca de 2° a sudoeste (Mobberley).

Em baixo aumento a nebulosa se confunde com uma estrela. Confira o campo em 50 aumentos ou mais: a que "engorda" é a nebulosa (Mobberley).
Quando e como observar
Com declinação de cerca de −11°, a Saturno culmina a cerca de 78° de altura no Rio de Janeiro (cálculo a partir da declinação; confira no gráfico), ao norte do zênite. Isso é ótimo: quase sem massa de ar, o brilho superficial alto rende o máximo. A melhor época é de julho a setembro, quando está alta durante a noite (Mobberley); na primavera ela já está bem alta ao anoitecer.
Como a nebulosa passa ao norte do zênite, quem olha para ela está de frente para o norte: o leste fica à direita e o norte celeste, para baixo, o inverso das cartas comuns. Com diagonal ou espelho, a imagem pode ainda sofrer outra inversão; confira a orientação com as estrelas do campo.
O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho da Saturno pelo céu nesta noite, seguido da altura hora a hora.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
- Melhor horário
- 19:30 · 78° N
- Horas acima de 45°
- 3,3 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 63 / 100
- Posição no céu
- 80
- Brilho
- 69 mag 8,0
- Enquadramento
- 6 ocupa 2 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 78° | N 3° | 90° |
| 20:00 | 77° | NNW 329° | 89° |
| 20:30 | 72° | NW 308° | 89° |
| 21:00 | 66° | WNW 295° | 89° |
| 21:30 | 60° | WNW 288° | 89° |
| 22:00 | 53° | WNW 282° | 88° |
| 22:30 | 46° | W 278° | 88° |
| 23:00 | 39° | W 274° | 88° |
| 23:30 | 32° | W 271° | 88° |
| 00:00 | 25° | W 268° | 87° |
| 00:30 | 18° | W 265° | 87° |
| 01:00 | 12° | W 263° | 87° |
| 01:30 | 5° | W 260° | 86° |
| 02:00 | -2° | — | 86° |
| 02:30 | -9° | — | 86° |
| 03:00 | -15° | — | 86° |
| 03:30 | -22° | — | 85° |
| 04:00 | -28° | — | 85° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Fora do alcance. Com magnitude perto de 8 e tamanho pequeno, é preciso instrumento. |
| Binóculo (7×50 a 15×70) | Em baixo aumento parece uma estrela; a nebulosa só se denuncia com ampliação ou com filtro (Mobberley). Use M72 e M73 como referência de campo. |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Com 50 aumentos ou mais, um disco pequeno, azul-esverdeado, que não é estrela. Mobberley indica 15 cm ou mais em aumento alto, com filtro UHC ou OIII. Mourão destaca a cor esverdeada. |
| Telescópio de 200 mm | Coe, num Maksutov de 7″ com 10 mm, viu um disco de alto brilho superficial alongado (cerca de 1,5 por 1), e a visão desviada aumenta o objeto. Bakich indica 200 mm e mais de 200 aumentos: disco oval de cerca de 25″. |
| Telescópio de 300 mm ou mais | Aparecem os bulbos das ansae (Bakich; Mobberley) e a estrela central. Em 500 mm, a estrela central é fácil e as ansae crescem com visão desviada (Coe). |
Expectativa honesta: os detalhes dos anéis, as fotos do Hubble e as cores intensas das imagens não aparecem ao ocular (Mobberley; Coe). Em Bortle 7 o brilho superficial alto da Saturno ajuda muito: é um dos alvos planetários que melhor resistem à poluição luminosa. O filtro ajuda a distinguir a nebulosa das estrelas, mas Mobberley indica UHC ou OIII como os que funcionam melhor.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
A nebulosa é pequena, de menos de 1′. Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera de sensor de 19 × 13 mm, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (cálculo a partir do sensor e da focal) e a Saturno ocupa cerca de 1% do quadro. Vale a pena usar focais de 1.500 a 2.500 mm ou recortar a imagem. Mobberley recomenda um bom acompanhamento com escala melhor que 1″ por pixel.
Desafios do alvo
- Alvo pequeno. Pede focal longa, boa colimação e bom acompanhamento. O seeing do Rio de Janeiro é um limite real; muitos quadros curtos e descarte dos ruins ajudam.
- Brilho alto, então exposição curta. Diferentemente das planetárias grandes e fracas, a Saturno aceita exposições curtas. Ajuste o ganho para não estourar o núcleo, que é bem mais brilhante que as bordas.
- Cores e camadas. O núcleo azul-esverdeado (OIII) e o envoltório externo mais avermelhado (H-alfa) pedem tratamentos distintos, e a região das ansae, mais fraca, exige empilhar mais.
- Comparação visual. Mobberley observa que imagens de cerca de um segundo com contraste reduzido ao mínimo se parecem com o que se vê ao ocular a 500 aumentos.
Equipamento e filtros
Uma câmera colorida com filtro dual-band (H-alfa e OIII) é suficiente, e uma monocromática com OIII e H-alfa separa bem as camadas. Kier (The 100 Best Targets for Astrophotography) recomenda fotografar planetárias pequenas perto do meridiano e rejeitar quadros borrados sem dó; na Saturno, que passa quase no zênite, isso é fácil.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (dual-band ou RGB) | 100 a 200 | 30 a 60 s | Nebulosa e halo; muitos quadros curtos permitem descartar os ruins |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida e não vêm dos livros.
Smart telescopes e campo de visão
Um smart telescope como o Seestar S50 tem um campo de cerca de 1,3° × 0,7°. Nele, a Saturno mede da ordem de 15 pixels (cálculo: escala de cerca de 2,4″ por pixel): dá para ver a cor e a forma oval, mas as ansae ficam no limite. É um alvo mais para "ver" do que para "detalhar" nesses equipamentos. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
A Nebulosa Saturno é uma planetária pequena e teimosa, e por isso boa escola: ensina a reconhecer uma nebulosa entre estrelas, a usar o aumento e o filtro para separar as duas e a esperar a visão desviada. Combine com a vizinha Nebulosa da Hélice (NGC 7293), a versão grande e fraca, e com o guia da constelação de Aquário. Depois de conhecer a Saturno, faça a mesma coisa com as planetárias do céu do sul, que se repetem a cada estação.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 657 (NGC 7009, Caldwell 55).
- COE, Steven R. Nebulae and How to Observe Them. London: Springer, 2007. NGC 7009, p. 43-44.
- KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. Planetárias pequenas, p. 60-65 (conferir a página exata).
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 55, p. 120-121.
- MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Aquário, p. 262 (conferir).
- MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "Saturno, nebulosa de" (p. 712-713, conferir).
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de NGC 7009, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.