setembro 20, 2026
NGC 7293, a Nebulosa da Hélice: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos
Entre as nebulosas planetárias, a Hélice é a que mais parece um anel de fumaça luminosa soprado por um deus distraído. Ela fica em Aquário, quase sobre a nossa cabeça, e ocupa no céu quase a metade do tamanho da Lua cheia, um dos maiores tamanhos aparentes entre as planetárias. É uma das mais próximas de nós e, ao mesmo tempo, uma das mais difíceis de ver: a luz total é de magnitude 6 a 7, mas ela se espalha por uma área tão grande que o brilho por ponto é baixíssimo. Com o filtro certo e um céu razoável, aparece como uma rosquinha cinza; numa fotografia, vira um olho gigante, de miolo azul-esverdeado e borda vermelha, que já rendeu o apelido "Olho de Deus". Este guia reúne os dados, os mapas, os gráficos de altura e a estratégia de observação e de captura, tudo em um só lugar.
Texto em revisão. Este é o segundo artigo de teste do novo formato de guia de objeto. Ele substitui o guia de astrofotografia e a página de exploração do objeto. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
| Designação principal | NGC 7293 |
|---|---|
| Outras designações | NGC NGC 7293 Caldwell C63 |
| Tipo de objeto | Nebulosa planetária |
| Constelação | Aquarius |
| Coordenadas (J2000) | RA 22h 29m 39s | Dec −20° 50′ 14″ |
| Distância da Terra | ~520 anos-luz (estimativas de 500 a 660) |
| Magnitude aparente | +7,3 |
| Tamanho aparente | 16′ |
| Melhor época (BR) | Agosto, Setembro, Outubro |
Visão geral: o que é uma nebulosa planetária
Apesar do nome, uma nebulosa planetária não tem nada de planeta. William Herschel cunhou a expressão em 1784 porque o disco esverdeado de alguns desses objetos lembrava o de um planeta visto ao telescópio (Mourão; Moore e Rees). Trata-se do envoltório de gás que uma estrela de massa parecida com a do Sol expele nos últimos milhares de anos de vida. O núcleo da estrela, agora uma anã branca muito quente, ilumina o gás e o faz brilhar. É um fenômeno passageiro: as planetárias duram no máximo cerca de 50.000 anos, e se conhecem uns mil desses objetos na Galáxia (Moore e Rees). O Sol deverá ter um destino parecido, daqui a bilhões de anos.
A Hélice em números. A estrela central da NGC 7293 tem magnitude 13,5 e é uma anã branca muito quente, com temperaturas entre 75.000 e mais de 100.000 K conforme a fonte (Coe; Kambič; Mourão). Ela ilumina duas camadas de gás: uma interna de oxigênio duplamente ionizado, que aparece em azul-esverdeado nas fotografias, e uma externa de hidrogênio, em vermelho (Kier). O conjunto tem cerca de 13′ de diâmetro aparente no SIMBAD (os livros vão de 12′ a 18′), perto de metade da largura da Lua cheia (Moore; Ridpath).
Distância. É aqui que os livros divergem mais: 300 anos-luz (Ridpath), 450 (Moore, Kier, Kambič e Mourão), 500 a 520 (Coe e Mobberley) e 650 a 700 (Monks e Moore e Rees). A paralaxe atual, listada no SIMBAD (5,01 ± 0,04 milissegundos de arco), dá cerca de 650 anos-luz, e é esse o valor que este guia adota. A essa distância, o tamanho aparente corresponde a cerca de 2,5 anos-luz de diâmetro, e a idade da nebulosa é de cerca de 10.000 a 11.000 anos (Mobberley; Moore e Rees).
Descoberta. O Bakich atribui a descoberta a Karl Ludwig Harding, que a publicou no Berliner Jahrbuch de 1827. É também chamada de Nebulosa Girassol (Bakich) e faz parte da lista Caldwell, como C 63.
Camadas e nós. Mourão observa que as múltiplas camadas mostram que a estrela expeliu o gás mais de uma vez. O Hubble revelou pequenos "girinos" em volta da parte interna, nós de gás em forma de cometa (Moore). O Spitzer mostrou poeira ao redor da estrela (Mobberley).
Estruturas notáveis
- O anel principal. Um anel largo e brilhante, com o lado leste mais luminoso e o norte mais luminoso em alguns instrumentos (Coe). É a "rosquinha" que se vê com o filtro.
- O buraco central. Fácil de ver, e mais claro que o céu ao redor: o miolo não é vazio, está preenchido por gás mais tênue (Bakich).
- O halo vermelho externo. Só as fotografias longas o revelam; é mais forte do lado leste (Kier).
- A estrela central. De magnitude 13,5, é um alvo para telescópios grandes (Coe; Mobberley).
- Os girinos do Hubble. Nós de gás em forma de cometa, só em imagens espaciais ou de altíssima resolução (Moore).
Como localizar
A Hélice fica em Aquário, numa região sem estrelas brilhantes. Comece em Fomalhaut, a estrela brilhante mais ao sul da região, e ande cerca de 11° (9¼° para o norte e 6½° para oeste) até um ponto no meio de um campo vazio (Mobberley). Melhor ainda, use a estrela Upsilon de Aquário (mag. 5,2): a Hélice fica cerca de 1,2° a oeste dela (Bakich; Mobberley). Como a nebulosa é muito difusa, primeiro localize o campo com um binóculo ou um buscador de campo largo.

Quando e como observar
A Hélice culmina a cerca de 2° do zênite do Rio de Janeiro, um enorme benefício: é o ângulo mais favorável possível para uma nebulosa de brilho tão baixo, porque a luz atravessa pouca atmosfera. Por isso os observadores do hemisfério norte, que veem a Hélice baixa no horizonte sul, a consideram um alvo difícil (Monks), e nós temos a melhor vista.
O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho da Hélice pelo céu nesta noite (zênite no centro, cores pela altura e linha pontilhada, tracejada ou contínua conforme o crepúsculo), seguido da altura hora a hora.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-13 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
- Melhor horário
- 20:50 · 88° NNE
- Horas acima de 45°
- 4,8 h
- Lua
- Lua crescente · 12 %
- Nota da noite
- 92 / 100
- Posição no céu
- 93
- Brilho
- 80 mag 7,3
- Enquadramento
- 100 ocupa 36 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 70° | E 88° | 92° |
| 20:00 | 77° | E 83° | 92° |
| 20:30 | 84° | ENE 69° | 91° |
| 21:00 | 87° | NW 326° | 91° |
| 21:30 | 81° | WNW 283° | 91° |
| 22:00 | 74° | W 275° | 91° |
| 22:30 | 68° | W 271° | 90° |
| 23:00 | 61° | W 268° | 90° |
| 23:30 | 54° | W 266° | 90° |
| 00:00 | 47° | W 264° | 90° |
| 00:30 | 40° | W 262° | 89° |
| 01:00 | 33° | W 260° | 89° |
| 01:30 | 26° | WSW 257° | 89° |
| 02:00 | 20° | WSW 255° | 89° |
| 02:30 | 13° | WSW 253° | 88° |
| 03:00 | 6° | WSW 250° | 88° |
| 03:30 | 0° | — | 88° |
| 04:00 | -7° | — | 88° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Praticamente invisível. Em céu muito escuro, pode ser vista como uma mancha bem tênue, mais fácil se você a localizar antes com binóculo (Bakich). |
| Binóculo (7×50 a 15×70) | Uma mancha circular difusa e muito fraca, com o brilho por ponto abaixo do que a magnitude sugere (Mourão; Kambič). Sem binóculo, a magnitude 6 não basta para vê-la (Coe). Use lentes frontais de mais de 50 mm (Bakich). |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Sem filtro, uma mancha cinzenta bem fraca; com um filtro UHC ou, melhor, OIII, ela aparece como uma rosquinha com o buraco central, com o lado leste mais brilhante (Coe). Mobberley recomenda 10 cm ou mais em cerca de 60 aumentos, com o OIII como melhor filtro e o UHC como bom. |
| Telescópio de 300 a 350 mm | Com o filtro de nebulosa, aparecem concentrações mais brilhantes nas bordas norte e sul, e o centro "escuro" é mais claro que o céu de fundo (Bakich). Em 150 aumentos, a nebulosa preenche cerca de 60% do campo (Coe). |
Expectativa honesta: Monks lembra que a Hélice "quase sempre decepciona" a quem espera ver a imagem das fotografias. As cores vermelha e verde só aparecem em fotos (Kambič), e o segredo é usar o filtro certo em um céu escuro, com o alvo alto no céu. No Brasil, temos as três condições a favor.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
A Hélice é a planetária de maior tamanho aparente, e Kier sugere um quadro moderado, de 30′ a 50′ de campo (a imagem dele tem 41′ × 31′), e recomenda inclinar o eixo maior do objeto em relação ao quadro, em vez de deixá-lo paralelo a ele, para um enquadramento mais interessante. Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (calculado a partir do sensor e da focal): a nebulosa, de cerca de 13′, cabe folgada e ainda deixa espaço para o halo.
Desafios do alvo
- Brilho superficial baixíssimo. O anel é fraco e o halo vermelho ainda mais. É preciso muito tempo de exposição total e um céu escuro; em Bortle 7, como no Rio de Janeiro, um filtro dual-band (H-alfa e OIII) faz muita diferença.
- Dois mundos de cor. O centro azul-esverdeado (OIII) e o halo vermelho (H-alfa) pedem tratamentos distintos. Kier ajusta o histograma para mostrar o halo vermelho externo do lado leste, mantém o centro na cor "teal" correta e afia as regiões internas vermelhas; se houver ruído, suaviza o centro e o halo.
- A estrela central é muito fraca. Não conte com ela; com câmeras comuns, ela só aparece em longas exposições.
Equipamento e filtros
Kier considera a Hélice um alvo para câmera colorida de um disparo ou para luminância clara, fotografando perto do meridiano para reduzir a refração e a extinção, e recomenda fazer os canais azuis também perto do meridiano. Isso é fácil para nós, porque a Hélice está quase no zênite. Uma luminância em H-alfa pode realçar os detalhes da periferia, ao custo do centro azul-esverdeado. Em câmera monocromática, a banda estreita (SHO) dá cores falsas espetaculares, mas exige mais horas.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (dual-band ou RGB) | 60 a 90 | 180 s | Anel e halo; o mais importante é o tempo total |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros. Como referência, a imagem de Kier usou 22 exposições de 10 minutos de luminância clara e 10, 10 e 5 de 10 minutos em RGB, com um refrator de 5,5″ f/7.
Smart telescopes e campo de visão
A Hélice cabe com folga no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), e o quadro ainda inclui as estrelas de campo, mas o brilho baixo pede muitas horas de empilhamento e o filtro dual-band do próprio aparelho. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
A Nebulosa da Hélice é um dos melhores exemplos de como o céu recompensa a preparação: com o alvo alto, um céu escuro e o filtro correto, a "rosquinha cinza" aparece, e uma boa fotografia revela o olho azul e vermelho. É um alvo excelente para quem já domina a observação de objetos difusos e para quem começa em astrofotografia com câmera colorida. O próximo passo é combiná-la com a Nebulosa Saturno (NGC 7009), outra planetária de Aquário, e, se quiser conhecer o entorno, com o guia da constelação de Aquário.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 707 (NGC 7293).
- COE, Steven R. Nebulae and How to Observe Them. London: Springer, 2007. NGC 7293, p. 44-45 (e p. 29).
- KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Aquário, NGC 7293, p. 186-188.
- KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. "October 13: Helix Nebula", p. 240-242.
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 63, p. 134-135.
- MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. NGC 7293 (Helix), p. 163-164.
- MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Aquário e a Hélice, p. 262.
- MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Nebulosas planetárias, p. 350-351.
- MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "planetária, nebulosa" (p. 561).
- RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Nebulosas planetárias para telescópio pequeno, p. 187.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo espectral, paralaxe e dimensões de NGC 7293, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.