setembro 21, 2026

Céu de outono no hemisfério norte: Pégaso, Andrômeda, Cassiopeia e Perseu

Mapa do céu inteiro de outono no hemisfério norte, com Pégaso e Andrômeda no centro, Cassiopeia e Cefeu ao norte, Perseu a nordeste, o Triângulo de Verão a oeste e o polo norte celeste em cima

Para quem mora ao norte do equador, setembro traz noites mais longas e um céu que muda de personalidade. O Triângulo de Verão ainda está alto, mas a estrela do espetáculo passa a ser o Grande Quadrado de Pégaso, quase sobre o meridiano, cercado por constelações mitológicas mais discretas. É um céu de brilhos modestos (poucas estrelas de primeira magnitude), mas de grande riqueza para quem gosta de aglomerados, da Via Láctea atravessando o alto do céu e de uma vizinha galáctica, Andrômeda, que só é visível a olho nu porque o outono a leva ao alto.

Este guia trata do céu de outono no hemisfério norte, de setembro a novembro, com horário de referência às 21h locais e latitude de 40° N (Nova York, Madri, Pequim, Istambul). É o mesmo céu que o hemisfério sul vê na primavera: mesmas noites, mesmas horas, visto do outro lado do mundo. Se você é brasileiro, este texto serve para entender como um observador do norte enxerga o céu, e uma seção mais abaixo mostra o que muda quando você volta para casa. O par deste artigo é o céu de primavera no hemisfério sul.

O mapa do céu de outono

Mapa do céu inteiro de outono no hemisfério norte, com Pégaso e Andrômeda no centro, Cassiopeia e Cefeu ao norte, Perseu a nordeste, o Triângulo de Verão a oeste e o polo norte celeste em cima
Céu inteiro em 15 de outubro, 21h locais, latitude 40° N (Nova York, Madri), visto olhando para cima: norte em cima, leste à esquerda. O zênite fica no centro; Pégaso e Andrômeda dominam o meio do mapa, Cassiopeia e Cefeu ficam entre o zênite e o polo norte, e Vega, Deneb e Altair, do Triângulo de Verão, descem para o oeste (direita).

Um mapa de céu inteiro se lê de dentro para fora. O centro é o zênite, o ponto sobre a sua cabeça; a borda é o horizonte. O norte fica em cima e o leste à esquerda, o que parece invertido em relação a um mapa de terra, mas é o correto: você segura o mapa acima de si e olha para cima. A linha azul é o equador celeste, a linha dourada é a eclíptica (o caminho do Sol, onde ficam as constelações do zodíaco e por onde passam os planetas) e os círculos tracejados marcam 30° e 60° de altura.

Nesta data e horário, as constelações mais altas ficam bem no centro da carta: Lagarto (84°), Cisne (70°), Pégaso (68°), Andrômeda (62°) e Raposa (60°). Ao norte, Cefeu (57°) e Cassiopeia (55°) ainda estão bem altas, e a Ursa Maior está no ponto mais baixo do seu giro, quase encostada no horizonte.

Como se orientar: Polaris, Cassiopeia e o Quadrado

O ponto de partida do céu do norte é a Estrela Polar, Polaris. Ela marca o polo norte celeste e tem uma propriedade útil: sua altura sobre o horizonte é igual à latitude do observador, cerca de 40° em Nova York ou Madri (conhecimento geral). Polaris fica na ponta do cabo da Ursa Menor e não é especialmente brilhante (uma supergigante F a cerca de 430 anos-luz, segundo o SIMBAD); o que a torna importante é a posição, que quase não muda com a noite e a estação.

Em outubro, à noite, o Grande Carro está baixo demais para servir de guia. O jeito mais confiável de achar Polaris é usar Cassiopeia: o W (ou M, conforme a hora) fica alto, do outro lado do polo em relação à Ursa Maior. Moore observa que, quando a Ursa Maior está no ponto mais baixo, o W de Cassiopeia passa quase sobre a cabeça do observador (The Observer's Year, 1 de setembro e 1 de outubro). Do centro do W, uma linha para fora leva a Polaris.

A segunda âncora é o Grande Quadrado de Pégaso, que domina o sul do céu. Ele forma um quadrado de cerca de 15° de lado, com as estrelas Markab, Scheat, Alferatz e Algenib. Alferatz, na verdade, pertence a Andrômeda (era chamada Delta de Pégaso, segundo Kambič). Moore avisa que os mapas costumam fazer o Quadrado mais brilhante do que ele é, então procure-o em noite escura antes de desanimar. Do canto nordeste do Quadrado sai uma corrente de estrelas: Andrômeda, depois Perseu e, por fim, Capela, no Cocheiro. Essa "estrada" leva o observador do Quadrado até o outro lado do céu (Moore, 1 de outubro).

A terceira âncora é o Triângulo de Verão, com Vega (Lira), Deneb (Cisne) e Altair (Águia), que no início do outono ainda está alto e vai sendo empurrado para oeste. Moore diz que, ao longo de outubro, ele só vai sendo perdido aos poucos; em latitudes britânicas, apenas Altair chega a se pôr cedo.

Circumpolares e constelações altas do norte

Em 40° N, uma constelação a menos de 50° do polo (declinação acima de 50° N) nunca se põe (conhecimento geral). Nesta noite, as circumpolares calculadas são Cefeu, Cassiopeia, Ursa Menor, Girafa, Dragão e Ursa Maior. Elas dão ao hemisfério norte uma vantagem que o sul não tem: o mesmo pedaço de céu está visível a noite inteira, o ano inteiro.

Cassiopeia

Cassiopeia é a mais fácil das circumpolares. Suas cinco estrelas mais brilhantes formam um M ou W, e Kambič lista Gama (magnitude 2,1, ligeiramente variável), Shedir (Alfa, 2,2), Caph (Beta, 2,3), Delta (2,7) e Epsilon (3,4). Gama, a estrela do meio, é uma subgigante irregular: em 1937 subiu à magnitude 1,6, e imagens de longa exposição mostram uma nebulosidade tênue ao redor (Kambič, p. 236). Shedir fica a cerca de 231 anos-luz, segundo o SIMBAD.

Como a Via Láctea passa pela constelação, ela é uma delícia para binóculos: aglomerados abertos como NGC 457 e NGC 663 enchem o campo, e M 103, o único da constelação no catálogo de Messier, é difícil, mas fácil de achar, porque está no mesmo campo de Delta (Kambič, p. 239). A leste, a região de Stock 2 e do complexo IC 1805 é alvo clássico de astrofotografia (Kambič, p. 240).

Cefeu e Lagarto

Cefeu é grande e fraco e, nas latitudes médias do norte, circumpolar. Fica dentro do triângulo formado por Deneb, Polaris e Beta de Cassiopeia (Kambič, p. 247). Sua estrela mais brilhante, Alderamin (Alfa, magnitude 2,4), está a cerca de 49 anos-luz, uma vizinha próxima. Por causa da precessão do eixo da Terra, Alderamin será a estrela polar por volta do ano 7500 (Kambič). A pequena constelação do Lagarto, entre Cefeu e o Cisne, é a que passa mais perto do zênite nesta noite (84°), mas suas estrelas são fracas; ali, o que chama atenção é a Via Láctea.

Ursa Maior, Ursa Menor, Dragão e Girafa

A Ursa Maior está no ponto mais baixo do giro, e suas estrelas mais brilhantes (Dubhe, Alioth, Alkaid) ficam rentes ao horizonte norte; numa cidade, prédios e árvores costumam escondê-la. A Ursa Menor acompanha Polaris, com altura média de 34°, e o Dragão contorna o polo com a cabeça a noroeste. A Girafa (Camelopardalis), fraca e vasta, ocupa o nordeste; Kambič a descreve como uma constelação "emburrada", sem estrelas de brilho, mas com a galáxia NGC 2403 para quem tem paciência (p. 211-212).

O eixo do outono: Pégaso, Andrômeda e Perseu

Pégaso

Pégaso é a principal constelação de outono nas latitudes do norte (Kambič, p. 376). Além das quatro estrelas do Quadrado, a mais brilhante é Enif (Epsilon), uma gigante alaranjada longe do Quadrado, perto do Cavalo Menor, a cerca de 670 anos-luz. Scheat (Beta), no canto noroeste, é uma gigante vermelha semirregular que varia entre as magnitudes 2,1 e 3,0, com período médio de 35 dias; está a cerca de 196 anos-luz (SIMBAD). Markab (Alfa) fica a uns 133 anos-luz, e Algenib (Gama), a cerca de 330 (Kambič, p. 377).

O objeto mais bonito é o aglomerado globular M 15, no limite da visibilidade a olho nu e fácil de achar com binóculos: coloque Enif no canto sudeste do campo e M 15 aparece no canto oposto (Kambič, p. 377). É um dos globulares mais densos do céu e guarda uma minúscula nebulosa planetária. Veja o guia de M 15. Entre Markab e Scheat está também 51 Pegasi, de magnitude 5,5, que virou notícia em 1995, quando Michel Mayor e Didier Queloz anunciaram o primeiro planeta ao redor de uma estrela parecida com o Sol (Moore, 20 de setembro).

Andrômeda

Andrômeda sai do canto nordeste do Quadrado. As estrelas mais brilhantes são Alferatz (Alfa, cerca de 97 anos-luz, segundo o SIMBAD), Mirach (Beta, cerca de 197 anos-luz) e Almach (Gama). A vedete é a Galáxia de Andrômeda, M 31, visível a olho nu como uma mancha alongada em céu escuro e um dos objetos mais fotografados do céu. Kambič lembra que ela tem quase 200 mil anos-luz de diâmetro, mais que a Via Láctea, e ao menos 14 companheiras, entre elas M 32, M 110 e M 33, no Triângulo (p. 174-176). Veja o guia de M 31 e o guia de M 33. Para quem tem binóculos, NGC 752 é um aglomerado aberto grande e colorido, e NGC 7662, a "Bola de Neve Azul", é uma nebulosa planetária desafiadora (Kambič, p. 177-178).

M 31 teve durante muito tempo fama de nuvem de gás dentro da Via Láctea; só em 1923 Edwin Hubble identificou Cefeidas nela e mostrou que estava muito além da nossa Galáxia (Kambič, p. 174).

Perseu

Perseu fica entre Andrômeda e o Cocheiro, e a Via Láctea atravessa a constelação, de modo que qualquer varredura com binóculos revela campos ricos (Kambič, p. 382). A 40° N ele está a cerca de 38° de altura, a nordeste, e sobe pela noite adentro. As duas estrelas principais são Mirfak (Alfa, magnitude 1,8, a cerca de 506 anos-luz) e Algol (Beta), o "Demônio", protótipo das variáveis eclipsantes, a cerca de 90 anos-luz: seu brilho cai de tempos em tempos e volta ao normal em poucas horas (Kambič, p. 383). Em torno de Mirfak há um aglomerado aberto grande e frouxo, Melotte 20, ótimo para binóculos de campo largo. Perseu também guarda o Duplo Aglomerado (NGC 869 e NGC 884), visível a olho nu entre Perseu e Cassiopeia (Kambič, p. 239), e a Nebulosa Califórnia, NGC 1499, alvo de astrofotografia. Moore dedica ainda a noite de 15 de novembro aos objetos de Perseu.

Zodíaco e constelações do sul do céu

A faixa do zodíaco cruza a parte de baixo do mapa: Aquário e Capricórnio ficam ao sul e sudoeste, Peixes e Áries a sudeste e leste, e Touro está começando a nascer. A 40° N, Aquário alcança 39° de altura ao sul, Capricórnio 29° e Peixes 52° ao sudeste. Áries fica a leste (32°), com o Triângulo (43°) logo acima. Touro mal aparece (6°) às 21h, mas sobe ao longo da noite: segundo Moore, as Plêiades e Aldebaran já entram pelo leste em setembro. Veja os guias de Aquário, Capricórnio, Peixes, Áries e Touro, e os guias de M 2, M 30 e M 45.

Em Aquário, o outono guarda duas planetárias famosas: a Nebulosa Saturno, NGC 7009, e a Nebulosa da Hélice, NGC 7293. Ao sul do Quadrado, Fomalhaut, no Peixe Austral, é a estrela de primeira magnitude mais ao sul do céu de Moore para o norte; a 40° N seu centro chega a apenas 19° de altura, e nas latitudes britânicas ela é baixa (Moore, 1 de setembro e 2 de outubro).

As constelações equatoriais e o verão que resiste

As constelações equatoriais (perto do equador celeste) são as que os dois hemisférios veem. No outono do norte, formam o corredor do sul e do sudoeste: Águia (39°), Golfinho (54°), Cavalo Menor (54°), Flecha (50°), além de Aquário, Peixes e Baleia (24°, a sudeste). Todas são compartilhadas com o Brasil, mas de uma perspectiva diferente.

Ainda estão no céu, a oeste, as estrelas do Triângulo de Verão. Vega, na Lira, está a cerca de 25 anos-luz, Altair, na Águia, a cerca de 17, e Deneb, no Cisne, é uma supergigante branca muito mais distante (na casa dos 1.400 anos-luz, com incerteza grande). Na Lira e na Raposa ficam duas planetárias clássicas, a M 57, o Anel, e a M 27, Dumbbell. Moore lembra que a Via Láctea de outubro corre pelo céu de Águia a Gêmeos, passando por Cisne, Cassiopeia, Perseu e Cocheiro (1 de outubro).

O que o hemisfério sul vê diferente na mesma época

A mesma noite de outubro, vista de 23° S, é a noite de primavera do Rio de Janeiro. A tabela compara as alturas calculadas para 15 de outubro, 21h.

Constelação 40° N (outono) 23° S (primavera)
Pégaso 68° ao sul 48° ao norte
Andrômeda 62° a leste 21° a nordeste
Cisne 70° a oeste 18° ao norte
Aquário 39° ao sul 78° ao norte
Peixe Austral 19° ao sul 82° ao sul
Cassiopeia 55° a nordeste, circumpolar abaixo do horizonte
Ursa Maior rente ao horizonte, circumpolar abaixo do horizonte

O que é alto para um é baixo para o outro. Cassiopeia, quase no zênite do norte, some do céu do Rio, e Aquário e o Peixe Austral (Fomalhaut) sobem quase ao zênite no sul, junto com Fênix, Tucano, Grou e as Nuvens de Magalhães, que os observadores do norte lamentam não ver, segundo Moore (1 de outubro). Do lado de cá, o Quadrado de Pégaso fica ao norte e o cavalo aparece de cabeça para baixo em relação aos mapas do hemisfério norte.

Dicas de observação para uma noite de outono

  • Melhor horário. Entre 21h e meia-noite, Pégaso e Andrômeda estão perto do meridiano; depois da meia-noite, Perseu, Touro e o Cocheiro sobem, e Órion volta ao fim da noite (Moore, 1 de outubro).
  • Em cidade. Bastam os olhos para o Quadrado, Cassiopeia, o Triângulo de Verão e Polaris; use binóculos 10×50 para M 31, M 15 e o Duplo Aglomerado. Uma noite sem Lua e longe das luzes faz enorme diferença para M 31 e para a Via Láctea.
  • Com telescópio pequeno. Dê prioridade a M 15, ao Duplo Aglomerado e às planetárias M 57 e M 27; acompanhe Algol variando de brilho durante a noite.
  • Câmera. Um tripé e uma grande angular capturam Cassiopeia e a Via Láctea; com teleobjetiva de 200 mm, M 31 e M 33.
  • Planetas. As posições mudam de ano para ano; consulte um almanaque ou aplicativo do mês em vez de contar com um planeta específico.

Considerações finais

O céu de outono do norte é um céu de conexões: um quadrado ao sul, uma corrente de estrelas que corre para o nordeste, um W no alto e uma estrela imóvel ao norte. Aprender essas quatro âncoras abre o resto. É também um céu sereno, que prepara a chegada do inverno com Touro, Órion e o Cocheiro no leste. Se você mora no Brasil, leia agora o céu de primavera no hemisfério sul, o mesmo céu visto do outro lado do equador.

Referências

  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Andrômeda, p. 174-179; Camelopardalis, p. 211-212; Cassiopeia, p. 236-241; Cefeu, p. 247; Pégaso, p. 376-378; Perseu, p. 382-390.
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Noites de 1 de setembro (p. 242), 20 de setembro (p. 256), 1 e 2 de outubro (p. 270-271) e 15 de novembro (p. 310).
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a tipos espectrais e paralaxes das estrelas citadas, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usada no mapa; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial. Mapa gerado por Astronomia no Telhado.