setembro 21, 2026
M 33, a Galáxia do Triângulo: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
M 33 é uma galáxia que promete mais do que entrega, sobretudo para quem observa de uma cidade. É a terceira maior do Grupo Local, atrás de Andrômeda e da nossa Via Láctea, e em noites muito escuras é visível a olho nu, uma das poucas galáxias a merecer essa distinção. Mas seu brilho está espalhado por uma área maior que a Lua cheia, e por isso ela desaparece com facilidade em um céu urbano. Do Rio de Janeiro, o problema é dobrado: M 33 passa baixa, ao norte. Este guia é honesto sobre essas limitações e mostra quando e como vale a pena tentar.
Texto em revisão. Este é um guia no novo formato. Onde os livros divergem do SIMBAD (distância, brilho, tamanho), o texto usa o SIMBAD, ou marca quando o SIMBAD não traz o dado (como a distância de galáxias). As divergências estão nas pendências.

Ficha técnica e designações
Visão geral: a terceira grande galáxia do Grupo Local
M 33 é uma galáxia espiral vista quase de frente, de tipo Sc segundo Kambič: um pequeno núcleo, braços soltos e cheios de regiões de formação de estrelas (Kambič, p. 469). Ela é a terceira maior do Grupo Local, atrás de Andrômeda e da Via Láctea (Ridpath, p. 167; Kambič). O diâmetro real é de uns 50.000 anos-luz, em torno de um terço do de Andrômeda, e a massa é de cerca de um sexto da Via Láctea (Kambič; Kier, p. 277).
Distância. O SIMBAD não fornece paralaxe para galáxias. Suas medidas recentes de distância, por Cefeidas, ficam em torno de 0,84 megaparsec, cerca de 2,7 milhões de anos-luz, o mesmo valor que Ridpath traz. Kier dá 2,3 milhões e Kambič, 3 milhões. O texto usa "cerca de 2,7 milhões de anos-luz", e o intervalo total do SIMBAD é de 2,4 a 3,0 milhões.
Tamanho e brilho. O SIMBAD lista um tamanho aparente de 60′ × 35′ e magnitude V de 5,7. Kambič e Bakich dão 68′ × 41′; Kier, 62′ × 39′ e magnitude 6,3; Cooke usa 6,5. O ponto é sempre o mesmo: a magnitude é a soma de toda a luz da galáxia, espalhada por uma área grande, e por isso engana. Cooke avisa que, mesmo em subúrbio, alguns observadores nunca chegam a ver os braços (Cooke, p. 138-139). Kambič nota que a galáxia é fácil de achar em binóculo, mas que sob condições medianas só o núcleo aparece, ou nada.
História. Bakich diz que o astrônomo siciliano Giovanni Battista Hodierna provavelmente a viu antes de 1654; Messier a descobriu de forma independente em 25 de agosto de 1764. Kambič cita a descrição de Messier em seu diário: uma mancha pálida e quase uniforme, um pouco mais brilhante no centro, sem estrelas (p. 469). É uma boa descrição do que se vê num binóculo moderno.
Uma galáxia de verdade. Kambič lembra que só no início do século XX se conseguiu resolver estrelas individuais em M 33, o que mostrou que ela não é uma nebulosa dentro da nossa Galáxia, mas um sistema distante (p. 469). Hoje sabemos que ela faz parte do Grupo Local.
Estruturas notáveis
- Os braços em "S". Bakich descreve, com 250 mm ou mais e 50 aumentos, uma forma de "S" saindo do centro; Cooke recomenda "sentir" a forma em S com visão desviada (p. 139).
- NGC 604. Uma grande região de gás e estrelas jovens, na ponta de um braço. Cooke sugere começar por ela: com 300 mm ou mais e alto aumento, ela mostra dois lóbulos em contato (Bakich). Um filtro de nebulosa melhora NGC 604, mas piora a visão da galáxia (Bakich). Kier ressalta que a fotografia de M 33 mostra NGC 604 como uma nebulosa de emissão.
- Os "nós". As manchas mais brilhantes nos braços são vastas regiões de formação de estrelas (Bakich), típicas de uma galáxia espiral de frente.
- R Trianguli. Uma variável do tipo Mira, de magnitude 5,4 a 12,6, num ciclo de 267 dias, que está no mesmo campo de binóculo (Kambič, p. 469-472).
Como localizar
M 33 fica em Triângulo, uma pequena constelação entre Andrômeda e Áries. Kambič indica: comece em Alfa Trianguli e vá 4° a oeste-noroeste; a galáxia e a estrela cabem no mesmo campo de binóculo (p. 469). Machholz descreve o caminho a partir da estrela 60 Tri: 2,5° a oés-noroeste, depois mais 1,8° (Machholz, p. 105). O guia de Andrômeda (M 31) traz a região para orientação: M 33 está a uns 15° de M 31, em direção ao sudeste.
Do Rio, olhe para o norte. Leste fica à direita e oeste à esquerda, e a direção do polo norte celeste aponta para baixo, no horizonte.

Quando e como observar
M 33 tem declinação de +30,7°. Do Rio, ela culmina a uns 36° de altura, no norte, o que é baixo: a luz atravessa mais atmosfera, e o fundo do céu, sobretudo na direção norte da cidade, é mais brilhante perto do horizonte. Ela é visível do Brasil (Ridpath: Triângulo aparece de 90° N até 52° S), mas em condições piores que para os observadores do norte.
A melhor época vai de outubro a janeiro. Ela cruza o meridiano por volta da meia-noite em fins de outubro e por volta das 21 h no início de dezembro. Escolha uma noite de céu muito transparente, sem Lua, e observe perto da culminação (veja os gráficos abaixo).
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
- Melhor horário
- 00:00 · 36° N
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 54 / 100
- Posição no céu
- 35
- Brilho
- 100 mag 5,8
- Enquadramento
- 65 ocupa 138 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 6° | NE 53° | 161° |
| 20:00 | 11° | NE 50° | 161° |
| 20:30 | 16° | NE 46° | 161° |
| 21:00 | 21° | NE 41° | 160° |
| 21:30 | 25° | NE 36° | 160° |
| 22:00 | 29° | NNE 30° | 160° |
| 22:30 | 32° | NNE 23° | 160° |
| 23:00 | 34° | NNE 16° | 160° |
| 23:30 | 36° | N 8° | 160° |
| 00:00 | 36° | N 0° | 159° |
| 00:30 | 36° | N 352° | 159° |
| 01:00 | 35° | NNW 345° | 159° |
| 01:30 | 32° | NNW 337° | 159° |
| 02:00 | 29° | NNW 331° | 159° |
| 02:30 | 26° | NW 325° | 159° |
| 03:00 | 21° | NW 320° | 158° |
| 03:30 | 17° | NW 315° | 158° |
| 04:00 | 12° | NW 311° | 158° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Só em céu muito escuro e transparente, e mesmo assim é um teste (Bakich; Kambič). Sob Bortle 7 e a 36° de altura, não conte com isso. |
| Binóculo (10×50) | Em boas condições, uma grande mancha oval, mais brilhante no centro. Em condições medianas, só o núcleo, ou nada (Kambič, p. 469). Use a estrela Alfa Trianguli como guia. |
| Telescópio de 100 a 200 mm | Cooke: use o menor aumento possível, o objeto enche o campo; um filtro de banda estreita deu melhor resultado que um intensificador; comece por NGC 604. Abertura conta cada vez mais (p. 139). |
| Telescópio de 250 mm ou mais | Bakich: a 50 aumentos, a forma em "S" saindo do centro. Com 300 mm, NGC 604 com dois lóbulos. |
| Filtros | Um filtro de nebulosa realça NGC 604, mas piora a galáxia (Bakich). |
Uma lembrança importante. Cooke nota que M 33 pode ser "das mais decepcionantes" (p. 138). Sob Bortle 7 e com a galáxia a menos de 40° de altura, uma tentativa visual só faz sentido com binóculo e noite excepcional. A fotografia é o caminho realista.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
M 33 mede cerca de 60′ × 35′ (SIMBAD; livros até 68′ × 41′). Com um telescópio de 1.000 mm e uma ASI294MC Pro (campo calculado de 1,1° × 0,75°), a galáxia cabe no quadro, mas justa. Parker, com um sistema Hyperstar, diz que M 33 é "um pouco grande demais" para um só quadro e usa um mosaico de dois (Parker, p. 113). Com 400 a 600 mm, o campo passa de 1,8° e enquadra a galáxia com folga.
Desafios do alvo
- Baixo brilho superficial. Parker alerta que M 33 dá a falsa impressão de ser brilhante e fácil, por ser visível a olho nu em céus muito bons: ela é, na verdade, um desafio de imagem (Parker, p. 53 e 113).
- Altura baixa. A 36° de altura, a refração e a extinção atrapalham; fotografe perto da culminação.
- Fundo poluído. Sob Bortle 7, o fundo do céu é muito claro; é preciso muitas horas de exposição total para separar os braços do fundo.
- Regiões de emissão. Os nós de gás em vermelho (H-alfa) dão vida à imagem, mas se perdem sem um filtro adequado.
Equipamento e filtros
Câmera colorida com um filtro dual-band (H-alfa e OIII) ajuda a realçar as regiões de formação estelar e a suprimir o brilho do céu, mas atenua a luz das estrelas da galáxia; muitos combinam uma sessão dual-band com outra em banda larga. Uma câmera monocromática permite a luminância separada, e Kier recomenda a técnica de camada de luminância para galáxias.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light | 120 a 240 | 60 a 120 s | Braços fracos e nós de gás; total de várias horas |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite.
Smart telescopes e campo de visão
M 33 é um alvo muito bom para smart telescopes: o campo do Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°) cobre a galáxia inteira, embora justo na altura. Empilhamentos de algumas horas, com o filtro dual-band do aparelho, já mostram os braços e o gás. Escolha noites sem Lua e evite as horas mais baixas. Abra o mapa abaixo e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
M 33 é a galáxia que mais castiga a expectativa: visível a olho nu, mas quase impossível sob um céu de cidade, e ainda por cima baixa no norte do Brasil. Vale como teste de céu escuro em uma viagem, e como alvo de fotografia com muitas horas de exposição. Para uma primeira galáxia do Grupo Local, o melhor ponto de partida continua sendo Andrômeda. Para uma galáxia espiral mais fácil em nosso céu, veja M 83, a Cata-vento do Sul.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 799 (M 33).
- COOKE, Antony. Visual Astronomy in the Suburbs: A Guide to Spectacular Viewing. London: Springer. M 33, p. 138-139.
- KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Triângulo e M 33, p. 469-472.
- KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. Galáxia do Triângulo, p. 277-278.
- MACHHOLZ, Don. The Observing Guide to the Messier Marathon: A Handbook and Atlas. Springer (Astronomers' Observing Guides). Tabela de objetos, p. 105.
- PARKER, Greg. Making Beautiful Deep-Sky Images: Astrophotography with Affordable Equipment and Software. London: Springer, 2007. M 33, p. 53-54 e 113.
- RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Triângulo e M 33, p. 167.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tamanho, magnitude e tabela de distâncias de M 33, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.