setembro 20, 2026
NGC 253 (Caldwell 65), a Galáxia do Escultor: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos
A Galáxia do Escultor tem a fama, entre quem observa do sul, de ser a melhor galáxia do céu que Messier nunca viu. Ela está tão ao sul que os observadores de Paris não a alcançavam, mas é enorme, brilhante e cheia de detalhes. Do Rio de Janeiro, com a declinação de −25°, ela cruza o meridiano a quase 89° de altura, isto é, praticamente no zênite. Nada de atmosfera pesada entre você e uma galáxia vista de perfil, com uma silhueta de charuto e nuvens de poeira. Neste guia você encontra o mapa para achá-la, o que esperar em cada instrumento e uma estratégia de captura.
Texto em revisão. Este é um guia de teste do novo formato de objeto, do lote do catálogo Caldwell. As fontes estão listadas no final e as dúvidas, na lista de pendências.

Ficha técnica e designações
Visão geral: uma espiral vista quase de perfil
NGC 253 é uma galáxia espiral que enxergamos com uma inclinação alta, quase de lado. Por isso, o que se vê é uma elipse comprida, um "charuto" de luz, e não um cata-vento. Mollise lembra que essa inclinação torna difícil a classificação exata: Sc é um rótulo provisório. Monks a coloca entre as intermediárias, com sinais de uma barra, mas sem a barra clara das espirais barradas.
O Grupo do Escultor, ao qual ela pertence, é um dos grupos de galáxias mais próximos do Grupo Local, o nosso (Monks; Kambič). NGC 253 é o membro mais brilhante do grupo e, segundo Kier, a galáxia mais brilhante fora do Grupo Local. Para os astrônomos profissionais, é um lugar de formação intensa de estrelas (Monks). Mollise afirma que ela é uma galáxia "saudável e sem perturbações", com poeira, mas não uma galáxia perturbada como M82, apesar do aspecto mosqueado que poderia sugerir isso à primeira vista.
NGC 253 em números. O brilho total varia conforme a fonte: magnitude 7,1 (Kier), 7,6 (Bakich; Mobberley) ou 7,7 (Mollise). O tamanho aparente é de cerca de 29′ por 6′ (SIMBAD), mais da metade do diâmetro da Lua cheia no eixo maior. O brilho superficial, de magnitude 21 por segundo de arco ao quadrado (Mobberley), é alto para uma galáxia desse tamanho, e é isso, segundo o mesmo autor, que a separa de vizinhas como NGC 247 e NGC 55: ela é mais brilhante por área.
Distância. Os livros divergem (o SIMBAD não traz paralaxe): 8,1 milhões (Mollise), 10 milhões (Mobberley, Kier, Kambič) e 11,4 milhões de anos-luz (Monks). O guia usa "cerca de 10 milhões de anos-luz". Com isso, o comprimento real fica entre 70.000 e mais de 90.000 anos-luz (Kambič; Monks), e Mollise estima uma massa de cerca de 150 bilhões de sóis.
Descoberta. Foi Caroline Herschel, irmã de William, que a descobriu em 1783, durante uma de suas buscas por cometas (Mollise; Kier). Bakich informa a data de 23 de setembro de 1783. Em 1940, Fritz Zwicky descobriu nela uma supernova (SN 1940E, Mobberley).
Estruturas notáveis
- O charuto principal. Uma elipse longa e mosqueada, brilhante e de aspecto "esfumaçado" (Mollise).
- Faixas de poeira e manchas claras. Em telescópios de 4 a 8 polegadas, as faixas escuras são fáceis de ver (Mollise), e com 200 mm ou mais a galáxia parece mosqueada e mostra faixas radiais (Bakich).
- Os braços espirais. Com 300 mm ou mais, braços a nordeste e a sudoeste (Bakich). Mobberley também cita os dois braços principais e a barra central, na fotografia.
- NGC 288 por perto. Um aglomerado globular a cerca de 1°45′ a sudeste (Mollise), a menos de 2° para Monks, bom para uma segunda parada.
Como localizar
O guia é Diphda (Beta Ceti), de magnitude 2. Desça cerca de 7°15′ para o sul, ao longo da linha que vai a Alfa Sculptoris (magnitude 4,3), e vire cerca de 1°20′ para oeste; a galáxia fica ali (Mollise; Mobberley dá 7¼° a sul e ¾° a leste). Um triângulo de estrelas de sexta e sétima magnitudes logo a leste da galáxia também ajuda (Mollise). Tonkin sugere duas "campos" ao sul de Diphda, onde há um triângulo de estrelas de quinta magnitude; a galáxia fica pouco mais de um campo ao sul da estrela mais austral do triângulo (Tonkin, p. 226). Kambič indica a linha de estrelas de quinta e sexta magnitudes abaixo de Beta Ceti.

Quando e como observar
Do Rio, NGC 253 passa quase no zênite, com cerca de 89° de altura, e fica acima de 60° por várias horas. A melhor época vai de setembro a novembro (Mobberley), com o auge no início de outubro (Bakich), quando cruza o meridiano por volta de meia-noite. No fim de novembro, ela culmina no início da noite (Mollise, para a latitude dele). Como está quase sobre a cabeça, a orientação vale só para os primeiros e últimos instantes: olhando para o sul, o norte fica para cima e o leste, à esquerda.
Um conselho de Mollise vale para o Rio, onde o brilho de fundo é alto: use o menor aumento possível. Ele passou pela galáxia várias vezes sem percebê-la até baixar a ampliação ao mínimo e ganhar espaço escuro ao redor.
O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano; o segundo, o percurso dele nesta noite, seguido da altura hora a hora.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-13 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
- Melhor horário
- 23:10 · 88° S
- Horas acima de 45°
- 6,5 h
- Lua
- Lua crescente · 12 %
- Nota da noite
- 83 / 100
- Posição no céu
- 98
- Brilho
- 21 mag 11,1
- Enquadramento
- 100 ocupa 60 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 40° | ESE 104° | 115° |
| 20:00 | 46° | ESE 103° | 115° |
| 20:30 | 53° | ESE 102° | 115° |
| 21:00 | 60° | E 101° | 114° |
| 21:30 | 67° | E 101° | 114° |
| 22:00 | 74° | ESE 101° | 114° |
| 22:30 | 80° | ESE 106° | 114° |
| 23:00 | 87° | SE 132° | 113° |
| 23:30 | 85° | WSW 242° | 113° |
| 00:00 | 79° | WSW 256° | 113° |
| 00:30 | 72° | W 259° | 113° |
| 01:00 | 65° | W 259° | 113° |
| 01:30 | 58° | W 259° | 112° |
| 02:00 | 51° | WSW 258° | 112° |
| 02:30 | 45° | WSW 257° | 112° |
| 03:00 | 38° | WSW 255° | 112° |
| 03:30 | 31° | WSW 254° | 112° |
| 04:00 | 25° | WSW 252° | 111° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Segundo Bakich, é visível a olho nu por observadores de vista aguçada em local escuro e ao sul. Em Bortle 7, não conte com isso. |
| Binóculo (7×50 a 15×70) | Uma faixa de luz alongada, tênue mas nítida (Kambič), com o centro mais claro (Tonkin). Fácil de achar mesmo em binóculo pequeno (Tonkin). |
| Telescópio de 100 a 150 mm | "Uma vista bonita" com 10 cm ou mais (Mobberley). Em um refletor de 4,25 polegadas, Mollise viu o aspecto mosqueado, faixas escuras e manchas claras. |
| Telescópio de 300 mm ou mais | Braços a nordeste e a sudoeste, detalhes nas faixas e na barra central (Bakich; Mobberley). |
Expectativa honesta: a galáxia é enorme e brilhante, então costuma surpreender, mas o que se vê são manchas e faixas, não os braços coloridos das fotografias. Um filtro de nebulosa "pode ajudar" (Mobberley), sem garantia. O maior aliado é o alto brilho superficial da galáxia e a altura que ela alcança no Rio.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
O eixo maior de 29′ pede um campo de pelo menos 40′ (Kier usou 39′ × 28′). Mobberley avisa que, com 2 m de distância focal, a galáxia ocupa 15 mm no sensor, e que talvez seja preciso fazer um mosaico de duas imagens. Com 1.000 mm e uma câmera como a ASI294MC Pro (campo de cerca de 1,1° × 0,75°, cálculo geométrico), cabe com folga.
Desafios do alvo
- Gradientes. Kier alerta para gradientes em objetos baixos; no Rio, NGC 253 está alta, mas a poluição luminosa de Bortle 7 cria os seus próprios gradientes. Remova-os antes do resto, e depois aplique nitidez agressiva nas partes brilhantes e redução de ruído no fundo (Kier).
- Estrelas de campo brilhantes. Se distraírem, reduza-as de leve (Kier).
- Brilho por área. O halo externo é tênue, e as poeiras no disco, sutis; peça muitas horas de exposição total.
Equipamento e filtros
Kier a considera "espetacular" a partir do sul e a indica para câmeras coloridas de uma exposição ou LRGB, aconselhando fazer os canais azuis perto do meridiano e o vermelho em alturas menores; para NGC 253 no Rio isso é fácil, porque a galáxia fica alta a noite inteira. Mobberley a considera "fantástica em preto e branco ou em cores". Um filtro de poluição luminosa suave ajuda em Bortle 7.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (LRGB ou colorida) | 60 a 100 | 180 s | Disco, faixas e halo |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros. Como referência, Kier usou B e G com 8 × 10 minutos, R com 13 × 10 minutos, com um refrator de 5,5″ f/7 e uma ST2000XM.
Smart telescopes e campo de visão
NGC 253 cabe no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), com espaço para as estrelas ao redor. Como o objeto é grande e brilhante, os primeiros minutos de empilhamento já mostram o charuto e as manchas escuras. Escolha o modelo no mapa para ver o retângulo do campo.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
NGC 253 reúne o que há de melhor em uma galáxia para o observador do sul: tamanho, brilho, posição alta no céu e muito o que ver, do binóculo à câmera. Mobberley chega a dizer que seria tentador chamá-la a sua favorita de todo o catálogo Caldwell. É um bom ponto de partida para as vizinhas do Grupo do Escultor: a NGC 300 e a NGC 55, a alguns graus dali. Para uma sessão contrastante, vá depois à Centaurus A.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 771 (NGC 253).
- KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Escultor, NGC 253, p. 438-440.
- KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. "November 17: Sculptor Galaxy", p. 268-270.
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 65, p. 138-139.
- MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. London: Springer, 2006. NGC 253, p. 195-197.
- MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. NGC 253 (Sculptor Galaxy), p. 183.
- RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Galáxias do céu austral, p. 206.
- TONKIN, Stephen. Binocular Astronomy. London: Springer, 2007. "Sculptor: Galaxy and Globular Cluster: NGC 253 and NGC 288", p. 226.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas e dimensões, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.