setembro 21, 2026

Áries, o Carneiro: guia da constelação que já abriu o ano e deu nome ao equinócio

Carta estelar de Áries como aparece do Brasil olhando para o norte: Hamal, Sheratan e Mesarthim em uma linha curta à esquerda, Bharani e Botein mais à direita, a eclíptica cruzando a carta e a galáxia NGC 772 marcada em verde perto de Mesarthim

Se você pedir para alguém apontar o Carneiro no céu, é provável que a pessoa não saiba. Áries é pequena, discreta e tem uma única estrela realmente brilhante. E, ainda assim, poucas constelações pesam tanto na história da astronomia: os babilônios abriram o calendário com ela, os astrônomos ainda medem a ascensão reta a partir de um ponto chamado "primeiro ponto de Áries", e o equinócio que marca o começo da primavera no hemisfério norte e do outono no nosso já não está nela há muito tempo. Neste guia você vai aprender a achá-la no céu do Brasil, conhecer suas estrelas (incluindo uma dupla que o inglês Robert Hooke descobriu por acaso), entender por que o "signo" de Áries não coincide com a constelação e ver o que vale a pena apontar para lá, do olho nu ao telescópio.

Texto em revisão. Este é um artigo de teste, escrito a partir de fontes de referência; as fontes estão listadas no final.

Uma constelação discreta com uma história enorme

Áries (Aries, abreviação Ari) ocupa 441 graus quadrados do céu, entre Peixes, a oeste, e Touro, a leste (Mourão, verbete Aries; Moore e Rees, tabela de constelações). É a primeira constelação da lista do zodíaco, e o motivo é histórico. Segundo Mourão, os babilônios adotaram o Carneiro para marcar o início do ano porque, por volta de 2500 a.C., o equinócio de primavera (do hemisfério norte) caía no meio das três estrelas que formam sua cabeça. Philip's Astronomy Encyclopedia diz que, por volta de 150 a.C., o equinócio ainda estava dentro da constelação, e é por isso que ele até hoje é chamado, por tradição, de primeiro ponto de Áries.

Quem observa o Carneiro sem essa história por trás não vê nada de excepcional: uma linha curva com três estrelas e um punhado de pontos fracos em volta. A graça está em saber o que ele guardou.

Como achar Áries do Brasil

Quando. As constelações culminam (ficam no ponto mais alto) por volta das 21 h locais em um mês que depende da posição delas no céu. Áries está centrada perto de 2 h 40 min de ascensão reta, então culmina às 21 h em meados de dezembro, e é uma constelação do céu de fim de primavera e verão: dá para vê-la bem de novembro a janeiro, e ainda no começo da noite até fevereiro. Como o Sol atravessa a região entre o fim de abril e meados de maio, ela some no brilho do crepúsculo na outra metade do ano.

Para onde olhar. Áries fica ao norte do equador celeste e, do Brasil, culmina voltada para o norte. No Rio de Janeiro (latitude 23° S), Hamal passa a cerca de 44° de altura e Mesarthim a cerca de 48°: bem alto, mas com o corpo virado para o norte.

Cidade Altura máxima de Hamal a Mesarthim Comentário
Manaus (AM) 63° a 68° perto do zênite
Recife (PE) 59° a 63° alto no céu
Brasília (DF) 51° a 55° confortável
Rio de Janeiro (RJ) 44° a 48° alto
Porto Alegre (RS) 37° a 41° médio
Chuí (RS) 33° a 37° mais baixo, mas fácil

Alturas calculadas por nós a partir das declinações das estrelas (SIMBAD) e da latitude de cada cidade, pela fórmula altura máxima = 90° menos a diferença entre latitude e declinação; valores arredondados.

Passo a passo.

  1. Comece pelas Plêiades (M 45 — as Plêiades), o aglomerado mais fácil da região. A partir dele, ande para o lado da constelação de Peixes (oeste): cerca de 23 graus depois, na mesma altura, você chega a Hamal.
  2. Outra opção: Hamal fica a uns 27 graus a leste de Alfa de Andrômeda, o canto do Grande Quadrado de Pégaso. Moore situa Áries um pouco ao sul da linha de estrelas de Andrômeda; para nós, olhando para o norte, isso significa acima dessa linha, mais perto do zênite.
  3. Hamal é a única estrela de 2ª magnitude a muitos graus de distância, com cor alaranjada evidente. À esquerda dela (oeste, para quem olha para o norte) estão Sheratan e Mesarthim, que formam com Hamal o pequeno triângulo achatado que Mourão descreve como o desenho da constelação.
Carta estelar de Áries como aparece do Brasil olhando para o norte: Hamal, Sheratan e Mesarthim em uma linha curta à esquerda, Bharani e Botein mais à direita, a eclíptica cruzando a carta e a galáxia NGC 772 marcada em verde perto de Mesarthim
Carta estelar de Áries como aparece do Brasil ao olhar para o norte: o norte fica embaixo e o leste à direita. As linhas de constelação são as oficiais do d3-celestial. A linha tracejada dourada é a eclíptica, o caminho aparente do Sol ao longo do ano, e o contorno tracejado é o limite oficial da constelação. Em verde-claro, o objeto de céu profundo citado neste artigo. Estrelas: catálogo HYG v4.1 (CC BY-SA 4.0); limites de constelação: IAU. Gerada por Astronomia no Telhado com o Carina.

As estrelas do Carneiro

Estrela Posição Brilho visual (mag.) Tipo espectral Distância aproximada
Hamal (alfa) a mais brilhante 2,01 K2 III (gigante laranja) cerca de 66 anos-luz
Sheratan (beta) ao lado de Hamal 2,65 A5 V (branca) e companheira cerca de 59 anos-luz
Bharani (41 Ari) leste de Hamal 3,59 B8 V (branco-azulada) cerca de 166 anos-luz
Mesarthim (gama) extremo oeste 4,5 a 4,6 (cada uma) A0 V e A2 IV cerca de 170 anos-luz
Botein (delta) leste 4,37 G9,5 III (gigante alaranjada) cerca de 165 anos-luz
Lambda a oeste de Hamal, na mesma altura 4,77 F0 V cerca de 132 anos-luz

Brilhos, tipos espectrais e paralaxes consultados no SIMBAD (CDS, Estrasburgo). As distâncias vêm de paralaxes do satélite Hipparcos; livros mais antigos trazem valores diferentes (por exemplo, de 66 a 85 anos-luz para Hamal).

Hamal (Alfa do Carneiro) é uma gigante alaranjada, com o dobro da massa do Sol e uns 15 diâmetros solares (Moore e Rees). Mourão a dá como uma K2 a 78 anos-luz, com brilho de 60 sóis; o Hipparcos sugere uma distância um pouco menor. O nome vem do árabe e designava originalmente a constelação inteira, o "carneiro" (Mourão, verbete Hamal). A cor alaranjada de Hamal é um dos poucos toques de cor da região.

Sheratan (Beta) significa "os chifres" em árabe (Mourão, verbete Sheratan). É uma binária espectroscópica: a companheira, provavelmente de tipo G, completa uma órbita a cada 107 dias, e essa órbita é muito alongada (excentricidade 0,88, segundo Moore e Rees). Como as duas estrelas estão coladas, nenhum telescópio as separa; a duplicidade só aparece no espectro.

Bharani (41 Ari) não tem letra grega, e a razão é uma curiosidade de mapa: ela pertenceu a uma constelação rejeitada, a Mosca Boreal (Musca Borealis), e ficou de fora do sistema de Bayer (Moore e Rees).

Mesarthim (Gama) é o melhor alvo para o telescópio da constelação, e merece a seção seguinte.

Botein (Delta) é uma gigante alaranjada mais fraca, no leste da constelação. Uma nota curiosa de Moore e Rees: a estrela 53 Arietis (UW Ari) é uma das três estrelas fugitivas que teriam sido ejetadas da Nebulosa de Órion há cerca de dois milhões de anos; as outras duas são AE do Cocheiro e Mu da Pomba. No céu, ela é de magnitude 6,1 (SIMBAD), então precisa de um bom céu escuro ou de binóculo.

Mesarthim, a dupla que Hooke achou sem querer

Gama do Carneiro parece uma estrela só a olho nu, de magnitude 3,9 somando as duas (Ridpath), mas é uma das mais fáceis duplas do céu. Com um telescópio pequeno, você vê duas estrelas brancas ou branco-azuladas, quase idênticas, separadas por cerca de 7,6 a 7,8 segundos de arco (Moore; Philip's Astronomy Encyclopedia). As magnitudes variam nas fontes: as duas em torno de 4,6 no Philip's, 4,75 e 4,83 em Moore e Rees, e o SIMBAD lista 4,59 e 4,52. Bakich a chama de "faróis de carro", pelo par de brilhos iguais (Bakich, objeto nº 810).

Quem achou a dupla foi Robert Hooke, em 1664, procurando um cometa. Moore conta que ele descobriu a duplicidade por acidente, e que quase não houve mudança relativa nas posições desde então. Moore e Rees estimam o período orbital em mais de 5.000 anos, e por isso quase nada muda: as estrelas parecem fixas uma em relação à outra. Uma terceira estrela, de magnitude 9, aparece a 221 segundos de arco, mas tem movimento diferente e provavelmente não pertence ao sistema, apesar de os catálogos ainda a chamarem de "Gama Arietis C" (Moore).

O nome tem origem discutida. Bakich, citando Allen, lista duas hipóteses: uma ligação com uma palavra hebraica para "ministros" ou um erro de Bayer, que não sabia que o termo se referia à estação lunar de Gama e Sheratan. Mourão registra que outro nome de Mesarthim é "First Star in Aries", a "primeira estrela de Áries". Vale tratar essa origem como incerta.

Lambda do Carneiro é uma dupla mais aberta: uma estrela de magnitude 4,9 e uma companheira de 7,7, separadas por cerca de 37 segundos de arco. É fácil em qualquer telescópio pequeno, e é uma boa dupla para um "teste de cor": Bakich lembra que observadores relatam cores diferentes para o par (amarelo e azul, branco e azul, laranja e verde), o que mostra que cada olho responde de um jeito às cores (Bakich, objeto nº 814).

Um objeto de céu profundo: NGC 772

O céu profundo de Áries é pobre, e Philip's Astronomy Encyclopedia diz sem rodeios que o objeto mais brilhante é a galáxia NGC 772 — galáxia espiral, de 10ª magnitude. Ela fica cerca de 1 grau a leste de Mesarthim, então dá para pular de uma para outra no mesmo campo do buscador. Tem 7,3 por 4,6 minutos de arco e interage gravitacionalmente com uma vizinha bem fraca, NGC 770 (magnitude 13), a uns 3 minutos de arco ao sul-sudoeste; essa interação distorce a espiral nas fotografias. O apelido "Fiddlehead", dado por O'Meara, vem do braço mais brilhante, que lembra uma folha de samambaia se desenrolando (Bakich, objeto nº 815).

Para observar, prepare-se para um objeto difuso: um telescópio de 250 mm mostra o centro brilhante e uma névoa em volta. Nas imagens, a interação com a vizinha deforma a espiral, e é isso que torna o par interessante para astrofotografia.

Mitologia e história: o carneiro do velo de ouro

O mito mais ligado ao Carneiro é o da Cólquida. Mourão o conta assim: Frixo e Hele eram filhos de Atamas, rei da Tessália, em uma época de seca e fome. Para aplacar a ira da madrasta Ino, o pai decidiu sacrificar os filhos. Para salvá-los, o deus Mercúrio (Hermes) enviou um carneiro milagroso que os levou em fuga até a Cólquida. O Data Book acrescenta que o animal voava, que Hele perdeu o equilíbrio e caiu no mar, no trecho que hoje se chama Helesponto, e que Frixo chegou são e salvo. Depois da morte do carneiro, o velo de ouro ficou pendurado em um bosque sagrado, de onde foi tirado pelos Argonautas, comandados por Jasão (Moore e Rees). O mesmo mito explica o nome do navio Argo, que o céu depois dividiu em Carena, Vela e Popa (Mourão, verbete Argo). Ridpath também cita o velo de ouro e os Argonautas ao apresentar o Carneiro.

Como constelação, o desenho é bem mais simples do que o mito: Mourão diz que ela é fácil de localizar porque Alfa, Beta e Gama formam um pequeno triângulo, e Ridpath a descreve como uma linha torta de três estrelas. Moore e Rees a chamam de "moderadamente visível".

O zodíaco, o Sol e o "primeiro ponto"

O Sol parece percorrer o céu ao longo do ano por um caminho chamado eclíptica, e ele passa por doze constelações tradicionais, Áries entre elas (Moore, Observer's Year). É esse cinturão que chamamos de zodíaco. Na carta acima, a linha tracejada dourada é a eclíptica: repare que ela cruza a região de Áries.

Quando o Sol está dentro de Áries? Pelos limites oficiais da constelação, definidos pela IAU, o Sol atravessa Áries por volta de 20 de abril a 14 de maio, cerca de 25 dias (datas aproximadas). É a época em que Áries está atrás do Sol e não se vê.

O que é "signo"? Os livros que usamos tratam "signo" e "constelação" como coisas diferentes. Mourão define Áries como primeiro signo do zodíaco, ligado a quem nasce entre 21 de março e 19 de abril, e a mesma obra diz que o ponto vernal já se encontra em Peixes. Essas datas vêm da tradição, e não coincidem com o período em que o Sol está de fato em cada constelação: o "signo" é uma divisão de 30 graus da eclíptica, contada a partir do equinócio. A constelação é o desenho no céu, com tamanho desigual, e o Sol passa 25 dias em Áries pelos limites da IAU. Como a Terra vai mudando a direção do eixo, as duas divisões se afastaram ao longo dos séculos. Aqui tratamos os signos como cultura e história; a astronomia não prevê nada com eles.

A precessão. O eixo da Terra descreve um círculo lento no céu, e um ciclo completo dura cerca de 25.800 anos (Ridpath, p. 133). Por causa dessa oscilação, o ponto onde a eclíptica cruza o equador, o equinócio de março, se desloca pelas constelações. Ridpath conta que, há mais de dois mil anos, o ponto vernal passava perto do limite entre Carneiro e Peixes, e que a precessão o deslocou quase até Aquário. Mourão diz que hoje ele está em Peixes. Moore resume: o ponto vernal também é chamado primeiro ponto de Áries porque, nos tempos antigos, ficava na constelação, e o nome permanece, embora o ponto tenha passado para Peixes. O mesmo vale para o "primeiro ponto de Libra", que hoje está em Virgem (Observer's Year, noites de 20 de março e 13 de maio).

E isso não é só curiosidade histórica. A ascensão reta, uma das duas coordenadas usadas para localizar um objeto no céu, é medida a partir do primeiro ponto de Áries (Philip's Astronomy Encyclopedia). Cada vez que um aplicativo de astronomia mostra "AR 2 h 07 min" para Hamal, ele conta de um ponto que já nem está no Carneiro.

Roteiro de observação

Instrumento O que ver
A olho nu O trio Hamal, Sheratan e Mesarthim, com o tom alaranjado de Hamal, e a Gama do Carneiro como uma só estrela.
Binóculo (10×50) O trio Hamal, Sheratan e Mesarthim no mesmo campo, a cor de Hamal reforçada, a estrela UW Ari (magnitude 6,1) e, no campo largo, as Plêiades.
Telescópio pequeno (70 a 100 mm) Mesarthim em duas estrelas iguais, Lambda com sua companheira e o teste de cores.
Telescópio de 250 mm NGC 772 como uma névoa com centro brilhante, com NGC 770 muito fraca ao lado.
Astrofotografia NGC 772 e NGC 770 juntas em exposição longa, mostrando a interação.

Dicas de campo:

  • Escolha uma noite sem Lua entre novembro e janeiro e olhe para o norte, com o céu limpo do lado do horizonte.
  • Use as Plêiades ou o Grande Quadrado de Pégaso como ponto de partida; Áries não tem mais nada de brilhante por perto.
  • Compare a cor de Hamal com a de Mesarthim, branca: é um bom exercício para treinar o olho.
  • Para NGC 772, comece por Mesarthim e ande cerca de 1 grau para leste.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die. New York: Springer, 2010. Objetos nº 810 (Gama do Carneiro), nº 814 (Lambda do Carneiro) e nº 815 (NGC 772).
  • MOORE, Patrick (ed.). Philip's Astronomy Encyclopedia. London: Philip's, 2002. Verbetes "Aries" (p. 26) e "first point of Aries" (coordenadas, p. 76).
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Noites de 20 de março (primeiro ponto de Áries, p. 87), 13 de maio (primeiro ponto de Libra, p. 178) e 29 de outubro (Áries, o Carneiro, p. 291-292); eclíptica e zodíaco, p. 132-133.
  • MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Verbete "Aries", p. 384; tabela de constelações, p. 368.
  • MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbetes "Áries" (p. 56-57), "Hamal" (p. 358), "Sheratan" (p. 733), "First Star in Aries" (p. 303) e "Argo" (p. 56).
  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Carneiro e primeiro ponto de Áries, p. 171; precessão, p. 133.
  • VIEIRA, Fernando. Identificação do céu. Carneiro, p. 77; precessão dos equinócios, p. 52-53.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilhos, tipos espectrais e paralaxes, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.