setembro 21, 2026
M57, a Nebulosa do Anel: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
A Nebulosa do Anel é provavelmente a planetária mais famosa do céu, e faz por merecer: um pequeno aro de luz cinza, em geral descrito como uma rosquinha, ou como uma bolha de fumaça presa no meio de um campo de estrelas. Ela mora em Lira, a constelação da harpa, a poucos graus de Vega. Do hemisfério sul, o cenário muda: Lira fica baixa no céu do norte, e o Anel nunca sobe muito. Mesmo assim, ele é observável da nossa latitude em noites de ar estável, e o desafio de tirar o melhor dele com pouca altura é parte do interesse. Este guia reúne os dados, os mapas, os gráficos de altura e a estratégia de observação e de captura, tudo em um só lugar.
Texto em revisão. Este é um dos guias de teste do novo formato de guia de objeto. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: o que é uma nebulosa planetária
Uma nebulosa planetária não tem nada de planeta. É a camada externa de gás que uma estrela de massa parecida com a do Sol lança no fim da vida, depois de virar uma gigante vermelha. O núcleo que sobra é uma anã branca muito quente, cuja radiação ultravioleta faz o gás brilhar (Moore; Kambič). É uma fase curta, e o Sol deverá passar por algo parecido daqui a bilhões de anos. Moore lembra que o termo é enganoso duas vezes: não há planeta, e em rigor tampouco se trata de nebulosa no sentido antigo.
Por que vemos um anel. A estrela está cercada por uma casca de gás e, olhando de longe, vemos mais material brilhante na borda do que no meio (Moore). Durante décadas, achou-se que a casca era uma esfera, mas hoje se considera mais provável que M57 seja um anel de verdade, ou melhor, um tubo de gás visto de ponta (Mollise; Kambič). O Philip's descreve a forma como um toro visto quase de frente. Por isso o miolo não é escuro: é um véu de gás mais tênue, cinza claro (Mollise; Coe).
O Anel em números. A nebulosa mede cerca de 1,2′ de diâmetro, ou uns 70″ (SIMBAD; livros trazem de 1′ a 1,4′), e brilha na magnitude 9 ou pouco menos (de 8,8 a 9,7 conforme a fonte). Por ser pequena, tem alto brilho por ponto, e aguenta bem o céu urbano (Mollise). A estrela central é uma anã branca de magnitude cerca de 15,8 (SIMBAD; livros trazem de 14 a 15), um dos grandes desafios da observação visual.
Distância. Os valores nos livros variam tanto que Mollise avisa: as distâncias das planetárias são incertas, e a do Anel vai de 1.500 a mais de 5.000 anos-luz. Moore traz 1.400; Kambič, 2.300, citando medidas recentes de paralaxe da estrela central; o Philip's, 4.100. A paralaxe registrada no SIMBAD (1,27 milissegundo de arco) dá cerca de 2.600 anos-luz, e é o valor adotado aqui. A essa distância, o anel tem cerca de 0,9 ano-luz de diâmetro. A idade do envoltório fica entre 5.500 anos (Philip's) e 6.000 a 8.000 anos (Kambič). Moore anota que o anel se expande cerca de 1″ por século.
Descoberta. Moore atribui a descoberta a Antoine Darquier, em 1777, com um refrator de 2,5 polegadas; Kambič e o Philip's dão 1779. Bakich acrescenta que a estrela central foi descoberta por Friedrich von Hahn, em 1800.
Estruturas notáveis
- O anel principal. Um aro ovalado, com eixo maior cerca de 1,8 vez o menor num refrator de 100 mm (Coe). Em telescópios de 250 a 300 mm, fica claramente elíptico.
- O miolo. Não é vazio. É um véu de gás que Herschel descreveu como "gaze sobre um aro" (Coe); em telescópio médio, é um cinza claro (Mollise).
- A estrela central. A "taça sagrada" dos observadores do Anel (Mollise). Coe a vê cerca de 5% do tempo num telescópio de 280 mm, e cerca de 40% num de 900 mm; o OIII a apaga.
- Os "dedos" internos. Coe registra, num instrumento de 900 mm, filamentos finos de nebulosidade apontando para a estrela central, e a cor verde do anel.
- A estrela de campo. Moore alerta que uma estrela aparentemente dentro da nebulosa é apenas uma estrela de primeiro plano, sem relação com o Anel.
Como localizar
O Anel é o objeto mais fácil de achar da harpa. Fica no lado da figura oposto a Vega, um pouco antes da metade da linha entre Beta e Gama da Lira (Mollise; Moore; Kambič): posicione o telescópio a 48′ de Beta, na direção de Gama (Mollise). O binóculo mostra o Anel apenas como uma estrela (Kambič), o que confunde quem procura uma nebulosa: procure o campo com o binóculo, mas confirme com o telescópio.
Do hemisfério sul, Lira aparece de cabeça para baixo, baixa, sobre o horizonte norte: o norte fica embaixo, e Vega, uma estrela muito brilhante, ajuda a se orientar. O Triângulo de Verão (Vega, Deneb e Altair), que no hemisfério norte é um marco de verão, é para nós um marco de inverno (Moore).

Quando e como observar
M57 tem declinação de cerca de +33°, ou seja, no Rio de Janeiro (latitude −23°) ela sobe no máximo cerca de 34° acima do horizonte norte. É pouco: a luz atravessa uma camada grossa de atmosfera, o que borra os detalhes finos, e a estrela central, que exige uma ampliação muito alta e um ar impecável, fica ainda mais difícil (Mollise). Por outro lado, o brilho por ponto do Anel é alto e o objeto é pequeno, então ele perde menos com a altura do que uma nebulosa grande e difusa. Mollise avisa que, se a ampliação for baixa demais, o Anel deixa de parecer um anel e vira uma estrela fraca e borrada.
A melhor época vai de junho a setembro: no início de julho a nebulosa cruza o meridiano por volta da meia-noite, e no começo de agosto já o faz ao anoitecer (por volta das 21 h). Espere-a chegar perto do meridiano para observar, porque a altura é o seu recurso mais escasso. Olhando para o norte, o norte fica embaixo e o leste à esquerda.
O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho da nebulosa pelo céu nesta noite (zênite no centro, cores pela altura e linha pontilhada, tracejada ou contínua conforme o crepúsculo), seguido da altura hora a hora.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-13 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 27°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 19:20 · 27° NNW
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 12 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 57 mag 8,8
- Enquadramento
- 11 ocupa 3 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 26° | NNW 329° | 74° |
| 20:00 | 22° | NW 324° | 74° |
| 20:30 | 18° | NW 319° | 74° |
| 21:00 | 13° | NW 315° | 74° |
| 21:30 | 8° | NW 311° | 73° |
| 22:00 | 2° | NW 308° | 73° |
| 22:30 | -3° | — | 73° |
| 23:00 | -9° | — | 73° |
| 23:30 | -15° | — | 73° |
| 00:00 | -21° | — | 73° |
| 00:30 | -27° | — | 73° |
| 01:00 | -33° | — | 73° |
| 01:30 | -40° | — | 73° |
| 02:00 | -46° | — | 72° |
| 02:30 | -52° | — | 72° |
| 03:00 | -58° | — | 72° |
| 03:30 | -65° | — | 72° |
| 04:00 | -70° | — | 72° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Fora do alcance. |
| Binóculo (7×50 a 15×70) | Só uma estrela, sem sinal de nebulosa (Kambič); Moore diz nunca ter conseguido vê-la assim, embora outros afirmem que não é difícil. É útil apenas para achar o campo. |
| Telescópio de 60 a 80 mm | Um ponto não estelar em 27 mm de ocular, e a forma de anel pouco clara, mesmo com 100 vezes; com visão indireta, o buraco central aparece às vezes (Coe; Mollise). |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Em 90 vezes, o anel aparece com alguma dificuldade em 100 mm; com 150 mm, fica fácil com visão direta (Mollise). Com uma ocular de 8,8 mm e 4 polegadas, o anel é óbvio, alongado, com o centro escuro mais claro na visão indireta (Coe). |
| Telescópio de 250 a 300 mm | O véu de gás preenche o anel; o OIII realça o aro mas apaga a estrela central (Coe); em 280 mm e 6,7 mm de ocular, a estrela central aparece cerca de 5% do tempo (Coe). |
| Telescópio de 300 mm ou mais | Em 12,5 polegadas e ampliação alta, sob céu escuro e estável, a estrela central é vista com extrema dificuldade (Mollise); no Kitt Peak, 900 mm de abertura e 427 vezes: anel verde, estrela central estável cerca de 40% do tempo, com os filamentos apontando para dentro (Coe). |
Expectativa honesta: acima de 10 a 12 polegadas, o Anel não muda muito de aspecto (Mollise). O que muda é o brilho e a chance de ver a estrela central, que Mollise nunca viu na cidade, mesmo num Dobson de 24 polegadas. As cores verde e vermelha só aparecem em fotos (Kambič). Para quem quer um objeto com mais detalhes, a Dumbbell (M27) costuma ser a preferida em telescópios pequenos.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
O Anel é pequeno, cerca de 1,2′, e ocupa pouco do quadro em focais curtas. Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (calculado a partir do sensor e da focal): a nebulosa vira um pontinho no meio do quadro. Para o Anel aparecer com destaque, use uma focal de 1.500 a 2.500 mm, como um SCT ou um Newtoniano longo, e aceite o campo estreito. Um enquadramento largo, com a nebulosa pequena rodeada de estrelas, também funciona bem.
Desafios do alvo
- Altura baixa. Com um máximo de 34°, a refração e a turbulência limitam a resolução. Capture perto do meridiano e descarte os quadros mais borrados.
- Escala pequena. O alvo é minúsculo, e a qualidade do foco e do guiamento pesam mais do que em nebulosas grandes.
- Cores em camadas. O centro é azul-esverdeado (OIII) e a borda externa é avermelhada (H-alfa) (Kambič; o Philip's lembra que as imagens em azul, verde e vermelho têm tamanhos crescentes). Preserve a diferença sem estourar o centro.
- Estrela central. Com magnitude cerca de 15,8, só sai em pilhas longas e com boa resolução.
Equipamento e filtros
Uma câmera colorida com filtro dual-band funciona bem sob o céu urbano do Rio (Bortle 7); a câmera monocromática com banda estreita (HOO ou SHO) dá contraste maior. Como o alvo é brilhante, sub-exposições curtas bastam para o anel principal, e o tempo total é o que revela o halo mais fraco.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (dual-band ou RGB) | 80 a 150 | 60 a 120 s | Anel; muitos quadros curtos permitem descartar os mais borrados pela altura baixa |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros.
Smart telescopes e campo de visão
No campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), o Anel é uma mancha muito pequena no meio do quadro, e o resultado depende de empilhar muitos quadros para revelar o formato e um pouco de cor. Ainda assim, o campo mostra bem a vizinhança de Lira. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
O Anel é uma planetária de contrastes: é famosa e difícil de aproveitar do sul, é pequena e no entanto muito brilhante. Vale a pena por ser um clássico e por ensinar a trabalhar com alvos baixos e pequenos. Se o objetivo é ver mais detalhes, vá para a Dumbbell (M27) ou, com o céu do sul, para a Hélice (NGC 7293), que fica quase sobre nossas cabeças.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 567 (M57).
- COE, Steven R. Nebulae and How to Observe Them. London: Springer, 2007. M57, p. 111.
- KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Lira, M57, p. 338.
- MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. London: Springer, 2006. "M57", p. 162-163.
- MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. "The Ring Nebula" (30 de julho), p. 207.
- MOORE, Patrick (ed.). Astronomy Encyclopedia. London: Philip's. Verbete "Ring Nebula", p. 344.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de M 57, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.