setembro 21, 2026

M 5, o globular da Serpente: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M5 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

Se você quer um globular grande, brilhante e bem posicionado para quem mora no Rio de Janeiro, M 5 é dos melhores candidatos. Ela fica na Cabeça da Serpente, quase sobre o equador celeste, e passa a cerca de 65° de altura no inverno austral. Em céu escuro dá para vê-la a olho nu como uma estrela fraca; no binóculo, é uma bola nítida e maior que o vizinho M 13; e, no telescópio, mostra cadeias de estrelas que saem do núcleo como raios. Entre os globulares brilhantes que se podem alcançar sem sair do hemisfério, ela é uma das mais fáceis de achar e uma das mais generosas. Este guia reúne os dados, o caminho para achar M 5, o melhor momento, o que dá para ver e como fotografá-la.

Texto em revisão. Este é um artigo de teste do novo formato de guia de objeto. Dados, mapas, gráficos de altura e estratégia de captura estão todos aqui. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de M5 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: um dos mais antigos e maiores globulares

M 5 é um aglomerado globular, uma esfera densa de estrelas muito antigas, ligadas pela gravidade e em órbita ao redor do centro da Galáxia, no halo. Kier diz que ela tem cerca de 13 bilhões de anos e que se formou poucos bilhões de anos depois do Big Bang, o que a faz "uma das mais antigas conhecidas" (Kier, "Globular Cluster M5", p. 159). Kambič fala de "mais de 10 bilhões de anos" (p. 446), o que é coerente, porque os dois números são estimativas de idade e não medidas exatas.

Distância e tamanho. O SIMBAD traz uma paralaxe de 0,141 milissegundo de arco para M 5, o que dá cerca de 23.100 anos-luz. Livros mais antigos trazem 24.500 a 25.000. O tamanho aparente do SIMBAD é 17,4′ (os livros vão de 17′ a 23′, conforme até onde cada autor enxerga a periferia). Com esses valores, o diâmetro físico fica em cerca de 120 anos-luz (Kier, com 23′ e 24.500 anos-luz, fala em 165).

Quantas estrelas? Kier diz que M 5 tem cerca de 100.000 estrelas, e Kambič, pelo menos meio milhão. A diferença é grande, e os livros não explicam a origem; trate as duas cifras como ordens de grandeza, e não como contagens exatas. As gigantes vermelhas do aglomerado passam de 2.000 vezes a luminosidade do Sol (Kambič). Se o Sol estivesse em M 5, teria magnitude 19, invisível em telescópios pequenos (Kambič, p. 446).

Brilho. O SIMBAD dá V = 5,95, e os livros trazem de 5,6 a 5,7. Bakich afirma que M 5 é o globular mais brilhante da metade norte do céu e o sétimo mais brilhante de todo o céu. Kambič a coloca na lista dos mais brilhantes, atrás de Ômega Centauri, 47 Tucanae, M 22 e M 13. Os critérios de cada autor diferem, então não convém repetir um ranking exato.

Movimento. O SIMBAD indica velocidade radial de cerca de +54 km/s: M 5 se afasta do Sol.

História. Mollise atribui a descoberta a Gottfried Kirch, em 1702 (Mollise, p. 141). Depois viria o catálogo de Messier, mas essa parte não consta dos livros consultados.

Estruturas notáveis

  • A "estrela" que na verdade é um aglomerado. A olho nu, M 5 aparece como uma estrela fraca de magnitude 6 em céu escuro (Bakich). Não a confunda com 5 Serpentis, de magnitude 5,0, a cerca de 22′ do aglomerado: elas cabem no mesmo campo de um telescópio de baixa potência.
  • Cadeias de estrelas no halo. Com 8″ (200 mm), Allison vê cadeias de estrelas (p. 154-155). Em 11″ (280 mm), Bakich conta mais de cem estrelas resolvidas e correntes externas.
  • Textura granulada. Com 100 mm, Bakich descreve um objeto "rico em detalhes"; com mais de 150 aumentos aparece uma textura granulada e dezenas de estrelas ao redor do núcleo.
  • Maior que M 13 no binóculo. Tonkin observa que M 5 não parece tão brilhante quanto M 13, mas parece um pouco maior (Tonkin, p. 232). Do Rio, M 13 fica baixa; M 5 é o bom substituto.

Como localizar

M 5 fica na Cabeça da Serpente (Serpens Caput), entre Virgem e Ofiúco, ao norte e a leste de Libra. O caminho mais fácil parte de Unukalhai (α Serpentis, magnitude 2,6): de lá, Tonkin recomenda varrer pouco mais de três campos de binóculo na direção de μ Virginis (p. 232); Kambič usa α Ser e 10 Ser (p. 446), e Allison indica uma posição entre α Ser e 109 Vir (p. 154). Bakich propõe subir 11,5° para norte a partir de Zubeneschamali (β Librae).

Do Rio, todos esses pontos ficam ao norte do zênite, a cerca de 65° de altura na culminação: olhe para o norte, o leste fica à direita, e um mapa com o norte em cima parece invertido. Se você preferir um marco de céu mais fácil, parta de Libra e de Escorpião, muito visíveis no inverno austral, e suba em direção à Serpente.

Carta de localização de M5: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de +2°, M 5 cruza o meridiano a cerca de 65° de altura no Rio e fica pouco mais de 11 horas acima do horizonte. A oposição ao Sol cai por volta de meados de maio (calculado pelas coordenadas); do começo de abril ao fim de agosto é um alvo excelente no início da noite, e de maio a julho é o auge. Kier a coloca em 26 de junho, do hemisfério norte, ao anoitecer; do Rio, é um alvo do inverno.

A altura razoável e a posição em direção ao zênite reduzem a extinção e o efeito da poluição luminosa, o que ajuda. Em Bortle 7, o halo externo perde para o fundo do céu, mas o núcleo resiste bem.

O primeiro gráfico mostra a altura ao longo do ano; o segundo, a noite de hoje.

Altura de M5 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de março a julho. O objeto chega a 65° à meia-noite em maio.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ11 maio · 65°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de março a julho (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 65° em 11 de maio.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-13 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 4°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
19:20 · 5° W
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 12 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
100 mag 6,0
Enquadramento
100 ocupa 33 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M5 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 18:20 e 19:30 durante a noite; o ponto mais alto é às 19:20, com 5°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO19:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 2° W 273° 27°
20:00 -5° — 27°
20:30 -12° — 28°
21:00 -19° — 28°
21:30 -26° — 28°
22:00 -32° — 28°
22:30 -39° — 28°
23:00 -46° — 28°
23:30 -52° — 28°
00:00 -58° — 28°
00:30 -63° — 28°
01:00 -67° — 29°
01:30 -69° — 29°
02:00 -69° — 29°
02:30 -66° — 29°
03:00 -62° — 29°
03:30 -56° — 29°
04:00 -50° — 29°
Altura de M5 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 19:20, com 5°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Uma estrela fraca de 5ª a 6ª magnitude em céu escuro (Bakich). Na cidade, não dá.
Binóculo (10×50) Um "bolinha" nítida e clara, um pouco maior que M 13 (Tonkin); vale ao lado de 5 Serpentis.
Telescópio de 100 mm Rico em detalhes (Bakich); centro claro e halo granulado a partir de cerca de 150 aumentos.
Telescópio de 200 mm Cadeias e estrelas isoladas em toda a face, segundo Allison com 8″; textura granulada e dezenas de estrelas ao redor do núcleo (Bakich).
Telescópio maior (280 mm ou mais) Mais de cem estrelas e correntes externas (Bakich); o halo cresce e o núcleo permanece denso.

Kambič lembra que M 5 é um dos globulares mais brilhantes do céu (p. 446), e Mollise a inclui, com M 10 e M 12, entre os globulares que aguentam o céu de cidade (p. 135-144). Mollise sugere ainda bater levemente no tubo do telescópio para fazer surgirem estrelas fracas na periferia (p. 144), um truque que ele relata e que vale testar no seu telescópio.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Para os globulares grandes, como M 5, Kier propõe duas estratégias: um campo médio, de 30′ a 50′, que reforça a concentração das estrelas e exige menos de guiagem, foco e seeing; ou um campo mais apertado, que resolve mais estrelas do núcleo (Kier, p. 159). Com um telescópio de 1.000 mm e uma ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (calculado), com 0,95″/pixel, e o aglomerado ocupa uma parte agradável do quadro, com 5 Serpentis à vista para balancear a composição.

Desafios do alvo

  • Núcleo brilhante. Kier avisa: reduza a exposição por quadro para não estourar o centro (p. 159).
  • Estrela de 5ª magnitude perto. Kier fala numa estrela de magnitude 5,0 que ajuda a equilibrar a imagem, mas que, se ficar inchada, pode ser reduzida no processamento com técnicas de redução de estrelas.
  • Nitidez. Se a deconvolução criar um padrão de "mosaico" no núcleo, deixe a nitidez para o fim (Kier, p. 159). Curvas e níveis funcionam melhor que "digital development".
  • Céu urbano. Em Bortle 7, a periferia é o primeiro que some; exposições mais longas para o halo e subtração de gradiente ajudam.

Equipamento e filtros

Kier usou LRGB, mas diz que a técnica RGB de rotina ou a câmera colorida de tiro único funcionam bem para globulares brilhantes. O objetivo, segundo ele, é resolver o centro e, ao mesmo tempo, revelar as bordas fracas (p. 159). Como a luz é de estrelas, não há vantagem em banda estreita.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light curto (núcleo) 40 10 a 20 s Preservar o centro
Light longo (halo) 60 60 a 90 s Estrelas fracas da periferia
Dark 30 igual aos Lights Calibração térmica
Flat 30 automática Vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao telescópio e ao céu.

Smart telescopes e campo de visão

M 5 é um alvo fácil para smart telescopes: brilhante, alto e perto de estrelas de referência. Num aparelho com campo de cerca de 1,3° × 0,7° (como o Seestar S50), o aglomerado ocupa uma boa fração do quadro, com 5 Serpentis próxima. O empilhamento de muitos quadros curtos evita saturar o núcleo. Abra o mapa e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o aglomerado.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

M 5 é um daqueles objetos que qualquer observador brasileiro deveria ter no caderno: brilhante, alto e fácil de achar no inverno austral. Segundo Kambič, só meia dúzia de globulares do céu inteiro a superam em brilho, e entre os do inverno austral ela está entre as melhores. É um bom ponto de partida para comparar com M 4 e M 22, e para um circuito em Ofiúco. Para ver a mais famosa das nebulosas de Serpens, veja M 16, a Nebulosa da Águia, e, para o desafio de altura, M 3.

Referências

  • ALLISON, Mark. Star Clusters and How to Observe Them. London: Springer (Astronomers' Observing Guides), 2006. Globulares de Ofiúco, Hércules, Escorpião e Libra, p. 154-157 (M 5, p. 154-155).
  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 389 (M 5).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Serpente, M 5, p. 446-447.
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. "Globular Cluster M5" (26 de junho), p. 159.
  • MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. London: Springer, 2006. Ofiúco e Serpente, p. 135-144 (M 5, p. 140-141).
  • MOORE, Patrick (ed.). Philip's Astronomy Encyclopedia. London: Philip's, 2002. Verbete "Serpens" (p. 362).
  • TONKIN, Stephen. Binocular Astronomy. London: Springer, 2007. M 5, p. 232.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo, paralaxe, tamanho, magnitude V e velocidade radial de M 5, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.