setembro 21, 2026
Melotte 111, o aglomerado da Cabeleira de Berenice: guia completo de observação e astrofotografia

Numa noite escura de abril, se você olhar para o norte do Rio, entre o Leão e o Boieiro, verá uma pequena neblina de estrelas fracas, como um punhado de poeira brilhante. Ela é fácil de perder: o aglomerado de Coma, ou Melotte 111, ocupa uma área tão grande no céu que parece não ser um objeto, só um trecho mais estrelado. Esse é o segredo de um dos aglomerados abertos mais próximos de nós. É grande demais para a maior parte dos telescópios e é feito para binóculos.
Texto em revisão. Este guia segue o novo formato de guia de objeto. As fontes e as divergências estão no final e nas pendências.

Ficha técnica e designações
| Designação principal | Mel 111 |
|---|---|
| Outras designações | Collinder / Melotte Melotte 111, Collinder 256 |
| Tipo de objeto | Aglomerado aberto |
| Constelação | Coma Berenices |
| Coordenadas (J2000) | RA 12h 24m 03s | Dec +25° 39′ 07″ |
| Distância da Terra | ~280 anos-luz |
| Magnitude aparente | — |
| Tamanho aparente | — |
| Melhor época (BR) | Março, Abril, Maio |
Visão geral: o que é um aglomerado aberto
Um aglomerado aberto é um grupo de estrelas nascidas juntas da mesma nuvem de gás, ainda ligadas pela gravidade de forma frouxa e destinadas a se dispersar com o tempo. As Plêiades (M 45) e as Híades (Mel 25) são os exemplos mais conhecidos; Melotte 111 é o mais próximo, o mais brilhante e maior no céu do que as duas, segundo Pugh.
Melotte 111 em números. A paralaxe do SIMBAD é de 11,64 milissegundos de arco, o que dá cerca de 280 anos-luz (3.261,56 dividido pela paralaxe em mas). Isso o coloca entre os aglomerados mais próximos do Sol e explica o tamanho aparente: a estimativa varia, com mais de 4° no Bakich (275′), cerca de 5° no Moore e mais de 7° em Pugh, o que corresponde a um diâmetro real de cerca de 22 anos-luz (cálculo próprio, com 275′). O Bakich atribui ao aglomerado uma magnitude integrada de 1,8, com cerca de 40 estrelas entre as magnitudes 5 e 10, das quais uma dúzia é visível a olho nu. Nada disso é fácil de medir: o aglomerado é tão espalhado que a "borda" é uma questão de escolha.
Descoberta e história. O nome "Melotte 111" vem de Philibert Jacques Melotte, que catalogou o aglomerado em 1915, mas só em 1938 os astrônomos o reconheceram como um aglomerado de verdade (Bakich). Antes, ele era só o "cabelo" da constelação: o Bakich lembra que Eratóstenes escreveu, por volta de 250 a.C., que as estrelas eram o cabelo de Ariadne, e o "Véu de Tisbe" vem do mito de Píramo e Tisbe, contado por Ovídio nas Metamorfoses. O Moore conta a lenda de Berenice: a rainha egípcia, esposa de Ptolomeu III, por volta de 247 a.C., cortou seus cabelos como oferenda aos deuses para que o marido voltasse vivo da guerra, e Tycho Brahe incluiu a constelação oficialmente em 1590. A Ridpath completa que Mercator a distinguiu de Leão na metade do século XVI.
Uma estrela que não é do grupo. Gamma Comae, a estrela amarela do meio da região, está a cerca de 170 anos-luz de nós, na frente do aglomerado, e não faz parte dele (Bakich).
Estruturas notáveis
- A "nuvem" de estrelas de mag. 5 a 6. O binóculo mostra dezenas de estrelas em todas as direções e nenhuma condensação central, o que é o oposto de uma globular (Pugh; Bakich).
- Duplas e triplas. Estrelas próximas, que o binóculo separa (Pugh).
- Nebulosidade de fundo e galáxias. Pugh observa que alguns pontos difusos vistos com o binóculo são galáxias distantes do fundo do céu, mais bem vistas com telescópios maiores. A região de Coma é rica em galáxias, muitas ligadas ao aglomerado de Virgem, como a M 64 (Olho Negro) e a NGC 4725. É importante não confundir o aglomerado estelar Melotte 111 com o Aglomerado de Galáxias de Coma, um grupo de galáxias muito mais distante, que não é visível em binóculos.
Como localizar
Melotte 111 fica em Coma Berenices, entre o Leão e o Boieiro. Pugh recomenda varrer para nordeste a partir da parte traseira do Leão, entre Denébola e Arcturus; o Moore o coloca entre Alkaid, Denébola e Arcturus. No Rio, olhando para o norte, o aglomerado aparece acima e um pouco à esquerda de Denébola, e Gamma Comae marca o centro. Use o binóculo e "varra" devagar; a olho nu, o aglomerado pode parecer apenas um trecho de céu mais estrelado. Para se orientar, veja o guia da constelação de Leão.

Quando e como observar
Com declinação de +25,7° e ascensão reta de 12h25, o aglomerado está bem posicionado à noite de março a junho (cálculo próprio), com melhor altura em abril e maio, no início da noite; Pugh o descreve como visível de meia-noite em dezembro até logo depois do pôr do sol em julho, para observadores do hemisfério norte. A altura máxima é 90° − |Dec − latitude|: cerca de 41° no Rio (−23°), 76° a 40° N e 66° a 50° N.
Os gráficos abaixo mostram a altura ao longo do ano e a trajetória do objeto na noite de hoje, para o Rio.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-13 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -20°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 04:00 · -20° ENE
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 12 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 50 (sem magnitude cadastrada)
- Enquadramento
- 50 (sem tamanho cadastrado)
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | -45° | — | 69° |
| 20:00 | -52° | — | 69° |
| 20:30 | -59° | — | 70° |
| 21:00 | -65° | — | 70° |
| 21:30 | -72° | — | 70° |
| 22:00 | -79° | — | 70° |
| 22:30 | -85° | — | 70° |
| 23:00 | -86° | — | 71° |
| 23:30 | -80° | — | 71° |
| 00:00 | -73° | — | 71° |
| 00:30 | -67° | — | 71° |
| 01:00 | -60° | — | 72° |
| 01:30 | -53° | — | 72° |
| 02:00 | -46° | — | 72° |
| 02:30 | -40° | — | 72° |
| 03:00 | -33° | — | 72° |
| 03:30 | -26° | — | 73° |
| 04:00 | -20° | — | 73° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que muda no Rio de Janeiro?
Com 41° de altura máxima, o aglomerado está bem acima do horizonte e passa pelo meridiano ao norte, um pouco mais alto do que a maioria dos objetos do norte, mas ainda com atmosfera e poluição maiores do que em latitudes do norte. O limite de Bortle 7 diminui o número de estrelas visíveis a olho nu e faz o aglomerado parecer só um trecho mais estrelado; com binóculo, ele volta a aparecer, e é o lugar onde ele vai bem. Olhando para o norte, o norte celeste fica para baixo e o leste à direita; o aglomerado fica acima do Leão.
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Em céu escuro, algumas estrelas (uma dúzia, segundo o Bakich) formando um "véu" de luz; do Rio, o brilho do céu leva a maior parte delas embora. |
| Binóculo (7×50 a 10×50) | A melhor ferramenta: dezenas de estrelas de mag. 5 a 10, com dupla e triplas, cabendo no campo; Bakich sugere binóculos de 50 mm ou mais (Pugh; Bakich). |
| Telescópio pequeno | Só com a menor ampliação e o campo mais largo possível; mesmo assim, o aglomerado excede o campo (Bakich). |
| Telescópio grande | Não serve para o aglomerado, mas é útil para as galáxias de fundo que Pugh cita como convite ao telescópio maior. |
Expectativa honesta: não há nada para "ampliar". A graça é ver muitas estrelas ao mesmo tempo, e o binóculo é o instrumento certo.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Com mais de 4° de tamanho, o aglomerado pede um campo muito largo: uma lente de 50 a 135 mm num sensor APS-C cobre de 15° a 27°, e uma de 200 mm cobre cerca de 6,6° × 4,4° (cálculo próprio, sensor de 23 mm × 15 mm).
Desafios do alvo
- Sem estrutura difusa. É um campo de estrelas: a foto vale pela cor, pelos halos e pelo brilho relativo das estrelas.
- Estrelas brilhantes e saturação. Gamma Comae e as estrelas de mag. 5 a 6 pedem cuidado para não saturar; exposições curtas evitam a saturação e deixam as cores mais fiéis.
- Fundo escuro. Numa região rica em galáxias, um campo largo pode mostrar galáxias fracas ao fundo com tempo total maior.
Equipamento e filtros
Câmera DSLR ou colorida com uma objetiva de 85 a 200 mm em montagem equatorial (ou com rastreador) basta. Filtros de banda estreita não fazem sentido para um campo de estrelas; uma luminância de banda larga ou um filtro de céu escuro de banda larga ajuda em cidades.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (RGB ou colorida) | 40 a 60 | 60 a 120 s | Estrelas; o tempo total é o que conta |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Ruído de leitura |
Ponto de partida, não vem dos livros.
Smart telescopes e campo de visão
O campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°) cobre só uma pequena parte do aglomerado; a melhor saída é um mosaico ou uma foto de campo largo, mas com o aparelho ele é mais um alvo de curiosidade. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
Melotte 111 é o aglomerado aberto perfeito para quem gosta de binóculo e de história: uma lenda egípcia, um mito grego e o mais próximo dos grandes aglomerados abertos. Da cidade, é um convite para procurar um céu melhor; do campo, uma noite de outono inteira de binóculo, pulando de estrela em estrela. Para continuar, veja o guia da constelação do Leão, as vizinhas Virgem e M 3, e o guia do céu de primavera no hemisfério norte, quando ele aparece em toda a sua glória.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 251 (Melotte 111).
- MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Cabeleira de Berenice (páginas a conferir).
- PUGH, Philip. The Science and Art of Using Telescopes. Springer (Patrick Moore's Practical Astronomy Series). Melotte 111, p. 349 (ano e local a conferir).
- RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Cabeleira de Berenice (página a conferir).
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a Cl Melotte 111 (paralaxe), em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.