setembro 21, 2026

M 64, a Galáxia do Olho Negro: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M64 — Galáxia do Olho Negro — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

M 64 é uma das galáxias mais fáceis de reconhecer em fotografia, e uma das mais reveladoras ao telescópio. Uma faixa de poeira escura, logo ao lado do núcleo brilhante, cria a impressão de um olho com uma sombra por baixo, o que lhe rendeu o apelido de Olho Negro (em inglês, Black Eye, expressão que designa um olho roxo). Fica em Cabeleira de Berenice, uma constelação da primavera do norte, que é o outono do Brasil. Do Rio, ela passa a uns 45° de altura, ao norte, o suficiente para que valha uma noite de observação. Este guia mostra como achá-la, o que ver em cada abertura e como fotografá-la.

Texto em revisão. Este é um guia no novo formato. Onde o SIMBAD não traz o dado (a distância de galáxias), o texto usa o valor dos livros e marca essa origem. As divergências estão nas pendências.

Imagem de referência (DSS2) de M64 — Galáxia do Olho Negro — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: uma galáxia com uma cicatriz de poeira

M 64 é uma galáxia espiral do tipo Sb (Mollise, p. 114). Ela está na direção de Cabeleira de Berenice, perto da fronteira com Virgem, mas numa parte do céu bem menos povoada de galáxias que o centro do aglomerado de Virgem. Mollise nota que, por essa razão, ela fica sozinha no seu campo, o que a torna um ótimo começo para explorar as galáxias de Cabeleira (p. 114).

O olho. A marca da galáxia é uma faixa de poeira densa e escura logo além do núcleo, ao norte dele (Bakich). Em fotografias, ela lembra um arco curvo; em telescópios de porte médio, aparece como uma mancha ou um "olho" (Mollise, p. 114). Kier descreve o que pode ter dado origem à faixa: a interação com uma galáxia menor que teria sido absorvida há milhões de anos, e que deixou o disco interno girando em sentido oposto ao do disco externo. A colisão teria deixado uma faixa massiva de poeira na borda do núcleo, que estimula a formação de novas estrelas (Kier, p. 140). Trata-se de uma interpretação vinda do livro de 2009; vale conferir literatura recente.

Distância. O SIMBAD não traz paralaxe para galáxias e, na sua tabela, as distâncias vão de 4,4 a 7,5 megaparsecs (14 a 24 milhões de anos-luz), uma dispersão grande. Kier, Mollise e Kambič usam 19 milhões de anos-luz, e este guia adota "cerca de 19 milhões", marcando que o valor vem dos livros. Com esse número, o tamanho de 11′ × 6′ (SIMBAD) corresponde a algo como 55.000 anos-luz, o mesmo diâmetro que Kambič dá (p. 264).

Brilho e tamanho. A magnitude é de 8,5 (SIMBAD, V = 8,52; Kier, Kambič, Bakich e Mollise). O tamanho aparente varia de 9′ × 5′ (Kier, Kambič) a 10,3′ × 5′ (Mollise) e 11′ × 6′ (SIMBAD). Mollise nota que, nas fotos, as dimensões são de 10,3′ × 5′ e que a galáxia é fácil mesmo para observadores urbanos (p. 114).

História. Segundo Bakich, o astrônomo inglês Edward Pigott a descobriu em 23 de março de 1779, e Messier a achou de forma independente um ano depois; William Herschel comparou a faixa de poeira a um olho roxo, o que dá a origem do nome em inglês.

Estruturas notáveis

  • A faixa de poeira. O traço decisivo, ao norte do núcleo (Bakich). Mollise a vê em um telescópio de 11″ (280 mm) como uma área mais escura ao lado de um trecho brilhante junto ao núcleo, com visão desviada (p. 114-115).
  • O núcleo. Brilhante e quase estelar (Mollise).
  • Os braços externos. Bakich diz que, para vê-los, é preciso um telescópio de 400 mm e uma noite escura, e que nesse porte se pode procurar o halo externo.
  • O campo. Kambič comenta que a galáxia é uma das mais brilhantes do céu de primavera do norte e que uma foto de longa exposição mostra a sua beleza (p. 264).

Como localizar

M 64 fica entre duas estrelas de Cabeleira de Berenice: ela está a cerca de dois terços do caminho na linha de 40 Comae (magnitude 5,6) para 35 Comae (magnitude 4,9) (Mollise, p. 114). Kambič dá as coordenadas relativas: a uns 50′ a leste e 27′ ao norte de 35 Comae, e diz que, com Alfa Comae no canto sudeste do campo de binóculo, dá para reconhecer 35 Comae e o padrão de estrelas fracas em volta (p. 263). Machholz descreve o salto a partir de M 53: 3,5° ao norte e 3,9° a oeste (Machholz, p. 128-129). Em binóculo ela é só uma mancha de alguns minutos de arco.

Do Rio, olhe para o norte, com o leste à direita e o oeste à esquerda. O norte celeste fica em baixo. Assim, a faixa de poeira, que está ao norte do núcleo, aparece abaixo dele a olho nu ou em binóculos; o que se vê no telescópio depende do desvio da diagonal e da ocular.

Carta de localização de M64: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

M 64 tem declinação de +21,7°, próxima à de M 1. Do Rio, ela culmina a uns 45° de altura, no norte. A melhor época vai de março a junho: ela cruza o meridiano por volta da meia-noite no início de abril e às 21 h no fim de maio. Kambič recomenda observá-la só em noites excelentes, sem Lua e longe da poluição, quando a galáxia estiver perto da culminação (p. 263). Para um céu de cidade, isso significa esperar a melhor noite do mês.

Sob Bortle 7, a galáxia sobrevive: Mollise diz que, com aumento suficiente, um telescópio de 60 mm já a mostra mesmo em uma cidade de porte médio e que ela "não é um desafio para a maioria dos observadores urbanos" (p. 114).

Altura de Galáxia do Olho Negro ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de fevereiro a maio. O objeto chega a 46° à meia-noite em abril.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ6 abr · 46°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de fevereiro a maio (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 46° em 6 de abril.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-13 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -26°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
04:00 · -26° ENE
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 12 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
61 mag 8,5
Enquadramento
94 ocupa 23 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -37° — 61°
20:00 -44° — 61°
20:30 -51° — 61°
21:00 -58° — 62°
21:30 -64° — 62°
22:00 -71° — 62°
22:30 -78° — 62°
23:00 -85° — 63°
23:30 -87° — 63°
00:00 -81° — 63°
00:30 -74° — 63°
01:00 -67° — 63°
01:30 -60° — 64°
02:00 -53° — 64°
02:30 -46° — 64°
03:00 -39° — 64°
03:30 -33° — 64°
04:00 -26° — 65°
Altura de M64 — Galáxia do Olho Negro ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 04:00, com -26°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte04:00 · -26°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Não. É uma galáxia de magnitude 8,5.
Binóculo (10×50) Kambič inclui M 64 entre as galáxias de Cabeleira ao alcance de binóculos: uma pequena mancha de luz de poucos minutos de arco, só em noites excelentes e sem Lua (p. 263-264). Use a visão desviada.
Telescópio de 60 a 100 mm Com 50 aumentos, um oval fraco de um a dois minutos de arco (Mollise). Com aumento suficiente, o olho é sutil ou ausente.
Telescópio de 150 mm Mollise, com 6″, o olho é "sutil" e talvez visto com noite seca e estável (p. 114-115).
Telescópio de 250 mm ou mais Bakich: a faixa é evidente com 250 mm ou mais. Mollise, com 11″ (C11), viu-a imediata e "dramática": uma região escura ao lado de um trecho brilhante, com a galáxia de mais de 3′ (p. 114-115).
Telescópio de 400 mm Braços externos e halo (Bakich).
Filtros Não ajudam: é uma galáxia.

Uma expectativa realista. M 64 é uma das poucas galáxias que mostram traços de estrutura mesmo sob céu urbano, mas o "olho" só se revela com abertura de 200 mm ou mais e uma noite estável. Em telescópios pequenos, é uma mancha elíptica com um núcleo brilhante.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Com 11′ × 6′ (SIMBAD), M 64 é uma galáxia pequena para os padrões do céu profundo. Kier recomenda um campo pequeno para enquadrá-la melhor (p. 140). Com um telescópio de 1.000 mm e uma ASI294MC Pro (campo calculado de 1,1° × 0,75°), ela ocupa cerca de um sexto da largura do quadro; com 1.500 a 2.000 mm ela preenche melhor, mas a estabilidade da atmosfera passa a ser o limite.

Desafios do alvo

  • Brilho superficial médio. Kier afirma que, entre as galáxias pequenas, o Olho Negro é relativamente fácil de fotografar: ele obteve uma imagem de um subúrbio poluído com um SCT de 8″ em cerca de 3 horas, e outra, em um local escuro, com mais de 8 horas de exposição (p. 140).
  • Braços de baixo contraste. Mais tempo total de exposição ajuda a extrair detalhes nos braços (Kier).
  • A faixa de poeira é o único detalhe nítido. Kier recomenda revelá-la com deconvolução no início do processamento (p. 140).
  • Altura baixa. A 45° de altura, a refração atmosférica é moderada. Fotografe perto da culminação.

Equipamento e filtros

Câmera colorida ou monocromática com filtros RGB e camada de luminância, como Kier recomenda para galáxias. Sob Bortle 7, um filtro anti-poluição de banda larga ajuda; filtros de banda estreita servem só para realçar regiões de emissão fracas nos braços, e rendem pouco em M 64.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light 120 a 180 60 a 120 s Braços e o halo; total de várias horas
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros (exceto os tempos totais de Kier): ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite.

Smart telescopes e campo de visão

M 64 é pequena para um Seestar S50 (campo de cerca de 1,3° × 0,7°): ela aparece no meio do quadro, ocupando um pequeno retângulo, mas uma sessão de uma a duas horas, com empilhamento, mostra a forma elíptica, o núcleo e a faixa de poeira. Espere uma imagem modesta, sem os braços finos. Abra o mapa abaixo e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

M 64 é uma galáxia compacta, brilhante e fácil de achar, com um traço que só ela tem: o olho de poeira. Do Brasil ela fica a meia altura, no norte, no outono, e um telescópio de 200 mm já a distingue de outras galáxias. Para continuar, explore a vizinha NGC 4725, também em Cabeleira, e o guia de Virgem, a constelação das galáxias.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 315 (M 64).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Cabeleira de Berenice e M 64, p. 263-265.
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. "Black Eye Galaxy M64" (21 de maio), p. 140-141.
  • MACHHOLZ, Don. The Observing Guide to the Messier Marathon: A Handbook and Atlas. Springer (Astronomers' Observing Guides). Tabela de objetos, p. 128-129.
  • MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. London: Springer, 2006. M 64, p. 114-115.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tamanho, magnitude e tabela de distâncias de M 64, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.