setembro 21, 2026
M 84, a porta de entrada da Cadeia de Markarian: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
Se o Aglomerado de Virgem tem um ponto de entrada natural para quem quer se aventurar pela Cadeia de Markarian — a fileira de galáxias que atravessa a fronteira entre Virgem e Cabeleira de Berenice —, é M 84. Ela abre a cadeia, tem uma gêmea de brilho parecido a poucos minutos de distância (M 86, sem guia próprio ainda neste site) e é, ela mesma, uma elíptica maciça o bastante para abrigar um pequeno jato de matéria, um parente mais discreto do jato famoso de M 87. Este guia mostra como achar M 84, como não confundi-la com a vizinha e como fotografar o trecho mais denso de galáxias de todo o céu.
Texto em revisão. Este guia segue o novo formato de guia de objeto. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: a porta de entrada da Cadeia de Markarian
O Aglomerado de Virgem reúne mais de mil galáxias nas constelações de Virgem e Cabeleira de Berenice, com o Grupo Local — onde está a Via Láctea — em órbita distante do seu centro de massa. M 84 (NGC 4374) é uma das elípticas gigantes do aglomerado, ao lado de M 49, M 60 e M 87, e fica no extremo sul de um trecho especialmente denso de galáxias conhecido como Cadeia de Markarian, batizada em homenagem ao astrônomo armênio-soviético Beniamin Markarian, que a descreveu nos anos 1960. Tonkin lista seis membros principais da cadeia: M 84 e M 86, as mais brilhantes, e NGC 4406, 4438, 4473, 4459 e 4477 — um arranjo tão compacto que "o problema é distinguir as galáxias, não achá-las", como ele resume.
M 84 em números. O SIMBAD classifica M 84 como "E-E/S0" (entre elíptica e lenticular), com magnitude visual de 10,49 e dimensões de 6,46′ × 5,75′; os livros trazem valores bem diferentes — Bakich dá magnitude 9,1 e apenas 5,1′ × 4,1′, provavelmente medindo só o núcleo mais brilhante e não o halo completo. Borgia chama M 84 e M 86 de lenticulares, e não de elípticas — os livros consultados não são unânimes sobre o tipo exato.
M 84 ou M 86? Bakich é direto: as duas ficam no meio do caminho entre Denebola (Beta Leonis) e Vindemiatrix (Épsilon Virginis), com M 84 um pouco mais a oeste. Em alta ampliação, ele descreve M 84 como um pouco menor e mais fraca que a vizinha, ambas com um núcleo grande e claramente não estelar, envolto por um halo mais fraco — a diferença entre as duas é sutil o bastante para confundir observadores experientes, e o "gancho" que Bakich sugere para o objeto é justamente "M 84 ou M 86? Como distinguir as gêmeas de Virgem".
Um jato discreto. Cooke menciona, de passagem, a possibilidade de um jato em M 84 — um traço de matéria ejetada do núcleo, como o de M 87, mas bem mais fraco e não descrito em detalhe no material consultado. A existência de um pequeno jato de rádio e raios X em M 84, detectado por observatórios profissionais, é conhecimento astronômico geral, fora dos livros usados nesta pesquisa; ele não é visível a olho nem em fotografia amadora comum, e por isso não muda a estratégia de observação ou de captura deste guia.
Sem distância confiável. O SIMBAD não traz paralaxe para M 84; a velocidade de recessão, cerca de 1.015 km/s, é próxima da média do aglomerado. O texto usa a mesma faixa de 50 a 65 milhões de anos-luz adotada nos demais guias do Aglomerado de Virgem.
Descoberta. A descoberta é atribuída a Messier, em 1781 (conhecimento geral, fora dos livros consultados).
Estruturas notáveis
- O núcleo não estelar. Grande e claramente diferente de um ponto estelar, envolto por um halo mais fraco — o traço que distingue M 84 (e M 86) das galáxias menores da cadeia (Bakich).
- A vizinha M 86. A cerca de 16′ de M 84 (Mollise), um pouco mais brilhante e maior ao ocular; as duas formam o par mais fácil de identificar em toda a Cadeia de Markarian.
- "Os Olhos" (NGC 4438 e NGC 4435). Um pouco a leste de M 84 e M 86, essas duas galáxias menores, separadas por apenas 4′ (Monks), formam um par apelidado de "Os Olhos" por sua aparência lado a lado.
- O restante da cadeia. NGC 4406, 4473, 4459 e 4477 seguem para nordeste, em direção a Cabeleira de Berenice (Tonkin) — um roteiro inteiro por si só, fora do escopo deste guia.
Como localizar
O ponto de partida mais citado é o meio do caminho entre Denebola (Beta Leonis, mag. 2,1) e Vindemiatrix (Épsilon Virginis, mag. 2,9): M 84 fica ali, um pouco mais a oeste que M 86 (Bakich). Mollise, partindo do "Y" de Rô Virginis, chega primeiro a M 86, e situa M 84 cerca de 16′ a oeste dela — o primeiro passo de um roteiro que segue depois para M 87, a cerca de 1,5° a leste de M 84 (veja o guia de M 87). Uma boa carta orientada como o campo do seu ocular ajuda muito nesse trecho: a densidade de galáxias faz com que seja fácil "pular" a alvo errado sem perceber.
Orientação vista do Rio. Olhando para o norte, alto no céu, o norte celeste fica para baixo e o leste para a direita no ocular. As cartas do hemisfério norte, com norte para cima, aparecem giradas de 180°: M 86 fica à direita de M 84 (a leste), e M 87 mais à direita ainda.

Quando e como observar
Com declinação de +12,9°, M 84 passa a cerca de 54° de altura no Rio de Janeiro (calculado: 90° − |−23° − 12,9°|), praticamente a mesma altura de M 87. Com ascensão reta de 12h25, ela cruza o meridiano por volta da meia-noite em meados de março e por volta das 21h no início de maio — um pouco antes de M 58, M 59 e M 60. A temporada vai de fevereiro a junho, com pico em março e abril.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -17°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 04:00 · -17° E
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 42 mag 9,8
- Enquadramento
- 66 ocupa 16 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | -41° | — | 49° |
| 20:00 | -48° | — | 49° |
| 20:30 | -55° | — | 50° |
| 21:00 | -61° | — | 50° |
| 21:30 | -68° | — | 50° |
| 22:00 | -74° | — | 50° |
| 22:30 | -79° | — | 50° |
| 23:00 | -80° | — | 51° |
| 23:30 | -77° | — | 51° |
| 00:00 | -71° | — | 51° |
| 00:30 | -65° | — | 51° |
| 01:00 | -58° | — | 52° |
| 01:30 | -51° | — | 52° |
| 02:00 | -44° | — | 52° |
| 02:30 | -37° | — | 52° |
| 03:00 | -31° | — | 53° |
| 03:30 | -24° | — | 53° |
| 04:00 | -17° | — | 53° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Nada. |
| Binóculo (10×50) | Em céu bem escuro, uma manchinha fraca, com M 86 próxima no mesmo campo. Sob Bortle 7, geralmente invisível. |
| Telescópio de 100 a 150 mm | M 84 e M 86 já distinguíveis como duas manchas separadas, cada uma com núcleo mais brilhante. |
| Telescópio de 200 mm ou mais | Núcleo grande e não estelar, com halo mais fraco ao redor, em ambas as galáxias (Bakich). Em alta ampliação, M 84 aparece um pouco menor e mais fraca que M 86. |
| Telescópio grande, céu excelente | Talvez indícios de estrutura no halo; "Os Olhos" (NGC 4438/4435) visíveis nas proximidades. |
| Filtros | Nenhum ajuda. |
Uma expectativa realista. M 84 e M 86 são um exercício de observação cuidadosa: duas manchas parecidas, cuja diferença — tamanho, brilho, posição relativa — só fica clara com atenção e uma boa carta. É um objeto para quem gosta do desafio de "aprender a ver" diferenças sutis, não para quem busca espetáculo visual.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
M 84 mede cerca de 6,5′ × 5,8′. Como M 86 fica a apenas 16′ de distância, um campo de 30′ a 40′ (1.500 a 2.000 mm de focal com uma câmera como a ASI294MC Pro, calculado a partir do sensor e da focal) enquadra as duas juntas. Um campo maior, de 1,5° a 2° (500 a 700 mm de focal), estende a composição para incluir "Os Olhos" e outros membros da Cadeia de Markarian — o enquadramento clássico dessa região, segundo Tonkin e a literatura de astrofotografia consultada em outros guias deste site.
Desafios do alvo
- Distinguir M 84 de M 86 no processamento. As duas têm brilho e tamanho parecidos; vale identificar cada uma pela posição antes de rotular a imagem.
- Campo estelar denso de galáxias de fundo. A Cadeia de Markarian tem dezenas de galáxias menores ao fundo; um processamento cuidadoso evita confundi-las com ruído ou artefatos.
- Céu urbano. Sob Bortle 7, "Os Olhos" e os membros mais fracos da cadeia são os primeiros a se perder; M 84 e M 86, mais brilhantes, resistem melhor.
Equipamento e filtros
Câmera colorida de tiro único ou LRGB. Sem linhas de emissão fortes, filtros de banda estreita não têm papel em elípticas como M 84 e M 86.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light | 100 a 160 | 120 a 180 s | M 84, M 86 e a Cadeia de Markarian |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu equipamento e ao céu da noite.
Smart telescopes e campo de visão
Um Seestar S50 (campo de cerca de 1,3° × 0,7°) enquadra M 84 e M 86 juntas com folga, e ainda alcança parte de "Os Olhos" e de outros membros próximos da Cadeia de Markarian, dependendo do enquadramento exato. Abra o mapa abaixo, escolha o seu modelo e veja o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
M 84 é o convite para uma das regiões mais ricas do céu: a Cadeia de Markarian, um desfile de galáxias que recompensa quem tem paciência para aprender a diferenciá-las. Comece por M 84 e M 86, use uma carta orientada ao seu campo e, quando estiver confortável, siga para M 87, a algumas galáxias de distância. Continue também com os guias de M 60, M 58, M 59, M 49 e da constelação de Virgem.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 250 (M 84).
- BORGIA, Michael P. Human Vision and the Night Sky: How to Improve Your Observing Skills. New York: Springer, 2006. Virgem, M 84 e M 86 (lenticulares), p. 258-263.
- COOKE, Antony. Make Time for the Stars: Fitting Astronomy into Your Busy Life. New York: Springer, 2009. Galáxias brilhantes, possível jato em M 84, p. 198-201 (a confirmar).
- MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. London: Springer, 2006. Virgem, eyepiece hopping, M 84 e M 86 a 16′, p. 124-133.
- MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. "Os Olhos" (NGC 4438/4435, separação de 4′), p. 91.
- TONKIN, Stephen. Binocular Astronomy. London: Springer, 2007. Cadeia de Markarian em binóculos, p. 243-244.
- RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Verbete Virgem, p. 178.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo, dimensões e brilho de M 84, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.