setembro 21, 2026

M 58, a espiral barrada do Aglomerado de Virgem: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M58 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

Entre as dezenas de galáxias que formam o Aglomerado de Virgem, M 58 se destaca por um detalhe que passa despercebido em baixa ampliação: ela tem uma barra central, uma faixa reta de estrelas que atravessa o núcleo antes que os braços se enrolem para fora. É a mais brilhante das espirais barradas do aglomerado, uma vizinha próxima de M 59 e M 60, e um bom ponto de entrada para quem está começando a se aventurar pelo "mar de galáxias" da constelação de Virgem. Este guia mostra como achá-la, o que esperar dela ao telescópio e como enquadrá-la com as galáxias vizinhas.

Texto em revisão. Este guia segue o novo formato de guia de objeto. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de M58 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: uma espiral barrada no meio do Aglomerado de Virgem

O Aglomerado de Virgem é o conjunto de galáxias mais próximo da Via Láctea rico o bastante para ser chamado de aglomerado — mais de mil galáxias, concentradas sobretudo nas constelações de Virgem e Cabeleira de Berenice (Coma Berenices), por isso alguns autores falam em "Aglomerado de Virgem-Cabeleira". Está a dezenas de milhões de anos-luz e domina gravitacionalmente toda a nossa vizinhança: o Grupo Local, onde fica a Via Láctea, orbita lentamente o seu centro de massa. Charles Messier catalogou 16 objetos dentro do aglomerado nas décadas de 1770 e 1780, a maioria durante uma única temporada de observação em 1781; M 58 é um deles.

M 58 em números. O SIMBAD classifica M 58 (NGC 4579) como uma espiral com barra (tipo "SA_B", ou SAB(rs)b na notação de Hubble-de Vaucouleurs), com magnitude visual de 9,66 e dimensões de 5,71′ × 4,50′, com o eixo maior orientado leste-oeste. Bakich dá valores próximos: magnitude 9,6 e 5,5′ × 4,6′. Nenhum dos livros consultados traz uma distância confiável: sem paralaxe mensurável para uma galáxia tão distante, o valor mais citado para o Aglomerado de Virgem como um todo fica entre 50 e 65 milhões de anos-luz, a mesma faixa adotada nos guias de M 49 e M 87.

A barra e os braços. Bakich descreve M 58 como uma galáxia levemente oval em telescópios pequenos, e diz que só em 400 mm ou mais a barra central e o halo com braços mais fechados ficam distinguíveis. É essa barra que dá a M 58 uma identidade própria entre as galáxias do aglomerado, a maioria elípticas ou lenticulares sem estrutura.

Descoberta. A descoberta é atribuída a Messier, em 1779 (conhecimento geral, fora dos livros consultados).

Estruturas notáveis

  • O núcleo e a barra. Em aberturas grandes (400 mm ou mais), a barra reta que cruza o núcleo distingue M 58 das galáxias elípticas vizinhas (Bakich).
  • O halo com braços fechados. Os braços espirais são bem enrolados e contribuem pouco para o brilho total; aparecem só em fotografia profunda ou telescópios muito grandes.
  • A vizinhança imediata. M 59 fica cerca de 1° a leste, e M 60 mais 24′ além dela (calculado a partir do SIMBAD; confirma a distância de 24′ entre M 59 e M 60 dada por Monks): as três cabem, com folga, num binóculo de campo largo.

Como localizar

O ponto de partida clássico para o coração do Aglomerado de Virgem é o "Y" formado por Rô Virginis (ρ Vir) e as estrelas vizinhas de magnitude 5 e 6, perto de Épsilon Virginis (Vindemiatrix). A partir desse asterismo, Mollise indica cerca de 1°3′ até M 58. Machholz situa M 58 na mesma sequência que M 59 e M 60, mais a leste na cadeia de galáxias que também passa por M 84, M 86, M 87, M 89 e M 90. Se você já localizou M 59 ou M 60 (veja os guias de M 59 e M 60), M 58 fica cerca de 1° a oeste da primeira.

Orientação vista do Rio. Você olha para o norte, alto no céu. O norte celeste fica para baixo e o leste para a direita: as cartas com norte para cima, comuns nos livros do hemisfério norte, aparecem giradas de 180° em relação ao que você vê no ocular.

Carta de localização de M58: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de +11,8°, M 58 passa a cerca de 55° de altura no Rio de Janeiro (calculado: 90° − |−23° − 11,8°|), uma altura excelente, bem acima da faixa onde a turbulência atmosférica atrapalha. Com ascensão reta de 12h38, ela cruza o meridiano por volta da meia-noite no fim de março e por volta das 21h em meados de maio — praticamente a mesma janela de M 49 e M 87, que ficam a poucos graus de distância. A temporada vai de março a junho, com pico em abril e maio.

Altura de M58 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de fevereiro a maio. O objeto chega a 55° à meia-noite em abril.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ1 abr · 55°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de fevereiro a maio (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 55° em 1 de abril.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -19°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
04:00 · -19° E
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
34 mag 10,3
Enquadramento
45 ocupa 11 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -38° — 46°
20:00 -45° — 46°
20:30 -51° — 47°
21:00 -58° — 47°
21:30 -65° — 47°
22:00 -71° — 47°
22:30 -76° — 48°
23:00 -79° — 48°
23:30 -77° — 48°
00:00 -73° — 48°
00:30 -67° — 48°
01:00 -60° — 49°
01:30 -54° — 49°
02:00 -47° — 49°
02:30 -40° — 49°
03:00 -33° — 50°
03:30 -26° — 50°
04:00 -19° — 50°
Altura de M58 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 04:00, com -19°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte04:00 · -19°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Nada.
Binóculo (10×50) Em céu bem escuro, uma manchinha fraca e oval; sob Bortle 7, geralmente invisível.
Telescópio de 100 a 200 mm Uma mancha oval, um pouco mais alongada que as elípticas vizinhas, sem estrutura visível (Bakich).
Telescópio de 300 a 400 mm ou mais Com céu escuro e boa ampliação, a barra central e um halo com indícios dos braços fechados (Bakich).
Filtros Nenhum ajuda; galáxias não respondem a filtros de linha de emissão.

Uma expectativa realista. M 58 não chama atenção em telescópios pequenos: é mais uma mancha oval entre dezenas no campo de Virgem. O que a distingue — a barra — só aparece com abertura grande e céu escuro, ou em fotografia.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

M 58 mede cerca de 5,7′, pequena o bastante para caber, com folga, em qualquer campo comum de astrofotografia. Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro (campo de cerca de 1,1° × 0,75°, calculado a partir do sensor e da focal), M 58 cabe sozinha, com espaço de sobra; um campo de cerca de 1,5° a 2° (500 a 700 mm de focal) reúne M 58, M 59 e M 60 no mesmo quadro, já que M 58 e M 60 estão separadas por pouco mais de 1° (calculado a partir do SIMBAD).

Desafios do alvo

  • Brilho superficial baixo e tamanho pequeno. M 58 exige boa resolução (focal relativamente longa) e tempo de exposição total considerável para revelar a barra e os braços.
  • Campo estelar da Via Láctea ausente, mas cheio de outras galáxias. Ao contrário de alvos na faixa da Via Láctea, aqui o desafio é não confundir M 58 com as galáxias de fundo, mais fracas.
  • Céu urbano. Sob Bortle 7, a barra e os braços fracos são os primeiros detalhes a se perder; um filtro de poluição luminosa de banda larga ajuda pouco em uma galáxia, mas reduz o fundo do céu.

Equipamento e filtros

Câmera colorida de tiro único ou LRGB. Como em qualquer elíptica ou espiral sem linhas de emissão fortes, filtros de banda estreita não têm papel aqui.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light 90 a 150 120 a 180 s Núcleo, barra e halo
Dark 30 igual aos Lights Ruído térmico
Flat 30 automática Vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu equipamento e ao céu da noite.

Smart telescopes e campo de visão

Um Seestar S50 (campo de cerca de 1,3° × 0,7°) enquadra M 58 com folga e ainda alcança M 59, a leste; M 60 fica perto da borda do campo ou já exige um leve reenquadramento (calculado a partir das coordenadas do SIMBAD). Abra o mapa abaixo, escolha o seu modelo e veja o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

M 58 é uma boa porta de entrada para o Aglomerado de Virgem: fácil de localizar a partir do "Y" de Rô Virginis, alta no céu do Rio de Janeiro e vizinha imediata de M 59 e M 60. Não é um objeto vistoso ao ocular, mas a barra que a diferencia das galáxias ao redor recompensa quem tem abertura e paciência. Continue pelo mesmo campo com os guias de M 59 e M 60, ou recue um passo para ver o conjunto com os guias de M 49, M 87 e da constelação de Virgem.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 285 (M 58).
  • MACHHOLZ, Don. The Observing Guide to the Messier Marathon: A Handbook and Atlas. New York: Springer. Cadeia de Virgem (M 58, M 59, M 60 na sequência de galáxias); página impressa a confirmar.
  • MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. London: Springer, 2006. Virgem, eyepiece hopping a partir do "Y" de Rô Virginis, p. 124-133.
  • MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. Pares de galáxias no mesmo campo (M 59 e M 60, separação de 24′), p. 96 e 98.
  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Verbete Virgem, p. 178.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo, dimensões e brilho de M 58, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.