setembro 21, 2026

M 39, o grande aglomerado do Cisne: guia completo de observação

Imagem de referência (DSS2) de M39 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

M 39 é um aglomerado aberto grande, próximo e de brilho médio, feito para binóculos e telescópios pequenos em baixa ampliação. Com magnitude 4,6 (Bakich), está no limite da visão a olho nu em céu escuro (Monks) e cobre no céu uma área comparável à da Lua cheia. A declinação de +48,2° o coloca quase no zênite para o observador do norte europeu e muito baixo para o Rio de Janeiro: aqui, é um objeto que só se vê com sorte e horizonte livre.

Texto em revisão. Guia no novo formato; fontes no final.

Imagem de referência (DSS2) de M39 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: o que é um aglomerado aberto

Aglomerados abertos são grupos de estrelas nascidos juntos da mesma nuvem de gás, que se dispersam devagar pela Galáxia. M 39 (também NGC 7092) é um dos mais próximos de Messier. O SIMBAD, com paralaxe de 3,337 milissegundos de arco, dá cerca de 980 anos-luz; o Kambič fala em 825 e o Monks em cerca de 800. É por isso que o grupo parece grande e esparso: quanto mais perto, mais espalhadas ficam as estrelas no céu.

Tamanho: 120′ ou 30′? O SIMBAD traz cerca de 120′, o que a 980 anos-luz corresponde a algo como 34 anos-luz de extensão total (cálculo do texto). Os livros medem o núcleo visível, de cerca de 30′ (Bakich; Monks, "mais de 31′"), o que dá algo como 8 anos-luz, valor que o Kambič também cita e que Monks arredonda para 7. As duas medidas convivem: os 30′ são o miolo que o olho separa do fundo; os 120′ incluem as estrelas dispersas das bordas.

O problema do fundo. M 39 está sobre um campo rico da Via Láctea, o que dificulta saber quais estrelas são de fato do aglomerado. O Kambič conta que um astrônomo precisou medir por anos os movimentos próprios das estrelas da região para separar os membros verdadeiros, cerca de 30, número que Monks também dá. Monks acrescenta que o aglomerado tem meia-idade, com menos de 300 milhões de anos.

Uma nota de história. A descoberta costuma ser atribuída a Le Gentil ou a Messier, mas Monks lembra que Aristóteles menciona uma nebulosidade "como um cometa" no Cisne, e o aglomerado pode ter sido descrito por ele. Bakich cita ainda Smyth, que viu ali um campo "espalhado" de estrelas. É pouco, mas mostra um objeto conhecido a olho nu desde sempre.

Estruturas notáveis

  • Rô do Cisne. A estrela de magnitude 4 é visível a olho nu e serve de referência para achar o aglomerado (Kambič).
  • As estrelas mais brilhantes. Quatro de magnitude 7 e seis de magnitude 8 (Kambič): são elas que aparecem primeiro no binóculo.
  • A regularidade. Cerca de duas dúzias de estrelas mais brilhantes que a magnitude 12 espalhadas sobre um fundo rico (Bakich).
  • Pi-2 do Cisne. Estrela brilhante que aparece no mesmo campo de binóculo do aglomerado (Kambič) e ajuda a confirmar a identificação.

Como localizar

Do hemisfério norte, o caminho é simples. Comece em Deneb, a estrela da cauda do Cisne e vértice norte do Triângulo de Verão (Kambič a dá a 1.400 anos-luz). De Deneb, siga para leste-nordeste até Rô do Cisne, cerca de 9° (medida do texto); M 39 fica cerca de 2,8° ao norte de Rô (Bakich). No binóculo, coloque Rô na borda sul do campo e o aglomerado surge como um grupo solto de pontos na parte alta. Uma segunda rota, do Kambič, parte de Pi-2 do Cisne: a estrela e o aglomerado cabem no mesmo campo, e conferir Rô e Pi-2 evita confundir M 39 com um trecho denso da Via Láctea.

Como o fundo é rico, use uma carta com magnitude limite de 9 ou 10 e confira o padrão das estrelas mais brilhantes do grupo (as de magnitude 7). No buscador de um telescópio o grupo já aparece como uma mancha de pontos; com apontamento computadorizado, centre-o e depois reduza a ampliação.

Do Rio, o objeto fica quase no horizonte norte. Olhando para o norte, o céu aparece invertido em relação aos mapas do hemisfério norte: o leste fica à direita, o norte para baixo, e o Cisne parece de ponta-cabeça.

Carta de localização de M39: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Como o objeto é do céu do norte, o site mostra os gráficos para o observatório do Rio (latitude −23°), e é lá que ele fica quase no horizonte.

Do hemisfério norte. Com declinação de +48,2°, a altura máxima é de cerca de 82° a 40° N e de cerca de 88° a 50° N: quase no zênite nas latitudes altas. Fica bem posicionado de julho a novembro, com agosto como mês sugerido por Bakich, no início da noite. Tão alto, o brilho não sofre com a atmosfera, e é nesse cenário que o binóculo mostra o seu melhor.

E do Rio de Janeiro?

A altura máxima é de cerca de 19° (90 − |−23° − 48,2°|), e isso só na culminação, no fim de setembro e outubro, em torno das 21 h. Com prédios e neblina no horizonte norte, é um objeto no limite: tente de uma praia, do alto de um morro, ou de um local com horizonte norte livre, sabendo que o brilho se reduz muito perto do horizonte. Em compensação, o aglomerado é grande e tem estrelas de magnitude 7 e 8, e por isso é dos poucos objetos do Cisne que ainda dão alguma chance nessas condições, ao contrário das nebulosas do mesmo trecho do céu.

Altura de M39 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. O objeto não passa de 30° à meia-noite em nenhuma época do ano.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZhoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Neste local o objeto não passa de 30° de altura no meio da noite em nenhuma época do ano.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 19°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
20:00 · 19° N
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
100 mag 4,6
Enquadramento
100 ocupa 43 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M39 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 18:20 e 00:00 durante a noite; o ponto mais alto é às 20:00, com 19°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO19:0020:0021:0022:0023:0000:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 18° N 5° 113°
20:00 19° N 360° 113°
20:30 18° N 355° 113°
21:00 17° N 350° 113°
21:30 16° NNW 345° 112°
22:00 14° NNW 340° 112°
22:30 11° NNW 336° 112°
23:00 8° NNW 332° 112°
23:30 4° NNW 328° 112°
00:00 1° NW 325° 112°
00:30 -4° — 112°
01:00 -8° — 112°
01:30 -13° — 112°
02:00 -17° — 111°
02:30 -22° — 111°
03:00 -27° — 111°
03:30 -32° — 111°
04:00 -37° — 111°
Altura de M39 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 20:00, com 19°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte20:00 · 19°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Uma mancha pequena, em céu muito escuro e com o objeto alto (Monks diz que fica "apenas visível" em céu escuro); aqui, dificilmente.
Binóculo de campo largo (7×50, 10×50) O melhor instrumento. Cerca de 35 estrelas em ótimas condições, chegando a 70 em noites perfeitas (Kambič). Rô e Pi-2 no mesmo campo.
Telescópio pequeno (60 a 100 mm) Usar a menor ampliação: com muito aumento, o aglomerado se dilui no fundo. Cerca de duas dúzias de estrelas mais brilhantes que a magnitude 12 (Bakich).
Telescópio médio (150 a 200 mm) Mais estrelas fracas, mas o campo do ocular precisa passar de 1° para o conjunto caber. Em um SCT de 200 mm, Monks aponta o ocular de 32 mm como razoável e, para um efeito mais dramático, redutor f/6,3 com ocular de 2 polegadas (35 mm Panoptic).

O que muda com a abertura. Mais abertura ajuda pouco: o encanto de M 39 está na largura do campo, e não no detalhe. Um refrator curto com ocular de baixo aumento entrega uma imagem melhor do que um telescópio de foco longo. Monks é direto: em SCTs e Maksutov-Cassegrains, ver o aglomerado no seu melhor é um desafio, justamente pelo campo estreito.

M 39 x M 29 x M 34. Os três são aglomerados abertos de verão e outono do norte, com personalidades distintas. M 39 é grande e esparso, ideal para binóculo. M 29 é pequeno e escondido pela poeira, melhor em telescópio pequeno. M 34, em Perseu, tem cerca de 35′ e dez estrelas mais brilhantes que a magnitude 9 (Bakich, objeto nº 837) e, como M 39, pede campo largo; ainda não há guia dele no site. A lição comum: os aglomerados grandes pedem baixa ampliação e céu escuro, e os pequenos pedem mais aumento.

Expectativa honesta: é um aglomerado sutil, e o encanto vem do campo largo. Ao lado de M 29, mostra bem como o fundo rico da Via Láctea no Cisne esconde os aglomerados.

O entorno: a Via Láctea do Cisne

M 39 está na borda oeste do trecho mais rico do Cisne. Na região, o Kambič aponta a dupla Albireo, com a componente dourada de magnitude 3,2 e a azul de 4,7, separadas por cerca de 35″ e a cerca de 410 anos-luz, e a laranja 61 Cygni, cuja paralaxe Bessel mediu em 1838. Entre os aglomerados vizinhos, o Kambič lista NGC 6811, a cerca de 2° a noroeste de Delta do Cisne, e M 29, junto a Sadr.

Entre os objetos com guia próprio no site, a Nebulosa da América do Norte (NGC 7000) fica ao lado de Deneb e a Nebulosa do Véu (NGC 6992) na outra ponta da constelação; as planetárias M 27 (Dumbbell) e M 57 (Anel) ficam logo abaixo do Cisne, em Raposa e Lira. Uma varredura de binóculo de Deneb até M 39 e Pi-2 rende uma noite de aglomerados, estrelas duplas e nebulosidade sem sair do mesmo trecho da Via Láctea.

Astrofotografia: estratégia de captura

Os livros usados não trazem um verbete de astrofotografia para M 39, então esta seção é orientação geral e deve ser tratada como ponto de partida.

Enquadramento

O SIMBAD dá 120′ e os livros cerca de 30′. Para mostrar o aglomerado com o entorno rico da Via Láctea, um campo de 2° a 3° é o ideal, o que pede um refrator curto de cerca de 400 mm de distância focal ou uma lente de 200 a 300 mm. Com foco longo, só o núcleo cabe e o efeito de "aglomerado perdido no campo" some. Monks lembra que, num SCT de 200 mm f/10, o campo máximo com ocular de 1,25″ é de cerca de 50′, e com redutor f/6,3 cerca de 75′.

Desafios do alvo

  • Baixo contraste. O aglomerado não tem nebulosidade; o efeito depende do fundo estelar denso e da cor das estrelas.
  • Estrelas saturadas. Exposições longas saturam as estrelas brilhantes; exposições moderadas preservam as cores.
  • Altura no Rio. Com menos de 20° de altura, a atmosfera avermelha e borra o quadro.

Equipamento e filtros

Câmera colorida de um disparo ou RGB simples funcionam bem. Filtros de banda estreita não ajudam, pois o brilho vem de estrelas.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light (RGB ou colorida) 40 a 60 20 a 40 s Cor das estrelas
Dark 20 igual aos Lights Calibração
Flat 30 automática Vinheta
Bias 50 mais curta possível Ruído de leitura

Ponto de partida, não vem dos livros.

Smart telescopes e campo de visão

M 39 é maior que o campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°): o núcleo de 30′ cabe, mas o halo de 120′ não. Se o modelo oferecer mosaico, vale planejar dois ou três quadros. Escolha o modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

M 39 mostra como o tamanho e o fundo importam na observação de aglomerados abertos: é um dos melhores alvos de binóculo do céu de verão do norte e um dos mais difíceis para quem vive no Rio. Veja também M 29, a cerca de 16° dali, e o céu de verão no hemisfério norte.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objetos nº 674 (M 39) e nº 837 (M 34).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Cisne, M 39, p. 277-278; Albireo e 61 Cygni, p. 273-275.
  • MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. NGC 7092 (M 39), p. 149.
  • SIMBAD Astronomical Database. CDS. Consulta a M 39, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), CC BY-SA 4.0; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do CDS.