setembro 21, 2026

NGC 7000 (Caldwell 20), a Nebulosa da América do Norte: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de NGC 7000 — Nebulosa da América do Norte — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

Existem poucos objetos no céu que se parecem tanto com o que o nome promete. A Nebulosa da América do Norte, no Cisne, tem a costa leste, o Golfo do México e até uma Flórida, e ainda ganhou uma vizinha com perfil de pelicano. É uma das maiores nebulosas de emissão do céu: cerca de dois graus de lado, o equivalente a quatro Luas cheias lado a lado. E é justamente esse tamanho o segredo do objeto. Com um telescópio comum, o campo é pequeno demais para enxergar o desenho; com binóculo, câmera com teleobjetiva ou um bom céu escuro, a forma do continente aparece de uma vez. Este guia é escrito, como os artigos das estações do hemisfério norte, para quem a observa do alto, quase sobre a cabeça. Para nós, no Rio de Janeiro, ela é um alvo baixo e difícil, e há uma seção só para isso.

Texto em revisão. Este guia segue o novo formato de guia de objeto. As fontes estão listadas no final e as divergências estão registradas nas pendências.

Imagem de referência (DSS2) de NGC 7000 — Nebulosa da América do Norte — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: o que é uma nebulosa de emissão

Uma nebulosa de emissão é uma nuvem de gás, sobretudo hidrogênio, que brilha porque estrelas quentes e muito próximas a energizam com radiação ultravioleta. O gás absorve essa luz invisível e a reemite em comprimentos de onda específicos: o mais forte é a linha vermelha do hidrogênio (H-alfa), que as câmeras registram com facilidade e o olho humano quase não percebe. Por isso as fotos mostram uma nebulosa rosada e vermelha, enquanto ao telescópio ela é uma mancha cinzenta e fraca (Mobberley). Filtros de banda estreita, como o UHC, deixam passar as linhas do gás e cortam boa parte da luz do céu urbano, e são a ferramenta central para objetos assim (Coe).

A América do Norte em números. O tamanho é o dado mais confiável: cerca de 2° de diâmetro (Mobberley; Coe; Monks traz 2° × 1,7° e Bakich 120′ × 100′). O brilho total é de magnitude 4 no catálogo do site e de 5 a 5,5 nos livros (Mobberley; Monks), mas esse número engana, porque a luz está espalhada por uma área enorme e o brilho por ponto é baixo. Monks classifica o contraste como baixíssimo. A distância é de cerca de 1.800 anos-luz nos livros (Mobberley; Moore; Monks), o que dá à nebulosa um diâmetro real de pelo menos 50 a 60 anos-luz (Moore; Mobberley). O SIMBAD não traz paralaxe nem dimensões para o objeto, então esses valores vêm dos livros; o Moore avisa que os dados mais recentes do satélite Gaia sugerem distâncias maiores para a região, e por isso este texto usa "cerca de".

Quem a ilumina. Mobberley menciona duas candidatas: Deneb, a supergigante do Cisne, ou uma estrela vizinha, HD 199579. O Moore descreve Deneb como uma supergigante de tipo A, com pelo menos 70.000 vezes a luminosidade do Sol, e coloca a nebulosa a cerca de 70 anos-luz dela. A ligação entre as duas, portanto, é de vizinhança, e a origem exata da ionização segue em discussão.

Descoberta e nome. Segundo o Bakich, William Herschel a descobriu em 24 de outubro de 1786. A semelhança com a América do Norte demorou mais de cem anos para ser notada: só quando Max Wolf a fotografou, em 12 de dezembro de 1890, ela recebeu o nome que a acompanha, "Nebulosa América". Ela faz parte da lista Caldwell, como C 20 (Mobberley).

Estruturas notáveis

  • O contorno do continente. A costa da Califórnia, o México e o Golfo do México, escuro, saem de uma faixa de poeira. Uma Flórida fraca completa o desenho (Bakich).
  • A faixa escura LDN 935. Nuvem de poeira que forma a costa leste e separa a nebulosa da vizinha Pelicano (Coe).
  • O "México". A região de maior brilho superficial, por onde começa quem a procura a olho nu (Coe; Bakich).
  • NGC 6997 e a "Detroit". Um aglomerado de estrelas dentro do campo, que o Coe cita como marca de referência ao refrator de 4 polegadas.
  • O Pelicano, IC 5070. Uma nebulosa vizinha, a cerca de 1,5° a oés-sudoeste, com um "bico" escuro que só telescópios de 200 mm ou mais mostram bem (Bakich; Mobberley).
  • Uma estrela laranja na faixa escura. Um detalhe que Coe registra ao observar com refrator de 4 polegadas e filtro UHC.

Como localizar

Procure primeiro Deneb, a estrela mais brilhante do Cisne e uma das três do Triângulo de Verão. A nebulosa fica cerca de 3° a leste-sudeste dela (Mobberley; Bakich), no meio de um campo denso da Via Láctea. A olho nu, numa noite realmente escura, ela aparece como um brilho difuso que parece um pedaço destacado da Via Láctea. Com binóculos, o desenho se completa. Se você já viu a região a olho nu, é só mover o binóculo para a leste de Deneb, devagar, até o brilho aparecer.

Carta de localização de NGC 7000: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Para quem observa do hemisfério norte, a América do Norte é um alvo de verão e início de outono: o Cisne passa muito perto do zênite, o que é uma vantagem para um objeto de brilho tão baixo. Com declinação de cerca de +44°, sua altura máxima é de 90° − |44° − latitude|, ou seja, cerca de 86° a 40° N e 84° a 50° N (cálculo próprio). Em agosto e setembro ela está alta no início da noite, e a melhor janela vai de julho a outubro. A pequena altura no horizonte sul, típica dos observadores do hemisfério norte que buscam objetos do sul, não é problema aqui: a nebulosa fica praticamente sobre a cabeça.

Os gráficos abaixo mostram a altura da nebulosa ao longo do ano e o seu caminho na noite de hoje para o local do site, o Rio de Janeiro. Vale lê-los com a conta acima em mente: para o Rio, a nebulosa é um alvo de horizonte.

Altura de Nebulosa da América do Norte ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. O objeto não passa de 30° à meia-noite em nenhuma época do ano.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZhoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Neste local o objeto não passa de 30° de altura no meio da noite em nenhuma época do ano.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 22°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
19:30 · 23° N
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
100 mag 4,0
Enquadramento
13 ocupa 267 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de NGC 7000 — Nebulosa da América do Norte pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 18:20 e 23:40 durante a noite; o ponto mais alto é às 19:30, com 23°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO19:0020:0021:0022:0023:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 23° N 359° 107°
20:00 22° N 354° 107°
20:30 21° NNW 348° 107°
21:00 19° NNW 343° 106°
21:30 17° NNW 338° 106°
22:00 14° NNW 333° 106°
22:30 11° NNW 329° 106°
23:00 7° NW 325° 106°
23:30 3° NW 322° 106°
00:00 -2° — 106°
00:30 -7° — 105°
01:00 -12° — 105°
01:30 -17° — 105°
02:00 -22° — 105°
02:30 -27° — 105°
03:00 -32° — 105°
03:30 -38° — 105°
04:00 -43° — 105°
Altura de NGC 7000 — Nebulosa da América do Norte ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 19:30, com 23°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte19:30 · 23°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

E do Rio de Janeiro?

A conta é simples: na latitude de −23°, a altura máxima de um objeto de declinação +44,3° é 90° − 67,3° = cerca de 23°. Ela nunca passa disso, e só chega lá quando cruza o meridiano, ao norte. Nessa altura, a luz atravessa uma camada grossa de atmosfera e, sobretudo, de poluição luminosa; a cúpula de luz da cidade sobre o horizonte norte costuma engolir uma nebulosa de brilho superficial tão baixo. O objeto nem sempre é visível a olho nu, e o binóculo dificilmente resolve o desenho em Bortle 7 (a categoria de céu do Rio). Este é o objeto ideal para uma viagem a um céu mais escuro e mais ao norte do país, onde a altura sobe alguns graus a cada mil quilômetros. Em compensação, para quem tem uma câmera e um filtro de banda dupla (H-alfa e OIII), a astrofotografia de campo largo é possível em noites limpas de agosto a outubro, olhando para o norte, com a paciência de esperar a nebulosa subir e de trabalhar perto do meridiano. Do ponto de vista do observador do Rio, a orientação é a inversa da habitual: olhando para o norte, o norte celeste fica para baixo e o leste à direita.

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Em céu muito escuro, um brilho difuso na Via Láctea, com cerca de 2° e mais forte na região do "México" (Mobberley; Coe). Comece pela visão desviada.
Binóculo (8×42 a 11×80) A melhor ferramenta. Com 8×42 já se vê a forma; com 11×80 em montagem de paralelogramo, o conjunto cabe todo no campo (Coe).
Telescópio pequeno (100 mm) Mobberley indica cerca de 20 aumentos (pupila de saída de 5 mm) com filtro UHC ou OIII; o desenho só aparece em campo largo.
Telescópio de 150 mm ou mais Com 150 mm a cerca de 100 aumentos e OIII, a forma aparece em partes; com 200 mm ou mais, procure a quebra escura que marca o "bico" do Pelicano (Bakich). No refrator de 4 polegadas com UHC de 2″, Coe contou 41 estrelas e uma laranja na faixa escura.

Expectativa honesta: a cor rosa só aparece nas fotos (Mobberley). O objeto é grande demais para a maior parte dos telescópios e fraco demais para a cidade. Monks usa a América do Norte, com o Véu e a Hélice, para mostrar que a magnitude total não prevê a visibilidade: conta o brilho por ponto, o campo e o filtro.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Com cerca de 2° de tamanho, a nebulosa exige um campo de 2° a 4° (Mobberley), o que significa uma lente de 300 a 500 mm de focal, ou um telescópio curto, de 250 a 400 mm. A Pelicano cabe no mesmo quadro e é o par natural. Um sensor de 23 mm × 15 mm com 300 mm dá cerca de 4,4° × 2,9° (cálculo próprio), com folga para as duas.

Desafios do alvo

  • Brilho baixo e tamanho grande. Pede tempo total de exposição e céu escuro; o campo de estrelas da Via Láctea, denso, também exige cuidado para não "afogar" a nebulosa.
  • A cor real está no H-alfa. Uma câmera comum é pouco sensível ao vermelho profundo, por isso Mobberley sugere câmera CCD resfriada ou DSLR modificada, com filtro H-alfa (Mobberley).
  • Poluição luminosa do horizonte norte, no Rio. Mesmo com filtro dual-band, o céu é o limite.

Equipamento e filtros

Câmeras de sensor grande, com objetiva ou refrator curto e filtro dual-band H-alfa/OIII (ou H-alfa em monocromática e composição em cores falsas), são o caminho. Fotografe perto do meridiano para pegar a maior altura possível.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light (dual-band) 60 a 100 180 s Nebulosa; o tempo total é o que conta
Dark 30 igual aos Lights Ruído térmico
Flat 30 automática Vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Ruído de leitura

Ponto de partida, não vem dos livros.

Smart telescopes e campo de visão

O campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°) não cobre a nebulosa toda, mas mostra bem a região do "México" e do Golfo. Um mosaico de vários quadros é a saída para quem quer o continente inteiro. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

A América do Norte é um alvo de campo largo, de binóculo, de câmera com teleobjetiva e, para nós, de céu escuro e paciência, olhando para o norte em noites de inverno e primavera. A melhor forma de conhecê-la é sair da cidade e usar o binóculo. Para quem observa do norte, ela é parte do céu de verão: veja o guia do céu de verão no hemisfério norte, a outra nebulosa do Cisne, o Véu, e a Nebulosa Dumbbell (M 27), na vizinha Raposinha.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 652 (NGC 7000).
  • COE, Steven R. Nebulae and How to Observe Them. London: Springer, 2007. NGC 7000, p. 108-109.
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 20, p. 52-53.
  • MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. NGC 7000, p. 161-162.
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Cisne, Deneb e a Nebulosa América do Norte (páginas a conferir).
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a NGC 7000, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.