setembro 22, 2026

Perseu, o Herói: guia da constelação de Algol e do Duplo Aglomerado

Carta estelar de Perseu como aparece do Brasil, olhando para o norte: Mirfak, Algol e as demais estrelas da constelação, com o Duplo Aglomerado (NGC 869 e NGC 884), M 34, a Nebulosa da Califórnia (NGC 1499), a planetária M 76 e o Aglomerado Alfa de Perseu (Mel 20) marcados em verde

Perseu é uma das constelações mais generosas do céu de fim de ano: tem uma das estrelas variáveis mais famosas da história da astronomia (Algol, a "estrela do demônio"), um par de aglomerados abertos que rivaliza em beleza com qualquer coisa visível a olho nu, e dá nome à chuva de meteoros mais popular do hemisfério norte, as Perseidas de agosto. É também o herói de uma das histórias mais completas do céu: o rapaz que decapitou a górgone Medusa e depois salvou a princesa Andrômeda de um monstro marinho, ligando sua constelação às de Cassiopeia, Cefeu e Andrômeda, todas vizinhas. Do Brasil, Perseu é uma das constelações "do norte" mais acessíveis — bem mais alta do que Cassiopeia ou Cefeu, embora ainda sempre voltada para aquele horizonte. Neste guia você vai aprender a achar Mirfak e Algol, acompanhar (se tiver paciência) o eclipse periódico que apaga Algol por algumas horas, e localizar o Duplo Aglomerado, um dos alvos mais gratificantes de binóculo do céu inteiro.

Texto em revisão. Este é um artigo de teste, escrito a partir de fontes de referência; as fontes estão listadas no final.

O herói na Via Láctea

Perseu (Perseus, abreviatura Per) é uma constelação boreal de cerca de 615 graus quadrados (Mourão, verbete Perseídeos, p. 660), encaixada entre Cassiopeia, Andrômeda, Touro, Cocheiro e Triângulo. Está mergulhada na Via Láctea, o que explica a riqueza de aglomerados abertos na região — o mesmo motivo que torna Cassiopeia tão rica nesse tipo de objeto.

O desenho principal é uma linha comprida de estrelas que se abre a partir de Mirfak, a mais brilhante, formando um "Y" torto ou um arco que se estende até perto de Touro e das Plêiades. Não é uma figura tão reconhecível de cara quanto o W de Cassiopeia, mas uma vez que você acha Mirfak — cercada por um grande grupo de estrelas jovens a olho nu — o resto da constelação se revela com facilidade.

Quando e como achar

Melhor época. O centro de Perseu culmina por volta das 21h locais em dezembro. A boa temporada de observação vai de outubro a fevereiro.

Para onde olhar. Com declinações entre +32° e +58°, Perseu é mais alto no céu do Brasil do que Cassiopeia ou Cefeu, mas ainda sempre voltado para o horizonte norte.

Cidade Mirfak (Dec +49,9°) Algol (Dec +41,0°) Duplo Aglomerado (Dec +57,1°)
Boa Vista (RR) 43° 52° 36°
Manaus (AM) 37° 46° 30°
Recife (PE) 32° 41° 25°
Brasília (DF) 24° 33° 17°
Rio de Janeiro (RJ) 17° 26° 10°
São Paulo (SP) 17° 25° 9°
Porto Alegre (RS) 10° 19° 3°

Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós com as declinações do catálogo do site e a latitude de cada cidade (altura = 90° − |latitude − declinação|); valores arredondados. Algol, a mais ao sul das três referências, é a parte mais confortável da constelação para observar do Brasil inteiro; o Duplo Aglomerado, mais ao norte, fica bem mais baixo, principalmente no Sul do país.

Carta estelar de Perseu como aparece do Brasil, olhando para o norte: Mirfak, Algol e as demais estrelas da constelação, com o Duplo Aglomerado (NGC 869 e NGC 884), M 34, a Nebulosa da Califórnia (NGC 1499), a planetária M 76 e o Aglomerado Alfa de Perseu (Mel 20) marcados em verde
Carta estelar de Perseu como ela aparece do Brasil ao olhar para o norte: o norte fica embaixo e o leste à direita. As linhas de constelação são as oficiais do d3-celestial. A linha laranja tracejada é o limite oficial da constelação; Perseu não é atravessado pela eclíptica. Em verde-claro, os objetos de céu profundo citados neste artigo — o círculo tracejado maior em torno de Mirfak mostra a extensão do Aglomerado Alfa de Perseu (Mel 20). Estrelas: catálogo HYG v4.1 (CC BY-SA 4.0); limites de constelação: IAU. Gerada por Astronomia no Telhado com o Carina.

Passo a passo.

  1. Ache Cassiopeia (o W) e desça em direção à Via Láctea: Perseu fica logo depois, entre Cassiopeia e as Plêiades.
  2. Mirfak é a estrela mais brilhante, cercada por um grupo grande de estrelas mais fracas a olho nu (o Aglomerado Alfa de Perseu) — um bom ponto de partida.
  3. Algol fica a um salto de Mirfak, na direção de Andrômeda. É a segunda estrela mais brilhante da constelação a maior parte do tempo — mas não sempre (veja abaixo).
  4. O Duplo Aglomerado fica entre Perseu e Cassiopeia, a meio caminho entre Mirfak e o W — em céu escuro, aparece a olho nu como uma mancha mais brilhante na Via Láctea.

As estrelas de Perseu

Estrela Brilho visual (mag.) Tipo espectral Observação
Mirfak (alfa) 1,79 F5 Ib (supergigante) a mais brilhante; centro do Aglomerado Alfa de Perseu
Algol (beta) 2,1 a 3,4 (variável) B8 V + K0 IV (eclipsante) a "estrela do demônio"
Zeta Per 2,84 B1 Ib supergigante azul
Épsilon Per 2,90 B0,5 V quente e azul
Gama Per 2,91 G8 III + estrela mais fraca binária
Delta Per 3,01 B5 III gigante azul
Miram (eta) 3,77 K3 Ib dupla, com companheira de magnitude 8,5
Atik (ômicron) 3,84 B1 III binária
Menkib (csi) 3,98 O7 III uma das estrelas mais quentes visíveis a olho nu

Brilhos e tipos espectrais consultados no catálogo do site (HYG v4.1); ver pendências sobre distâncias e valores de Algol não conferidos ao vivo no SIMBAD.

Algol é, disparada, a estrela mais famosa da constelação — e uma das mais importantes da história da astronomia observacional. É a binária eclipsante mais brilhante do céu e a primeira desse tipo a ter seu comportamento explicado corretamente: a olho nu, ela varia de magnitude 2,1 (seu brilho normal) para cerca de 3,4 a cada 2,9 dias aproximadamente, numa queda que dura poucas horas e depois se recupera (Moore, Observer's Year, p. 320). A causa foi identificada por John Goodricke em 1782-1783: Algol é, na verdade, um sistema de duas estrelas orbitando uma à outra tão de perto e num ângulo tal que, vista da Terra, uma passa regularmente na frente da outra, bloqueando parte da luz — um eclipse estelar, não uma variação intrínseca de brilho.

O nome Algol vem do árabe Ra's al-Ghul, "a cabeça do demônio" — porque, na figura da constelação, essa é exatamente a estrela que marca a cabeça decapitada da górgone Medusa, que Perseu segura na mão. É uma coincidência e tanto que os astrônomos árabes medievais, sem saber nada sobre binárias eclipsantes, já tivessem notado que havia algo "estranho" ou inconstante com essa estrela específica, a ponto de batizá-la de "demônio".

Mirfak, a estrela mais brilhante da constelação, é uma supergigante amarelo-branca no centro de um grande grupo de estrelas jovens a olho nu, o Aglomerado Alfa de Perseu (veja abaixo).

Objetos de céu profundo

O Duplo Aglomerado, o par mais bonito do céu de inverno do norte

O Duplo Aglomerado de Perseu — NGC 869 e NGC 884, lado a lado, a menos de meio grau um do outro — é um dos espetáculos mais consistentes de qualquer céu razoavelmente escuro. A olho nu, aparece como uma mancha mais brilhante na Via Láctea, entre Perseu e Cassiopeia; em binóculo, já se resolve em dezenas de estrelas; em telescópio pequeno, centenas. Os dois aglomerados são jovens (poucos milhões de anos) e ficam a uma distância estimada entre 7.000 e 8.000 anos-luz, próximos o bastante um do outro no espaço para serem fisicamente associados, não apenas um alinhamento aparente (Moore, Observer's Year, p. 321; Mobberley). Curiosamente, nenhum dos dois entrou no catálogo de Messier, apesar de serem mais brilhantes e fáceis do que muitos objetos que entraram.

M 34, o aglomerado esquecido perto de Algol

O M 34 é um aglomerado aberto grande e disperso, descoberto por Messier em 1764, com mais de 60 estrelas a cerca de 1.450 anos-luz (Moore, Observer's Year, p. 322). Fica perto de Algol, mas espalhado o bastante para exigir binóculo ou telescópio de campo largo — em aumentos altos, ele "desaparece" porque as estrelas ficam espalhadas demais no campo de visão.

NGC 1499, a Nebulosa da Califórnia

A NGC 1499 é uma nuvem de hidrogênio enorme — mais de duas vezes e meia o diâmetro da Lua cheia — perto de Menkib, mas de brilho superficial tão baixo que é praticamente invisível a olho nu ou em binóculo comum, mesmo em céu escuro. É um alvo clássico de astrofotografia de longa exposição com filtro H-alfa ou H-beta.

M 76, a planetária mais fraca de Messier

A M 76 é uma pequena nebulosa planetária, apontada por vários observadores como a mais fraca de todo o catálogo Messier — Méchain a descobriu em 1780 (Moore, Observer's Year, p. 322). É pequena o bastante para exigir aumento razoável, mas recompensa com um formato duplo curioso (daí um dos apelidos, "Nebulosa Duplex" ou "Pequena Haltere").

Mel 20, o Aglomerado Alfa de Perseu

O Mel 20, ou Associação Alfa Persei, é um grupo grande e disperso de estrelas jovens centrado em Mirfak, visível a olho nu como uma dispersão notável de estrelas naquela região — melhor apreciado com binóculo de campo largo ou a olho nu mesmo, já que ocupa vários graus de céu, grande demais para caber no campo de um telescópio.

NGC 1275, o núcleo ativo do Aglomerado de Perseu

A NGC 1275, também chamada Perseu A, é a galáxia mais brilhante do Aglomerado de Perseu, um aglomerado de galáxias muito mais distante (centenas de milhões de anos-luz) do que qualquer outro objeto deste guia — um alvo fraco e avançado, mais para quem já tem experiência com galáxias tênues.

As Perseidas: a chuva de meteoros que leva o nome da constelação

Todo ano, entre 23 de julho e 20 de agosto, com pico entre 10 e 13 de agosto, a Terra atravessa os destroços deixados pelo cometa periódico Swift-Tuttle, e o resultado é a chuva de meteoros mais popular do hemisfério norte: as Perseidas, também conhecidas popularmente como "lágrimas de São Lourenço" (Mourão, verbetes Perseídeos e Persêides, p. 660). O radiante — o ponto do céu de onde os meteoros parecem se originar — fica a cerca de 4° ao norte de Lambda Persei, dentro dos limites da constelação. A relação entre a chuva e o cometa Swift-Tuttle foi demonstrada pelo astrônomo italiano Giovanni Schiaparelli em 1866 (Mourão, p. 660).

Do Brasil, as Perseidas são um espetáculo modesto: como o radiante fica no hemisfério norte, ele nasce baixo e tarde, e quanto mais ao sul do país, pior a taxa de meteoros visíveis. Ainda assim, vale a tentativa nas madrugadas de meados de agosto, olhando para o horizonte norte e nordeste, de preferência sem Lua no céu.

Mitologia: o herói que decapitou a górgone

Perseu é o herói da história compartilhada com Cassiopeia, Cefeu e Andrômeda (contada com mais detalhe nos guias dessas três constelações). Antes de salvar Andrômeda, ele havia sido enviado numa missão quase impossível: matar a górgone Medusa, uma criatura cujo olhar transformava qualquer um em pedra. Usando um escudo polido como espelho (para nunca olhar diretamente para ela) e sandálias aladas emprestadas, Perseu conseguiu decapitá-la enquanto ela dormia — e, na volta, carregando a cabeça da górgone, avistou Andrômeda acorrentada à rocha e a salvou do monstro marinho.

No céu, essa cena ficou eternizada: Perseu segura a cabeça da Medusa, e é exatamente a estrela que marca essa cabeça — Algol — que "pisca" periodicamente, como se a própria górgone ainda tentasse abrir os olhos (leitura poética moderna sobre o mito e a variabilidade de Algol; não está nos livros de apoio consultados).

Roteiro de observação

Instrumento O que ver
A olho nu Mirfak cercada pelo Aglomerado Alfa de Perseu; o Duplo Aglomerado como uma mancha na Via Láctea; tentar acompanhar, ao longo de uma noite, a queda de brilho de Algol durante um eclipse (se a efeméride do mínimo coincidir).
Binóculo (10×50) O Duplo Aglomerado já resolvido em dezenas de estrelas; M 34 espalhado no campo; o grupo de Mirfak em campo largo.
Telescópio pequeno (70 a 100 mm) O Duplo Aglomerado com centenas de estrelas; M 76 como uma pequena mancha dupla; Miram separada em suas duas componentes.
Astrofotografia NGC 1499 (Califórnia) com filtro H-alfa; o Duplo Aglomerado em campo largo, mostrando as cores das estrelas mais quentes e mais frias.

Dicas de campo:

  • Escolha uma noite sem Lua entre outubro e fevereiro, com o horizonte norte livre.
  • Comece por Cassiopeia e desça até Mirfak; o Duplo Aglomerado fica a meio caminho entre as duas constelações.
  • Para acompanhar Algol, procure uma efeméride de mínimos (os horários em que ela atinge o brilho mínimo) e compare seu brilho com Épsilon (2,9) e Zeta (2,8) Persei ao longo da noite.
  • Nas madrugadas de meados de agosto, olhe para o horizonte norte/nordeste em busca das Perseidas — mesmo com taxa reduzida no Brasil, vale a tentativa.

Referências

  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Duplo Aglomerado (C14), p. 40-41 (impressa).
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Perseu, Algol, Duplo Aglomerado, M 34, M 76 e NGC 1275, p. 319-322.
  • MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbetes "Perseídeos" e "Persêides" (constelação e chuva de meteoros), p. 660.
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars. New York: Springer, 2010. Perseu com binóculos: Algol, Duplo Aglomerado, M 34 e Mel 20, p. 382-390 (impressa).
  • VIEIRA, Fernando. Identificação do céu. Do Carneiro a Perseu: variáveis clássicas, p. 77-78.
  • Catálogo de objetos de céu profundo do site (posições, magnitudes e tamanhos consultados via constellation_chart.py info Per), derivado de OpenNGC e SIMBAD.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.