setembro 21, 2026
NGC 869 e NGC 884 (Caldwell 14), o Duplo Aglomerado de Perseu: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
Se existe um objeto de céu profundo que dispensa apresentações, é o Duplo Aglomerado de Perseu: dois enxames de estrelas jovens e brilhantes, lado a lado, tão próximos que quase se tocam, visíveis mesmo a olho nu como uma mancha luminosa na Via Láctea do céu do norte. Já eram conhecidos na Antiguidade (Kambič, p. 386) e continuam a ser um dos grandes favoritos dos observadores do hemisfério norte. Este guia foi escrito para eles, mas do Rio de Janeiro a história é outra: a 57° N de declinação, o par mal passa dos 10° de altura, e a seção "E do Rio de Janeiro?" explica com honestidade o que é e o que não é possível.
Texto em revisão. Novo formato de guia de objeto, escrito a partir de livros de observação e de consultas ao SIMBAD. As fontes estão listadas no final e as dúvidas, nas pendências.

Ficha técnica e designações
Visão geral: o que é um aglomerado aberto jovem
Um aglomerado aberto é um grupo de estrelas nascidas da mesma nuvem de gás, mantidas juntas por uma gravidade fraca; com o tempo, elas se dispersam. O Duplo Aglomerado mostra o começo desse ciclo: as estrelas são quentes e azuladas, mas algumas já evoluíram para gigantes vermelhas visíveis nas fotografias (Kambič, p. 386). Os dois grupos têm 5,6 e 3,2 milhões de anos (Kambič; Monks), e Monks observa que, como estão fisicamente tão perto um do outro, é provável que tenham nascido da mesma nuvem (Monks, p. 176-177). Kambič lembra ainda que, apesar de tão jovens, não há traço de nebulosidade entre as estrelas: provavelmente os ventos das estrelas gigantes já sopraram para longe o gás restante (Kambič, p. 386).
O Duplo em números. O SIMBAD traz paralaxes de 0,3942 milissegundo de arco para NGC 869 e 0,3976 para NGC 884, que dão cerca de 8.300 e 8.200 anos-luz; esses são os valores adotados. Os livros ficam um pouco abaixo: 7.100 e 7.400 (Kambič; Monks), 6.777 e 7.644 (Allison), 7.300 (Mobberley); Ridpath fala em mais de 7 mil anos-luz, no braço de Perseu da Galáxia (Ridpath, p. 170). O tamanho aparente no SIMBAD é de 16,3′ e 15′; os livros dão de 18′ (Allison; Mobberley) a 30′ (Monks; Bakich; Data Book), o que tem mais a ver com o critério de onde acaba o aglomerado do que com o céu: em qualquer caso, os dois cabem folgadamente no mesmo campo de 1° e estão a menos de meio grau um do outro (Allison, p. 116). Kambič estima que, com pelo menos 3.000 membros no total e um diâmetro real de cerca de 75 anos-luz, o par tem estrelas até 60.000 vezes mais luminosas que o Sol; as duas mais brilhantes têm magnitude 6, e todas as maiores são supergigantes (Kambič, p. 386).
Brilho. Mobberley avisa que as magnitudes variam com o catálogo: 5,3 e 6,1 no Deep Sky Field Guide to Uranometria 2000, mas valores até duas magnitudes mais brilhantes na internet (Mobberley, p. 40). Kambič dá 4,3 e 4,4 e o catálogo do site traz 3,7 e 3,8. Na prática, o par é visível a olho nu como uma mancha em céu escuro em qualquer dessas escalas.
Os nomes. NGC 869 é também "h Persei", e NGC 884, "chi Persei" (Mobberley, p. 40). Monks explica que os nomes de estrela existem porque, até o século XVIII, ninguém sabia o que eram: eram "nuvens" ou "estrelas nebulosas", e só em 1788 William Herschel os descreveu corretamente como aglomerados (Monks, p. 176). O Data Book os lista com o apelido "Sword Handle" (Cabo da Espada), de Perseu, entre os primeiros aglomerados conhecidos, registrados por Ptolomeu (Data Book, p. 339); Bakich os inclui na lista Caldwell, como C 14. A primeira fotografia é de 1890 (Kambič, p. 386).
Estruturas notáveis
- NGC 869 (h Persei). O mais rico e mais concentrado do ponto de vista das estrelas brilhantes do centro: cerca de três dúzias de estrelas de magnitude 9 e 10 em uns 10′ (Bakich). Mobberley diz que ele tem estrelas de magnitude 6,5 a 8,5 no núcleo, que o vizinho não tem.
- A fenda em Y. Bakich vê uma fenda escura em forma de Y em NGC 869.
- NGC 884 (chi Persei). Menos concentrado, mas com mais estrelas brilhantes; o grupo mais denso fica a sudoeste (Bakich). Allison diz que ele é levemente mais brilhante e condensado (Allison, p. 116).
- RS Persei. Uma variável semirregular de cor vermelho-profundo, cercada pelas estrelas de NGC 884 (Bakich).
- As estrelas vermelhas. Fotografias coloridas mostram duas estrelas vermelhas entre os aglomerados e outras três a leste de NGC 884, contrastando com o azul predominante (Mobberley, p. 40).
- A contagem de estrelas. Kambič conta até 120 estrelas até a magnitude 11 em NGC 869 e até 140 em NGC 884 (Kambič, p. 386).
Como localizar
Não é preciso um caminho de estrelas: o Duplo Aglomerado fica no meio do caminho entre o "W" de Cassiopeia e Mirfak, e é visível a olho nu, como uma mancha na Via Láctea (Mobberley, p. 40). Bakich dá o ponto médio entre Ruchbah (Delta de Cassiopeia, 2,7) e Gama de Perseu (2,9); Mobberley diz 3° ao sul e 7° a leste de Ruchbah. Kambič usa a estrela laranja Eta de Perseu (magnitude 3,8) como guia; Allison manda achar Eta de Perseu e andar 4,5° para noroeste (Allison, p. 117). Os dois cabem no mesmo campo de um binóculo ou de uma lente de campo largo.

Quando e como observar
Com declinação de +57°, o Duplo é um objeto do hemisfério norte. A altura máxima é 90° − |latitude − declinação|: cerca de 73° a 40° N e 83° a 50° N. Mobberley diz que ele é circumpolar acima de 33° N, a melhor época sendo de setembro a janeiro (Mobberley, p. 40); Bakich indica outubro. Ridpath registra que a constelação de Perseu é vista de 90° N até 31° S, isto é, ao rés do horizonte nessa última latitude (Ridpath, p. 170).
Os gráficos mostram a altura do objeto ao longo do ano e a noite atual para o local do observatório do site (Rio de Janeiro), onde ele fica bem baixo.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 10°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 00:50 · 10° N
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 100 mag 3,7
- Enquadramento
- 100 ocupa 32 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | -14° | — | 144° |
| 20:00 | -10° | — | 144° |
| 20:30 | -6° | — | 144° |
| 21:00 | -3° | — | 144° |
| 21:30 | 0° | — | 144° |
| 22:00 | 3° | NNE 21° | 144° |
| 22:30 | 5° | NNE 18° | 144° |
| 23:00 | 7° | NNE 14° | 144° |
| 23:30 | 8° | N 10° | 144° |
| 00:00 | 9° | N 6° | 144° |
| 00:30 | 10° | N 2° | 144° |
| 01:00 | 10° | N 358° | 144° |
| 01:30 | 9° | N 354° | 144° |
| 02:00 | 8° | N 350° | 144° |
| 02:30 | 7° | NNW 346° | 144° |
| 03:00 | 5° | NNW 343° | 144° |
| 03:30 | 3° | NNW 339° | 145° |
| 04:00 | 0° | NNW 336° | 145° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
E do Rio de Janeiro?
No Rio, o Duplo Aglomerado culmina a apenas cerca de 10° de altura, ao norte, em novembro a janeiro, no início da noite. Nessa altura, a luz atravessa uma camada espessa de ar, e a poluição luminosa de Bortle 7 é máxima justamente perto do horizonte: a olho nu, é praticamente impossível reconhecê-lo. Com um binóculo de 10×50 ou 15×70 e o horizonte norte bem limpo (do alto de um morro ou da praia, por exemplo), uma mancha tênue com poucas estrelas pode aparecer. Ao olhar para o norte no hemisfério sul, o norte fica para baixo: o par aparece rente ao horizonte, e NGC 884 fica à direita de NGC 869. No Nordeste, por exemplo em Fortaleza, ele sobe a cerca de 29°, mais alto, mas ainda baixo e sujeito à bruma do horizonte. Para quem mora no Sul e no Sudeste, o mais sensato é trocar por uma "contraparte" do céu do sul: o Aglomerado do Poço dos Desejos (NGC 3532), a Caixa de Joias (NGC 4755), o aglomerado da Carena (NGC 2516) ou as Plêiades do Sul (IC 2602).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Uma mancha luminosa na Via Láctea, entre Cassiopeia e Perseu (Mobberley; Kambič). Ridpath: "mancha" com centenas de estrelas de 7ª magnitude e mais fracas, numa área do tamanho da Lua cheia. |
| Binóculo (10×50 a 15×70) | Os dois cabem no mesmo campo, com estrelas resolvidas; Bakich recomenda 15x ou mais. Kambič diz que se veem muitas gigantes vermelhas no par. |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Um telescópio pequeno de campo largo, em baixa ampliação, resolve os dois aglomerados em 1° de campo (Allison, p. 116); com 8 polegadas a 30 aumentos, ele resolveu muitos membros (Allison, p. 117). Com 100 mm em cerca de 50 aumentos, Bakich vê estrelas vermelhas, amarelas e azuis entre as brancas. |
| Telescópio de 250 mm ou mais | O par deixa de caber no campo; use ampliação baixa e explore cada aglomerado em separado: a fenda em Y de NGC 869 e o núcleo de NGC 884. Monks avisa que o Duplo é difícil de apreciar em telescópios de focal longa, como SCTs e Maksutovs (Monks, p. 176). |
Expectativa honesta: o Duplo é uma vista de campo largo. Em ampliação alta, ele perde o efeito e vira dois grupos de estrelas. A beleza está em ver os dois juntos, com as cores.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Mobberley chama o Duplo de alvo fácil com um campo de 1° (Mobberley, p. 40). Com um telescópio de 1.000 mm e uma câmera como a ASI294MC Pro (campo de cerca de 1,1° × 0,75°, calculado a partir do sensor), os dois aglomerados cabem, separados por cerca de 0,5°; com 135 a 200 mm, sobra espaço para o campo estelar rico da Via Láctea em volta. Kambič nota que a região é ótima para astrofotógrafos, com nebulosidade e outros aglomerados de Cassiopeia (Kambič, p. 387).
Desafios do alvo
- Estrelas brilhantes e coloridas. O interesse são as cores, então é preciso evitar saturar o centro: exposições curtas e muitos quadros.
- Sem nebulosidade. Não há gás para realçar (Kambič); o resultado depende de calibrar bem as cores e a nitidez.
- Altura no Brasil. Do Sul e Sudeste é inviável; só no Nordeste, e mesmo lá com a atmosfera pesada.
Equipamento e filtros
Câmera colorida de um disparo, sem filtro, ou com um filtro anti-poluição leve, se for necessário. Filtros de banda estreita não têm papel. Fotografe perto do meridiano.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (RGB) | 60 a 100 | 30 a 60 s | Cores das estrelas sem saturar; o tempo total refina o fundo |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros.
Smart telescopes e campo de visão
Um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°) enquadra os dois aglomerados, separados por cerca de 0,5°, e é um bom uso para o aparelho; como o alvo é brilhante, poucos minutos de empilhamento já mostram as cores. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o par.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
O Duplo Aglomerado é um lembrete de que o céu do norte tem tesouros que o do sul não igualaria, e vice-versa. Para quem está no hemisfério sul, ele é mais um convite para conhecer o céu do outro lado, e para explorar o vizinho Aglomerado Alfa de Perseu (Mel 20), a Galáxia de Andrômeda (M 31) e o guia do Céu de outono no hemisfério norte, onde os dois aparecem no seu melhor.
Referências
- ALLISON, Mark. Star Clusters and How to Observe Them. London: Springer, 2006. NGC 884 e NGC 869, p. 116-117.
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 821 (NGC 869 e NGC 884).
- KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Perseu, Duplo Aglomerado, p. 386-387.
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 14, p. 40-41.
- MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. O Duplo Aglomerado de Perseu, p. 176-177.
- MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Primeiros aglomerados conhecidos (p. 339) e catálogo de Caldwell (p. 344).
- RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Perseu, p. 170.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de NGC 869 e NGC 884, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.