setembro 21, 2026
NGC 1275 (Caldwell 24), Perseu A: guia completo de observação e astrofotografia de uma radiogaláxia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
Perto de Algol, a "estrela demônio" de Perseu, existe uma manchinha fraca que esconde um dos monstros mais violentos do universo próximo: um buraco negro supermassivo devorando matéria no centro da galáxia mais brilhante de um aglomerado inteiro. NGC 1275, também chamada Perseu A, é a peça central do Aglomerado de Perseu (Abell 426), um enxame de milhares de galáxias a 230 milhões de anos-luz de distância, mergulhado num gás quentíssimo que os telescópios de raios X registram em ondas de choque — literalmente o som mais grave já detectado no universo, embora inaudível. No telescópio de amador, nada disso aparece: o que se vê é uma mancha pequena e discreta. Este guia explica por que vale a pena procurá-la mesmo assim, como localizá-la, e por que, do Rio de Janeiro, ela nunca sobe muito no céu.
Texto em revisão. Este é um guia de teste do novo formato de artigo de objeto, parte do lote dos catálogos Messier e Caldwell completos. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: uma radiogaláxia no centro de um aglomerado
NGC 1275 não é uma galáxia comum. Ela é classificada como galáxia ativa (Seyfert do tipo 1,5, segundo a literatura moderna) e é uma forte fonte de rádio, catalogada como 3C 84 no Terceiro Catálogo de Cambridge (Mobberley). No seu centro há um buraco negro supermassivo que devora gás e estrelas continuamente, produzindo jatos de partículas em velocidades próximas à da luz. É esse motor central — não estrelas comuns — que faz de NGC 1275 um objeto tão estudado por astrônomos profissionais, mesmo sendo modesto ao telescópio amador.
A galáxia mais brilhante de um aglomerado inteiro. NGC 1275 fica no centro do Aglomerado de Perseu (também chamado Abell 426), que reúne milhares de galáxias a cerca de 230 milhões de anos-luz. O aglomerado, por sua vez, é o núcleo mais denso do Superaglomerado Perseu-Peixes, uma estrutura de cerca de mil galáxias que se estende por boa parte da constelação (Bakich). O catálogo de aglomerados de George Abell, publicado em 1958 com 2.712 entradas, hoje soma 4.073 aglomerados incluindo os do céu austral (Bakich).
Uma imagem impressionante, um objeto discreto. As imagens do telescópio espacial Hubble mostram filamentos de gás frio suspensos por um campo magnético ao redor do núcleo de NGC 1275, evidência direta da energia que o buraco negro central transfere para o gás ao seu redor (Mobberley). No telescópio de quintal, porém, nada disso é visível: através de instrumentos menores que 20 cm, a galáxia aparece como uma mancha pequena, fraca e sem estrutura, vista melhor com visão desviada — mesmo tendo um brilho superficial razoável (Mobberley). É um daqueles casos em que o valor do objeto está na história por trás dele, não na imagem que ele entrega ao olho.
Duas supernovas registradas. Mobberley cita duas supernovas observadas em NGC 1275: a 1968A, descoberta por Lovas em janeiro de 1968 (magnitude 15, tipo não determinado), e a 2005mz, descoberta por Jack Newton, Mike Peoples e Tim Puckett, do tipo Ia, com pico de magnitude 15,8.
Um olhar para o passado profundo. A luz de NGC 1275 que chega até nós hoje partiu da galáxia há 230 milhões de anos — na época do período Triássico tardio, quando os primeiros dinossauros começavam a surgir na Terra (Mobberley). É uma forma de lembrar que olhar para o céu profundo é, literalmente, olhar para o passado.
Estruturas notáveis
- O núcleo ativo. O verdadeiro motivo pelo qual o objeto é estudado: um núcleo galáctico ativo alimentado por um buraco negro supermassivo, fonte de rádio potente (3C 84).
- A "mancha fraca" visual. Ao telescópio amador, um objeto pequeno e sem detalhes, melhor visto com visão desviada (Mobberley).
- O campo de fundo. Um grau quadrado ao redor de NGC 1275 revela até uma centena de galáxias de fundo em magnitude 17 em exposições profundas, a maioria do Aglomerado de Perseu (Mobberley).
- Vizinhas a não confundir. NGC 1272 e NGC 1278 aparecem no mesmo campo de imagem, junto com NGC 1277; NGC 1278 é a mais brilhante das três.
- Os filamentos de gás do Hubble. Estruturas filamentares de gás frio, só visíveis em imagens do telescópio espacial (Mobberley).
Como localizar
NGC 1275 fica em Perseu, perto da fronteira com a constelação de Áries, numa região sem muitas estrelas guia de destaque. O ponto de partida mais fácil é Algol (Beta Persei), a famosa estrela variável eclipsante: a galáxia fica cerca de 2° a leste e meio grau ao norte dela (Mobberley). Como o objeto é fraco, um telescópio de pelo menos 20 a 30 cm ajuda bastante a confirmá-lo; buscar primeiro o campo com um buscador de baixo aumento e depois aumentar a ampliação sobre o ponto certo funciona melhor do que tentar mirar direto.

Quando e como observar
NGC 1275 tem declinação de +41,5°. Para um observador na latitude do Rio de Janeiro (−23°), a altura máxima que qualquer objeto alcança no meridiano é 90° menos a diferença entre a latitude e a declinação: 90 − |−23° − 41,5°| = 90 − 64,5° = cerca de 25° de altura. É uma altura baixa — cerca de um quarto da distância entre o horizonte e o zênite —, sempre olhando para o norte, e nunca deixa de sofrer com a extinção atmosférica e, num céu urbano como o do Rio (Bortle 7), com o brilho de fundo mais forte perto do horizonte. Não é um bom alvo visual daqui: os observadores do hemisfério norte, onde a galáxia passa muito mais alto (perto do zênite em latitudes como 45° N), têm uma vantagem grande sobre nós.
Ainda assim, o objeto sobe o suficiente para ser tentado em uma noite de transparência excelente, de preferência perto do horário em que cruza o meridiano norte, quando a atmosfera acima dele é a menor possível. Os gráficos abaixo usam a localização configurada no site (o Rio de Janeiro, por padrão, ou a posição aproximada de quem está lendo): o primeiro mostra a altura ao longo do ano, para escolher a melhor época; o segundo, o caminho da galáxia nesta noite específica.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 25°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 01:50 · 26° N
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 4 mag 12,2
- Enquadramento
- 19 ocupa 5 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | -18° | — | 159° |
| 20:00 | -13° | — | 159° |
| 20:30 | -8° | — | 159° |
| 21:00 | -3° | — | 159° |
| 21:30 | 2° | NE 43° | 159° |
| 22:00 | 7° | NE 39° | 160° |
| 22:30 | 11° | NE 35° | 160° |
| 23:00 | 15° | NNE 31° | 160° |
| 23:30 | 18° | NNE 26° | 160° |
| 00:00 | 21° | NNE 21° | 160° |
| 00:30 | 23° | NNE 16° | 160° |
| 01:00 | 25° | N 10° | 160° |
| 01:30 | 25° | N 4° | 160° |
| 02:00 | 25° | N 357° | 161° |
| 02:30 | 25° | N 351° | 161° |
| 03:00 | 23° | NNW 345° | 161° |
| 03:30 | 21° | NNW 340° | 161° |
| 04:00 | 19° | NNW 334° | 161° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
E do Rio de Janeiro?
Dá para tentar, mas com expectativas baixas. Com o objeto raso no horizonte norte (máximo de 25° de altura), a extinção atmosférica reduz o já baixo brilho da galáxia, e o céu urbano apaga o contraste que sobra. NGC 1275 não é um alvo recomendado para quem observa do Rio com um telescópio pequeno ou médio; é mais realista buscá-la com um instrumento de 30 cm ou mais, sob céu de campo, ou tratá-la como um alvo fotográfico com pilha longa de exposições e processamento cuidadoso, sabendo que o resultado será modesto perto do que se consegue em latitudes mais ao norte.
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Invisível; a magnitude 12,5 está muito abaixo do limite do olho humano. |
| Binóculo | Não dá para ver; é um alvo exclusivo de telescópio. |
| Telescópio de 150 a 200 mm | No limite: uma manchinha muito fraca, difícil de confirmar mesmo com visão desviada, e ainda mais baixa no céu do Rio. |
| Telescópio de 300 mm ou mais | A galáxia aparece como uma mancha pequena, sem estrutura visível, mas mais segura de identificar; sob céu escuro e de bom horizonte norte, um campo largo de baixo aumento revela outras galáxias fracas do Aglomerado de Perseu ao redor (Mobberley). |
Expectativa honesta: mesmo em condições ideais, NGC 1275 nunca vai impressionar visualmente quem observa do Brasil. O valor do objeto está inteiramente na história — o buraco negro, o aglomerado, os 230 milhões de anos-luz — mais do que na imagem que chega ao olho.
Astrofotografia: enquadramento, desafios, equipamento e filtros
Enquadramento
Mobberley recomenda um campo largo de cerca de 1° de lado, suficiente para capturar dezenas de outras galáxias do Aglomerado de Perseu ao redor de NGC 1275, muitas delas em magnitude 17 ou mais fracas em exposições profundas. Com um telescópio de foco longo (acima de 1.500 mm), o quadro fica apertado demais para mostrar o entorno rico; instrumentos de 500 a 1.000 mm de focal equilibram melhor o tamanho da galáxia (pequena, 2,6′ × 1,8′) com o campo de galáxias de fundo.
Desafios do alvo
- Altura baixa no Rio. Com o teto de cerca de 25°, a imagem sofre de mais turbulência atmosférica (seeing pior) e mais extinção do que um alvo próximo ao zênite; a nitidez tende a ser inferior à de galáxias mais ao sul.
- Brilho concentrado, mas pequeno. A galáxia é relativamente compacta; aumentos ou focais muito longas ajudam a resolver o núcleo, mas pedem guiagem muito precisa, ainda mais com o objeto baixo.
- Céu urbano. Em Bortle 7, o gradiente de luz perto do horizonte norte compete com o já fraco brilho de fundo das galáxias satélites do aglomerado.
Equipamento e filtros
Mobberley recomenda testar imagens sem filtro (unfiltered) em focais longas, já que o objetivo é registrar galáxias fracas e um pouco de cor, não uma nebulosa de emissão que se beneficiaria de filtros de banda estreita. Ele nota que uma imagem monocromática do campo, relativamente sem muita cor, fica tão impressionante quanto uma versão colorida (RGB ou LRGB) — o interesse do campo está na quantidade de galáxias reveladas, não na paleta de cores.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (luminância ou RGB) | 40 a 60 | 120 a 180 s | Acumular sinal suficiente para revelar as galáxias fracas do campo |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu equipamento e, principalmente, tente capturar o objeto o mais perto possível da passagem meridiana, quando a altura de 25° é a maior disponível.
Smart telescopes e campo de visão
Como o campo interessante de NGC 1275 é relativamente amplo — a galáxia principal, mais o entorno de galáxias satélites do Aglomerado de Perseu —, um smart telescope de campo generoso, como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), cobre bem a região central do aglomerado, embora o brilho baixo do alvo e a altura reduzida no Rio peçam bastante tempo de empilhamento e, de preferência, uma sessão perto do horário de passagem meridiana. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
NGC 1275 é um objeto para quem gosta de olhar além do que o ocular mostra: uma mancha discreta que esconde um buraco negro supermassivo, um aglomerado de milhares de galáxias e uma das maiores estruturas conhecidas do universo próximo, o Superaglomerado Perseu-Peixes. Do Rio de Janeiro, ela nunca sobe além de cerca de 25° de altura, então não é um alvo fácil nem gratificante visualmente — mas para quem tem um telescópio maior, boa transparência de céu e curiosidade pela astrofísica por trás da imagem, vale a tentativa. Para completar a visita a Perseu, veja os guias do Duplo Aglomerado de Perseu (NGC 869) e do Aglomerado Alfa de Perseu (Mel 20), dois alvos muito mais generosos na mesma constelação.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 855 (NGC 1275).
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 24, p. 60-61.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, magnitude V, dimensões e velocidade radial (redshift) de NGC 1275, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.