setembro 21, 2026

M 34, o aglomerado esquecido de Perseu: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M34 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

Perto de Algol, a "estrela demônio" de Perseu, existe um aglomerado aberto grande, solto e pouco fotografado, tão espalhado pelo céu que muita gente com telescópio de longa focal nunca chega a enquadrá-lo por inteiro. É o M 34: um dos objetos mais esquecidos do catálogo de Messier, apesar de estar ao alcance de binóculos em qualquer céu razoavelmente escuro. Do Rio de Janeiro, ele é um alvo de horizonte, baixo e curto na temporada — mas não impossível. Este guia explica o que ele é, como achá-lo e o que esperar de verdade, sem prometer mais do que a altura baixa permite.

Texto em revisão. Este artigo segue o novo formato de guia de objeto do site: dados, mapas, gráficos de altura e estratégia de captura estão todos aqui. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de M34 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: um aglomerado aberto grande e disperso

M 34 (também catalogado como NGC 1039) é um aglomerado aberto: um grupo de estrelas nascidas juntas, ainda ligadas pela gravidade, mas que com o tempo vai se dispersando conforme a galáxia as puxa em direções diferentes. É um objeto relativamente próximo e, por isso, grande no céu — o SIMBAD lista quase 50′ de diâmetro, mais do que a Lua cheia, embora o núcleo visualmente mais denso, o que os livros costumam medir, seja mais compacto, de cerca de 35′ (Bakich; Monks, Go-To Telescopes Under Suburban Skies, p. 189). Rod Mollise inclui M 34 entre os "desafios de noites frias" do seu livro sobre observação urbana, ao lado de outras planetárias e aglomerados de baixo contraste (Mollise, The Urban Astronomer's Guide, p. 213).

M 34 em números. A magnitude integrada é 5,2 (Bakich), no limite do que se vê a olho nu em céu muito escuro. A distância, pela paralaxe do SIMBAD, é de cerca de 1.670 anos-luz; os livros trazem valores próximos, de 1.400 a 1.500 anos-luz (Monks; Mollise). A idade é estimada em torno de 100 milhões de anos pelas contas mais antigas, e perto de 190 milhões pelas mais recentes (Monks, p. 189) — ainda um aglomerado jovem para os padrões estelares, mas velho o bastante para que as estrelas mais massivas já tenham deixado a sequência principal.

O apelido. Bakich atribui o nome não oficial "Aglomerado Espiral" ao observador amador norte-americano Jeff Bondono, que via nas correntes de estrelas fracas do campo um padrão de laços em espiral — um efeito de percepção, não uma estrutura física real, já que M 34 não tem a forma coesa de uma galáxia.

Estruturas notáveis

  • O núcleo estelar. Cerca de dez estrelas mais brilhantes que magnitude 9 se destacam no meio de dezenas de estrelas mais fracas (Bakich). Monks descreve entre 50 e 80 estrelas resolvíveis em telescópio médio a grande, a maioria branca ou azulada, com algumas amarelas de permeio (Monks, p. 189).
  • As correntes de estrelas fracas. É o que dá ao aglomerado o apelido de "Espiral": cadeias de estrelas de magnitude 8 a 12 que cruzam o campo em ampliações moderadas, mais um efeito de padrão do que uma estrutura real (Bakich).
  • O campo estelar amplo. Por ocupar quase 50′, M 34 pede pouca ampliação e campo largo — é um objeto mais generoso com binóculos e refratores curtos do que com telescópios de focal longa (Monks).

Como localizar

M 34 fica no lado oeste de Perseu, numa região sem estrelas muito brilhantes ao redor. O ponto de partida mais confiável é Algol (Beta Persei, mag. 2,1, a famosa "estrela demônio", uma binária eclipsante): o aglomerado está cerca de 5° a oés-noroeste dela (Bakich; Mollise, p. 213). Como Perseu está sempre baixo no horizonte norte do Rio, comece localizando Algol com um aplicativo ou carta, depois use um binóculo de campo largo para varrer a região até notar a concentração de estrelas.

Carta de localização de M34: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

M 34 tem declinação de +42°43′, o que o torna, para o Rio de Janeiro, um objeto de horizonte: baixo, mas não fora de alcance como muitos outros alvos do norte extremo. A ascensão reta de cerca de 2h42m situa a melhor época em torno de novembro e dezembro, quando o aglomerado culmina (passa pelo meridiano, no ponto mais alto do seu percurso) durante a primeira metade da noite.

Os gráficos abaixo mostram a altura do objeto ao longo do ano e nesta noite, calculados para o local do observatório do site (Rio de Janeiro).

Altura de M34 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. O objeto não passa de 30° à meia-noite em nenhuma época do ano.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZhoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Neste local o objeto não passa de 30° de altura no meio da noite em nenhuma época do ano.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 24°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
01:10 · 24° N
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
100 mag 5,2
Enquadramento
100 ocupa 50 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M34 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 20:50 e 04:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 01:10, com 24°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO21:0022:0023:0000:0001:0002:0003:0004:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -12° — 159°
20:00 -7° — 159°
20:30 -2° — 159°
21:00 3° NE 41° 159°
21:30 7° NE 37° 159°
22:00 11° NNE 33° 159°
22:30 15° NNE 29° 159°
23:00 18° NNE 24° 159°
23:30 20° NNE 19° 159°
00:00 22° NNE 14° 159°
00:30 24° N 8° 159°
01:00 24° N 2° 159°
01:30 24° N 356° 159°
02:00 23° N 350° 159°
02:30 22° NNW 344° 159°
03:00 20° NNW 339° 159°
03:30 17° NNW 334° 159°
04:00 13° NNW 329° 159°
Altura de M34 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 01:10, com 24°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte01:10 · 24°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

E do Rio de Janeiro?

A altura máxima de um objeto, ao cruzar o meridiano, é dada por 90° menos a diferença entre a latitude do observador e a declinação do objeto. No Rio (latitude −23°), isso dá 90° − |−23° − 42,72°| = 90° − 65,72° ≈ 24° acima do horizonte norte no ponto mais alto — baixo, mas real: é a mesma faixa de altura de um objeto que muita gente já observou sem perceber o quanto estava perto do limite. É preciso um horizonte norte de verdade livre de morros, prédios e árvores, e ajuda observar perto da meia-noite em novembro e dezembro, quando o aglomerado está mais alto. Em Bortle 7, a 24° de altura, a extinção atmosférica e o brilho de fundo do céu já cobram um preço notável em contraste — mas ainda é possível reconhecer a concentração de estrelas com binóculo de bom campo, e um telescópio pequeno com ocular de grande campo resolve boa parte delas. Quem estiver mais ao norte no Brasil (Nordeste, por exemplo) ganha alguns graus a mais de altura e uma vista mais confortável.

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu No limite: em céu muito escuro e transparente, pode aparecer como uma mancha esmaecida perto de Algol (Bakich). Do Rio, com o objeto baixo e o céu urbano, é praticamente inviável a olho nu.
Binóculo (7×50 a 15×70) O melhor instrumento para M 34: o campo largo acomoda o aglomerado inteiro e revela uma dúzia de estrelas mais brilhantes sobre um fundo granulado.
Telescópio de 100 mm Bakich cita cerca de 36 estrelas resolvidas entre magnitude 8 e 12, com ampliação em torno de 100x; use a menor ampliação possível para não perder o conjunto de vista.
Telescópio de 200 mm ou mais Monks descreve entre 50 e 80 estrelas resolvidas, a maioria azul ou branca, com algumas amarelas — mas alerta que instrumentos de focal longa (SCTs, Maksutov-Cassegrain) tendem a mostrar só uma fração do campo de quase 50′; um redutor focal ou uma ocular bem grande-angular ajuda bastante (Monks, p. 189).

Expectativa honesta: M 34 não impressiona como os aglomerados mais densos do catálogo — é solto, espalhado e, do Rio, sempre baixo. O prêmio está em achá-lo: numa noite de céu limpo com horizonte norte livre, é uma recompensa discreta para quem gosta de completar a lista de Messier.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Com quase 50′ de diâmetro no SIMBAD (e um núcleo mais compacto de cerca de 35′), M 34 pede um campo amplo — algo como 1° a 1,5° para deixar espaço ao redor das estrelas periféricas. Um refrator curto ou uma câmera com sensor grande e focal moderada (400 a 600 mm) enquadra o aglomerado com folga; instrumentos de focal longa (acima de 1.000 mm) tendem a cortar as extremidades.

Desafios do alvo

  • A altura baixa no Rio. A cerca de 24° no ponto mais alto, a imagem sofre com mais turbulência atmosférica (seeing pior) e mais extinção — as estrelas ficam menos nítidas e um pouco mais fracas do que estariam perto do zênite.
  • Campo estelar, não nebulosidade. Não há gás para realçar com filtros de banda estreita: o trabalho é todo sobre cor e nitidez das estrelas, com atenção a não estourar (bloom) as mais brilhantes.
  • Enquadramento generoso. É fácil cortar acidentalmente parte do aglomerado se a focal for longa demais; vale a pena testar o enquadramento antes de começar a sessão longa.

Equipamento e filtros

Um refrator apocromático curto ou uma câmera de campo largo funciona bem. Câmera colorida de um disparo (OSC) é suficiente, já que o objetivo é registrar as cores reais das estrelas (a maioria branca e azulada, com algumas amarelas) e não realçar nebulosidade. Fotografar o mais próximo possível do meridiano ajuda a reduzir a refração atmosférica diferencial, que distorce as cores das estrelas perto do horizonte — um cuidado ainda mais importante aqui, dado o quanto M 34 já fica baixo.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light (RGB ou OSC) 40 a 60 60 a 120 s Estrelas do aglomerado com boa relação sinal-ruído
Dark 20 a 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 20 a 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 30 a 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste ao seu equipamento e à altura real do objeto na sua sessão.

Smart telescopes e campo de visão

O campo largo de M 34 (até 50′ segundo o SIMBAD) cabe bem no quadro de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), com espaço de sobra ao redor. Como o objeto fica baixo no Rio, o app do telescópio pode ter dificuldade de alinhamento perto do horizonte: vale observar cedo na noite, quando o aglomerado está o mais alto possível. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

M 34 não é um objeto espetacular — é discreto, espalhado, e paga o preço de ficar baixo demais para o Rio de Janeiro na maior parte do ano. Mas é justamente esse tipo de alvo que separa quem observa por prazer de quem observa por lista: com um binóculo, um horizonte norte livre e uma noite de novembro ou dezembro, ele está ao alcance. Para quem quer continuar pela mesma região do céu, vale visitar também o vizinho planetário M 76, a Nebulosa Duplex de Perseu, outro objeto baixo mas observável do Rio.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer. Objeto nº 837 (M34 / NGC 1039).
  • MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. Springer (Patrick Moore's Practical Astronomy Series). M34, p. 213.
  • MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. Springer (Practical Astronomy Series). NGC 1039 (M34), p. 189.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de NGC 1039, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.