setembro 21, 2026
Mel 20, o Aglomerado Alfa de Perseu: guia completo de observação e astrofotografia

Quem olha para Perseu em uma noite escura e límpida do norte vê algo a mais em volta de Mirfak, a estrela mais brilhante da constelação: um enxame frouxo de estrelas azuladas que se espalha por uma área de vários diâmetros da Lua. É o aglomerado Alfa de Perseu, também chamado de Melotte 20 ou Collinder 39. Não tem o núcleo compacto do Duplo Aglomerado ou das Plêiades: ele é grande demais e frouxo demais para os telescópios comuns, e é justamente por isso que o binóculo é o seu instrumento. Este guia foi escrito para o hemisfério norte, onde Perseu passa quase no zênite no inverno, e traz uma seção sobre o que dá para ver do Rio de Janeiro, onde o aglomerado sobe pouco, mas ainda pode ser reconhecido.
Texto em revisão. Novo formato de guia de objeto, escrito a partir de livros de observação e de consultas ao SIMBAD. As fontes estão listadas no final e as dúvidas, nas pendências.

Ficha técnica e designações
| Designação principal | Mel 20 |
|---|---|
| Outras designações | Collinder / Melotte Melotte 20, Collinder 39 |
| Tipo de objeto | Objeto de céu profundo |
| Constelação | Perseus |
| Coordenadas (J2000) | RA 03h 26m 28s | Dec +48° 58′ 30″ |
| Distância da Terra | ~580 anos-luz |
| Magnitude aparente | — |
| Tamanho aparente | 243′ |
| Melhor época (BR) | Novembro, Dezembro, Janeiro |
Visão geral: o que é um aglomerado aberto frouxo
Um aglomerado aberto é um grupo de estrelas nascidas da mesma nuvem de gás, que ainda viajam juntas. Os mais compactos aparecem como manchas; os mais próximos, como o das Hiades ou este, ficam tão espalhados no céu que é difícil "vê-los" como aglomerado. Pugh nota que, nesses casos, os membros ficam separados por vários graus, e dá como exemplos as Hiades, Melotte 20 e Melotte 111 (Pugh, p. 168). Para conhecer outro exemplo, veja o guia das Hiades, Mel 25; e as Plêiades, M 45 são o caso mais compacto do mesmo tipo.
Melotte 20 em números. O SIMBAD a classifica como grupo em movimento e traz uma paralaxe de 5,718 milissegundos de arco, que dá cerca de 570 anos-luz, o valor adotado aqui; Bakich dá cerca de 600 anos-luz, e Monks fixa Mirfak em 593 (Monks, p. 217). O tamanho aparente no SIMBAD é de cerca de 4° (243′); Bakich dá cerca de 3° e diz que ele reúne mais de cem estrelas mais brilhantes que a magnitude 12 numa largura de cerca de 3°. A magnitude integrada de 1,2 é dada por Bakich e Kambič, mas ela é dominada por Mirfak, cuja magnitude visual é de 1,79 no SIMBAD.
Estrelas jovens. Tonkin explica que as estrelas do aglomerado são, em sua maioria, muito azuladas (tipos espectrais O e B), o que indica juventude, de apenas algumas dezenas de milhões de anos (Tonkin, p. 137). Mirfak, a supergigante amarelo-esbranquiçada que marca o centro, é membro do conjunto (Monks, p. 217).
Movimento comum. Kambič nota que as estrelas se afastam de nós em direção a Beta de Touro a 16 km/s, e que Delta e Épsilon de Perseu têm movimento parecido e talvez sejam membros distantes (Kambič, p. 383). Daí o nome de "aglomerado em movimento" (Tonkin, p. 137).
Duas designações. O SIMBAD lista Melotte 20 e Collinder 39 como o mesmo grupo. Ridpath também descreve Alfa de Perseu (magnitude 1,8) no centro do aglomerado Alfa de Perseu, ou Melotte 20 (Ridpath, p. 170).
Estruturas notáveis
- Mirfak (Alfa de Perseu). A supergigante F, de magnitude 1,8, no coração do grupo (Ridpath, p. 170).
- A cadeia de estrelas de 4ª a 6ª grandeza. Kambič cita Psi, 30, 34, 29 e 31 de Perseu como os membros mais brilhantes além de Mirfak; Bakich acrescenta Psi de Perseu (magnitude 4,3), com cerca de 50 estrelas brilhantes, sobretudo ao sul e a leste de Mirfak.
- As estrelas até a 9ª magnitude. Ao menos 30 delas aparecem sempre em binóculos, e mais em boas condições (Kambič, p. 383).
- A cor azulada geral. O grupo é predominantemente azul-branco, com Mirfak amarelada em contraste (Tonkin, p. 137; Monks, p. 217).
Como localizar
Não há como errar: encontre Mirfak, a estrela mais brilhante de Perseu (magnitude 1,8). O aglomerado é a cadeia de estrelas em volta dela, com o grosso ao sul e a leste. Tonkin o considera um objeto ideal para binóculos pequenos e médios, que enquadram todo ou quase todo o conjunto (Tonkin, p. 137). Monks recomenda binóculo ou telescópio de campo amplo, e não um SCT ou Maksutov (Monks, p. 217).

Quando e como observar
Com declinação de +49°, Mel 20 é um objeto do hemisfério norte. A altura máxima é 90° − |latitude − declinação|: cerca de 81° a 40° N e 89° a 50° N (quase no zênite), com o aglomerado circumpolar acima de cerca de 41° N. A melhor época vai de novembro a fevereiro, a mais alta em dezembro e janeiro por volta das 21 horas; Bakich indica novembro. Ridpath registra que a constelação de Perseu é vista de 90° N até 31° S (Ridpath, p. 170).
Os gráficos mostram a altura do objeto ao longo do ano e a noite atual para o local do observatório do site (Rio de Janeiro).
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 18°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 01:50 · 18° N
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 50 (sem magnitude cadastrada)
- Enquadramento
- 0 ocupa 540 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | -21° | — | 151° |
| 20:00 | -16° | — | 152° |
| 20:30 | -12° | — | 152° |
| 21:00 | -7° | — | 152° |
| 21:30 | -3° | — | 152° |
| 22:00 | 1° | NE 34° | 152° |
| 22:30 | 5° | NNE 31° | 152° |
| 23:00 | 8° | NNE 27° | 152° |
| 23:30 | 11° | NNE 23° | 152° |
| 00:00 | 14° | NNE 19° | 153° |
| 00:30 | 16° | NNE 14° | 153° |
| 01:00 | 17° | N 9° | 153° |
| 01:30 | 18° | N 4° | 153° |
| 02:00 | 18° | N 359° | 153° |
| 02:30 | 18° | N 354° | 153° |
| 03:00 | 17° | N 349° | 153° |
| 03:30 | 15° | NNW 344° | 153° |
| 04:00 | 13° | NNW 339° | 153° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
E do Rio de Janeiro?
Do Rio, a altura máxima é de cerca de 18°, ao norte, em dezembro e janeiro no início da noite. É baixo, mas o objeto é feito para olho nu e binóculo, e isso ajuda. Mirfak, de magnitude 1,8, é fácil de ver a olho nu; as estrelas de 4ª e 5ª magnitude do grupo, perto do limite de um céu de Bortle 7 nessa altura, se destacam com um binóculo de 7×50 ou 10×50. Tente em uma noite sem Lua, com o horizonte norte limpo, e ao olhar para o norte no hemisfério sul lembre que o norte fica para baixo: o grosso do aglomerado, ao sul e a leste de Mirfak, fica acima e à direita da estrela. Espere um punhado de estrelas azuladas, e não o enxame que se vê no hemisfério norte.
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Bakich diz que o aglomerado é óbvio a olho nu em céu escuro; em céu urbano, aparecem só as estrelas mais brilhantes em torno de Mirfak. |
| Binóculo (7×50 a 15×70) | O melhor instrumento: Tonkin destaca que binóculos pequenos e médios abrangem quase todo o aglomerado (Tonkin, p. 137). Kambič cita ao menos 30 estrelas de magnitude 9 ou mais brilhantes; Bakich, cerca de 50 estrelas brilhantes. |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Só com campo largo e menos de 20 aumentos (Bakich). Monks avisa que o aglomerado, em telescópio, é menos impressionante que em binóculo (Monks, p. 217). |
| Telescópio de 250 mm ou mais | Não é o instrumento certo: o campo é estreito demais para o objeto. |
Expectativa honesta: é um objeto de contemplação, sem núcleo nem "fechamento". Vale como estudo de cores e como quadro para uma lente de fotografia, e não como alvo de detalhe.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Com cerca de 4° de diâmetro, é preciso uma lente ou um telescópio de focal curta: uma lente de 135 mm com um sensor como o da ASI294MC Pro (campo de cerca de 8° × 5,5°, calculado a partir do sensor) abarca o aglomerado com folga; uma de 200 mm dá cerca de 5,5° × 3,7°. Com um telescópio de 1.000 mm (campo de 1,1° × 0,75°), só uma parte é enquadrada, então é preciso um mosaico.
Desafios do alvo
- Sem estrutura definida. O aglomerado é só um grupo de estrelas; o interesse está em estrelas de cor e no contraste com o fundo da Via Láctea. A composição decide o quadro.
- Brilho de Mirfak. A estrela de magnitude 1,8 cria reflexos e halos, e limita o tempo de exposição sem saturar o centro.
- Baixa altura no Brasil. A 18° de altura, a atmosfera avermelha e borra as estrelas; para fotografia, escolha uma noite excepcional.
Equipamento e filtros
Um filtro anti-poluição leve ou nenhum, e câmera colorida de um disparo; cores fiéis de estrelas pedem calibração e balanço de branco cuidadosos. Câmera dedicada de banda estreita não faz sentido aqui, pois o interesse está nas estrelas.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (RGB) | 60 a 100 | 30 a 60 s | Estrelas e cor; exposição curta para não saturar Mirfak |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta, importante em campo largo |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros.
Smart telescopes e campo de visão
Um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°) enquadra só uma pequena parte do aglomerado; para mostrá-lo inteiro, seria preciso um mosaico de muitos quadros. Escolha o seu modelo no mapa abaixo e veja como o retângulo do campo se compara com o tamanho do aglomerado.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
O Aglomerado Alfa de Perseu é um lembrete de que nem todo objeto de céu profundo cabe num telescópio. É um dos poucos em que o binóculo vence, e é um bom exercício para treinar o olho a ver estrelas "em conjunto". Combine-o, no mesmo passeio por Perseu, com o Duplo Aglomerado (NGC 869 e NGC 884). Para o panorama da estação, veja Céu de inverno no hemisfério norte e o Céu de outono no hemisfério norte.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 862 (Alfa de Perseu, Melotte 20).
- KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Perseu, Melotte 20, p. 383.
- MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. SAO 38787 (Alfa de Perseu e o aglomerado Alfa de Perseu), p. 217.
- PUGH, Philip. The Science and Art of Using Telescopes. New York: Springer. Aglomerados abertos, p. 168 (ano a conferir).
- RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Perseu, p. 170.
- TONKIN, Stephen. Binocular Astronomy. London: Springer. Melotte 20, p. 137 (ano a conferir).
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de Melotte 20 e de Alfa de Perseu, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.