setembro 21, 2026

NGC 663 (Caldwell 10), o Aglomerado da Ferradura em Cassiopeia: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de NGC 663 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

Entre os aglomerados abertos de Cassiopeia, NGC 663 é o que mais rende quando se sobe o telescópio ao céu. É rico, brilhante, fica no meio do "W" da constelação e serve de âncora para uma pequena viagem por quatro aglomerados no mesmo campo largo. Mobberley o chama de Aglomerado da Ferradura e se pergunta por que Messier catalogou o vizinho M 103 e deixou este de fora. Assim como os outros objetos de Cassiopeia, ele fica ao norte demais para o observador do Rio, mas é um clássico para quem vive em latitudes médias do hemisfério norte. Este guia é escrito para essa audiência, com uma seção franca sobre o que o Rio permite.

Imagem de referência (DSS2) de NGC 663 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

O objeto é o NGC 663 e o Caldwell 10. Bakich o lista em seu livro sob o número 807 (Bakich, objeto nº 807), e Mobberley o descreve como "Horseshoe cluster" (p. 32).

Visão geral: cem estrelas jovens numa área de dois dedos de céu

NGC 663 é um aglomerado aberto jovem. Mobberley estima 20 milhões de anos, uma idade muito baixa comparada à do Sol. Há algumas centenas de estrelas nele, das quais só umas 40 chegam à magnitude 11 (Kambič, p. 238). Em grandes aberturas, Mobberley conta cerca de uma centena de estrelas mais brilhantes que a magnitude 14 (p. 32).

Distância e tamanho. O SIMBAD dá paralaxe de 0,32 milissegundos de arco, o que corresponde a cerca de 10.200 anos-luz, e um tamanho aparente de 18′, mais da metade do diâmetro da Lua cheia. Os livros trazem distâncias menores (7.200 anos-luz em Mobberley e 6.400 em Kambič), valores de uma época em que as medidas eram menos precisas. A 10.200 anos-luz, 18′ correspondem a uns 50 anos-luz de extensão real. O brilho, magnitude 7,1, é ponto pacífico entre as fontes.

Um brilho subestimado. Bakich diz que alguns observadores, ele entre eles, viram o aglomerado a olho nu em céu escuro, e que há quem ache a magnitude oficial pessimista. Tonkin o considera superior ao vizinho M 103 em todos os aspectos: enquanto o M 103 é uma pequena mancha em forma de leque, aqui algumas estrelas já se resolvem em binóculos 10×50 (p. 120).

Uma questão de história. Mobberley destaca o mistério: por que Messier incluiu o NGC 581 (M 103) e deixou de lado o NGC 663, mais brilhante e a apenas 1° dali? (p. 32). O livro não responde, e este guia também não.

Estruturas notáveis

  • Dois pares e duas barbas. Em 50 aumentos ou mais, quatro estrelas de magnitude 8 e 9, em dois pares, saltam aos olhos, e delas escorrem duas fileiras fracas de estrelas para o sul, as "barbas", que para alguns se juntam numa ferradura (Mobberley, p. 32). Bakich as descreve como duas "cachoeiras" de estrelas que terminam em pares mais brilhantes.
  • Neblina de estrelas fracas. Em binóculos, o aglomerado é um pequeno amontoado de estrelas cercado por um halo fraco: são as estrelas que não se separam (Kambič, p. 238). Só quatro ou cinco se resolvem direto.
  • Vizinhança. NGC 654 a cerca de 1° a nor-noroeste, NGC 659 a 0,5° a su-sudoeste e M 103 a 1° do último, tudo em um campo de 5° com Ruchbah e Segin (Mobberley, p. 32).

Como localizar

O aglomerado está bem no meio do caminho entre Ruchbah (Delta) e Segin (Epsilon Cassiopeiae), pouco a leste do ponto médio da linha imaginária que as une (Mobberley, p. 32); Kambič diz que fica "no centro e um pouco ao sudeste" dessa linha (p. 238). Tonkin situa NGC 663 como o maior de vários aglomerados abertos no mesmo campo de 5° com Delta e Epsilon (p. 120). Bakich lembra que fica a 45′ a nor-nordeste de 44 Cassiopeiae. O cuidado maior é não se confundir com NGC 654 e NGC 659, que ficam muito perto. Para a vizinha M 103 e o aglomerado da Coruja (NGC 457), a partir de Ruchbah, basta voltar ao campo largo.

Carta de localização de NGC 663: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

NGC 663 (Dec +61,2°) é circumpolar acima de 29° N (Mobberley, p. 32), e a melhor época vai de setembro a janeiro. A altura máxima, dada por 90° menos a diferença entre a latitude e a declinação, é de:

  • 50° N: cerca de 79°.
  • 40° N: cerca de 69°.
  • Rio de Janeiro (−23°): cerca de 6°, apenas teórica.

E do Rio de Janeiro?

Nada de prático. Seis graus sobre o horizonte norte, em céu de cidade e com prédios, é o mesmo que não estar lá. Fica a lição de que os aglomerados de Cassiopeia dependem de latitudes mais ao norte; para o observador do Rio, os aglomerados do sul, como a Caixa de Joias, cumprem o papel que a Ferradura cumpre no norte. Os gráficos abaixo mostram o local do observatório do site, no Rio: neste caso o objeto praticamente não sai do horizonte.

Altura de NGC 663 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. O objeto não passa de 30° à meia-noite em nenhuma época do ano.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZhoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Neste local o objeto não passa de 30° de altura no meio da noite em nenhuma época do ano.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-13 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 6°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
00:10 · 6° N
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 12 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
83 mag 7,1
Enquadramento
53 ocupa 13 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de NGC 663 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 21:40 e 02:40 durante a noite; o ponto mais alto é às 00:10, com 6°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO22:0023:0000:0001:0002:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -11° — 139°
20:00 -8° — 139°
20:30 -5° — 139°
21:00 -3° — 139°
21:30 0° — 139°
22:00 2° NNE 15° 139°
22:30 3° NNE 12° 139°
23:00 5° N 8° 138°
23:30 5° N 5° 138°
00:00 6° N 1° 138°
00:30 6° N 358° 138°
01:00 5° N 354° 138°
01:30 4° N 351° 138°
02:00 3° NNW 347° 138°
02:30 1° NNW 344° 138°
03:00 -1° — 138°
03:30 -3° — 138°
04:00 -6° — 138°
Altura de NGC 663 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 00:10, com 6°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte00:10 · 6°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Possível só em céu muito escuro, segundo Bakich; a mancha é fraca e sem detalhe.
Binóculo (10×50) Uma pequena massa de estrelas com halo fraco; quatro ou cinco estrelas se resolvem com visão desviada (Kambič, p. 238; Tonkin, p. 120).
Telescópio de 60 mm Com 12x em campo largo, cabem Ruchbah, Segin e todos os aglomerados vizinhos (Mobberley, p. 32).
Telescópio de 150 mm Com 75x, cerca de 40 estrelas em duas "cachoeiras" que terminam em pares mais brilhantes (Bakich).
Telescópio de 250 mm ou maior Mais de 75 estrelas (Bakich); em grandes aberturas, uma centena até a magnitude 14 (Mobberley).
Filtros Não são necessários (Mobberley).

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Mobberley classifica NGC 663 como alvo "fácil" de imageamento (p. 32). Como o aglomerado mede cerca de 18′ e os vizinhos NGC 654 e NGC 659 estão a menos de 1°, um campo de 1,5° a 2° permite mostrar o trio e ainda incluir o M 103. Com sensor de 1 polegada, uma focal de 400 a 500 mm dá algo nessa faixa (cálculo próprio).

Desafios do alvo

  • Campo estelar rico. Cassiopeia está sobre a Via Láctea, e o fundo de estrelas compete com os membros. Um campo largo e boa cor ajudam.
  • Estrelas de cores contrastantes. As gigantes avermelhadas se destacam entre as estrelas azuis e brancas; evite saturar.
  • Alinhamento. Como em qualquer aglomerado, o alinhamento imperfeito produz halos coloridos assimétricos (Kier, ao tratar de NGC 457, p. 274).

Equipamento e filtros

Câmera colorida de tiro único ou RGB comum bastam. Filtros de banda estreita não têm utilidade em aglomerados.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light 60 a 90 30 a 60 s Cor e profundidade do campo
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite.

Smart telescopes e campo de visão

O aglomerado cabe folgadamente no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), com espaço para NGC 659 ao lado. É um alvo simples: aglomerado sem gás, sem filtro especial. Abra o mapa abaixo e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

NGC 663 mostra como um objeto pode ser melhor do que a fama sugere: fora do catálogo de Messier, acabou incluído por Moore na lista Caldwell, e merece o espaço. Para o observador do hemisfério norte, é um alvo de outono e início do inverno que junta fotografia, binóculos e uma pequena caçada de aglomerados no mesmo campo. Para quem está no Rio, é mais um lembrete de como a latitude decide o céu de cada um. Veja também o aglomerado da Coruja, o M 103, a Nebulosa do Coração e o céu de outono no hemisfério norte.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 807 (NGC 663).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Cassiopeia, NGC 663, p. 238.
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. Processamento de aglomerados abertos ("ET Cluster"), p. 274.
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 10, p. 32-33.
  • TONKIN, Stephen. Binocular Astronomy. London: Springer, 2007. NGC 663, p. 120.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e magnitude de NGC 663, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.