setembro 21, 2026

NGC 457 (Caldwell 13), o Aglomerado da Coruja ou do E.T.: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de NGC 457 — Owl Cluster — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

Poucos aglomerados abertos têm uma personalidade tão marcada quanto NGC 457, em Cassiopeia. Quem olha a nuvem de estrelas com um pouco de imaginação enxerga um extraterrestre de olhos brilhantes e braços abertos, e é por isso que o objeto é chamado de Aglomerado do E.T. ou, mais antigamente, Aglomerado da Coruja. É um dos aglomerados mais fáceis e simpáticos do hemisfério norte, e um clássico de festas de observação. Há um porém para nós: ele fica em declinação +58°, muito ao norte, e do Rio de Janeiro não passa de um sonho na linha do horizonte. Este guia foi escrito para quem observa do hemisfério norte, com uma seção honesta sobre o que dá para esperar daqui.

Imagem de referência (DSS2) de NGC 457 — Owl Cluster — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

O objeto tem a designação NGC 457 e é o Caldwell 13 na lista de Patrick Moore. Também é chamado de Aglomerado de Phi Cassiopeiae, Aglomerado da Coruja e Aglomerado E.T. (Mobberley, p. 38; Kier, p. 274).

Visão geral: um aglomerado jovem a mais de 10.000 anos-luz

NGC 457 é um aglomerado aberto: um grupo de estrelas nascidas juntas da mesma nuvem de gás, ainda frouxamente ligadas pela gravidade. Este é jovem. Mobberley estima cerca de 15 milhões de anos, o que é um piscar de olhos em termos astronômicos (o Sol tem 4,6 bilhões). O aglomerado tem pouco mais de uma centena de membros, mas só umas 30 estrelas chegam à magnitude 11 (Kambič, p. 238). Bakich conta 25 estrelas mais brilhantes que a magnitude 12, e a mais brilhante do grupo tem magnitude 8,6.

Distância e tamanho. O SIMBAD dá ao aglomerado uma paralaxe de 0,318 milissegundos de arco, o que corresponde a cerca de 10.300 anos-luz. Mobberley, Kambič e Bakich falam em 9.000: as medidas antigas subestimavam um pouco a distância. O SIMBAD lista o tamanho aparente em 15′, metade do diâmetro da Lua cheia, o que dá uns 45 anos-luz de extensão real, compatível com os 30 a 50 que os livros trazem.

Os "olhos" do E.T. A estrela Phi Cassiopeiae (magnitude 5) e a vizinha de magnitude 7 (NSV 466), a 134″ uma da outra, formam os olhos da figura, com o corpo esticado em duas fileiras de estrelas e os braços abertos (Kier, p. 274; Tonkin, p. 172). Os livros lembram que Phi e a companheira talvez sejam estrelas de primeiro plano, e não membros do aglomerado: Mobberley diz que provavelmente estão bem mais próximas, e Kier chega a estimar 2.000 anos-luz para elas. O SIMBAD, porém, dá a Phi uma paralaxe pequena e incerta (0,21 mas, equivalente a muito mais de 10.000 anos-luz), o que não apoia essa ideia. Trata-se, então, de um caso em aberto na comparação entre livros e dados modernos, e vale registrar a divergência.

História. William Herschel o descobriu em 1787. Messier o perdeu, embora seja mais brilhante que M 52 (6,9) e M 103 (7,4) (Bakich, objeto nº 789). Em 1977, David Eicher, na revista Astronomy, viu uma coruja no aglomerado, e cinco anos depois, com o sucesso do filme E.T., o nome pegou (Bakich).

Estruturas notáveis

  • Phi Cassiopeiae e NSV 466. O par de olhos, com a estrela principal de magnitude 5 tão brilhante que aparece mesmo em telescópios minúsculos (Mobberley, p. 38).
  • O núcleo em forma de X. A região central, com uns 10′ de largura, tem uma estrutura em X que o olho interpreta de vários modos (Mobberley).
  • Estrelas de brilhos variados. Além de Phi, dezenas de estrelas de magnitude 9 e 10 preenchem o centro, o que dá profundidade à imagem (Mobberley).
  • Espigões de difração. Quem usa refletor newtoniano ganha de graça uma estrela em cruz em torno de Phi, causada pelas hastes do espelho secundário (Mobberley).

Como localizar

A partir de Ruchbah (Delta Cassiopeiae), uma das estrelas do "W", ande 2° ao sul e 1° a oeste (Mobberley, p. 38). Outro atalho: Chi (magnitude 4,7), Phi (5,0) e Delta formam um pequeno triângulo, e o aglomerado fica junto a Phi, que é reconhecida pela vizinha de magnitude 7 a sudoeste (Kambič, p. 238). Tonkin sugere centralizar Phi com Ruchbah no canto nordeste do campo do binóculo (p. 172). Ao norte ficam os aglomerados fracos NGC 436 e NGC 433 (Mobberley), e o aglomerado NGC 663 e o M 103 ficam um pouco mais a leste, no mesmo campo largo.

Carta de localização de NGC 457: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Cassiopeia é circumpolar em latitudes médias do norte: NGC 457 (Dec +58,3°) nunca se põe abaixo de 32° N (Mobberley, p. 38). A melhor época vai de setembro a janeiro, quando o "W" está alto à noite. A altura máxima é 90° menos a diferença entre a latitude e a declinação:

  • A 50° N: cerca de 82°, quase no zênite.
  • A 40° N: cerca de 72°.
  • No Rio de Janeiro (−23°): cerca de 9°, apenas no papel.

Kier sugere, para câmeras coloridas de tiro único, esperar o aglomerado subir acima de 30° para evitar a dispersão atmosférica que borra a imagem (p. 274), um conselho que sobra para quem observa em latitudes médias do norte.

E do Rio de Janeiro?

Na prática, nada. Os quase 9° do papel são o ponto mais alto da trajetória, atingido por poucos minutos por volta de meados de outubro à meia-noite, e a camada de ar que a luz atravessa perto do horizonte, somada ao brilho urbano em Bortle 7 e a prédios e morros, elimina a chance. Uma tentativa só faz sentido do litoral do Nordeste ou, melhor, do norte do Brasil, onde o horizonte ao norte está livre e a altura ganha alguns graus (a altura máxima cresce um grau a cada grau de latitude norte). Os gráficos abaixo mostram o local do observatório do site, no Rio: o objeto é registrado como muito baixo e não é de fato observável.

Altura de Owl Cluster ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. O objeto não passa de 30° à meia-noite em nenhuma época do ano.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZhoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Neste local o objeto não passa de 30° de altura no meio da noite em nenhuma época do ano.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-13 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 9°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
23:40 · 9° N
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 12 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
94 mag 6,4
Enquadramento
69 ocupa 17 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de NGC 457 — Owl Cluster pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 20:40 e 02:40 durante a noite; o ponto mais alto é às 23:40, com 9°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO21:0022:0023:0000:0001:0002:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -7° — 138°
20:00 -4° — 138°
20:30 -1° — 138°
21:00 2° NNE 20° 138°
21:30 4° NNE 17° 138°
22:00 6° NNE 13° 138°
22:30 7° N 10° 138°
23:00 8° N 6° 138°
23:30 9° N 2° 138°
00:00 9° N 358° 138°
00:30 8° N 354° 138°
01:00 7° N 350° 138°
01:30 6° NNW 346° 138°
02:00 4° NNW 343° 137°
02:30 2° NNW 340° 137°
03:00 -1° — 137°
03:30 -4° — 137°
04:00 -7° — 137°
Altura de NGC 457 — Owl Cluster ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 23:40, com 9°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte23:40 · 9°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Só Phi Cassiopeiae (magnitude 5) é vista; o aglomerado em si não aparece.
Binóculo (10×50) Cerca de 10 estrelas do aglomerado, espalhadas numa área de poucos minutos de arco a noroeste de Phi, com visão desviada em condições regulares (Kambič, p. 238). Tonkin o coloca entre seus alvos preferidos de festas de estrelas (p. 172).
Telescópio de 100 a 150 mm Com 150 mm e 50x, perto de 75 estrelas sobre um brilho de fundo uniforme, as estrelas não resolvidas da Via Láctea (Bakich). O E.T. aparece.
Telescópio de 200 mm ou mais As estrelas de magnitudes 9 e 10 do centro e a estrutura em X; use baixas potências, para não perder a moldura.
Filtros Não são necessários (Mobberley).

O E.T. é mais fácil de perceber com um aumento em torno de 37x, quando os "braços" começam a se insinuar (Tonkin, p. 172).

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Kier recomenda um campo de pelo menos 30′ para distinguir as estrelas do aglomerado do fundo rico da Via Láctea (p. 274); Mobberley fala em 20′ como o mínimo. Como o aglomerado mede cerca de 15′, um campo de 1° a 1,5° é um bom equilíbrio: o E.T. fica bem identificável e o fundo de estrelas da Via Láctea ainda aparece como contexto. Uma focal de 400 a 600 mm com um sensor de 1 polegada dá algo nessa faixa (cálculo próprio, não vem dos livros).

Desafios do alvo

  • Estrela brilhante. Phi Cassiopeiae satura e "explode" (bloom) rapidamente em sensores sem antibloom: use exposições curtas (Kier, p. 274).
  • Alinhamento. Em aglomerados abertos, o alinhamento imperfeito gera halos coloridos assimétricos nas estrelas. Kier considera essa a etapa crítica (p. 274).
  • Campo denso. A Via Láctea ao fundo confunde os membros com estrelas de campo: o campo largo ajuda a separar.

Equipamento e filtros

Câmera colorida de tiro único ou RGB comum funcionam bem (Kier). Se usar filtros RGB com refrator semi-apocromático, refocalize a cada troca de filtro. Filtros de banda estreita não têm utilidade: o aglomerado não emite em linhas de gás.

Processamento

Kier sugere corrigir o bloom logo após a calibração, aplicar curvas e níveis com suavidade e deixar as estrelas brilhantes "crescerem" um pouco, porque em aglomerados a variedade de tamanhos dá profundidade; no fim, reforce a saturação para realçar o contraste entre estrelas azuis e gigantes vermelhas espalhadas (p. 274).

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light 60 a 90 30 a 60 s Cor das estrelas sem saturar Phi
Light curto 20 5 a 10 s Recuperar Phi e as estrelas centrais
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite.

Smart telescopes e campo de visão

Como o aglomerado tem uns 15′, ele cabe folgadamente no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), com espaço para o contexto. É um alvo simples: sem gás nem poeira, dispensa o filtro dual-band. Do hemisfério norte, é um alvo natural para uma noite curta de outono. Abra o mapa abaixo e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

NGC 457 é um dos aglomerados abertos mais agradáveis do céu do norte: brilhante, fácil de achar, com uma figura marcante e a estrela Phi como bônus. Para quem observa do Rio, ele é uma curiosidade que só faz sentido de outras latitudes, mas vale para quem viaja ao norte, ou para quem quer entender como o céu muda com a latitude. A vizinhança continua rendendo: veja o guia do NGC 663, do M 103 e da Nebulosa do Coração, e leia também o céu de outono no hemisfério norte.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 789 (NGC 457) e nº 795 (M 103).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Cassiopeia, NGC 457, p. 238.
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. "ET Cluster" (25 de novembro), p. 274-275.
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 13, p. 38-39.
  • TONKIN, Stephen. Binocular Astronomy. London: Springer, 2007. NGC 457, p. 172.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxes e magnitude de NGC 457, Phi Cas e Delta Cas, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.