setembro 21, 2026

IC 1805, a Nebulosa do Coração: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de IC 1805 — Nebulosa do Coração — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

Poucas nebulosas têm um nome tão certeiro quanto a do Coração. Em Cassiopeia, uma grande nuvem de hidrogênio brilha em vermelho, com o contorno de um coração, e um aglomerado de estrelas jovens se acende no centro. É um dos alvos favoritos da astrofotografia de outono e início de inverno no hemisfério norte, e um dos mais delicados: a nebulosa é enorme e muito fraca. Quem está no Rio de Janeiro não a alcança, porque ela fica a +61° de declinação, e o objeto nunca sobe de verdade acima do horizonte norte. Este guia é escrito para quem observa do hemisfério norte, com uma seção franca sobre o que o Rio permite.

Imagem de referência (DSS2) de IC 1805 — Nebulosa do Coração — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Ficha técnica e designações
Designação principalIC 1805
Outras designaçõesIC IC 1805 LBN / LDN LBN 654 Collinder / Melotte Melotte 15, Collinder 26
Tipo de objetoNebulosa de emissão (região H II)
ConstelaçãoCassiopeia
Coordenadas (J2000)RA 02h 32m 42s | Dec +61° 27′ 25″
Distância da Terra~6.500 anos-luz (estimativas de 5.500 a 20.000)
Magnitude aparente+6,5
Tamanho aparente60′
Melhor época (BR)Outubro, Novembro, Dezembro

O objeto é o IC 1805, a Nebulosa do Coração. O aglomerado aberto no centro também é conhecido como Melotte 15 (Kambič, p. 240). A vizinha IC 1848 é a Nebulosa da Alma ou do Bebê, e as duas formam a "Coração e Alma" (Bakich, objetos nº 831 e nº 846).

Visão geral: uma nuvem de gás esculpida por estrelas gigantes

A Nebulosa do Coração é uma região HII: uma nuvem de hidrogênio ionizado pela radiação ultravioleta de estrelas jovens e quentes. Bakich explica que ela brilha porque um aglomerado inteiro de estrelas nasceu dentro dela, e a radiação combinada torna a nebulosa maior ou mais brilhante. Várias estrelas centrais têm cerca de 50 vezes a massa do Sol, e seus ventos empurram o hidrogênio, o que forma os anéis de gás que dão o formato de coração (Bakich, objeto nº 831).

As estrelas do centro. O SIMBAD lista, entre as estrelas mais brilhantes do centro, HD 15558 (classificação espectral O4.5 III(f)) e HD 15570 (O4 If): estrelas extremamente quentes e luminosas do tipo O. Monks trata a estrela central SAO 12326 como a mais brilhante de um aglomerado aberto frouxo com nebulosidade associada (p. 212).

Distância e tamanho. O SIMBAD dá ao aglomerado uma paralaxe de 0,449 milissegundos de arco, ou cerca de 7.300 anos-luz; a estrela HD 15558 tem 0,576, ou uns 5.700. Os livros falam em 6.000 (Kier, p. 298), 6.150 (Monks) e 6.500 (Kambič), todos dentro dessa faixa. O aglomerado tem 13′ segundo o SIMBAD; a nebulosa mede cerca de 60′ em Bakich e Kier e mais de 2,5° em Monks, que aponta o baixíssimo brilho superficial (p. 212). A 7.300 anos-luz, 60′ correspondem a uns 130 anos-luz (cálculo próprio).

Alma e Coração. Kier e Kambič lembram que a Nebulosa do Coração e a IC 1848 provavelmente fazem parte de uma mesma nuvem de gás maior (Kier, p. 298; Kambič, p. 240). Bakich nota que a Alma tem a mesma largura que o Coração (1°), mas é mais concentrada.

Estruturas notáveis

  • O aglomerado central. Um grupo de estrelas jovens no centro da nebulosa, com as estrelas mais brilhantes do complexo (Kier; Monks).
  • O "nó" a leste e o crescente a sudoeste. Bakich recomenda, para uma visão geral, um campo de 1° que destaque o aglomerado central, um nó a leste e um crescente a sudoeste (objeto nº 831).
  • Anéis esculpidos pelos ventos. Os ventos das estrelas massivas empurram o hidrogênio e formam anéis sobrepostos.
  • Vizinhos. O aglomerado NGC 1027 (magnitude 6,7, 15′) fica 1,2° a leste, e NGC 896, uma nebulosa, cerca de 1° a sudoeste (Bakich). A Nebulosa da Alma, IC 1848, está 2,5° a lés-sudeste (Bakich).

Como localizar

A Nebulosa do Coração fica 4,9° a lés-sudeste de Epsilon Cassiopeiae, a estrela na ponta leste do "W" (Bakich). Para achar a região em binóculos, Kambič sugere partir do Duplo Aglomerado em Perseu, visível a olho nu, e mover-se para noroeste, passando por Stock 2 até a região dos aglomerados Melotte 15 e IC 1848 (p. 240-242). Kambič lembra que os aglomerados podem ser vistos em binóculos em condições perfeitas, mas a nebulosa é reservada à astrofotografia (p. 240). Quem procura o aglomerado central ainda pode conferir os vizinhos NGC 663 e M 103 na mesma constelação.

Carta de localização de IC 1805: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

A Nebulosa do Coração (Dec +61,5°) fica bem posicionada no hemisfério norte de outubro a fevereiro; Kier a indica para 14 de dezembro (p. 298). É circumpolar em latitudes médias do norte. As alturas máximas, calculadas por 90° menos a diferença entre a latitude e a declinação, são:

  • 50° N: cerca de 78°.
  • 40° N: cerca de 68°.
  • Rio de Janeiro (−23°): cerca de 5°, apenas teórica.

E do Rio de Janeiro?

Impossível na prática. Cinco graus sobre o horizonte norte, com ar espesso, brilho urbano em Bortle 7 e obstáculos, não permitem enxergar uma nebulosa de superfície tão baixa, e nem uma imagem longa a resgataria. Os gráficos abaixo mostram o local do observatório do site, no Rio: o objeto fica praticamente sobre o horizonte, e a Nebulosa do Coração é um dos alvos que fazem a latitude importar. Para uma nebulosa de emissão comparável, o Rio tem Carina e a Lagoa.

Altura de Nebulosa do Coração ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. O objeto não passa de 30° à meia-noite em nenhuma época do ano.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZhoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Neste local o objeto não passa de 30° de altura no meio da noite em nenhuma época do ano.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 6°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
01:00 · 6° N
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
92 mag 6,5
Enquadramento
68 ocupa 133 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de IC 1805 — Nebulosa do Coração pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 22:30 e 03:30 durante a noite; o ponto mais alto é às 01:00, com 6°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO23:0000:0001:0002:0003:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -17° — 140°
20:00 -13° — 140°
20:30 -10° — 140°
21:00 -7° — 140°
21:30 -4° — 140°
22:00 -2° — 140°
22:30 0° NNE 17° 140°
23:00 2° NNE 14° 140°
23:30 4° N 11° 140°
00:00 5° N 7° 140°
00:30 5° N 4° 140°
01:00 6° N 0° 141°
01:30 5° N 357° 141°
02:00 5° N 353° 141°
02:30 4° N 350° 141°
03:00 2° NNW 346° 141°
03:30 0° NNW 343° 141°
04:00 -2° — 141°
Altura de IC 1805 — Nebulosa do Coração ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 01:00, com 6°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte01:00 · 6°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Invisível.
Binóculo (10×50 a 15×70) O aglomerado Melotte 15 pode ser visto em condições perfeitas; a nebulosa fica reservada a longas exposições (Kambič, p. 240).
Telescópio de 200 mm ou mais Bakich indica 200 mm no mínimo, com céu escuro e filtro de nebulosa, e um campo de cerca de 1° (objeto nº 831). Monks fala em brilho superficial notoriamente baixo e dificuldade mesmo em céu escuro (p. 212).
Filtros Bakich recomenda um filtro de nebulosa.

O aglomerado central não é desafio para instrumentos de abertura média a grande, segundo Monks (p. 212).

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Com cerca de 60′ (Kier) e mais de 2,5° em extensões máximas segundo Monks, a nebulosa pede um campo de pelo menos 1,5° a 2°, que cabe em focais de 300 a 400 mm com sensor de 1 polegada, e permite incluir NGC 896 e mesmo a Alma no mesmo quadro (cálculo próprio). Com uma focal de 500 mm, dá para fazer um mosaico de dois painéis para abarcar o Coração e a Alma.

Desafios do alvo

  • Brilho superficial baixo. A nebulosa é muito fraca, mesmo sob céu escuro (Monks, p. 212). Precisa de muito tempo total.
  • Contraste entre centro e periferia. O aglomerado central é bem mais brilhante que o gás; combine exposições curtas e longas.
  • Céu com luz. Com poluição luminosa, um filtro dual-band é quase obrigatório.

Equipamento e filtros

Câmera colorida com filtro dual-band (H-alfa e OIII), ou câmera monocromática em banda estreita (paleta SHO ou HOO), são as escolhas mais comuns. Como a emissão é dominada pelo H-alfa, o filtro H-alfa sozinho já rende o formato.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light (gás) 90 a 150 120 a 300 s Nebulosidade fraca em banda estreita
Light curto (centro) 20 20 a 30 s Preservar o aglomerado central
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite.

Smart telescopes e campo de visão

A Nebulosa do Coração mede mais que o campo do Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), de modo que um único quadro pega o núcleo e o aglomerado, mas corta as bordas; um mosaico de dois ou três painéis inclui o coração inteiro. O filtro dual-band do aparelho ajuda muito. Abra o mapa abaixo e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

A Nebulosa do Coração é um dos grandes cartões-postais do céu do norte: uma região de formação estelar tão grande que só se mostra em fotografias longas. Para o Rio, ela permanece uma imagem de outros hemisférios, e é um bom lembrete de como a latitude molda o que podemos ver. Se você viaja para o norte, leve o equipamento: ela é um alvo generoso. Veja também o aglomerado da Coruja, o NGC 663 e o céu de outono no hemisfério norte.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objetos nº 831 (IC 1805) e nº 846 (IC 1848).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Cassiopeia, Melotte 15 e IC 1805, p. 240-242.
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. "Heart Nebula" (14 de dezembro) e "Soul Nebula" (18 de dezembro), p. 298-299.
  • MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. New York: Springer, 2011. SAO 12326 (no coração da Nebulosa do Coração), p. 212.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipos espectrais e paralaxes de IC 1805, HD 15558 e HD 15570, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.