setembro 21, 2026

M 103 (NGC 581), o pequeno aglomerado de Cassiopeia: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M103 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

M 103 é um pequeno aglomerado de estrelas em Cassiopeia, logo ao lado da estrela Delta (Ruchbah). Não é o mais brilhante, nem o maior, e nem sequer o mais bonito de sua vizinhança, mas tem um lugar de honra: ele é o último objeto da lista original de Charles Messier (os números 104 a 110 foram acrescentados por outros, depois). Para quem observa do hemisfério norte, é um alvo modesto e simpático, quase sempre observado junto com os vizinhos. Para quem está no Rio de Janeiro, é um objeto que nunca sobe de verdade. Este guia é escrito para os observadores do norte, com uma seção curta sobre o que dá para esperar aqui.

Imagem de referência (DSS2) de M103 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

O objeto é o M 103, também catalogado como NGC 581 (Bakich, objeto nº 795).

Visão geral: um aglomerado jovem e distante

M 103 é um aglomerado aberto: um grupo de estrelas nascidas juntas, ainda próximas umas das outras. O SIMBAD dá uma paralaxe de 0,373 milissegundos de arco, o que corresponde a cerca de 8.700 anos-luz; Kambič traz 8.500, praticamente o mesmo (p. 239). Ele lembra que é um dos aglomerados mais distantes dessa categoria que se pode ver em binóculos. O tamanho aparente, segundo o SIMBAD, é de 7,4′ (Bakich e Kambič falam em 6′), o que dá uns 19 anos-luz de extensão real, contra os 15 do livro. O brilho é de magnitude 7,4.

Poucas estrelas, um formato de leque. Bakich descreve cerca de 40 estrelas de magnitude 8 a 13 dispostas num triângulo de aproximadamente 5′ de lado. Tonkin o compara a uma pequena mancha nebulosa em forma de leque, bem menos impressionante que o vizinho NGC 663 (p. 120).

Um objeto que só está na lista por ser de Messier. Kambič avisa que o aglomerado só é mencionado porque tem entrada no catálogo de Messier, e não pelo brilho (p. 239). Mobberley ecoa a estranheza de Messier ter incluído o M 103 e deixado de lado o NGC 663, mais brilhante e a 1° dali (Mobberley, p. 32). Bakich lembra o mesmo sobre o NGC 457, também mais brilhante.

Um roteiro de aglomerados. Como o M 103 não sustenta uma noite sozinho, o melhor uso dele é como parada de um passeio pelo "W" de Cassiopeia. Comece pelo NGC 663, o mais rico do grupo, passe por NGC 659 e NGC 654 e termine no M 103, que fica ao lado de Delta e serve de contraste: em poucos graus de céu você compara um aglomerado rico, um médio e um pequeno, todos com idades e distâncias parecidas. Se o céu estiver bom, vá até o aglomerado da Coruja, a pouco mais de 2° dali. A ideia, no fundo, é a mesma que Mobberley sugere ao comparar os aglomerados vizinhos num campo de 5° (p. 32), e ela transforma um objeto discreto numa boa desculpa para passear pela constelação.

Estruturas notáveis

  • A estrela brilhante ao lado. Uma estrela de magnitude 7 próxima ao aglomerado pode ofuscar a fraca nebulosidade em binóculos de óptica mediana (Kambič, p. 239). A figura do livro mostra também Delta Cassiopeiae na vizinhança.
  • O triângulo central. As estrelas mais brilhantes formam um pequeno triângulo, que Bakich descreve com 5′ de lado.
  • Vizinhos. NGC 659 fica a cerca de 1° e NGC 654 um pouco mais a nor-noroeste de NGC 663; o NGC 663 fica no meio do "W" (Mobberley, p. 32).

Como localizar

A partir de Delta Cassiopeiae (Ruchbah), o aglomerado está cerca de 1° a lés-nordeste (Bakich). Kambič lembra que ele está no mesmo campo de visão que a brilhante Delta, o que facilita achá-lo (p. 239). Mobberley traz um segundo caminho: a partir de NGC 659, ele está a 1° a oeste. Em qualquer caso, um campo largo de 5° com Ruchbah e Segin no quadro ajuda a se orientar entre os aglomerados (Mobberley, p. 32).

Carta de localização de M103: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

M 103 (Dec +60,7°) é circumpolar em latitudes médias do norte e fica bem posicionado de setembro a janeiro. As alturas máximas, calculadas por 90° menos a diferença entre a latitude e a declinação, são:

  • 50° N: cerca de 79°.
  • 40° N: cerca de 69°.
  • Rio de Janeiro (−23°): cerca de 6°, teórica.

E do Rio de Janeiro?

Não vale a tentativa. Seis graus sobre o horizonte norte, sob céu de cidade, é o mesmo que nada, e o aglomerado já é fraco em condições ideais. Quem quiser recuperar o catálogo de Messier a partir do Rio precisa aceitar que alguns objetos ficam de fora, e M 103 é um deles. Os gráficos abaixo mostram o local do observatório do site, no Rio: neste caso, o objeto praticamente não sai do horizonte.

Altura de M103 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. O objeto não passa de 30° à meia-noite em nenhuma época do ano.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZhoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Neste local o objeto não passa de 30° de altura no meio da noite em nenhuma época do ano.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 6°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
00:00 · 6° N
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
78 mag 7,4
Enquadramento
40 ocupa 10 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M103 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 21:20 e 02:40 durante a noite; o ponto mais alto é às 00:00, com 6°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO22:0023:0000:0001:0002:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -10° — 139°
20:00 -7° — 139°
20:30 -4° — 139°
21:00 -1° — 139°
21:30 1° NNE 17° 139°
22:00 3° NNE 14° 139°
22:30 4° N 11° 139°
23:00 5° N 7° 139°
23:30 6° N 4° 139°
00:00 6° N 0° 139°
00:30 6° N 357° 139°
01:00 6° N 353° 139°
01:30 4° N 349° 139°
02:00 3° NNW 346° 139°
02:30 1° NNW 343° 139°
03:00 -1° — 139°
03:30 -4° — 139°
04:00 -7° — 139°
Altura de M103 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 00:00, com 6°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte00:00 · 6°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Invisível.
Binóculo (10×50) Um desafio: pede noite perfeita e ótica de qualidade; a estrela de magnitude 7 vizinha pode ofuscar o aglomerado (Kambič, p. 239). Tonkin o descreve como um leque de nebulosidade (p. 120).
Telescópio pequeno Cerca de 40 estrelas de magnitude 8 a 13 num triângulo de 5′; melhor com 100x (Bakich).
Telescópio de 200 mm ou mais Mais estrelas do triângulo, com aumentos médios.
Filtros Não ajudam.

Kambič sugere procurar montanhas altas, com céu escuro e sem poluição luminosa, para o caso dos binóculos (p. 239).

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Como o aglomerado tem uns 7′, ele parece pequeno num campo de 1°. Vale enquadrar o M 103 junto com Delta Cassiopeiae e os vizinhos NGC 659 e NGC 663 num campo de 2° a 3°, o que dá uma composição rica de aglomerados (cálculo próprio). Se a ideia for destacar o M 103, uma focal de 1.000 mm dá um campo de cerca de 1° com sensor de 1 polegada.

Desafios do alvo

  • Estrela brilhante próxima. A estrela de magnitude 7 pode gerar halos e espigões; controle o tempo de exposição.
  • Campo estelar. A Via Láctea de fundo é rica: o aglomerado é pequeno e se mistura com estrelas de campo.
  • Alinhamento. Alinhe com cuidado para evitar halos coloridos assimétricos (Kier, ao tratar de NGC 457, p. 274).

Equipamento e filtros

Câmera colorida de tiro único ou RGB comum bastam. Não há gás a realçar, portanto filtros de banda estreita não ajudam.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light 60 a 90 30 a 60 s Cor e profundidade do campo
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite.

Smart telescopes e campo de visão

Com 7′, o M 103 aparece pequeno no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), mas isso permite incluir vizinhos como NGC 654 e NGC 659, o que faz uma boa imagem. Abra o mapa abaixo e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

M 103 não vai impressionar ninguém sozinho, e é justamente isso que o torna interessante: é um objeto de catálogo mais do que de beleza. Quem persegue os 110 objetos de Messier vai precisar dele; quem está no Rio precisa aceitar que ele ficará de fora, a não ser numa viagem ao norte. Veja também o vizinho NGC 663, o aglomerado da Coruja, a Nebulosa do Coração e o céu de outono no hemisfério norte.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 795 (M 103) e nº 789 (NGC 457).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Cassiopeia, M 103, p. 239.
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. Processamento de aglomerados abertos ("ET Cluster"), p. 274.
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 10, p. 32.
  • TONKIN, Stephen. Binocular Astronomy. London: Springer, 2007. NGC 663 e M 103, p. 120.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e magnitude de M 103, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.