setembro 21, 2026
M 61, a espiral de frente no extremo sul do Aglomerado de Virgem: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
M 61 fica um pouco afastada do núcleo mais denso do Aglomerado de Virgem, isolada o bastante para que os observadores do século XIX discutissem se ela era mesmo real. É uma espiral vista quase de frente, com braços enrolados e pouco brilhantes — o tipo de galáxia que, segundo os livros, "surpreende que Messier a tenha detectado" com o telescópio modesto de sua época. Hoje, com um telescópio de 250 a 300 mm e céu escuro, ela recompensa quem souber onde procurar. Este guia mostra como achá-la, o que esperar dela e como fotografá-la.
Texto em revisão. Este guia segue o novo formato de guia de objeto. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: uma espiral isolada no extremo sul do aglomerado
Enquanto a maioria das galáxias Messier de Virgem se concentra numa faixa estreita entre as estrelas Denebola e Vindemiatrix, M 61 fica sozinha, vários graus mais ao sul, perto do equador celeste — o que, do Brasil, é uma vantagem, porque a coloca ainda mais alta no céu que suas vizinhas do aglomerado. É uma espiral de frente, com braços bem enrolados; o SIMBAD a classifica como "Sc(dSc)", um subtipo com núcleo/disco denso, e dá dimensões praticamente circulares, de 4,996′ × 4,956′.
M 61 em números. A magnitude, segundo o SIMBAD, é 9,65 (banda V), próxima da que os livros trazem: 9,7 (Bakich; Moore). O tamanho aparente, porém, diverge bastante: o SIMBAD dá quase 5′, enquanto o catálogo do site chega a 6,89′ e Bakich a 6,0′ × 5,9′ — uma diferença que reflete quanto do brilho superficial fraco dos braços externos cada medida consegue captar.
Uma "descoberta" contestada. Bakich cita o observador britânico do século XIX William Henry Smyth, que descreveu M 61 como grande, pálida e bem definida, mas achou surpreendente que Messier tivesse conseguido detectá-la em 1779 com seu telescópio de apenas 3,5 pés (cerca de 9 cm) de abertura — um comentário que, hoje, serve de lembrete de como as galáxias de baixo brilho superficial já eram um desafio antes mesmo da fotografia. A descoberta é hoje atribuída ao astrônomo italiano Barnaba Oriani, que a viu de forma independente dias antes de Messier catalogá-la (conhecimento geral, fora dos livros consultados).
Sem distância confiável. O SIMBAD lista uma paralaxe de 0,0797 mas para M 61, mas o valor resultaria em uma distância de apenas cerca de 41.000 anos-luz — incompatível com qualquer estimativa séria para uma galáxia do Aglomerado de Virgem, e quase certamente um artefato de medição, não uma paralaxe real (galáxias inteiras não têm paralaxe trigonométrica mensurável; o que a missão Gaia mede, nesses casos, costuma ser ruído ou uma fonte pontual não relacionada dentro do campo). O texto ignora esse valor e usa a mesma faixa de 50 a 65 milhões de anos-luz adotada para o Aglomerado de Virgem nos demais guias.
Estruturas notáveis
- O disco quase de frente. Diferente das elípticas do aglomerado, M 61 mostra (em fotografia e nos maiores telescópios amadores) um disco com braços, não uma bola uniforme.
- Os braços enrolados. Bakich descreve extensões curtas de dois braços, visíveis em 300 mm; em telescópios muito grandes, uma barra espessa orientada norte-sul.
- O núcleo. Relativamente concentrado, consistente com o subtipo "dSc" (disco denso) do SIMBAD.
Como localizar
Bakich indica o caminho mais direto: localize as estrelas 16 Virginis (magnitude 5,0) e 17 Virginis (magnitude 6,5); M 61 fica entre as duas, um pouco mais perto de 17 Virginis. Como M 61 está isolada do grupo principal de galáxias Messier de Virgem (a cadeia que vai de M 84 a M 90), vale a pena tratá-la como uma parada à parte no seu roteiro pelo aglomerado, e não tentar encaixá-la no mesmo salto de estrelas usado para M 58, M 59, M 60 ou M 84.
Orientação vista do Rio. Olhando para o norte, M 61 passa perto do zênite, mais alta que a maioria das galáxias do aglomerado — um bom motivo para não deixá-la de fora do roteiro. O norte celeste fica para baixo e o leste para a direita no ocular; as cartas do hemisfério norte, com norte para cima, aparecem giradas de 180°.

Quando e como observar
Com declinação de apenas +4,5°, M 61 passa a cerca de 62,5° de altura no Rio de Janeiro (calculado: 90° − |−23° − 4,5°|), a mais alta das cinco galáxias de Virgem deste lote — quase no zênite, uma vantagem real para um objeto de brilho superficial baixo. Com ascensão reta de 12h22, ela cruza o meridiano por volta da meia-noite em meados de março e por volta das 21h no início de maio, um pouco mais cedo que M 58, M 59, M 60 e M 84. A temporada vai de fevereiro a junho, com pico em março e abril.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -13°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 04:00 · -13° E
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 35 mag 10,3
- Enquadramento
- 61 ocupa 15 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | -38° | — | 44° |
| 20:00 | -45° | — | 44° |
| 20:30 | -51° | — | 45° |
| 21:00 | -58° | — | 45° |
| 21:30 | -63° | — | 45° |
| 22:00 | -68° | — | 45° |
| 22:30 | -71° | — | 46° |
| 23:00 | -71° | — | 46° |
| 23:30 | -69° | — | 46° |
| 00:00 | -65° | — | 46° |
| 00:30 | -59° | — | 47° |
| 01:00 | -53° | — | 47° |
| 01:30 | -47° | — | 47° |
| 02:00 | -40° | — | 47° |
| 02:30 | -34° | — | 48° |
| 03:00 | -27° | — | 48° |
| 03:30 | -20° | — | 48° |
| 04:00 | -13° | — | 48° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Nada. |
| Binóculo (10×50) | Em céu bem escuro, uma manchinha redonda e pálida. Sob Bortle 7, geralmente invisível. |
| Telescópio de 150 a 250 mm | Uma mancha redonda com núcleo levemente mais brilhante, sem estrutura clara. |
| Telescópio de 300 mm ou mais | Extensões curtas dos dois braços espirais, visíveis com céu escuro (Bakich). |
| Telescópio muito grande (400 mm+) | Uma barra espessa, orientada norte-sul, em céu excelente (Bakich). |
| Filtros | Nenhum ajuda. |
Uma expectativa realista. M 61 é, ao ocular, discreta: uma mancha redonda que só revela os braços em aberturas grandes e céu muito escuro. Sob o céu do Rio, mesmo com sua altura privilegiada, é um alvo mais gratificante em fotografia do que em observação visual casual.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
M 61 mede cerca de 5′, pequena o bastante para caber, isolada, em qualquer campo comum. Com um telescópio de 1.500 a 2.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro, a galáxia preenche uma fração razoável do quadro, o suficiente para revelar os braços em processamento cuidadoso; com 1.000 mm (campo de cerca de 1,1° × 0,75°, calculado a partir do sensor e da focal), ela fica pequena no quadro, mas ainda vale a pena para quem prioriza um campo mais amplo com estrelas de fundo.
Desafios do alvo
- Brilho superficial baixo nos braços. É a parte mais interessante de M 61 e a mais difícil de capturar; exige tempo de exposição total generoso.
- Tamanho pequeno. Ao contrário de M 60 ou do par M 58-M 59-M 60, M 61 não tem vizinhas próximas para compor o quadro; o enquadramento é sobre ela mesma.
- Céu urbano. Sob Bortle 7, os braços externos são os primeiros a se perder no fundo do céu; um filtro de poluição luminosa de banda larga ajuda a reduzir o gradiente.
Equipamento e filtros
Câmera colorida de tiro único ou LRGB, de preferência com focal mais longa que a usada para as demais galáxias de Virgem deste lote, para aproveitar a estrutura espiral. Filtros de banda estreita não ajudam: M 61 não tem regiões de formação estelar fortes o bastante para valer a pena em H-alfa com equipamento amador comum.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light | 100 a 160 | 120 a 180 s | Núcleo e braços espirais fracos |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu equipamento e ao céu da noite.
Smart telescopes e campo de visão
Um Seestar S50 (campo de cerca de 1,3° × 0,7°) enquadra M 61 com folga e ainda inclui bastante espaço de céu ao redor, já que a galáxia é pequena; para revelar os braços, o resultado depende mais do tempo total de empilhamento que do enquadramento. Abra o mapa abaixo, escolha o seu modelo e veja o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
M 61 é a galáxia mais alta no céu do Rio entre as Messier de Virgem, e também a mais isolada: uma espiral de frente que exige abertura e céu escuro para mostrar o que a diferencia das elípticas vizinhas. Vale visitá-la como uma parada à parte no seu roteiro pelo Aglomerado de Virgem, sem tentar encaixá-la no mesmo salto das outras galáxias. Continue com os guias de M 58, M 59, M 60, M 84 e da constelação de Virgem.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 244 (M 61).
- MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Tabela de galáxias Messier de Virgem (M 61, mag. 9,7), p. 156-157.
- RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Verbete Virgem, p. 178.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo, dimensões, brilho e paralaxe de M 61, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.