setembro 22, 2026

Andrômeda, a Princesa Acorrentada: guia da constelação que abriga a galáxia vizinha

Carta estelar de Andrômeda como aparece do Brasil, olhando para o norte: Alpheratz, Mirach e Almach formando as duas fileiras da constelação, com M 31, M 32 e M 110 marcadas perto de Mirach, e NGC 752, NGC 7662 e NGC 891 em outros pontos da figura

Se você já ouviu falar em alguma galáxia além da nossa, provavelmente foi essa: a Galáxia de Andrômeda, M 31, a maior vizinha do Grupo Local e o objeto mais distante que o olho humano consegue ver sem ajuda de instrumento algum. Mas a constelação em si — a princesa etíope acorrentada a uma rocha, salva por Perseu de um monstro marinho — também merece ser conhecida por conta própria: tem uma das duplas mais bonitas do céu em Almach, uma estrela que já foi disputada entre duas constelações diferentes, e um desenho simples de encontrar a partir do Grande Quadrado de Pégaso. Neste guia você vai aprender a achar Andrômeda a partir de pontos de referência já conhecidos, localizar M 31 (e seus dois satélites, M 32 e M 110) e entender por que essa é uma das histórias mitológicas mais completas do céu.

Texto em revisão. Este é um artigo de teste, escrito a partir de fontes de referência; as fontes estão listadas no final.

A princesa entre Pégaso e Perseu

Andrômeda (Andromeda, abreviatura And) é uma constelação boreal grande, de cerca de 722 graus quadrados, limitada por Triângulo, Peixes, Pégaso, Lagarto, Cassiopeia e Perseu (Mourão, verbete Andromeda, p. 73). No mito, ela representa a princesa etíope filha de Cassiopeia e Cefeu, salva por Perseu do monstro marinho enviado por Poseidon — a mesma história contada com mais detalhe nos guias de Cassiopeia e Cefeu.

Sozinha, a constelação é um desenho simples: duas fileiras de estrelas de brilho moderado que se abrem a partir de Alpheratz, no canto do Grande Quadrado de Pégaso, até Almach, já na fronteira com Perseu. Mas o que faz Andrômeda famosa não é o desenho — é o que está escondido dentro dele: a galáxia espiral grande mais próxima da Via Láctea, visível a olho nu em céu escuro como uma manchinha alongada, o único objeto verdadeiramente extragaláctico que a maioria das pessoas já viu sem telescópio.

Quando e como achar

Melhor época. O centro de Andrômeda culmina por volta das 21h locais em novembro. A boa temporada de observação vai de outubro a janeiro, quando a constelação sobe bem alta no início da noite.

Para onde olhar. Com declinações entre +24° e +48°, Andrômeda fica sempre voltada para o norte, mas sobe consideravelmente mais alto do que Cassiopeia ou Cefeu — é uma das constelações "do norte" mais fáceis de observar do Brasil.

Cidade Alpheratz (Dec +29,1°) Mirach (Dec +35,6°) Almach (Dec +42,3°)
Boa Vista (RR) 64° 57° 50°
Manaus (AM) 58° 51° 45°
Recife (PE) 53° 46° 40°
Brasília (DF) 45° 39° 32°
Rio de Janeiro (RJ) 38° 31° 25°
São Paulo (SP) 37° 31° 24°
Porto Alegre (RS) 31° 24° 18°

Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós com as declinações do catálogo do site e a latitude de cada cidade (altura = 90° − |latitude − declinação|); valores arredondados. Diferente de Cassiopeia e Cefeu, Andrômeda sobe bem em todo o Brasil, inclusive no Sul — sempre virada para o norte, mais alta quanto mais perto do equador.

Carta estelar de Andrômeda como aparece do Brasil, olhando para o norte: Alpheratz, Mirach e Almach formando as duas fileiras da constelação, com M 31, M 32 e M 110 marcadas perto de Mirach, e NGC 752, NGC 7662 e NGC 891 em outros pontos da figura
Carta estelar de Andrômeda como ela aparece do Brasil ao olhar para o norte: o norte fica embaixo e o leste à direita. As linhas de constelação são as oficiais do d3-celestial. A linha laranja tracejada é o limite oficial da constelação; Andrômeda não é atravessada pela eclíptica. Em verde-claro, os objetos de céu profundo citados neste artigo — o círculo tracejado maior em torno de M 31 e M 32 mostra o tamanho aparente da galáxia. Estrelas: catálogo HYG v4.1 (CC BY-SA 4.0); limites de constelação: IAU. Gerada por Astronomia no Telhado com o Carina.

Passo a passo.

  1. Ache o Grande Quadrado de Pégaso, quatro estrelas de brilho moderado formando um quadrado quase perfeito, bem alto no céu de primavera/verão do hemisfério sul. Alpheratz é o canto do quadrado mais próximo de Andrômeda — hoje oficialmente uma estrela de Andrômeda, embora por muito tempo também tenha sido contada como parte de Pégaso.
  2. A partir de Alpheratz, duas fileiras curvas de estrelas se abrem em direção a Perseu. A fileira principal passa por Mirach e termina em Almach.
  3. M 31 fica perto de Mirach: suba cerca de 8° a partir dela (na direção de duas estrelas mais fracas, Mu e Nu Andromedae) até avistar a mancha alongada da galáxia.
  4. Almach, no extremo da fileira, é uma das duplas mais bonitas do céu para quem tem um telescópio pequeno.

As estrelas de Andrômeda

Estrela Brilho visual (mag.) Tipo espectral Observação
Alpheratz (alfa) 2,07 B8 IV-V canto do Grande Quadrado de Pégaso; binária espectroscópica
Mirach (beta) 2,07 M0 III (gigante vermelha) ponto de partida para achar M 31
Almach (gama) 2,10 (par) K3 IIb + B9,5 V bela dupla dourada e azulada
Delta And 3,27 K3 III gigante alaranjada
Mu And 3,86 A5 V estrela de referência para achar M 31

Brilhos e tipos espectrais consultados no catálogo do site (HYG v4.1); distâncias omitidas por não terem sido conferidas ao vivo no SIMBAD nesta sessão (ver pendências).

Alpheratz tem uma curiosidade histórica: por muito tempo foi contada tanto como Alfa de Andrômeda quanto como Delta de Pégaso, compartilhada entre as duas constelações, já que forma ao mesmo tempo a cabeça da princesa e o quarto canto do Grande Quadrado. Quando a União Astronômica Internacional fixou os limites oficiais das 88 constelações, em 1930, ela ficou definitivamente do lado de Andrômeda (relato baseado em fontes de referência do projeto; ver pendências). Mourão registra o nome como de origem árabe, algo como "o umbigo do cavalo" — referência a Pégaso, o cavalo alado (verbete Alpheratz, Mourão, p. 65).

Mirach é uma gigante vermelha que serve de ponto de partida clássico para caçar M 31: da estrela, sobe-se por duas estrelas mais fracas (Mu e Nu Andromedae) até a galáxia.

Almach é o grande prêmio de telescópio da constelação: uma dupla física com uma componente dourada de magnitude 2,3 e uma companheira azul-esverdeada de magnitude 4,8, separadas por cerca de 10 segundos de arco — um dos contrastes de cor mais bonitos do céu, comparável ao de Albireo, no Cisne. Em binóculo, aparece como uma estrela só; qualquer telescópio pequeno já separa o par.

M 31, M 32 e M 110: a galáxia e suas satélites

A grande atração de Andrômeda é, claro, a Galáxia de Andrômeda, M 31: uma espiral grande, de tamanho e natureza parecidos com os da Via Láctea, a cerca de 2,5 milhões de anos-luz de distância (valor atual; Mourão, de 1987, cita 2,2 milhões — ver pendências). É o objeto mais distante que se pode ver a olho nu, em céu escuro, como uma mancha alongada e tênue perto de Mirach — o tamanho angular real da galáxia é enorme, mais de seis vezes o diâmetro da Lua cheia, embora só o núcleo mais brilhante seja perceptível a olho nu.

A galáxia já era conhecida havia mais de mil anos antes de qualquer telescópio: o astrônomo persa Al-Sufi a descreveu no século X como uma "pequena nuvem", e ela foi redescoberta com instrumentos ópticos em 1612 por Simon Marius (Mourão, p. 73-74). Foi só no século XX, com o trabalho de Edwin Hubble usando cefeidas para medir sua distância (a mesma técnica descrita no guia de Cefeu), que se confirmou definitivamente que M 31 era uma galáxia própria, e não uma nuvem de gás dentro da nossa.

M 31 tem duas galáxias satélites brilhantes o bastante para aparecer no mesmo campo de telescópio: M 32, uma elíptica compacta bem próxima do núcleo de Andrômeda, e M 110, maior em extensão mas de brilho superficial mais baixo, um pouco mais afastada. As duas aparecem como manchas ovais discretas ao lado do disco maior de M 31, mais fáceis de distinguir em céu bem escuro.

Uma curiosidade ligada à constelação: em 27 de novembro de 1872, mais de 160 mil meteoros por hora surgiram de um radiante em Andrômeda — os Andromídeos, ou Bielídeos, associados aos destroços do cometa Biela, visto se partir em 1846 e nunca mais observado depois de 1859 (Mourão, verbete Andromídeos, p. 74). Hoje a chuva praticamente não existe mais.

Outros objetos de céu profundo

  • NGC 752. Um aglomerado aberto grande e muito antigo, ótimo alvo de binóculo, maior em extensão do que a Lua cheia — mas disperso o bastante para não impressionar tanto quanto os aglomerados mais compactos de outras constelações.
  • NGC 7662, a Bola de Neve Azul. Uma nebulosa planetária pequena e relativamente brilhante, um bom alvo de telescópio pequeno a médio, com uma estrela central que intriga observadores pela variação de brilho.
  • NGC 891. Uma galáxia vista exatamente de perfil, cortada ao meio por uma faixa escura de poeira — uma das galáxias "de canto" mais fotografadas do céu, perto de Almach.

Mitologia: o resgate de Andrômeda

Andrômeda é a princesa etíope da história contada nos guias de Cassiopeia e Cefeu: depois que sua mãe, a rainha Cassiopeia, ofendeu as Nereidas com sua vaidade, Poseidon enviou um monstro marinho para devastar o reino, e um oráculo determinou que só o sacrifício da filha aplacaria a fúria do deus. Andrômeda foi acorrentada a uma rocha à beira-mar, à espera do monstro.

Foi nesse momento que Perseu apareceu, voando de volta de sua missão de decapitar a górgone Medusa (cuja cabeça ele carregava, e que hoje é lembrada pela estrela variável Algol, na constelação vizinha de Perseu). Ao ver Andrômeda acorrentada, Perseu se apaixonou, matou o monstro e a libertou — e depois se casou com ela. É um dos raros mitos gregos em que quase todo mundo tem um final feliz, e por isso, talvez, a família inteira ganhou um lugar permanente e generoso no céu: cinco constelações vizinhas (Cefeu, Cassiopeia, Andrômeda, Perseu, e o monstro marinho, geralmente associado à Baleia) contando a mesma história (resumo baseado em Mourão, verbete Cassiopea, p. 191, e verbete Andromeda, p. 73).

Roteiro de observação

Instrumento O que ver
A olho nu O desenho das duas fileiras de estrelas a partir de Alpheratz; M 31 como uma manchinha alongada em céu escuro, sem Lua.
Binóculo (10×50) M 31, M 32 e M 110 no mesmo campo; NGC 752 resolvido em dezenas de estrelas; a cor dourada de Almach (sem separar o par).
Telescópio pequeno (70 a 100 mm) Almach separada em duas estrelas coloridas; NGC 7662 como um pequeno disco azulado; os braços mais internos de M 31 começando a aparecer em céu muito escuro.
Astrofotografia M 31 com seus satélites e a estrutura espiral em exposição longa; NGC 891 mostrando a faixa de poeira que a corta ao meio.

Dicas de campo:

  • Escolha uma noite sem Lua entre outubro e janeiro, com o horizonte norte livre.
  • Comece pelo Grande Quadrado de Pégaso, fácil de reconhecer mesmo em céu com alguma poluição luminosa, e desça até Alpheratz.
  • Para M 31, use Mirach como ponto de partida e suba por Mu e Nu Andromedae; em binóculo, a galáxia e seus dois satélites cabem no mesmo campo.
  • Compare as cores de Almach com um telescópio pequeno: é um dos melhores exercícios de percepção de cor do céu.

Referências

  • MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbetes "Andromeda" (p. 73-74), "Alpheratz" (p. 65), "Almach" (p. 63) e "Andromídeos" (p. 74).
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. NGC 752 (C28), p. 68-69; NGC 891 (C23), p. 58-59; NGC 147 e 185 (C17/C18), p. 46-49 (impressas).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars. New York: Springer, 2010. Andrômeda em binóculos, M 31 e alvos vizinhos, p. 172-181 (impressa).
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. M 31, Andrômeda e como descobrimos as galáxias, p. 297-305, 325-326.
  • Catálogo de objetos de céu profundo do site (posições, magnitudes e tamanhos consultados via constellation_chart.py info And), derivado de OpenNGC e SIMBAD.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.