setembro 21, 2026
NGC 891 (Caldwell 23), a Galáxia Lasca de Prata em Andrômeda: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
Entre as galáxias vistas exatamente de perfil, poucas têm tanta fama quanto NGC 891, também batizada de Caldwell 23. Ela fica na constelação de Andrômeda, perto da estrela dupla e colorida Almaak, e mostra ao telescópio o que costuma ser o retrato mais procurado desse tipo de objeto: um disco fino, alongado, cortado ao meio por uma faixa escura de poeira que soma quase todo o comprimento da galáxia. É considerada por muitos observadores do hemisfério norte a "segunda melhor" galáxia da constelação, atrás apenas da própria M 31, e às vezes descrita como um retrato do que a Via Láctea pareceria se alguém pudesse vê-la de fora, de lado. Do Rio de Janeiro, a história tem uma ressalva importante: com declinação de mais de +42°, NGC 891 nunca sobe além de cerca de 25° de altura, baixa e voltada para o horizonte norte, mais urbano e iluminado na maioria dos observatórios domésticos brasileiros. Este guia reúne os dados, o caminho para achá-la, a época certa e uma avaliação honesta do que dá para ver e fotografar com essa altura limitada.
Texto em revisão. Este é um dos guias do novo formato de objeto. As fontes estão listadas no final; as divergências entre elas, nas pendências.

Ficha técnica e designações
Visão geral: o que é uma galáxia vista de perfil
Uma galáxia espiral tem, normalmente, um disco achatado, como um CD, com o núcleo e os braços visíveis quando a olhamos de frente ou em ângulo. Quando o plano desse disco está quase exatamente alinhado com a nossa linha de visão, a galáxia aparece como uma faixa fina de luz, e a poeira concentrada no plano do disco — a mesma poeira que, na Via Láctea, forma a Grande Fenda escura que corta nossa galáxia ao meio quando vista de dentro — aparece como uma linha escura sobre o brilho das estrelas. NGC 891 é um dos exemplos mais completos desse fenômeno: o SIMBAD classifica sua inclinação como praticamente de perfil (o eixo maior mede mais de cinco vezes o menor), e a faixa de poeira central é visível mesmo em telescópios de abertura moderada.
A galáxia em números. O SIMBAD dá magnitude V de 9,93 e dimensões de 12,3′ × 2,45′ para NGC 891, valores próximos aos do Mobberley (magnitude 10,0, 12′ × 3′). O tipo morfológico do SIMBAD, SA(s)b?, descreve uma espiral sem barra evidente, com braços relativamente bem enrolados — parecida, em classificação, com a nossa própria Via Láctea.
Distância. O SIMBAD não lista paralaxe (galáxias estão longe demais para esse método), mas registra uma velocidade radial heliocêntrica de 528 km/s. Pela lei de Hubble, com H0 de cerca de 70 km/s por megaparsec, isso dá uns 24,6 milhões de anos-luz. Mobberley cita 30 milhões, um valor de literatura ligeiramente maior. Este guia usa a faixa de 25 a 30 milhões de anos-luz, sem fingir mais precisão do que a que existe nas duas estimativas.
Uma supernova famosa. Em 21 de agosto de 1986, uma equipe liderada por van Gorkom, Rupen, Knapp e Gunn descobriu a supernova SN 1986J em NGC 891 (Mobberley). Foi um dos eventos de rádio mais estudados entre as supernovas, um lembrete de que mesmo galáxias "quietas" de observação amadora têm um histórico de eventos violentos documentado por profissionais.
Parente das outras "lascas". Mobberley agrupa NGC 891 junto com outras galáxias de perfil famosas: NGC 5907, NGC 4565 (Caldwell 38) e as duas galáxias do lote deste guia em Cães de Caça, NGC 4244 (Caldwell 26) e NGC 4631 (Caldwell 32). É uma boa companhia para uma "temporada de galáxias de perfil", ainda que NGC 891, na constelação vizinha de Andrômeda, esteja um pouco mais a oeste no céu de primavera/outono.
Estruturas notáveis
- A faixa de poeira central. O traço mais citado do objeto: uma linha escura que corre por quase todo o comprimento da galáxia, visível já em telescópios de 200 mm ou mais em céu escuro (Mobberley).
- O bojo central. Uma concentração de brilho estreita no meio do disco, mais discreta do que em galáxias de perfil com bojo grande, como M 104 (Cooke, comparando as duas).
- A assimetria leste-oeste. Em ampliações acima de 200x, o lado oeste do núcleo aparece um pouco mais brilhante, e o disco a sudoeste supera o do lado nordeste (Mobberley).
- O disco fino. A proporção de mais de 5:1 entre comprimento e largura é o que torna o objeto reconhecível mesmo em aberturas modestas, apesar do brilho superficial moderado.
Como localizar
NGC 891 fica cerca de 3,5° a leste de Almaak (Gama Andromedae), a estrela dupla alaranjada e azul no "braço" da constelação (Mobberley). Almaak, por sua vez, é fácil de achar a partir do Quadrado de Pégaso: a diagonal que liga Markab (Alfa Pegasi) a Alpheratz (Alfa Andromedae) aponta para dentro de Andrômeda, de onde se chega a Mirach (Beta) e depois a Almaak (Gama), seguindo a "corrente" de estrelas da constelação. Um binóculo ou um buscador de campo largo ajuda a confirmar o campo antes de partir para ampliações maiores.

Quando e como observar
Com declinação de +42°21′, NGC 891 culmina a cerca de 24,7° de altura no Rio de Janeiro (90° menos a diferença entre a latitude do Rio, −23°, e a declinação do objeto). É uma altura baixa, do mesmo patamar das outras galáxias deste lote, e o objeto passa pelo horizonte norte da cidade — geralmente o mais afetado por polução luminosa em observatórios urbanos e domésticos. Não é um alvo impossível, mas exige horizonte livre, transparência boa e paciência para esperar a culminação. A melhor época é do fim da primavera ao início do verão austral (Mobberley e Bakich citam novembro para os livros do hemisfério norte, coerente com a época em que a região culmina à noite no Brasil).
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 25°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 00:50 · 25° N
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 38 mag 10,0
- Enquadramento
- 100 ocupa 29 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | -9° | — | 158° |
| 20:00 | -4° | — | 158° |
| 20:30 | 1° | NE 42° | 158° |
| 21:00 | 6° | NE 39° | 158° |
| 21:30 | 10° | NE 35° | 158° |
| 22:00 | 14° | NNE 31° | 158° |
| 22:30 | 17° | NNE 26° | 158° |
| 23:00 | 20° | NNE 21° | 158° |
| 23:30 | 22° | NNE 16° | 158° |
| 00:00 | 24° | N 10° | 158° |
| 00:30 | 25° | N 4° | 158° |
| 01:00 | 25° | N 358° | 158° |
| 01:30 | 24° | N 352° | 158° |
| 02:00 | 23° | NNW 346° | 158° |
| 02:30 | 21° | NNW 341° | 158° |
| 03:00 | 18° | NNW 335° | 158° |
| 03:30 | 15° | NNW 331° | 158° |
| 04:00 | 11° | NNW 326° | 158° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Invisível. |
| Binóculo (10×50 a 15×70) | Muito difícil nessa altura; sem relato detalhado nos livros de binóculo consultados para este objeto específico. Vale como checagem de campo. |
| Telescópio de 150 a 200 mm | Um objeto simétrico e alongado, de cerca de 10′, com bojo estreito; a faixa de poeira pode aparecer em céu bem escuro e transparente (Mobberley, referindo-se a 25 cm ou mais). Sob Bortle 7 e com a altura baixa do Rio, é provável enxergar só a forma alongada, sem a faixa. |
| Telescópio de 250 mm ou mais, em céu escuro | A faixa de poeira escura ao longo de quase todo o comprimento, e, acima de 200x, a leve assimetria de brilho entre os lados do núcleo (Mobberley). |
Expectativa honesta. NGC 891 é um objeto que rende muito mais em céu verdadeiramente escuro e alto no horizonte do que no Rio de Janeiro: a combinação de baixa altura, Bortle 7 e um brilho superficial moderado faz da faixa de poeira central — o principal motivo para observar este objeto — um desafio real, não garantido em toda noite. Reserve-o para as noites mais transparentes do ano, com o horizonte norte livre.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Com 12,3′ de comprimento, a galáxia cabe folgada num campo de 1.000 mm de focal com uma câmera como a ASI294MC Pro (cerca de 1,1° × 0,75°); uma focal maior (1.500 a 2.000 mm) aproveita melhor o quadro e valoriza a faixa de poeira, o detalhe mais fotogênico do objeto. Como o eixo maior é estreito, vale a pena orientar o sensor ao longo da diagonal do quadro para aproveitar mais pixels na galáxia.
Desafios do alvo
- Altura baixa no Rio. A cerca de 25° de altura máxima, a extinção e a turbulência atmosférica prejudicam o contraste; fotografe o mais perto possível da culminação.
- Brilho superficial moderado. O disco fino concentra luz numa faixa estreita, mas o halo mais amplo é fraco; tempos totais de exposição generosos ajudam a suavizar o ruído sem perder a faixa de poeira.
- Contraste da faixa de poeira. É o elemento central da imagem: processamento com curvas suaves e sem exagero de nitidez ajuda a manter a faixa natural, sem artefatos.
Equipamento e filtros
Sem um capítulo dedicado a este alvo nos livros de astrofotografia consultados, a recomendação segue os princípios gerais para galáxias: câmera colorida de um disparo ou o método LRGB, com luminância obtida o mais perto possível da culminação para reduzir o efeito da baixa altura sobre a nitidez.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (LRGB ou colorida) | 80 a 120 | 120 a 180 s | Disco, bojo e faixa de poeira; priorize a culminação |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu equipamento e à sua noite.
Smart telescopes e campo de visão
Em um smart telescope como o Seestar S50 (campo de cerca de 1,3° × 0,7°), NGC 891 cabe com folga no sentido do comprimento. Como a altura no Rio é baixa e a faixa de poeira exige bom contraste, prepare-se para empilhar várias sessões em noites de boa transparência para revelar mais do que a forma alongada geral. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre a galáxia.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
NGC 891 é um clássico das galáxias de perfil justamente pela faixa de poeira nítida que a corta ao meio, mas do Rio de Janeiro ela exige mais do observador do que muitos outros objetos deste site: baixa altura, horizonte norte livre e céu transparente. Vale a pena guardá-la para as melhores noites da estação, de preferência perto da culminação. Para conhecer a vizinha mais famosa da constelação, veja o guia de M 31, a Galáxia de Andrômeda, e, para comparar outras galáxias de perfil deste mesmo lote, os guias da Agulha de Prata (NGC 4244) e da Galáxia da Baleia (NGC 4631), em Cães de Caça.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 823 (NGC 891).
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 23, p. 58-59.
- COOKE, Antony. Visual Astronomy in the Suburbs: A Guide to Spectacular Viewing. London: Springer, 2004. Segundo catálogo de galáxias de perfil, p. 215-216.
- VIEIRA, Fernando. Identificação do Céu. Céu da primavera, Andrômeda, p. 95-97.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, magnitude V, dimensões, tipo morfológico e velocidade radial de NGC 891, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.