setembro 21, 2026

M 110, a outra galáxia satélite de Andrômeda: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M110 — Galáxia satélite de Andrômeda — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

Entre os 110 objetos do catálogo de Messier, M 110 é o último e o mais improvável: uma galáxia elíptica tênue e alongada que o próprio Messier desenhou, sem lhe dar número, ao lado de Andrômeda. Só no século XX, por decisão de historiadores, ela entrou na lista. Hoje é chamada de NGC 205 pelos catálogos e de M 110 pelos observadores, e o seu papel, ao lado de M 32, é o de segundo satélite brilhante de M 31. Vista de longe, parece uma fumaça oval; vista com atenção, ensina como diferenciar duas galáxias parecidas. Este guia foi escrito para o hemisfério norte, onde ela passa quase no zênite, e inclui uma seção sobre o que dá para ver do Rio de Janeiro, onde fica baixa e é difícil.

Texto em revisão. Novo formato de guia de objeto, escrito a partir de livros de observação e de consultas ao SIMBAD. As fontes estão listadas no final e as dúvidas, nas pendências.

Imagem de referência (DSS2) de M110 — Galáxia satélite de Andrômeda — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: uma galáxia anã elíptica

M 110 é, como M 32, uma galáxia elíptica satélite: um agrupamento de estrelas velhas, sem braços e sem formação estelar intensa, ligado pela gravidade à grande espiral vizinha. Monks a classifica como elíptica anã, com cerca do dobro do tamanho de M 32, e alerta que as duas podem ser confundidas (Monks, p. 18). Allison lembra que ela tem oito aglomerados globulares catalogados, ao contrário de M 32, que não tem nenhum (Allison, p. 53; Monks, p. 18).

M 110 em números. O SIMBAD dá magnitude visual de 8,07 e a classifica como galáxia (GiG). A distância vem dos livros, já que o SIMBAD não lista paralaxe: cerca de 2,5 milhões de anos-luz, a mesma de Andrômeda (Monks, p. 18). O SIMBAD também registra uma aproximação de cerca de 250 km/s, isto é, um desvio para o azul comparável ao de M 31 (velocidade radial de −297 km/s, segundo Mourão, p. 34). Mourão traz para NGC 205 magnitude 9,4, valor mais fraco que os demais (Mourão, p. 34).

Tamanho aparente. Aqui a diferença entre fontes é grande. O SIMBAD traz 3,3′ × 2,1′, mas Bakich dá 19,5′ × 12,5′, cerca de três vezes o tamanho de M 32 (Bakich, nº 764). É provável que o SIMBAD meça só o miolo brilhante e os livros incluam o halo. No céu, o que decide é o brilho superficial: como M 110 espalha a mesma luz por uma área muito maior, ela parece bem mais fraca que M 32, embora a magnitude total seja quase igual.

Posição. Fica cerca de 35′ a 36′ a noroeste do centro de M 31 (Kambič, p. 176; Monks, p. 18); Bakich arredonda para 0,6°, no lado oposto de M 32.

História: o último Messier. Machholz conta que, no mapa de M 31 de Messier, duas outras galáxias estão desenhadas: M 32 e este objeto, com a data de 1773 (Machholz, p. 22). O número 110 é uma adição moderna. O Data Book diz que a designação M 110, proposta por K. G. Jones em 1968, nunca foi aceita, e que Messier pode ter sido o descobridor (Data Book, p. 341); a prática atual, porém, a inclui nas listas de Messier.

Estruturas notáveis

  • A forma oval. Um contorno alongado e simétrico. Kambič a descreve como uma mancha oval, maior que M 32, acima de M 31 nas fotografias (Kambič, p. 177).
  • Ausência de detalhes. Bakich avisa que mesmo telescópios amadores grandes não mostram detalhes nela. É uma galáxia lisa, e a graça está no formato e no contexto.
  • Os globulares. Os oito aglomerados globulares de M 110 só aparecem em fotos profissionais (Allison, p. 53).
  • A vizinhança de M 31. Companheira do disco de Andrômeda, com M 32 do outro lado; a nuvem estelar NGC 206, dentro de M 31, só em telescópios grandes (Monks, p. 18).

Como localizar

Comece por M 31, a nordeste do Grande Quadrado de Pégaso. Centre o núcleo e desloque o campo cerca de 0,6° (dois diâmetros de Lua cheia, mais um pouco) para noroeste, no lado oposto de M 32. Bakich resume: localize M 31 e desloque o campo; ela funciona em binóculos e telescópios pequenos, em céu escuro. Kambič adverte que M 110 exige boas condições (Kambič, p. 176). Se a mancha for menor e mais brilhante, e ficar ao sul do núcleo, é M 32.

Carta de localização de M110: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de +41,7°, M 110 é um objeto do hemisfério norte, em Andrômeda. A altura máxima é 90° − |latitude − declinação|: cerca de 88° a 40° N, quase no zênite, e cerca de 82° a 50° N, muito favoráveis. A melhor época vai de setembro a janeiro, com culminação por volta de 21 horas no fim de novembro; Bakich indica outubro como mês ideal.

Os gráficos a seguir mostram a altura do objeto para o local do observatório do site (Rio de Janeiro), com o ano inteiro e a noite atual, hora a hora.

Altura de Galáxia satélite de Andrômeda ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. O objeto não passa de 30° à meia-noite em nenhuma época do ano.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZhoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Neste local o objeto não passa de 30° de altura no meio da noite em nenhuma época do ano.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-13 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 25°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
23:00 · 25° N
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 12 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
67 mag 8,2
Enquadramento
100 ocupa 36 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M110 — Galáxia satélite de Andrômeda pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 18:40 e 03:30 durante a noite; o ponto mais alto é às 23:00, com 25°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO19:0020:0021:0022:0023:0000:0001:0002:0003:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 9° NE 37° 139°
20:00 13° NNE 33° 139°
20:30 16° NNE 29° 139°
21:00 19° NNE 24° 139°
21:30 22° NNE 19° 139°
22:00 24° NNE 13° 139°
22:30 25° N 7° 138°
23:00 25° N 1° 138°
23:30 25° N 355° 138°
00:00 24° NNW 349° 138°
00:30 22° NNW 343° 138°
01:00 20° NNW 337° 138°
01:30 17° NNW 332° 137°
02:00 14° NNW 328° 137°
02:30 10° NW 324° 137°
03:00 5° NW 320° 137°
03:30 1° NW 317° 137°
04:00 -4° — 136°
Altura de M110 — Galáxia satélite de Andrômeda ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 23:00, com 25°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte23:00 · 25°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

E do Rio de Janeiro?

No Rio, M 110 culmina a cerca de 25° de altura, ao norte, de outubro a janeiro. Com baixo brilho superficial, Bortle 7 e essa altura, é um alvo no limite: sem um céu excepcional e um bom binóculo ou telescópio de 150 mm, não a espere. Tente em uma noite sem Lua e limpa, com a mancha de M 31 já localizada, ao lado de M 32, e procure uma oval muito fraca e sem contraste, que "some" quando o olho se cansa. Ao olhar para o norte no hemisfério sul, o norte fica para baixo, e M 110, a noroeste de M 31, aparece abaixo e à esquerda dela. Quem tem a chance de observar do Nordeste ganha alguns graus de altura. O guia de M 31 (M 31, a Galáxia de Andrômeda) trata da região inteira do ponto de vista do Brasil.

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Não é visível.
Binóculo (7×50 a 20×80) Uma oval muito fraca ao lado de M 31, só em noite excelente e sem poluição (Kambič, p. 176). Bakich recomenda 20×80 em local escuro para vê-la junto com M 31 e M 32.
Telescópio de 100 a 150 mm Oval difusa, mais extensa e mais fraca que M 32, com brilho quase uniforme; use baixa ampliação (Bakich: funciona em telescópio pequeno em céu escuro).
Telescópio de 250 mm ou mais Um pouco mais de contraste no miolo, mas sem estrelas nem detalhes; Bakich diz que nem os maiores amadores mostram feições nela.

Expectativa honesta: trata-se de um alvo para completar o trio, não para deslumbrar. Monks lembra que os filtros de banda estreita e de linha não ajudam em galáxias e os de banda larga ajudam pouco (Monks, p. 17); o melhor "filtro" é um céu escuro.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

M 110 é, em geral, um coadjuvante: Kier recomenda M 31 como alvo de iniciante, com M 32 e M 110 no mesmo campo, com lente de cerca de 2° de campo. Com um telescópio de 1.000 mm e uma câmera como a ASI294MC Pro (campo de cerca de 1,1° × 0,75°, calculado a partir do sensor), M 110 cabe inteira, com o núcleo de M 31 no canto; para as três juntas, é preciso focal mais curta.

Desafios do alvo

  • Brilho superficial baixo. A oval é fraca; o tempo total de exposição e um céu escuro contam mais que a focal.
  • Contraste com M 31. A luz do núcleo de M 31 pode estourar e criar gradientes no campo; corrija o fundo com cuidado para não apagar a borda de M 110.
  • Altura no Brasil. A 25° de altura, poucas noites permitem imagens limpas; fotografe perto da culminação e evite noites com bruma.

Equipamento e filtros

Câmera colorida de um disparo é suficiente. Filtros de banda estreita não ajudam em galáxias; um filtro de banda larga anti-poluição só compensa se o céu for muito iluminado, e vale testar antes. Com câmera monocromática, uma luminância longa, mais cor, dá a melhor definição da borda.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light (RGB ou luminância) 80 a 120 120 s Oval fraca de M 110; o tempo total decide
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira, importante para o fundo
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros.

Smart telescopes e campo de visão

Um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°) enquadra M 110 inteira, com parte de M 31 no canto. Como o brilho é baixo, pede muitos minutos de empilhamento e céu escuro. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

M 110 mostra que nem todo objeto do catálogo de Messier é um espetáculo: parte do valor está na história do último nome incluído e na lição de brilho superficial. Combine-a com M 32 e M 31 numa mesma noite, e depois compare com a outra grande espiral do Grupo Local, a Galáxia do Triângulo, M 33. O panorama sazonal está no guia Céu de outono no hemisfério norte.

Referências

  • ALLISON, Mark. Star Clusters and How to Observe Them. London: Springer, 2006. M 31 e o satélite M 110, p. 53.
  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 764 (NGC 205).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Andrômeda, M 32 e M 110, p. 176-177.
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. Andrômeda (M 31), com M 32 e M 110 no campo. Página a conferir.
  • MACHHOLZ, Don. The Observing Guide to the Messier Marathon: A Handbook and Atlas. New York: Springer. Nota sobre M 110, p. 22 (ano a conferir).
  • MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. Andrômeda, M 32 e M 110, p. 17-18.
  • MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Catálogo de Messier, p. 341.
  • MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "Andrômeda", p. 34.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo, magnitude, dimensões e velocidade radial de M 110, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.