setembro 21, 2026
NGC 7662 (Caldwell 22), a Bola de Neve Azul: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
A Bola de Neve Azul é uma pequena mancha esverdeada que, sob ampliação alta, se revela um anel oval com um halo tênue em volta. Ela traz uma lição sobre como enxergamos: o nome promete azul, mas ninguém concorda sobre a cor que vê. Uns veem azul pálido, outros azul-ovo-de-tordo, outros esbranquiçado ou um tom de verde, e nenhum está errado (Bakich). Este guia foi escrito para o hemisfério norte, onde a planetária passa quase no zênite, e inclui uma seção sobre o que dá para ver do Rio de Janeiro, onde ela fica baixa, mas é um dos poucos objetos do lote que ainda podem ser reconhecidos.
Texto em revisão. Novo formato de guia de objeto, escrito a partir de livros de observação e de consultas ao SIMBAD. As fontes estão listadas no final e as dúvidas, nas pendências.

Ficha técnica e designações
Visão geral: o que é uma nebulosa planetária
O nome engana: uma nebulosa planetária não tem a ver com planetas. É o envoltório de gás que uma estrela de massa parecida com a do Sol expele nos milhares de anos finais de sua vida, iluminado pelo núcleo da estrela, agora uma anã branca muito quente (Mourão; Moore e Rees). O fenômeno é breve: as planetárias duram algumas dezenas de milhares de anos, e o Sol deverá ter um destino parecido, daqui a bilhões de anos (conhecimento geral). Para conhecer o tipo em detalhe, veja o guia da Nebulosa da Hélice, NGC 7293.
A Bola de Neve em números. O SIMBAD a classifica como nebulosa planetária, com paralaxe de 0,569 milissegundo de arco, que dá cerca de 5.700 anos-luz, com incerteza de uns 6%; é o valor adotado aqui. Os livros ficam abaixo: 3.000 (Mobberley, p. 56) e 3.200 (Monks, p. 41), embora Monks lembre que alguns astrônomos a colocam quase duas vezes mais longe, e o Data Book traga 5.000 (Data Book, p. 351). O diâmetro aparente no SIMBAD é de 0,38′, ou cerca de 23″. Mobberley dá 30″ e Monks, pouco mais de meio minuto. A essa distância, isso é cerca de 0,6 ano-luz de diâmetro real; nas distâncias menores, vem em torno de 0,3 a 0,4 ano-luz (Monks; Mobberley). A magnitude é de cerca de 8,3 (Mobberley; Bakich).
A idade e a estrela central. Mobberley cita cerca de 5.000 anos de idade da nebulosa e a estrela central com magnitude 12,5 nas imagens, poucas vezes vista no visual (Mobberley, p. 56). Bakich dá magnitude 13.
Descoberta. William Herschel a descobriu em 1784 (Mobberley, p. 56). Faz parte da lista Caldwell, como C 22.
A estrela que "pisca". Edward Barnard anotou, em quase 80 datas entre 1897 e 1908, uma variação da estrela central entre as magnitudes 12 e 16. Observadores modernos duvidam: C. R. O'Dell explica que o brilho aparente de uma estrela imersa em nebulosa forte depende muito do seeing, porque a nebulosa se sobrepõe a ela enquanto as estrelas de comparação ao redor não sofrem o mesmo efeito (Coe, p. 42).
Estruturas notáveis
- O anel oval. Mobberley a descreve como um pequeno anel elíptico cinza-esverdeado, com um halo externo mais tênue (Mobberley, p. 56). Bakich acrescenta que, com 200 mm, se vê um disco pequeno e uniforme e, com mais atenção, um anel brilhante em volta de um centro "oco".
- A concha externa. Bakich manda procurar uma concha mais fraca em volta do anel brilhante.
- Os lados mais brilhantes. Bakich cita áreas mais brilhantes a nordeste e a sudoeste; Coe também vê o lado nordeste mais brilhante e uma leve elongação a 330 aumentos (Coe, p. 42).
- Os "turbilhões" internos. Coe descreve detalhes turbulentos no interior com um refletor de 13 polegadas em ampliação alta.
- A estrela central. De magnitude 12,5 a 13, aparece de vez em quando: cerca de 10% do tempo em 6 polegadas e 30% em 13 polegadas, segundo Coe.
Como localizar
A Bola de Neve fica no oeste de Andrômeda, perto da fronteira com Lagarto. A estrela brilhante mais próxima a olho nu é Alfa de Andrômeda (Alpheratz), no canto do Grande Quadrado de Pégaso, mas Mobberley diz que o salto direto a partir dela é possível, embora pouco prático. A melhor estratégia é achar Ômicron de Andrômeda (magnitude 3,6, na fronteira com Lagarto), centralizá-la no telescópio e deslocar-se 4,5° para leste (Mobberley, p. 56). A partir de Alpheratz, são 13,5° para o norte e 8,5° para oeste. Como a planetária é minúscula, use aumento alto assim que achar o campo e compare com o mapa: sem o filtro, ela pode passar por uma estrela levemente fora de foco.

Quando e como observar
Com declinação de +42,5°, a Bola de Neve é um objeto do hemisfério norte. A altura máxima é 90° − |latitude − declinação|: cerca de 88° a 40° N e 83° a 50° N, ou seja, quase no zênite para quem observa da Europa ou dos Estados Unidos. A melhor época, para o hemisfério norte, vai de agosto a novembro (Mobberley); Bakich indica setembro. Mobberley também nota que ela é circumpolar acima de 48° N.
Os gráficos mostram a altura do objeto ao longo do ano e a noite atual para o local do observatório do site (Rio de Janeiro).
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 24°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 21:50 · 24° N
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 65 mag 8,3
- Enquadramento
- 2 ocupa 1 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 17° | NNE 27° | 133° |
| 20:00 | 19° | NNE 22° | 133° |
| 20:30 | 22° | NNE 16° | 133° |
| 21:00 | 23° | N 11° | 133° |
| 21:30 | 24° | N 5° | 132° |
| 22:00 | 24° | N 359° | 132° |
| 22:30 | 24° | N 353° | 132° |
| 23:00 | 23° | NNW 347° | 132° |
| 23:30 | 21° | NNW 341° | 132° |
| 00:00 | 18° | NNW 336° | 132° |
| 00:30 | 15° | NNW 331° | 132° |
| 01:00 | 12° | NNW 327° | 131° |
| 01:30 | 8° | NW 323° | 131° |
| 02:00 | 3° | NW 320° | 131° |
| 02:30 | -1° | — | 131° |
| 03:00 | -6° | — | 131° |
| 03:30 | -11° | — | 131° |
| 04:00 | -17° | — | 131° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
E do Rio de Janeiro?
No Rio, a Bola de Neve culmina a cerca de 25° de altura, ao norte, no início da noite de setembro a novembro. Coe a coloca entre as nebulosas do outono do hemisfério norte, que corresponde à nossa primavera. Do Rio, ela é viável, mas exige atenção: o brilho superficial é alto, o que ajuda, mas a altura pequena e a poluição de Bortle 7 tiram parte do contraste e do foco. Use telescópio de 150 mm ou mais, ampliação de 150 a 300 vezes e, se tiver, um filtro UHC ou OIII, que escurecem o céu e realçam a nebulosa sem apagá-la (Mobberley; Monks). Ao olhar para o norte no hemisfério sul, o norte fica para baixo, e o lado nordeste, o mais brilhante, fica à direita e abaixo. Como alternativas mais altas no Rio, considere a Nebulosa Saturno, NGC 7009 e a Hélice, NGC 7293, ambas em Aquário.
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Não é visível. |
| Binóculo | Não se distingue de uma estrela; use só para achar o campo. |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Monks diz que qualquer telescópio a mostra. Com 6 polegadas (150 mm), Coe reconhece a planetária mesmo em baixa ampliação e, com ocular de 8,8 mm, a vê brilhante, bem grande e de cor "aqua". Mobberley indica 400 aumentos ou mais em aberturas acima de 15 cm, com filtro UHC ou OIII. |
| Telescópio de 200 mm | Bakich: disco pequeno e uniforme, cor perceptível; Monks: a cor azulada pede 200 mm ou mais e céu escuro (Monks, p. 41). Com aumento alto, um halo em volta do disco central. |
| Telescópio de 300 mm ou mais | Coe, com 13 polegadas: disco azul-esverdeado a 100 aumentos, redondo e brilhante a 150 e "uma vista ótima" a 330, com turbilhões internos e a estrela central que vem e vai (30% do tempo). Bakich lembra que a estrela central (magnitude 13) pede 400 mm. |
Expectativa honesta: não espere um azul de fotografia. Mobberley pede desculpas pelo nome: quase todo objeto fraco parece cinza ou esverdeado, porque o olho, no escuro, usa pouco as células de cor (Mobberley, p. 56). Coe nota que, em ampliações altas, o azul fica menos evidente. O melhor é observar em ampliação média e alternar com o alto.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
A Bola de Neve mede menos de meio minuto de arco: um ponto minúsculo num campo largo. Mobberley recomenda 1″ por pixel ou menos (Mobberley, p. 56). Com um telescópio de 1.000 mm e uma câmera como a ASI294MC Pro, a escala é de cerca de 0,95″ por pixel (calculada a partir do sensor), e a nebulosa fica com cerca de 24 pixels; com 2.000 mm ou mais, o anel e o halo aparecem melhor. Em campo largo, é só um ponto azul entre as estrelas. A galáxia NGC 7640 fica 2° ao sul, fora desse campo (Mobberley).
Desafios do alvo
- Tamanho pequeno. O anel e o halo só se separam com focal longa; o seeing e o guiamento contam mais que a poluição luminosa.
- Brilho alto. O centro estoura fácil: use exposições curtas ou combine longas e curtas.
- Cor. O centro azul-esverdeado (OIII) e o halo externo pedem tratamentos diferentes; o filtro dual-band ajuda em Bortle 7.
Equipamento e filtros
Uma câmera colorida com filtro dual-band (H-alfa e OIII) ou uma monocromática com OIII rendem bem, pois o brilho é alto e o alvo é compacto. Mobberley indica UHC ou OIII também no visual. Fotografe perto do meridiano, quando a altura é máxima.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (dual-band ou OIII) | 60 a 120 | 30 a 60 s | Anel e halo sem estourar o centro; muitos quadros para vencer o seeing |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros.
Smart telescopes e campo de visão
Um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°) mostra a Bola de Neve como um pequeno disco azulado entre as estrelas, sem a estrutura interna; é um bom teste de cor, mas não de detalhe. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
A Bola de Neve Azul reúne três boas lições: como o olho percebe a cor, como o seeing engana as medidas e como o filtro certo faz uma estrela "gorda" virar nebulosa. Do Rio, é um alvo difícil, mas possível, e uma boa pedida no fim do ano junto com as outras planetárias de Aquário. Se quiser comparar com as outras, veja também a Nebulosa Saturno (NGC 7009) e a Nebulosa da Hélice (NGC 7293), além do panorama sazonal em Céu de outono no hemisfério norte.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 733 (NGC 7662).
- COE, Steven R. Nebulae and How to Observe Them. London: Springer, 2007. NGC 7662, p. 42.
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 22, p. 56-57.
- MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. NGC 7662 (Blue Snowball), p. 41.
- MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Tabela de nebulosas planetárias, p. 351.
- MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "planetária, nebulosa" (p. 561).
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de NGC 7662, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.