setembro 22, 2026
Popa: a constelação de Naos e do reino dos aglomerados abertos, entre M 46 e M 47

Se o Escorpião é a constelação mais rica em estrelas do zodíaco, a Popa é a mais rica em aglomerados abertos de todo o céu: mais de duas dezenas deles, começando pelo par M 46 e M 47, que cabe inteiro no mesmo campo de um binóculo. É também a "popa" de verdade do antigo navio Argo, com uma das estrelas mais quentes visíveis a olho nu escondida atrás de um nome que quase ninguém usa: Naos.
A popa do navio Argo, cheia de aglomerados
A Popa (Puppis, abreviatura Pup) é uma constelação austral grande, com cerca de 673 graus quadrados — bem maior que o Escorpião —, encaixada entre Carina ao sul, Pictor e Pomba a oeste, Cão Maior a noroeste, e Unicórnio e Bússola a norte e leste (Mourão, verbete Puppis, p. 655). É fácil de localizar: fica ao norte de Canopus (a segunda estrela mais brilhante do céu, em Carina) e a sudeste de Sirius, a mais brilhante de todas, em Cão Maior (Mourão, p. 655).
O nome vem de uma das partes em que a antiga constelação grega Argo Navis — o navio dos Argonautas de Jasão, uma das 48 constelações originais listadas por Ptolomeu — foi subdividida pelo astrônomo francês Nicolas-Louis de La Caille, no século XVIII: Vela (as velas), Puppis (a popa) e Carina (a quilha) (Mourão, p. 655; Philip's, verbete Puppis). Uma quarta constelação vizinha, a Bússola (Pyxis), também de Lacaille, ocupa o espaço onde ficava o mastro do navio antigo, mas nunca fez parte do Argo original (Moore, Observer's Year, p. 356).
Como as estrelas mais brilhantes do antigo Argo caíram em Carina e Vela, a Popa começa sua numeração grega em Zeta: não existem Alfa, Beta ou Gama Puppis (Philip's, verbete Puppis). É um detalhe que confunde muita gente que espera encontrar a "estrela principal" pelo nome grego mais familiar.
Passando pela Via Láctea, a Popa é riquíssima em campo estelar e aglomerados: o Kambič soma mais de 25 aglomerados abertos catalogados dentro dela, um dos maiores números de qualquer constelação (Kambič, ideia de pesquisa a partir de Viewing the Constellations with Binoculars, p. 397-406).
Quando e como achar
Melhor época. Com centro perto de RA 7h36m e Dec -33,2°, a Popa culmina por volta das 21h locais no início de março. A boa temporada de observação vai de dezembro a abril — verão e outono no Hemisfério Sul —, quando a constelação fica bem alta à noite.
Para onde olhar. Como a declinação central fica bem abaixo de -23°, a Popa culmina ao sul do zênite em todo o Brasil: a carta abaixo mostra o céu olhando para o sul, com o norte para cima e o leste à esquerda.
| Cidade | Altura de Naos |
|---|---|
| Boa Vista (RR) | 47° |
| Manaus (AM) | 53° |
| Recife (PE) | 58° |
| Brasília (DF) | 66° |
| Rio de Janeiro (RJ) | 73° |
| São Paulo (SP) | 74° |
| Porto Alegre (RS) | 80° |
Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós com a declinação de Naos (catálogo do site, -40,0°) e a latitude de cada cidade; valores arredondados. A Popa é bem visível de qualquer ponto do Brasil, embora fique mais baixa no extremo norte do país do que no sul.

Passo a passo.
- Localize Sirius, em Cão Maior, a estrela mais brilhante do céu noturno. A Popa fica logo a sudeste dela, mergulhando na Via Láctea.
- Naos, a estrela mais brilhante da Popa, fica cerca de 20° ao sul-sudeste de Sirius, sozinha numa região relativamente pobre em estrelas de brilho parecido — o próprio brilho azulado já ajuda a identificá-la.
- De Naos, suba para o norte até Azmidi (Xi Puppis) e depois até Tureis (Rho Puppis), que ficam na direção da Bússola e formam, junto com outras estrelas próximas, um arco que os livros descrevem como parte da "quilha visual" da constelação.
- Entre Tureis e a fronteira com Cão Maior fica o par M 46/M 47; um pouco abaixo, M 93; e perto de Naos, os aglomerados NGC 2451 e NGC 2477.
As estrelas da Popa
| Estrela | Brilho visual (mag.) | Tipo espectral | Distância aproximada |
|---|---|---|---|
| Naos (zeta) | 2,21 a 2,27 | O4/O5 Ia (supergigante azul) | cerca de 1.100 a 1.400 anos-luz |
| Tureis (rô) | 2,83 | F6 II (supergigante) | — |
| Azmidi (csi) | 3,34 | G6 Ib (supergigante) | — |
| Pi Puppis | 2,71 | K3 Ib (supergigante) | cerca de 230 anos-luz |
Brilhos e tipos espectrais de Mourão e Philip's; distâncias, quando encontradas, indicadas na fonte correspondente. Conferir todas no SIMBAD antes de publicar.
Naos é a estrela mais notável da constelação, embora quase ninguém a conheça pelo nome: é uma das estrelas mais quentes visíveis a olho nu, com temperatura de superfície estimada entre 35.000 e 40.000 K e tipo espectral O4/O5 (Mourão, verbete Naos, p. 558; Philip's, verbete Naos). O nome, de origem grega, significa "navio", numa referência direta ao Argo (Mourão, p. 558). A distância varia bastante entre fontes — de 1.100 a cerca de 2.400 anos-luz — e, com ela, a luminosidade estimada, que os livros mais antigos subestimam bastante (Mourão fala em 12.500 sóis; estimativas modernas para supergigantes O desse tipo costumam chegar a dezenas ou centenas de milhares de sóis).
Tureis (Rho Puppis) e Azmidi (Xi Puppis) são supergigantes amarelas, bem mais frias que Naos, que ajudam a desenhar o contorno norte da constelação, na direção da Bússola. Pi Puppis, também chamada II Puppis nos catálogos mais antigos, é uma gigante alaranjada de magnitude 2,74, a cerca de 230 anos-luz, com uma companheira fraca de magnitude 8,2 a 70 segundos de arco — um par largo, fácil em qualquer telescópio pequeno (Mourão, verbete II Puppis, p. 655).
Vale registrar mais algumas duplas e variáveis da constelação citadas pelo Philip's: Kappa Puppis, um par quase igual de estrelas de 5ª magnitude, separável em telescópios pequenos; L2 Puppis, uma variável semirregular que oscila entre a 3ª e a 6ª magnitude num período de cerca de 140 dias, formando um par óptico largo com L1 Puppis (magnitude 4,9); e V Puppis, uma binária eclipsante do tipo Beta Lyrae, que varia entre 4,4 e 4,9 num período de apenas 1,45 dia (Philip's, verbete Puppis).
Os aglomerados abertos
M 46 e M 47, o par no mesmo campo
O M 47 e o M 46 ficam a menos de 1° um do outro e cabem no mesmo campo de um binóculo, embora sejam objetos muito diferentes. M 47 é mais brilhante (magnitude 4,4) e mais próximo, um aglomerado solto de cerca de 500 estrelas a uns 1.600 anos-luz; M 46 é mais fraco (magnitude 6,1), mas mais denso, com cerca de 100 membros a uns 5.400 anos-luz, e guarda uma curiosidade: a nebulosa planetária NGC 2438 aparece bem no meio dele, mas não pertence fisicamente ao aglomerado — é só um alinhamento de perspectiva (Kambič, p. 402-405, na ideia de pesquisa cb-p376).
M 93, o aglomerado binocular
O M 93 fica cerca de 1,5° a noroeste de Xi Puppis (Azmidi), com magnitude 6,2 e uns 3.400 anos-luz de distância — um bom alvo de binóculo, mais compacto que o par M 46/M 47 (Kambič, p. 405).
NGC 2477, o aglomerado que parece globular
O NGC 2477 fica no mesmo campo de Naos, com magnitude 5,8 e cerca de 120 membros a uns 4.200 anos-luz — tão denso que, em binóculo, é fácil confundi-lo com um aglomerado globular (Philip's, verbete Puppis; Kambič, p. 407-409). Muitos observadores o consideram o mais bonito aglomerado da Popa (Kambič, p. 407-409).
NGC 2451, o aglomerado a olho nu
O NGC 2451 é um aglomerado grande e solto, visível a olho nu sob céu escuro, dominado pela estrela alaranjada c Puppis, de magnitude 3,6 — que fica na frente do aglomerado, mas provavelmente não é uma estrela-membro física dele, e sim uma estrela de primeiro plano (Philip's, verbete Puppis). Fica a cerca de 1.000 anos-luz de distância (Kambič, ideia de pesquisa) e é um dos alvos mais fáceis da constelação para binóculo.
Mitologia e história
A Popa não tem mitologia própria além da que pertence ao navio Argo inteiro: na lenda grega, Jasão reuniu os Argonautas e partiu no navio Argo em busca do Velo de Ouro. Ptolomeu catalogou o Argo Navis como uma única e enorme constelação, tão grande que, séculos depois, La Caille resolveu dividi-la em pedaços administráveis — Carina (a quilha), Vela (as velas) e Puppis (a popa) —, cada um mantendo a sequência de letras gregas do desenho original, o que explica por que a Popa não tem Alfa nem Beta: essas letras ficaram com as estrelas mais brilhantes de Carina e Vela (Mourão, p. 655; Philip's, verbete Puppis).
Roteiro de observação
| Instrumento | O que ver |
|---|---|
| A olho nu | Naos como um ponto azulado na Via Láctea; o NGC 2451 como uma mancha larga e solta em céu escuro; o brilho geral da Via Láctea atravessando a constelação. |
| Binóculo (10×50) | M 46 e M 47 juntos no mesmo campo; M 93 mais compacto; NGC 2477 parecendo um globular; NGC 2451 resolvido em dezenas de estrelas ao redor de c Puppis. |
| Telescópio pequeno a médio (10 a 20 cm) | A nebulosa planetária NGC 2438 dentro do campo de M 46 (sem pertencer a ele); as duplas Pi Puppis e Kappa Puppis; mais estrelas fracas nos aglomerados mais distantes. |
Dicas de campo:
- Escolha uma noite sem Lua entre dezembro e abril, em céu escuro — a Via Láctea da Popa rende horas de observação com binóculo.
- Comece por Sirius, desça até Naos, e depois use o binóculo para "varrer" ao redor: em poucos graus há meia dúzia de aglomerados diferentes.
- Guarde um tempo para comparar M 46 (denso, mais distante) com M 47 (solto, mais próximo) lado a lado — é um dos contrastes mais didáticos do céu.
Referências
- MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbetes "Puppis" (p. 655), "II Puppis" (p. 655) e "Naos" (p. 558).
- MOORE, Patrick (ed.). Astronomy Encyclopedia (Philip's). Londres: Philip's. Verbetes "Puppis" (p. 325, paginação interpolada) e "Naos" (p. 275, paginação interpolada).
- MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. Londres: Springer. Noite de 26 de dezembro (Argo Navis e Falsa Cruz), p. 356.
- KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars. New York: Springer, 2010. Popa: estrelas-guia, M 46, M 47, M 93, NGC 2477, NGC 2451 e outros aglomerados, p. 397-406 (paginação impressa).
- VIEIRA, Fernando. Identificação do céu. O navio Argo: Carina, Vela e Popa, p. 86-87.
- Catálogo de dados de céu profundo e estelares do site Astronomia no Telhado (HYG v4.1, CC BY-SA 4.0), consultado em 21 set. 2026.