setembro 21, 2026
NGC 4631 (Caldwell 32), a Galáxia da Baleia: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
Entre as galáxias vistas quase exatamente de perfil, a NGC 4631 se destaca por dois motivos: é uma das mais brilhantes desse tipo em todo o céu, e está sendo visivelmente distorcida por uma companheira pequena. O resultado, numa fotografia profunda, é uma silhueta alongada e levemente torta, que lembra o corpo de uma baleia — daí o apelido de Galáxia da Baleia, também catalogada como Caldwell 32. Ela fica em Cães de Caça, ao lado de uma anã esferoidal que a perturba gravitacionalmente e não muito longe de outro par de galáxias em interação, o "Taco de Hóquei" (NGC 4656/4657). Do Rio de Janeiro, com declinação de +32°32′, é a mais alta das galáxias deste lote: culmina a cerca de 34,5°, uma altura ainda modesta, mas a melhor entre as cinco vizinhas de Cães de Caça reunidas aqui. Este guia reúne os dados, o caminho até ela, a melhor época e o que dá para ver e fotografar, incluindo os vizinhos que cabem no mesmo campo.
Texto em revisão. Este é um dos guias do novo formato de objeto. As fontes estão listadas no final; as divergências entre elas, nas pendências.

Ficha técnica e designações
Visão geral: uma edge-on distorcida por interação gravitacional
Como as outras galáxias de perfil deste lote (NGC 891 e NGC 4244), NGC 4631 mostra o disco quase exatamente de lado, com o SIMBAD listando apenas a classificação genérica "S" para uma espiral, sem detalhar barra ou subtipo. O que a diferencia é a companhia: uma galáxia pequena, NGC 4627, orbita muito perto dela, e a atração gravitacional entre as duas distorceu o disco da Baleia, dando a ela um formato levemente assimétrico, mais "lente" de um lado do que do outro. É um exemplo visual, mesmo em telescópios amadores, de como a gravidade entre galáxias vizinhas deixa marcas duradouras na forma de uma delas.
A galáxia em números. O SIMBAD dá magnitude V de 9,19 e dimensões de 16,6′ × 3,1′ para NGC 4631, um pouco maior do que os 14,8′ × 3,5′ do Mobberley e os 17′ × 3,5′ do Bakich — valores todos próximos, mas não idênticos, o que é comum em objetos extensos e de brilho superficial baixo nas bordas. É uma das galáxias de perfil mais brilhantes conhecidas, o que a torna bem mais acessível do que a discreta NGC 4244, deste mesmo lote.
Distância. O SIMBAD não lista paralaxe, mas registra uma velocidade radial heliocêntrica de 601 km/s. Pela lei de Hubble, com H0 de cerca de 70 km/s por megaparsec, isso dá uns 28 milhões de anos-luz. Mobberley e Kier citam valores um pouco menores, de 22 a 25 milhões. Este guia usa a faixa de 22 a 28 milhões de anos-luz.
A companheira que distorce a Baleia. A cerca de 2′ a 2,5′ ao norte/noroeste do corpo principal fica NGC 4627, uma galáxia esferoidal anã de magnitude próxima a 13 (Bakich; Mobberley). É pequena demais para impressionar sozinha, mas sua proximidade gravitacional é o que gera a distorção do disco da Baleia e intensifica a formação estelar na região central dela (Mobberley).
O Taco de Hóquei ao lado. A cerca de 30 a 35 minutos de arco a sudeste (Mobberley; Monks) fica outro par em interação: NGC 4656 e NGC 4657, apelidado de "Taco de Hóquei" por causa do formato curvo, também descoberto por William Herschel em 1787. A interação com a própria NGC 4631 é apontada por Bakich como responsável por parte da distorção desse par vizinho — um pequeno sistema de galáxias se afetando mutuamente, tudo dentro de um único campo de binóculo de campo largo.
Estruturas notáveis
- O disco assimétrico ("lente imperfeita"). Já em telescópios de 100 a 150 mm, nota-se que a galáxia é mais larga de um lado do que do outro, o resultado visível da distorção gravitacional (Bakich).
- Aglomerados nos braços. Com 300 mm ou mais, grandes aglomerados estelares aparecem espalhados ao longo do disco (Bakich).
- Regiões escuras de poeira. Acima de 400 mm, faixas de poeira mais discretas começam a aparecer contra o brilho do disco (Bakich).
- O bojo central amarelado. Em fotografia profunda, o centro tem um tom mais amarelado sobre um disco azulado — combinação que, segundo Mobberley, lembra o desenho de uma nave espacial clássica de ficção científica, uma comparação de estilo, não um dado técnico.
- NGC 4627, a companheira. Uma manchinha pequena e discreta logo ao lado do corpo principal, visível como um pontinho difuso em telescópios médios a grandes.
Como localizar
NGC 4631 fica cerca de 6° ao sul e 3° a oeste de Cor Caroli (Alfa Canum Venaticorum, magnitude 2,8), a estrela mais brilhante de Cães de Caça (Mobberley). É visível em telescópios modestos, e um instrumento de 150 mm ou mais já mostra bem o formato alongado, ajudando a confirmar a identificação mesmo em céu com alguma iluminação de fundo. Uma vez localizada a Baleia, olhe cerca de meio grau a sudeste para o par NGC 4656/4657, o Taco de Hóquei, que cabe no mesmo campo de um ocular de baixa ampliação.

Quando e como observar
Com declinação de +32°32′, NGC 4631 culmina a cerca de 34,5° de altura no Rio de Janeiro (90° menos a diferença entre a latitude do Rio, −23°, e a declinação do objeto) — a melhor altura entre as galáxias de Cães de Caça reunidas neste lote, ainda que moderada para os padrões do site. A melhor época é o outono austral, quando a constelação culmina à noite; prefira observar perto da culminação e em céu transparente, já que o brilho superficial, embora bom para uma edge-on, ainda é sensível à extinção atmosférica e à polução luminosa do horizonte norte.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-13 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -25°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 04:00 · -25° ENE
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 12 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 50 mag 9,2
- Enquadramento
- 100 ocupa 32 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | -42° | — | 71° |
| 20:00 | -48° | — | 71° |
| 20:30 | -54° | — | 72° |
| 21:00 | -61° | — | 72° |
| 21:30 | -67° | — | 72° |
| 22:00 | -73° | — | 72° |
| 22:30 | -78° | — | 72° |
| 23:00 | -80° | — | 73° |
| 23:30 | -79° | — | 73° |
| 00:00 | -75° | — | 73° |
| 00:30 | -69° | — | 73° |
| 01:00 | -63° | — | 73° |
| 01:30 | -57° | — | 74° |
| 02:00 | -50° | — | 74° |
| 02:30 | -44° | — | 74° |
| 03:00 | -38° | — | 74° |
| 03:30 | -31° | — | 74° |
| 04:00 | -25° | — | 75° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Invisível. |
| Binóculo (10×50 a 15×70) | No limite da detecção em céu bem escuro, como uma manchinha alongada muito tênue (Kambič, citando-a "no limite" mesmo com abertura maior de binóculo). |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Uma "lente" alongada e visivelmente maior de um lado do que do outro, o efeito da distorção gravitacional (Bakich). |
| Telescópio de 300 mm ou mais | Grandes aglomerados estelares nos braços, mais estrutura no disco (Bakich). NGC 4627 aparece como uma manchinha companheira. |
| Telescópio de 400 mm ou mais | Regiões escuras de poeira contra o brilho do disco (Bakich). |
Expectativa honesta. Entre as galáxias de perfil deste lote, NGC 4631 é a mais generosa: brilho maior, tamanho aparente maior e a melhor altura no Rio. Ainda assim, é um objeto de baixo contraste em Bortle 7, e a assimetria do disco — o detalhe mais interessante ao ocular — só fica clara com atenção e um pouco de experiência em observar galáxias fracas.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Com cerca de 16,6′ de comprimento (SIMBAD), a galáxia cabe bem num campo de 1.000 mm de focal com uma câmera como a ASI294MC Pro (cerca de 1,1° × 0,75°). Kier sugere um campo de cerca de 50′ × 35′ para incluir tanto a Baleia quanto o Taco de Hóquei (NGC 4656) na mesma imagem — um enquadramento que vale a pena buscar, já que os dois pares distorcidos, vizinhos e provavelmente interagindo entre si, contam uma história visual só quando vistos juntos.
Desafios do alvo
- Assimetria e brilho irregular. O disco não é uniforme; processamento cuidadoso ajuda a preservar a distorção real sem exagerar artefatos.
- Companheira pequena e fraca. NGC 4627 é discreta; um pouco mais de tempo de exposição ajuda a defini-la contra o fundo do céu.
- Dois alvos em um campo. Enquadrar a Baleia e o Taco de Hóquei juntos exige um campo mais largo, o que reduz a escala de cada objeto individualmente — vale a pena decidir de antemão se o objetivo é o par completo ou um close da Baleia sozinha.
Equipamento e filtros
Sem um capítulo dedicado exclusivamente a este alvo nos livros consultados além da menção comparativa de Kier, a recomendação segue os princípios gerais para uma galáxia edge-on brilhante: câmera colorida de um disparo ou o método LRGB, com luminância obtida perto da culminação.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (LRGB ou colorida) | 70 a 110 | 120 a 180 s | Disco, companheira e (se enquadrado) o Taco de Hóquei |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu equipamento e à sua noite.
Smart telescopes e campo de visão
Em um smart telescope como o Seestar S50 (campo de cerca de 1,3° × 0,7°), a Galáxia da Baleia cabe com folga, e dependendo do enquadramento é possível incluir também o Taco de Hóquei na mesma captura, já que os dois pares ficam a cerca de meio grau de distância. Por ser uma das edge-on mais brilhantes do lote, ela tende a responder relativamente rápido ao empilhamento automático, mas os detalhes finos (aglomerados nos braços, faixas de poeira) ainda pedem várias horas. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre a galáxia.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
A Galáxia da Baleia é, entre as galáxias de Cães de Caça reunidas neste lote, a mais recompensadora do Rio de Janeiro: mais alta, mais brilhante e com uma companheira e um par vizinho que contam uma história de interação gravitacional visível mesmo em telescópios amadores. É um bom ponto de entrada para quem quer conhecer as galáxias de perfil da constelação antes de tentar as mais discretas, como a Agulha de Prata ou NGC 5005. Para seguir explorando Cães de Caça, veja o guia de M 3, o globular da constelação, e as outras galáxias deste mesmo lote: NGC 4449, a Agulha de Prata (NGC 4244) e NGC 5005, além da vizinha edge-on NGC 891, em Andrômeda.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 293 (NGC 4631).
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 32, p. 76-77.
- KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. Lista comparativa de galáxias de perfil (Whale e Hockey Stick), p. 133.
- KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Galáxias de Cães de Caça e Cabeleira de Berenice, NGC 4631 no limite do binóculo, p. 220-223.
- MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. Baleia e Taco de Hóquei no mesmo campo, p. 98.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, magnitude V, dimensões, tipo morfológico e velocidade radial de NGC 4631, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.