setembro 21, 2026
NGC 5005 (Caldwell 29), a espiral de braços apertados dos Cães de Caça: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
A cerca de 3° de Cor Caroli, no meio da constelação de Cães de Caça, fica uma galáxia espiral pequena e enganosa: brilhante o bastante para chamar atenção ao ocular, mas discreta demais para revelar os braços que a tornam interessante para a astrofotografia. É a NGC 5005, também conhecida como Caldwell 29, uma espiral de braços muito apertados, cortada por faixas de poeira densas e dona de um núcleo ativo de baixa energia. Ela tem uma vizinha quase gêmea em brilho, NGC 5033, a menos de meio grau de distância — o tipo de par que rende confusão em telescópios pequenos e uma boa dupla imagem para quem tem campo largo. Do Rio de Janeiro, a declinação de +37° a deixa baixa, culminando a menos de 30° de altura, mas ainda dentro do alcance de uma boa noite de outono austral. Este guia reúne os dados, o caminho até ela, o melhor momento e uma comparação honesta entre o que o ocular mostra e o que só a câmera revela.
Texto em revisão. Este é um dos guias do novo formato de objeto. As fontes estão listadas no final; as divergências entre elas, nas pendências.

Ficha técnica e designações
Visão geral: uma espiral de núcleo ativo e braços apertados
NGC 5005 pertence ao tipo de espiral com braços bem enrolados e comprimidos perto do núcleo, ao contrário de espirais mais "abertas" como M 51 ou M 101. O SIMBAD a classifica como S_AB, uma espiral com barra intermediária — nem totalmente barrada, nem totalmente sem barra. Mobberley acrescenta um detalhe importante: descreve NGC 5005 como uma "galáxia Seyfert de baixa energia", ou seja, um núcleo ativo mais discreto do que o de um Seyfert clássico, do tipo hoje chamado de LINER (região nuclear de linhas de emissão de baixa ionização) — um sinal de que ainda há alguma atividade, provavelmente ligada a um buraco negro central, mas em ritmo bem mais modesto do que em galáxias com núcleos ativos espetaculares.
A galáxia em números. O SIMBAD dá dimensões de 7,06′ × 3,21′, maiores do que os cerca de 5,8′ a 6′ × 2,8′ a 3′ citados por Mobberley e Bakich. Quanto ao brilho, há uma divergência a explicar: o fluxo V que consta no SIMBAD, 13,67, é fraco demais para bater com qualquer relato de observação visual do objeto ou com os valores dos livros (9,8 em Mobberley e Bakich; 10,71 no catálogo do site) — muito provavelmente uma medida de abertura estreita, típica de fotometria de núcleo, e não do brilho integrado da galáxia inteira. Este guia segue os livros e o catálogo, usando a faixa de cerca de 9,8 a 10,7, com a ressalva do valor discrepante do SIMBAD registrada aqui.
Distância. Sem paralaxe no SIMBAD, a velocidade radial heliocêntrica (946 km/s) dá, pela lei de Hubble com H0 de cerca de 70 km/s por megaparsec, uns 44 milhões de anos-luz. Mobberley cita 70 milhões, valor bem mais alto — uma diferença grande demais para atribuir só à imprecisão da constante de Hubble; é possível que reflita métodos de medição diferentes ou uma correção pela velocidade peculiar do grupo em que a galáxia se encontra. Este guia usa a faixa de 44 a 70 milhões de anos-luz, sem escolher um valor único.
A vizinha NGC 5033. A cerca de 42′ de distância (Monks), fica NGC 5033, uma galáxia de brilho e tamanho parecidos, mas mais alongada. Mobberley, informalmente, a chama de "C29B" (sem que isso seja uma designação oficial do catálogo Caldwell) e argumenta que ela mereceria status próprio na lista, de tão parecida em qualidade com a NGC 5005. Em telescópios pequenos, as duas podem confundir o observador.
Uma supernova. Em 16 de junho de 1996, o observador Bottari descobriu a supernova SN 1996ai em NGC 5005, do tipo Ia, com magnitude entre 14,5 e 13 (Mobberley) — um lembrete de que mesmo galáxias discretas para o observador amador têm seu próprio histórico de eventos catastróficos documentado.
Estruturas notáveis
- O núcleo estelar brilhante. Mesmo em telescópios de 200 mm, um ponto central nítido se destaca do disco mais fraco ao redor (Mobberley).
- O disco oval e uniforme. Sem estrutura evidente ao ocular em aberturas pequenas a médias; a forma é uma elipse simples (Mobberley).
- As faixas de poeira. Invisíveis ao ocular, mas evidentes em fotografia profunda com boa luminância, onde revelam brilho irregular e, ocasionalmente, indícios de braços fracos e acastanhados (Mobberley).
- A barra intermediária. Presente na classificação do SIMBAD (S_AB), discreta demais para notar em observação visual amadora.
Como localizar
NGC 5005 fica cerca de 3° a lés-sudeste de Cor Caroli (Alfa Canum Venaticorum, magnitude 2,8), a estrela mais brilhante de Cães de Caça (Mobberley; Bakich). Outra forma de descrever a mesma rota: a partir de Cor Caroli, ande cerca de 1¼° ao sul e 3° a leste (Mobberley). Com um telescópio de abertura de 150 mm ou mais, o núcleo brilhante ajuda a confirmar a identificação, já que a galáxia tem baixo contraste com o céu de fundo em instrumentos menores.

Quando e como observar
Com declinação de +37°03′, NGC 5005 culmina a cerca de 29,9° de altura no Rio de Janeiro (90° menos a diferença entre a latitude do Rio, −23°, e a declinação do objeto) — uma altura moderada para baixo, no mesmo patamar de NGC 4244, neste lote. Não é uma galáxia para observar de qualquer horário: espere a culminação para reduzir a extinção atmosférica, e prefira noites de boa transparência, já que o disco de baixo contraste some rápido em céu com névoa ou lua alta. A melhor época é o outono austral, quando a região de Cães de Caça culmina à noite.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -33°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 04:00 · -33° ENE
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 28 mag 10,7
- Enquadramento
- 43 ocupa 11 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | -35° | — | 63° |
| 20:00 | -41° | — | 63° |
| 20:30 | -47° | — | 63° |
| 21:00 | -53° | — | 63° |
| 21:30 | -59° | — | 63° |
| 22:00 | -65° | — | 64° |
| 22:30 | -70° | — | 64° |
| 23:00 | -74° | — | 64° |
| 23:30 | -76° | — | 64° |
| 00:00 | -75° | — | 64° |
| 00:30 | -72° | — | 64° |
| 01:00 | -68° | — | 65° |
| 01:30 | -62° | — | 65° |
| 02:00 | -56° | — | 65° |
| 02:30 | -51° | — | 65° |
| 03:00 | -45° | — | 65° |
| 03:30 | -39° | — | 65° |
| 04:00 | -33° | — | 66° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Invisível. |
| Binóculo (10×50 a 15×70) | Muito difícil; sem relato detalhado nos livros de binóculo consultados para este objeto específico. |
| Telescópio de 150 a 200 mm | Uma elipse oval simples, com núcleo estelar brilhante e disco mais fraco ao redor (Mobberley). |
| Telescópio de 350 a 400 mm, em ampliação de 300x | Os braços ainda não se resolvem individualmente, mas nota-se um brilho irregular pela presença das faixas de poeira (Mobberley). |
| Câmera / CCD amador com luminância longa | Braços espirais fracos e de tom acastanhado, que o autor descreve como "sem graça" em exposições curtas, mas visíveis com processamento cuidadoso (Mobberley). |
Expectativa honesta. Mobberley é direto: ao ocular, mesmo em telescópios grandes, NGC 5005 "rende mais em CCD profundo do que no ocular". Não espere ver os braços a olho, nem em céu escuro; o que se vê é um núcleo brilhante numa elipse discreta. É um objeto melhor para fotografar do que para observar visualmente, e do Rio, com a altura baixa somada ao Bortle 7, essa diferença fica ainda mais marcada.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Com cerca de 7′ de comprimento no SIMBAD, a galáxia é pequena. Um telescópio de 1.000 mm de focal com uma câmera como a ASI294MC Pro (campo de cerca de 1,1° × 0,75°) deixa espaço de sobra; uma focal maior (1.500 a 2.000 mm) valoriza melhor o disco e as faixas de poeira. Se o campo do seu equipamento chegar a cerca de 1°, considere incluir a vizinha NGC 5033 na mesma imagem, a cerca de 42′ de distância (Monks) — um enquadramento que rende uma boa "dupla" de galáxias no mesmo quadro.
Desafios do alvo
- Braços fracos demais para exposições curtas. Mobberley é explícito: só uma luminância muito longa revela indícios dos braços; sessões curtas mostram apenas o núcleo e o disco oval.
- Altura moderada a baixa no Rio. Fotografar perto da culminação (cerca de 30°) ajuda a reduzir o impacto da extinção atmosférica sobre um alvo já de baixo contraste.
- Núcleo brilhante versus disco fraco. Um pouco de cuidado no processamento evita estourar o núcleo enquanto se tenta revelar o disco mais tênue ao redor.
Equipamento e filtros
Sem um capítulo dedicado a este alvo nos livros de astrofotografia consultados, a recomendação segue os princípios gerais para galáxias pequenas: o método LRGB com luminância bem longa, obtida perto da culminação, ou uma câmera colorida de um disparo com tempo total generoso.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (LRGB, luminância longa, ou colorida) | 80 a 130 | 120 a 180 s | Núcleo, disco e indícios de braços; priorize o tempo total |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu equipamento e à sua noite.
Smart telescopes e campo de visão
Em um smart telescope como o Seestar S50 (campo de cerca de 1,3° × 0,7°), NGC 5005 cabe com folga, e o campo é largo o bastante para incluir a vizinha NGC 5033 na mesma captura. Como os braços exigem tempo de exposição longo mesmo em equipamento profissional amador, espere que o empilhamento automático do smart telescope mostre, no início, só o núcleo e o disco oval; mais horas ajudam a revelar mais estrutura. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre a galáxia.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
NGC 5005 é um lembrete de que nem todo bom alvo de astrofotografia é um bom alvo visual: ao ocular, uma elipse discreta com núcleo brilhante; na câmera, com tempo suficiente, uma espiral de braços apertados e faixas de poeira. Vale a pena combiná-la com a vizinha NGC 5033 numa mesma sessão, e reservar as melhores noites de transparência para tentar captar os braços. Para seguir explorando Cães de Caça, veja o guia de M 3, o globular da constelação, e as outras galáxias deste mesmo lote: NGC 4449, a Agulha de Prata (NGC 4244) e a Galáxia da Baleia (NGC 4631).
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 324 (NGC 5005).
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 29, p. 70-71.
- MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. NGC 5005 e NGC 5033 no mesmo campo, p. 103.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, fluxo V, dimensões, tipo morfológico e velocidade radial de NGC 5005, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.