setembro 21, 2026

NGC 4244 (Caldwell 26), a Agulha de Prata dos Cães de Caça: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de NGC 4244 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

Entre as galáxias vistas de perfil, há um subgrupo ainda mais extremo: discos tão finos e sem bojo central que parecem, ao telescópio, uma linha reta de luz, quase sem espessura. NGC 4244, ou Caldwell 26, é o exemplo mais citado desse tipo em Cães de Caça, e ganhou o apelido de Agulha de Prata por causa exatamente dessa forma. Sem um núcleo abaulado que se destaque do resto do disco, ela depende inteiramente do brilho concentrado numa faixa comprida e estreita — cerca de oito vezes mais longa do que larga. Do Rio de Janeiro, com declinação de quase +38°, ela culmina a pouco menos de 30° de altura: baixa, mas ainda razoavelmente acessível em noites boas do outono austral. Este guia reúne os dados, o caminho até ela a partir de Cor Caroli, o melhor momento do ano e da noite e o que muda entre um telescópio pequeno e um grande.

Texto em revisão. Este é um dos guias do novo formato de objeto. As fontes estão listadas no final; as divergências entre elas, nas pendências.

Imagem de referência (DSS2) de NGC 4244 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: uma galáxia de perfil sem bojo

A maioria das galáxias espirais de perfil mostra um bojo central mais espesso, uma concentração de estrelas mais velhas no meio do disco fino, que faz o objeto parecer um charuto ou um fuso. NGC 4244 é diferente: é uma espiral tardia (tipo Sc ou Scd, sem barra evidente segundo o SIMBAD, que a classifica apenas como "S"), com um disco quase sem bojo. O resultado é uma galáxia que, em telescópios pequenos, parece uma linha praticamente uniforme de ponta a ponta — daí a comparação com uma agulha, em vez de com um charuto ou um fuso (comparações mais comuns em objetos como M 104, o Sombreiro, ou NGC 4565).

A galáxia em números. O SIMBAD dá dimensões de 19,1′ × 2,7′, maiores do que os 16′ a 17′ × 2′ a 2,2′ citados por Mobberley, Bakich e Kier — uma diferença comum quando o instrumento de medição capta mais do halo fraco nas pontas do disco. A magnitude fica em torno de 10,2 a 10,4 conforme a fonte (o SIMBAD não lista um valor de brilho integrado catalogado). A proporção comprimento/largura, de cerca de 7:1 a 8:1, está entre as mais extremas de qualquer galáxia deste site.

Distância. Sem paralaxe no SIMBAD, a velocidade radial heliocêntrica registrada (245 km/s) dá, pela lei de Hubble com H0 de cerca de 70 km/s por megaparsec, uns 11,4 milhões de anos-luz. Mobberley e Kier citam 10 milhões; medidas por cefeidas de fora dos livros consultados apontam algo perto de 14 milhões. Este guia usa a faixa de 10 a 14 milhões de anos-luz.

Descoberta e nome. William Herschel descobriu a galáxia em 1787 (Mobberley). O apelido "Agulha de Prata" foi cunhado, segundo Mobberley, pelo observador Tom Polakis — não é um nome histórico do século XIX, como acontece com muitos objetos deste catálogo, mas uma descrição moderna que pegou.

Um núcleo massivo revelado por telescópio profissional. Kier menciona um estudo do Observatório Gemini que reportou um aglomerado estelar nuclear massivo, em rotação rápida, no centro de NGC 4244 — um dado de astronomia profissional, fora do alcance de qualquer telescópio amador, mas que ajuda a explicar por que, mesmo sem bojo visível, a galáxia tem uma concentração de massa no centro.

Estruturas notáveis

  • O disco quase uniforme. Com telescópios de até 100 mm em céu escuro, o brilho é relativamente parelho de ponta a ponta, o que reforça o efeito "agulha" (Mobberley).
  • O centro mais brilhante em telescópios maiores. Com 300 mm, uma leve concentração de brilho no meio do disco começa a aparecer, ainda que sem formar um bojo destacado (Mobberley).
  • As pontas desiguais. Para o lado nordeste, o disco esmaece numa névoa mais larga; para o lado oposto (sudoeste), a aparência é mais irregular (Bakich).
  • O aglomerado nuclear (dado profissional). Invisível a olho, mas presente no centro da galáxia segundo observações do Gemini (Kier).

Como localizar

NGC 4244 fica na constelação de Cães de Caça, na mesma região rica em galáxias que abriga M 51, M 63, M 94 e M 106 (Bakich). Não há uma estrela guia muito próxima e brilhante: o ponto de partida mais prático é Cor Caroli (Alfa Canum Venaticorum, magnitude 2,8), a estrela mais brilhante da constelação, de onde se navega por saltos de campo largo até a região entre ela e Chara (Beta CVn). Um buscador ou um binóculo de campo largo ajuda a confirmar a posição antes de aumentar a ampliação, já que a galáxia é fina e de baixo contraste.

Carta de localização de NGC 4244: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de +37°49′, NGC 4244 culmina a cerca de 29,2° de altura no Rio de Janeiro (90° menos a diferença entre a latitude do Rio, −23°, e a declinação do objeto). É uma altura moderada para baixo, semelhante à de M 3 e melhor do que a das outras galáxias de Cães de Caça deste lote com declinação mais alta. A primavera é a estação clássica de galáxias no hemisfério norte; no Brasil, isso corresponde ao outono austral, quando a região culmina à noite. Como o disco é fino e de brilho relativamente baixo por área, prefira noites de boa transparência e espere a culminação, quando a luz atravessa a menor quantidade de atmosfera possível.

Altura de NGC 4244 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. O objeto não passa de 30° à meia-noite em nenhuma época do ano.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZhoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Neste local o objeto não passa de 30° de altura no meio da noite em nenhuma época do ano.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -22°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
04:00 · -22° ENE
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
36 mag 10,2
Enquadramento
100 ocupa 36 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -46° — 69°
20:00 -52° — 69°
20:30 -58° — 69°
21:00 -63° — 70°
21:30 -68° — 70°
22:00 -72° — 70°
22:30 -75° — 70°
23:00 -75° — 70°
23:30 -72° — 71°
00:00 -68° — 71°
00:30 -63° — 71°
01:00 -58° — 71°
01:30 -52° — 71°
02:00 -46° — 72°
02:30 -40° — 72°
03:00 -34° — 72°
03:30 -28° — 72°
04:00 -22° — 72°
Altura de NGC 4244 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 04:00, com -22°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte04:00 · -22°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Invisível.
Binóculo (10×50 a 15×70) Muito difícil; sem relato detalhado nos livros de binóculo consultados para este objeto específico.
Telescópio de até 100 mm, céu escuro O aspecto de "agulha", uma linha fina e de brilho relativamente uniforme (Mobberley).
Telescópio de 200 a 300 mm O mesmo traço alongado, agora com uma leve concentração de brilho central, sem formar um bojo destacado; o lado nordeste esmaece em névoa mais larga, e o lado oposto é mais irregular (Mobberley; Bakich).

Expectativa honesta. Mobberley observa algo contraintuitivo: com aberturas maiores, o aspecto fino de "agulha" que dá nome ao objeto tende a se perder, porque mais brilho de baixo contraste aparece ao redor da linha central. Ou seja, um telescópio pequeno em céu bem escuro pode mostrar o efeito mais marcante do que um grande — mas em Bortle 7, com a altura baixa do Rio, mesmo o efeito básico pode exigir mais paciência do que em outros objetos deste catálogo.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Com cerca de 19′ de comprimento no SIMBAD (16′ a 17′ nos livros), a galáxia é longa e estreita. Um telescópio de 1.000 mm de focal com uma câmera como a ASI294MC Pro (campo de cerca de 1,1° × 0,75°) enquadra o disco inteiro com folga em uma das direções; orientar o sensor ao longo da diagonal do quadro aproveita melhor os pixels disponíveis, já que o eixo menor é muito estreito.

Desafios do alvo

  • Brilho superficial baixo ao longo de todo o disco. Sem um núcleo concentrado para "ancorar" a exposição, é preciso tempo total generoso para revelar o comprimento inteiro sem ruído excessivo.
  • Altura moderada a baixa no Rio. Fotografar perto da culminação (cerca de 29°) reduz o efeito da extinção atmosférica sobre um objeto já de baixo contraste.
  • Risco de "cortar" as pontas. Como o disco é comprido, um enquadramento apertado corta as extremidades mais fracas; vale a pena um pouco de folga nas bordas do quadro.

Equipamento e filtros

Sem um capítulo dedicado a este alvo nos livros de astrofotografia consultados (não está entre os 100 alvos do Kier, que o cita apenas na lista comparativa de galáxias de perfil), a recomendação segue os princípios gerais: câmera colorida de um disparo ou o método LRGB, com exposições feitas perto da culminação.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light (LRGB ou colorida) 70 a 110 120 a 180 s Disco completo, de ponta a ponta; priorize a culminação
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu equipamento e à sua noite.

Smart telescopes e campo de visão

Em um smart telescope como o Seestar S50 (campo de cerca de 1,3° × 0,7°), NGC 4244 cabe inteira no sentido do comprimento, com espaço de sobra nas laterais. Como o brilho superficial é baixo em toda a extensão do disco, várias horas de empilhamento em noites de boa transparência ajudam bastante mais do que uma sessão curta. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre a galáxia.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

A Agulha de Prata é um bom lembrete de que "fino" nem sempre significa "difícil": em céu escuro e com a altura moderada que ela alcança no Rio, um telescópio pequeno já mostra a linha característica que dá nome ao objeto, e ela combina bem com uma noite dedicada às galáxias de Cães de Caça. Para seguir explorando a constelação, veja o guia de M 3, o globular de Cães de Caça, e as outras galáxias deste mesmo lote: NGC 4449, NGC 5005 e a Galáxia da Baleia (NGC 4631), outra edge-on da mesma constelação para comparar com esta.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 239 (NGC 4244).
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 26, p. 64-65.
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. Lista comparativa de galáxias de perfil (Silver Needle, NGC 4244), p. 113-115.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, dimensões, tipo morfológico e velocidade radial de NGC 4244, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.