setembro 21, 2026
NGC 6352 (Caldwell 81), o globular de Ara: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos
Entre os globulares mais famosos do céu do sul, o NGC 6352 é o vizinho discreto que quase ninguém procura. Ele fica em Ara, o Altar, uma constelação encostada na cauda do Escorpião, e mistura-se ao rico campo de estrelas da Via Láctea. Não é grande, não é muito brilhante e não tem a estampa de um Ômega Centauri: é um aglomerado pequeno, frouxo, que se apresenta como uma mancha redonda e nebulosa com o centro um pouco mais claro. Em compensação, está bem alto no céu do Rio de Janeiro no inverno, cabe num binóculo e vem acompanhado de um aglomerado aberto mais brilhante, o IC 4651. Este guia reúne os dados, os gráficos de altura e a estratégia de observação e de captura.
Texto em revisão. Este é um guia do novo formato, do segundo lote Caldwell. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: o que é um aglomerado globular
Um aglomerado globular é uma esfera de centenas de milhares de estrelas muito antigas, presas pela gravidade e distribuídas em um halo em volta da Galáxia. Alguns são bolas apertadas, com o núcleo em luz contínua; outros são frouxos, com as estrelas espalhadas até o meio. O NGC 6352 está no segundo grupo.
O NGC 6352 em números. A paralaxe listada no SIMBAD (0,19 milissegundos de arco) dá cerca de 17.200 anos-luz, e é esse o valor adotado aqui; Mobberley cita 19.000, valor que ele compara ao do Ômega Centauri. O tamanho aparente é de cerca de 7′ (Mobberley, Bakich e SIMBAD concordam) e o diâmetro real, de algo em torno de 35 anos-luz, o que faz dele um globular pequeno: Mobberley lembra que ele parece apagado não por estar longe, mas por ser fisicamente pequeno (cerca de 40 anos-luz na conta dele). A idade é de cerca de 11 bilhões de anos (Mobberley). A magnitude integrada varia de 8,0 (Mobberley) a 8,1 (Bakich); o catálogo do site traz 8,87. É também o Caldwell 81.
Um objeto que o mestre perdeu. Mobberley registra que John Herschel não chegou a ver este aglomerado. Não é surpresa: ele é fraco e o campo à volta é tão cheio de estrelas que o aglomerado quase se confunde com o fundo.
A Via Láctea atrapalha. Em imagens de CCD, o pano de fundo da Via Láctea que atravessa Ara é muito evidente, e por isso, segundo Mobberley, determinar onde o aglomerado termina é "longe de ser uma ciência exata". A ideia de "tamanho" de um globular é, em parte, escolha de quem mede.
Estruturas notáveis
- O centro mais claro. Em telescópio de 100 mm o aglomerado é redondo e nebuloso, com o centro mais brilhante (Bakich).
- As estrelas resolvidas. As mais brilhantes têm magnitude 12 a 13, e Mobberley diz que compensam o aspecto sem grandes atrativos. Com 300 mm, Bakich conta cerca de 25 estrelas; com 400 mm ou mais, muitas estrelas de magnitude 15 fazem o objeto lembrar as fotografias (Mobberley).
- A estrela de primeiro plano. Bakich cita a GSC 8345:1542, de magnitude 11,0, a cerca de 1′ a sudoeste do centro.
- O IC 4651. A cerca de 1,5° ao sul, um aglomerado aberto de 10′, magnitude 6,9, com cerca de 80 estrelas de magnitude 13 ou mais, uma dezena de magnitude 10 e uma de magnitude 9 no extremo nordeste (Mobberley). Ele é maior que o globular e, para alguns observadores, mais bonito. Um iniciante pode confundir os dois.
Como localizar
O ponto de partida é Alfa Arae (magnitude 2,8 a 3,0), a estrela mais brilhante do Altar, perto da cauda do Escorpião. Mobberley manda andar 1,5° para o norte e 1° para oeste; Bakich descreve a mesma posição como 1,8° a noroeste. Também dá para chegar por Sargas, a estrela do ferrão do Escorpião, mas Alfa Arae é bem mais perto. O guia do Escorpião ajuda a achar a região. Um binóculo mostra o globular como uma mancha difusa no campo estrelado (Bakich), e o aglomerado aberto IC 4651, mais brilhante, serve de referência do outro lado de Alfa Arae. O próximo Caldwell nas redondezas é o NGC 6231, a cerca de 7° a oeste (Mobberley).

Quando e como observar
Com declinação de −48,4°, o NGC 6352 passa pelo meridiano do Rio de Janeiro a cerca de 65° de altura, uma excelente posição. Não é circumpolar (Mobberley: só abaixo de 42°S). Mobberley indica de maio a agosto como a melhor época; pelo cálculo da ascensão reta (17h25m), ele culmina à meia-noite por volta de meados de junho, e no início da noite de inverno já está bem alto no leste.
Olhando para o sul, o norte fica para baixo e o leste, à esquerda. Como o globular está longe do polo, a orientação varia pouco.
O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho dele pelo céu nesta noite (zênite no centro, cores pela altura e linha pontilhada, tracejada ou contínua conforme o crepúsculo), seguido da altura hora a hora.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
- Melhor horário
- 19:20 · 42° SW
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 44 / 100
- Posição no céu
- 34
- Brilho
- 56 mag 8,9
- Enquadramento
- 64 ocupa 16 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 41° | SW 225° | 41° |
| 20:00 | 36° | SW 226° | 41° |
| 20:30 | 31° | SW 226° | 41° |
| 21:00 | 26° | SW 226° | 41° |
| 21:30 | 21° | SW 225° | 40° |
| 22:00 | 16° | SW 224° | 40° |
| 22:30 | 11° | SW 222° | 40° |
| 23:00 | 7° | SW 220° | 40° |
| 23:30 | 2° | SW 217° | 40° |
| 00:00 | -2° | — | 39° |
| 00:30 | -5° | — | 39° |
| 01:00 | -9° | — | 39° |
| 01:30 | -12° | — | 39° |
| 02:00 | -14° | — | 39° |
| 02:30 | -16° | — | 38° |
| 03:00 | -18° | — | 38° |
| 03:30 | -19° | — | 38° |
| 04:00 | -19° | — | 38° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Não visível em Bortle 7. |
| Binóculo (7×50 a 15×70) | Bakich diz que o binóculo o mostra com facilidade. Em Bortle 7 é uma mancha pequena e fraca, mais fácil de achar a partir de Alfa Arae. |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Redondo, nebuloso, com o centro mais claro (Bakich). Mobberley recomenda 15 cm ou mais e indica que não há vantagem em usar filtro. |
| Telescópio de 250 a 400 mm | Com 300 mm, cerca de 25 estrelas (Bakich); com 400 mm, muitas estrelas de magnitude 15 e um aspecto mais próximo da fotografia (Mobberley). |
Expectativa honesta: é um globular de segunda linha, e o campo é tão rico que o objeto compete com as estrelas do fundo. Em Bortle 7, o mais provável é ver uma mancha redonda e fraca, sem resolução. Combine com o IC 4651, que aparece bem, e você tem duas noites de observação em um só campo.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Mobberley classifica o NGC 6352 como alvo fácil. Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (calculado a partir do sensor e da focal): o globular, de cerca de 7′, ocupa uma parte pequena do quadro, com muito espaço de campo estelar. Um campo de 2° a 3° (300 a 500 mm) permite incluir o IC 4651, a 1,5° ao sul, e Alfa Arae.
Desafios do alvo
- Campo muito povoado. O fundo da Via Láctea confunde o contorno do aglomerado (Mobberley). Um bom empilhamento e um fundo bem calibrado ajudam a separar as estrelas do globular das do campo.
- Tamanho pequeno. Em focais curtas, o globular fica pequeno no quadro; use focal de 1.000 mm ou mais para um enquadramento mais próximo.
- Estrelas de primeiro plano. Alfa Arae, muito brilhante, fica fora do quadro em focais longas, mas pode aparecer se o campo for aberto.
Equipamento e filtros
Como em todo globular, não há filtro que ajude. Uma câmera colorida de um disparo ou uma monocromática com LRGB funciona bem; o interessante é a variedade de cores das estrelas do campo.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (RGB ou colorida) | 60 a 100 | 60 a 120 s | Estrelas do aglomerado; o mais importante é o tempo total |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros.
Smart telescopes e campo de visão
O NGC 6352 cabe com folga no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), e o aglomerado ocupa uma parte pequena do quadro. Como é um alvo fácil, mas de brilho médio, poucas dezenas de minutos de empilhamento já mostram o aglomerado; muitas horas revelam mais estrelas do halo. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
O NGC 6352 é um objeto de paciência: pede ser procurado, comparado com o vizinho IC 4651 e apreciado pela vizinhança, e não pelo brilho. Para quem quer ver globulares de verdade no mesmo trecho de céu, o NGC 6397, também em Ara, é bem mais próximo e vistoso, e o NGC 6541, na Coroa Austral, completa uma noite de globulares do sul. O NGC 6752 é o passo seguinte para quem procura o espetáculo.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 480 (NGC 6352).
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 81, p. 170-171.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de NGC 6352, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.