setembro 21, 2026
NGC 6397 (Caldwell 86), globular de Ara: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos
Quem mora no hemisfério norte provavelmente nunca ouviu falar de NGC 6397, e esse é um dos melhores exemplos de como o céu do sul guarda coisas que os catálogos de lá deixam de lado. Mobberley diz que ela é um dos melhores globulares do céu. Bakich vai além: se estivesse no norte, teria um número de Messier. Ela é grande, brilhante e, sobretudo, muito perto (para um globular), e por isso suas estrelas mais brilhantes aparecem já em telescópios modestos. Do Rio de Janeiro, ela é um alvo de inverno, alto e sem problemas de altura. Este guia reúne os dados, as cartas, os gráficos de altura e a estratégia de observação e de captura.
Texto em revisão. Este é um guia de teste do novo formato de objeto, no lote de globulares do catálogo Caldwell. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: o que é um aglomerado globular e por que a distância importa
Um globular é uma esfera de estrelas muito antigas, ligadas pela gravidade, que orbita a Galáxia no halo. O que diferencia NGC 6397 da maioria é o quão perto ela está. Com cerca de 7.800 anos-luz pela paralaxe do SIMBAD (livros trazem 7.200 a 7.500), ela é um dos globulares brilhantes mais próximos do Sistema Solar, ao lado de M4, que fica perto de Antares e está a cerca de 5.900 anos-luz pelo SIMBAD (Mobberley, Bakich e Tonkin trazem 7.000). Mobberley conta que, na data de seu livro, o mais próximo de todos seria FSR 1767, um aglomerado fraco e de pouca massa em Escorpião, a 4.900 anos-luz, quase invisível por causa da poeira interestelar; para o observador, M4 e NGC 6397 são, na prática, os dois mais próximos entre os brilhantes. A comparação com o vizinho de Escorpião está no guia de M4.
NGC 6397 em números. A magnitude visual no SIMBAD é 5,2 (Bakich dá 5,3 e Mobberley, 5,7), e o diâmetro aparente é de cerca de 26′, quase o da Lua cheia (SIMBAD; Bakich). Esse tamanho equivale a um diâmetro real de cerca de 59 anos-luz (calculado), pequeno para um globular. Mobberley estima a idade em cerca de 11 bilhões de anos.
Por que a proximidade importa. Em um globular distante, as estrelas individuais são fracas demais e a luz se funde num brilho contínuo. Em NGC 6397, dentro dos 25′ existem dez estrelas de magnitudes 9 e 10 e mais de cem de magnitudes 11 a 13, o que a coloca, segundo Mobberley, na categoria de "algo especial" no ocular.
O que o Hubble encontrou. O telescópio espacial estudou o aglomerado em detalhe e identificou muitas retardatárias azuis, estrelas que parecem mais jovens que as vizinhas por terem se fundido, além de um pulsar de milissegundo: uma estrela de nêutrons que gira 274 vezes por segundo e orbita uma estrela vermelha inchada (Mobberley).
Estruturas notáveis
- A resolução em estrelas. O grande atrativo do objeto. Com 200 mm e 200 aumentos, Bakich conta cerca de 50 estrelas; com 350 mm, o aglomerado inteiro se resolve, com padrões e camadas, "como um aglomerado aberto".
- O aspecto pouco concentrado. O centro não é tão denso quanto o de 47 Tucanae; em vez de uma bola de luz, você vê uma nuvem de estrelas.
- As estrelas mais brilhantes. Dez estrelas de magnitudes 9 a 10 dão ao aglomerado um "efeito de faíscas" (Mobberley).
- O contraste com NGC 6401. Bakich lembra que, em contraste, o pequeno NGC 6401, em Ofiúco, tem só 4,8′ e é bem menos rico. Vale a comparação de "dois mundos", ambos na mesma época do ano.
Como localizar
NGC 6397 fica em Ara, o Altar, na fronteira sul de Escorpião. Mobberley recomenda partir de Alfa Arae e andar cerca de 3,75° ao sul e 1,5° a leste; alternativamente, fica cerca de 10,5° ao sul de Sargas, a estrela da cauda do Escorpião. Bakich dá dois roteiros: cerca de 2,9° a nordeste de Beta Arae (magnitude 2,9), ou 0,9° a nor-nordeste de Pi Arae (magnitude 5,3). Como o objeto é grande e brilhante, o binóculo o mostra bem antes do telescópio.

Quando e como observar
Com declinação de cerca de −54°, NGC 6397 cruza o meridiano do Rio a cerca de 59° de altura, sem problemas de extinção. Ela não é circumpolar do Rio: nasce e se põe. Mobberley indica de maio a agosto como os melhores meses. Pelo cálculo, no início de junho ela passa pelo meridiano à meia-noite, e por volta de agosto, às 21h, então o inverno é a melhor época, com o objeto alto na primeira metade da noite (o gráfico mostra a janela exata). Bakich diz que, quando está a mais de 10° do horizonte, o objeto pode ser visto a olho nu como uma estrela difusa; em Bortle 7, isso exige ele bem alto e a noite muito limpa.
Nenhum filtro ajuda (Mobberley). Em céu de Bortle 7, o brilho de fundo reduz o número de estrelas fracas que aparecem, mas as mais brilhantes, que fazem o aglomerado "brilhar", resistem bem.
Orientação: no meridiano, olhando para o sul, o norte fica para cima e o leste à esquerda.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
- Melhor horário
- 19:20 · 43° SW
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 61 / 100
- Posição no céu
- 36
- Brilho
- 100 mag 5,2
- Enquadramento
- 100 ocupa 34 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 42° | SW 217° | 46° |
| 20:00 | 37° | SW 219° | 46° |
| 20:30 | 33° | SW 220° | 45° |
| 21:00 | 28° | SW 220° | 45° |
| 21:30 | 24° | SW 220° | 45° |
| 22:00 | 20° | SW 219° | 45° |
| 22:30 | 15° | SW 218° | 45° |
| 23:00 | 11° | SW 216° | 44° |
| 23:30 | 7° | SW 214° | 44° |
| 00:00 | 3° | SSW 212° | 44° |
| 00:30 | 0° | — | 44° |
| 01:00 | -3° | — | 44° |
| 01:30 | -6° | — | 43° |
| 02:00 | -9° | — | 43° |
| 02:30 | -11° | — | 43° |
| 03:00 | -12° | — | 43° |
| 03:30 | -13° | — | 43° |
| 04:00 | -13° | — | 42° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Uma estrela difusa quando o objeto está bem alto e a noite é limpa; em Bortle 7, difícil (Bakich). |
| Binóculo (7×50 a 15×70) | Um disco grande, com cerca de metade a quase o tamanho da Lua cheia, felpudo e de centro mais claro; as estrelas mais brilhantes já podem aparecer nas bordas com abertura maior. |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Mobberley recomenda a partir de 10 cm; as estrelas de 11ª a 13ª magnitude começam a aparecer, e o aglomerado ganha aspecto granulado. |
| Telescópio de 200 mm ou mais | Cerca de 50 estrelas em 200 aumentos (Bakich); com 350 mm, todo o aglomerado se resolve, com padrões e camadas (Bakich). |
Expectativa honesta: NGC 6397 não tem o núcleo compacto que muitos esperam de um globular; ela é mais aberta, e é isso que a faz tão fácil de resolver. Em Bortle 7, quem tem telescópio de 150 mm ou mais consegue uma vista notável.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Com cerca de 26′ de diâmetro, cabe com folga em um campo de cerca de 1° (como o de uma ASI294MC Pro num telescópio de 1.000 mm, com cerca de 1,1° × 0,75°, calculado pelo sensor e pela focal). A carta do site mostra que a região tem muitas estrelas de campo, e o aglomerado destaca-se bem. Mobberley cita uma imagem de Daniel Verschatse, feita em Antilhue, no Chile, com refletor de 37 cm em LRGB, com 60 min de luminância e 20, 20 e 25 min nos canais de cor, em exposições de 5 min (Mobberley, p. 181).
Desafios do alvo
- Núcleo mais suave. Menos concentrado que outros globulares, o núcleo estoura menos; ainda assim, combine exposições curtas e longas se quiser preservar o centro.
- Campo estelar rico. A região fica perto do plano da Galáxia, e o fundo de estrelas é denso; um bom foco é fundamental.
- Cores. Estrelas azuis e vermelhas no aglomerado ficam bonitas se as cores forem tratadas com cuidado, sem saturar em excesso.
Equipamento e filtros
Mobberley considera o objeto um "alvo fácil com qualquer sistema de imagem" e sem vantagem de filtros. Uma câmera colorida de um disparo basta; um filtro anti-poluição de banda larga pode ajudar em Bortle 7. Banda estreita é desnecessária.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (RGB ou câmera colorida) | 60 a 100 | 30 a 60 s | Estrelas da periferia e cores |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros. Como referência, a imagem citada por Mobberley usou 125 minutos de dados em LRGB, com telescópio de 37 cm.
Smart telescopes e campo de visão
Um smart telescope como o Seestar S50 (campo de cerca de 1,3° × 0,7°) enquadra NGC 6397 com bastante folga, já que o aglomerado tem cerca de 26′ contra 42′ de altura do quadro. Como o alvo é brilhante, poucas dezenas de minutos de empilhamento já mostram o aglomerado e boa parte de suas estrelas. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
NGC 6397 é um alvo gratificante e subestimado: fácil de achar, alto no inverno e rico em estrelas resolvidas com um telescópio comum. Serve como "tira-teima" para quem quer saber o que separa um aglomerado que "brilha" do que só se mostra como uma mancha. O passo seguinte é a comparação com M4, o outro globular próximo, com NGC 6541, na Coroa Austral, e com os dois gigantes do sul, Ômega Centauri e 47 Tucanae.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 493 (NGC 6397).
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 86, p. 180-181.
- TONKIN, Stephen. Binocular Astronomy. London: Springer, 2007. Globulares do sul (M4), p. 224.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de NGC 6397, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.