setembro 21, 2026

NGC 247 (Caldwell 62), a galáxia de Cetus: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de NGC 247 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos

Algumas galáxias são grandes e brilhantes, outras grandes e discretas; NGC 247 é do segundo tipo. Ela ocupa mais de um terço de grau no céu, quase o tamanho da Lua cheia, mas a luz é espalhada por uma área tão grande que o brilho por ponto é baixíssimo (Mobberley, p. 132). É a gêmea apagada de uma vizinha muito mais famosa, a NGC 253 (Caldwell 65), que fica a cerca de 4,5° dela. Para o observador do Rio, ambas passam alto no céu na primavera, e esta é uma das melhores oportunidades para conhecer o Grupo do Escultor, a família de galáxias logo depois do Grupo Local. Este guia reúne os dados, os mapas e uma estratégia realista.

Texto em revisão. Este é um guia de teste no novo formato de objeto. As fontes estão listadas no final e as divergências entre elas, nas pendências.

Imagem de referência (DSS2) de NGC 247 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: o que é uma galáxia de baixo brilho superficial

A magnitude de uma galáxia diz quanta luz ela emite no total, mas o que o olho consegue ver depende do brilho por ponto. Uma galáxia grande, com a luz dividida por muitos minutos de arco quadrados, pode ter magnitude "boa" e mesmo assim ser quase invisível. O SIMBAD classifica NGC 247 exatamente assim, como uma galáxia de baixo brilho superficial. Mobberley dá cerca de 23 mag/arcseg² (p. 132), e Tonkin conta que ela parece "consideravelmente mais fraca" do que a magnitude 9,6 que se atribui a ela (Tonkin, p. 176).

Distância e grupo. Os livros divergem: 7 milhões de anos-luz (Mobberley) e 13 milhões (Bakich). O SIMBAD não traz paralaxe, e a velocidade radial de 162 km/s não serve como medida de distância nessa escala. Em ambos os casos, a galáxia é membro do Grupo do Escultor, com cerca de duas dúzias de galáxias, entre 1,5 e 2 vezes mais distantes que os membros mais afastados do Grupo Local (Bakich, nº 770). Kambič estima o grupo em cerca de 10 milhões de anos-luz (p. 144). O diâmetro real é de cerca de 45.000 anos-luz (Mobberley, p. 132).

Dimensões. O SIMBAD lista 17′ × 6′. Os livros trazem de 18′ × 5′ a 22′ × 7′. Trata-se de uma espiral vista bem inclinada, com o eixo maior quase norte–sul.

Por que está no catálogo Caldwell. Mobberley usa NGC 247 como exemplo de que o céu sul guarda objetos que Charles Messier nunca viu: observando de Paris, a cerca de 49° de latitude norte, ele via tudo o que ficava abaixo de −20° de declinação como fraco e baixo; M83 (declinação −29°) foi achada por Lacaille em 1751-52 e M7 é o Messier mais ao sul (p. 132). NGC 247 fica em −20,8°.

Estruturas notáveis

  • O centro concentrado. Em telescópio de 250 mm, o miolo aparece circular e brilhante (Bakich, nº 770).
  • A névoa oval norte–sul. Ao redor do centro, a névoa é oval e orientada de norte a sul (Bakich).
  • A estrela GSC 5849:2326. Estrela de magnitude 8,1 na ponta sul mais fina da galáxia (Bakich, a conferir).
  • O triângulo de estrelas. Tonkin cita um triângulo de estrelas de magnitude 5,5 logo ao sul, que ajuda a confirmar o local (p. 176).
  • A vizinha NGC 253. A cerca de 4,5° ao sul, a Galáxia do Escultor é bem mais fácil e brilhante; veja o guia de NGC 253.

Como localizar

O ponto de partida é Diphda (Beta Ceti). NGC 247 fica cerca de 2,75° ao sul e 0,75° a leste dela (Mobberley, p. 132); Bakich fala em 3° ao sul-sudeste (nº 770), e Tonkin em quase 3° ao sul-sudeste, a 4,5° ao norte de NGC 253 (p. 176). Na mesma região, a planetária NGC 246, a Nebulosa da Caveira, está a uns 9° ao norte. Como a galáxia é difusa, ache o campo com um buscador de campo largo e vá para uma ocular de baixa ampliação.

Carta de localização de NGC 247: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de −20,8°, NGC 247 passa a quase 88° de altura no Rio, praticamente sobre a nossa cabeça, o melhor ângulo para um alvo de brilho tão baixo. A culminação à meia-noite ocorre em meados de outubro, e a melhor janela vai de setembro a dezembro (Bakich sugere outubro). Diphda está alta na mesma época, o que facilita achar o campo.

O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano; o segundo, o caminho pelo céu nesta noite, seguido da altura hora a hora.

Altura de NGC 247 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de julho a dezembro. O objeto chega a 87° à meia-noite em outubro.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ8 out · 87°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de julho a dezembro (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 87° em 8 de outubro.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
23:10 · 88° NNE
Horas acima de 45°
6,3 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
89 / 100
Posição no céu
98
Brilho
51 mag 9,2
Enquadramento
100 ocupa 44 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de NGC 247 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 18:20 e 04:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 23:10, com 88°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO19:0020:0021:0022:0023:0000:0001:0002:0003:0004:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 38° E 99° 129°
20:00 45° E 97° 128°
20:30 52° E 95° 128°
21:00 59° E 92° 128°
21:30 66° E 90° 128°
22:00 73° E 86° 127°
22:30 79° E 80° 127°
23:00 86° ENE 57° 127°
23:30 86° WNW 302° 127°
00:00 79° W 280° 127°
00:30 72° W 274° 126°
01:00 65° W 270° 126°
01:30 59° W 268° 126°
02:00 52° W 265° 126°
02:30 45° W 263° 126°
03:00 38° W 261° 125°
03:30 31° W 259° 125°
04:00 24° WSW 257° 125°
Altura de NGC 247 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 23:10, com 88°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°20212223000102030423:10 · 88°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Não é visível.
Binóculo Extremamente difícil: Tonkin só a tenta com o céu excelente e o observador descansado, com visão desviada, e às vezes não tem certeza se a viu (p. 176).
Telescópio de 100 a 150 mm Mobberley indica 15 cm como abertura mínima (p. 132). Uma névoa alongada muito fraca, que exige céu escuro.
Telescópio de 200 a 250 mm Com 250 mm, um centro circular concentrado e uma névoa oval norte–sul, com a estrela de magnitude 8 na ponta sul (Bakich, nº 770).
Telescópio de 300 mm ou mais Expectativa geral, não dos livros: um pouco mais de estrutura ao longo do corpo da galáxia, sempre com baixo contraste; céu bom é essencial.

Expectativa honesta. Em Bortle 7, NGC 247 é um dos alvos mais difíceis do catálogo Caldwell. Para muitos observadores, a fotografia é o caminho mais viável.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Com cerca de 17′ a 22′ de comprimento, NGC 247 encaixa bem em sensores de CCD e CMOS de tamanho médio (Mobberley, p. 132). Com um refletor de 1.000 mm e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75°: a galáxia cabe folgada, orientada quase na vertical, e deixa espaço para as estrelas de campo. Em focais mais longas (1.500 mm ou mais), ela preenche mais o quadro, mas ainda cabe.

Desafios do alvo

  • Brilho superficial baixíssimo. É o principal desafio. Só um tempo total longo (muitas horas) e um céu escuro entregam os braços fracos; em Bortle 7, a subtração de gradiente é indispensável.
  • Ruído de fundo e vinheta. Com um objeto tão apagado, um bom flat e boa calibração são críticos.
  • Poucas estrelas brilhantes. O campo tem poucas âncoras de alinhamento, então a autoguiagem precisa ser confiável.

Equipamento e filtros

Câmera colorida com filtro anti-poluição luminosa (multi-banda) ajuda a segurar o brilho do céu; uma câmera monocromática com luminância e RGB é o caminho mais eficiente. Fotografe perto do meridiano, quando a galáxia está quase no zênite, para diminuir a extinção atmosférica. Mobberley cita imagem de Pöpsel e Binnewies feita na Namíbia (p. 133), sinal de que o céu escuro faz muita diferença.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light (luminância ou RGB) 100 a 180 180 s Corpo da galáxia; o tempo total é o que conta
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros.

Smart telescopes e campo de visão

NGC 247 cabe com folga no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), mas o brilho baixo pede muitas horas de empilhamento e um céu escuro. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

NGC 247 é um ótimo exemplo de que magnitude não é tudo. Para quem já observa NGC 253 sem dificuldade, ela é o passo seguinte: mesma região, mesmo grupo, mas exigindo mais céu e mais paciência. É também um bom alvo de astrofotografia de longa exposição, que recompensa quem junta horas de dados. Para a região, veja também os guias de NGC 300 e de NGC 55.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 770 (NGC 247).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Aglomerados de galáxias próximos, p. 144 (a conferir).
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 62, p. 132-133.
  • TONKIN, Stephen. Binocular Astronomy. London: Springer, 2007. Cetus, NGC 247, p. 176.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo, dimensões, magnitude V e velocidade radial de NGC 247, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.