setembro 21, 2026
NGC 246 (Caldwell 56), a Nebulosa da Caveira: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos
Há objetos cuja fama vem da fotografia e cuja realidade ao ocular é bem mais tímida. A Nebulosa da Caveira, em Baleia, é uma dessas: um dos maiores discos de gás entre as planetárias do céu, com cerca de 3,7′ de diâmetro, mas tão fraco que muita gente passa por ele sem ver. Mobberley resume bem no cabeçalho do capítulo: "surpreendentemente grande e enganosamente fraca". As estrelas que a atravessam confundem a estimativa de brilho, e o número que consta nos catálogos costuma ser muito otimista. Ao mesmo tempo, é um alvo instrutivo: um teste de filtros e de céu, e um dos objetos mais fáceis do céu de primavera do hemisfério sul de se achar. Este guia junta os dados, o mapa de localização, os gráficos de altura e a estratégia de observação e de captura.
Texto em revisão. Este é um guia no novo formato de objeto, ainda em rascunho. As fontes estão no final; as divergências aparecem como pendências.

Ficha técnica e designações
Visão geral: o que é uma nebulosa planetária
Uma nebulosa planetária é o envoltório de gás expelido por uma estrela de massa parecida com a do Sol no fim da vida; o núcleo que sobra, uma anã branca muito quente, ilumina o gás. O nome vem de William Herschel, que achou que alguns desses discos lembravam planetas (Mourão; Moore e Rees). Monks e Coe destacam que o brilho aparente de uma planetária engana: o que conta ao ocular é o brilho superficial, e é justamente aqui que a Caveira se distingue, com cerca de 22 magnitudes por segundo de arco quadrado (Mobberley), bem menos concentrada do que a Nebulosa Saturno (NGC 7009).
A Caveira em números. Tem magnitude visual de cerca de 11,8 (V no SIMBAD; Mobberley e Bakich trazem 10,9) e cerca de 3,7′ de diâmetro (SIMBAD; livros trazem de 4′ a 4,5′). Mobberley alerta que muitas fontes trazem magnitude fotográfica de 8,0, que a faria parecer 15 vezes mais brilhante do que é: parte do problema está em três estrelas na área da nebulosa. A central e outra a cerca de 1′ a sudoeste têm magnitude 11 a 12 (a segunda, 11,7), e uma terceira, perto da borda noroeste, tem magnitude 11,2; somadas, elas dão magnitude 10, o que confunde a estimativa. A estrela central é do tipo PG 1159 no SIMBAD.
Distância. As fontes dão de 1.500 (Coe) a 2.000 anos-luz (Monks), com 1.600 em Mobberley. A paralaxe do SIMBAD, de 1,80 milissegundo de arco, dá cerca de 1.800 anos-luz, o valor adotado aqui. A essa distância, a nebulosa tem cerca de 2 anos-luz de largura.
Nomes. É chamada de Nebulosa da Caveira e, por Stephen O'Meara, de Pac-Man, em referência ao personagem de fliperama (Mobberley). Como "Pac-Man" também é usado para a NGC 281 em Cassiopeia, Mobberley prefere "Caveira", menos ambígua. Coe cita ainda a comparação de George deLange com um balão transparente cheio de estrelas.
Estruturas notáveis
- O disco grande e fraco. Uma nebulosa quase circular, de aspecto irregular, sem a borda nítida das planetárias compactas.
- As estrelas do campo. Três estrelas de brilho parecido, uma delas a estrela central, dão a impressão de rosto ou de olhos, e complicam a leitura do objeto.
- A borda mais brilhante. Coe nota que o lado norte é o mais brilhante. Em 300 mm, Bakich vê um centro oco e uma borda fina a nordeste; a 100 aumentos em 25 cm, Mobberley descreve algo entre um crescente e uma meia-lua com o lado leste faltando.
- O buraco central. Em aumentos altos, o aspecto de "rosquinha" surge, e a visão desviada preenche o centro (Coe).
Como localizar
A Caveira fica em Baleia, numa região sem estrelas brilhantes. Comece em Diphda (beta Ceti, magnitude 2,0), que forma um grande triângulo com Deneb Algenubi e Deneb Kaitos Shemali (Mobberley). A nebulosa fica pouco a nordeste do centro do triângulo, cerca de 6° ao norte e 1° a leste de Diphda (Mobberley). Bakich dá outra referência: ela forma um triângulo equilátero com Phi1 (magnitude 4,8) e Phi2 Ceti (magnitude 5,2), que ficam 1,5° ao norte. Uma galáxia fraca, a NGC 255, está a 0,4° ao nor-nordeste (Bakich).

Ao sul de Diphda ficam duas grandes galáxias, NGC 247 (Caldwell 62, a cerca de 9° ao sul da Caveira) e NGC 253 (Caldwell 65) (Mobberley), que se combinam bem com a Caveira numa mesma noite.
Quando e como observar
Com declinação de cerca de −12°, a Caveira culmina a cerca de 79° de altura no Rio de Janeiro (cálculo a partir da declinação; confira no gráfico), ao norte do zênite: um bom posicionamento para um objeto de brilho tão baixo. A melhor época vai de setembro a novembro (Mobberley); a Baleia é uma constelação de céu de primavera e verão, e a nebulosa aparece alta no início da noite em novembro e dezembro.
Como a nebulosa passa ao norte do zênite, você olha para o norte: o leste fica à direita e o norte celeste, para baixo, o inverso das cartas comuns.
O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho da Caveira pelo céu nesta noite, seguido da altura hora a hora.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-13 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
- Melhor horário
- 23:10 · 79° N
- Horas acima de 45°
- 6,2 h
- Lua
- Lua crescente · 12 %
- Nota da noite
- 67 / 100
- Posição no céu
- 92
- Brilho
- 25 mag 10,9
- Enquadramento
- 36 ocupa 9 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 36° | E 88° | 124° |
| 20:00 | 43° | E 85° | 124° |
| 20:30 | 50° | E 81° | 124° |
| 21:00 | 57° | ENE 76° | 124° |
| 21:30 | 64° | ENE 69° | 123° |
| 22:00 | 70° | ENE 59° | 123° |
| 22:30 | 75° | NE 43° | 123° |
| 23:00 | 79° | NNE 13° | 123° |
| 23:30 | 78° | NNW 337° | 122° |
| 00:00 | 74° | NW 311° | 122° |
| 00:30 | 68° | WNW 297° | 122° |
| 01:00 | 62° | WNW 289° | 122° |
| 01:30 | 55° | WNW 283° | 121° |
| 02:00 | 48° | W 278° | 121° |
| 02:30 | 41° | W 274° | 121° |
| 03:00 | 34° | W 271° | 121° |
| 03:30 | 27° | W 268° | 120° |
| 04:00 | 21° | W 266° | 120° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Fora do alcance. |
| Binóculo (7×50 a 15×70) | Em Bortle 7, praticamente nada: as três estrelas do campo aparecem como um pequeno grupo e a nebulosa some no fundo do céu. |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Coe, num Maksutov-Newton de 6″ com ocular de 22 mm, vê só uma mancha fraca; com 8,8 mm aparecem duas estrelas dentro dela, e o lado norte é mais brilhante. Bakich diz que 150 mm em céu escuro mostram um grande disco com estrelas sobre ele. |
| Telescópio de 200 mm | Mobberley indica 20 cm ou mais e filtro OIII. Coe, num NexStar 11 a 125 aumentos, vê a nebulosa de forma evidente, com quatro estrelas envolvidas, alongada em visão direta e quase redonda em visão desviada. |
| Telescópio de 300 mm ou mais | Bakich vê o centro oco e uma borda fina a nordeste. Em 200 aumentos surge o aspecto de rosquinha, com o anel brilhante e o centro apagado, que a visão desviada preenche (Coe). |
Efeito dos filtros (Coe). O filtro Deep Sky escurece o fundo, mas apaga parte da nebulosidade e dificulta a estrela mais fraca; o autor o prefere. O OIII escurece muito o campo, elimina a maioria das estrelas e deixa a nebulosa menor e mais contrastada. O UHC escurece menos que o OIII e revela detalhes: o lado direito mais brilhante e o centro mais escuro. Monks lembra que o filtro escurece também as estrelas em primeiro plano.
Expectativa honesta: em Bortle 7, a Caveira é um alvo difícil. Com um brilho superficial de 22 mag/arcseg², ela exige um filtro, uma abertura de 200 mm ou mais e o objeto alto no céu. Ela serve como teste de filtros e do seu céu, e é um dos raros casos em que ver a nebulosa como "balão transparente" já é uma vitória.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Com cerca de 3,7′, a Caveira cabe folgada em quase qualquer equipamento. Com um telescópio de 1.000 mm e um sensor de 19 × 13 mm, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° e a nebulosa ocupa em torno de 6% da largura (cálculo a partir do sensor e da focal). Uma focal de 600 a 1.000 mm é boa: sobra espaço para as estrelas de campo e para a galáxia NGC 255.
Desafios do alvo
- Brilho superficial baixo. É o maior desafio; o tempo total de exposição pesa mais que a exposição de cada quadro.
- Estrelas brilhantes no meio. As três estrelas do centro não podem ser eliminadas; procure reduzir seu peso no processamento.
- Bortle 7. O fundo de céu limita o contraste; um filtro dual-band ou de banda estreita ajuda muito.
- Sem interferência de altura. A vantagem é a altura: com cerca de 79° no meridiano, a refração e a extinção são mínimas.
Equipamento e filtros
Mobberley recomenda exposições longas e sem filtro, em CCD ou DSLR, e afirma que "deep unfiltered exposures work best". Em Bortle 7, isso é otimista; um filtro dual-band ou de OIII é mais realista, pois a nebulosa emite forte em OIII, e o resultado depende do céu.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (dual-band ou OIII) | 60 a 120 | 180 a 300 s | Nebulosa e halo; o mais importante é o tempo total |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida e não vêm dos livros.
Smart telescopes e campo de visão
A Caveira cabe bem no campo de cerca de 1,3° × 0,7° de um smart telescope como o Seestar S50, e mede da ordem de 90 pixels (cálculo: escala de cerca de 2,4″ por pixel). O brilho superficial baixo pede muitos minutos de empilhamento e o filtro dual-band do aparelho. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
A Nebulosa da Caveira é um objeto de lição: mostra por que a magnitude do catálogo não basta para prever o que se vê, por que o brilho superficial importa e como cada filtro muda a imagem. Não é um alvo fácil em Bortle 7, mas está alta no céu do Rio e é bom de fotografar. Para completar a noite de primavera, combine-a com as galáxias NGC 247 e NGC 253, e, no mesmo céu de fim de ano, com a Nebulosa Saturno (NGC 7009) e a Hélice (NGC 7293).
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 769 (NGC 246).
- COE, Steven R. Nebulae and How to Observe Them. London: Springer, 2007. NGC 246 e teste de filtros, p. 49-50.
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 56, p. 122-123.
- MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. Planetárias e NGC 246, p. 199-200 (conferir).
- MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Nebulosas planetárias.
- MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "planetária, nebulosa" (p. 561).
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de NGC 246, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.