setembro 21, 2026
M 37, o Sal e Pimenta do Cocheiro: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
M 37 é o Messier mais rico do Cocheiro e, para muitos observadores, o mais bonito. Ao telescópio parece uma mancha de pó de ouro, como registrou o almirante Smyth, com cerca de 500 estrelas de magnitudes 10 a 14 (via Bakich), bem distribuídas, de borda nítida e com uma estrela laranja brilhante perto do centro. Fica a +32,5° de declinação: alto no inverno do hemisfério norte e baixo no céu do Rio de Janeiro, onde é uma visita de verão ao norte. Este guia compara M 37 com seus dois companheiros de constelação, M 36 e M 38, e detalha o que muda para quem observa do hemisfério sul.
Texto em revisão. Guia no novo formato; fontes no final e divergências nas pendências.

Ficha técnica e designações
Visão geral: o que é um aglomerado aberto
Aglomerados abertos são grupos de estrelas nascidas de uma mesma nuvem, que aos poucos se dispersam pela gravidade diferencial da Galáxia. M 37 é um dos mais ricos e regulares do catálogo de Messier, com uma dúzia de gigantes vermelhas — estrelas em fase avançada de evolução, cuja cor laranja contrasta com o fundo azulado das estrelas mais jovens (Kier). Kier lembra que o Sol, ao virar gigante vermelha daqui a bilhões de anos, terá a borda alcançando a órbita da Terra: M 37 mostra, hoje, o que aguarda o nosso próprio Sol.
Números. O SIMBAD, com paralaxe de 0,666 milissegundo de arco, coloca M 37 a cerca de 4.900 anos-luz; os livros variam de 3.600 (Moore) a 4.508 anos-luz (Allison), com a maioria perto de 4.400. O tamanho aparente é de cerca de 19′ a 20′ (SIMBAD e maioria dos livros), e a parte mais densa mede cerca de 20 a 25 anos-luz (Kier; Kambič). O número de estrelas varia com o critério: cerca de 300 membros (Kambič) a 1.890 (Kier), com Smyth, citado por Bakich, contando cerca de 500 na faixa de magnitude 10 a 14 visível ao telescópio.
Descoberta. M 37 foi descoberto por Giovanni Battista Hodierna antes de 1654 e, de forma independente, por Charles Messier em 1764 (Bakich). Também é conhecido como NGC 2099.
Estruturas notáveis
- A estrela laranja central. A gigante vermelha mais brilhante, de magnitude 9, perto do centro, chama a atenção em qualquer instrumento (Bakich; Kier).
- Distribuição uniforme e borda nítida. M 37 só ganha estrelas quando se aumenta a abertura (Bakich): 75 mm mostram cerca de 50, 250 mm cerca de 200 e 400 mm cerca de 500.
- Cadeias e vazios. Em bom céu, a distribuição forma cadeias e pequenos vazios entre as estrelas.
- O aspecto de globular a baixo aumento. Allison descreve o aglomerado, visto num telescópio de 200 mm a baixo aumento, como lembrando um aglomerado globular pela densidade da parte central, uma impressão que se desfaz assim que se aumenta a ampliação e cada estrela se separa.
O trio do Cocheiro comparado
Junto com M 36 e M 38, M 37 completa o trio de aglomerados de Messier de Auriga, e a comparação entre os três é um dos passeios clássicos do céu de inverno do norte.
- Idade e cor. M 37 é o mais velho do trio, com cerca de 300 milhões de anos (Kier), tempo suficiente para uma dúzia de estrelas terem evoluído a gigantes vermelhas, cuja cor laranja contrasta com o azul das demais. M 38, intermediário em idade (200 a 220 milhões de anos, Kier), já tem algumas gigantes vermelhas, mas em menor número. M 36 é o mais jovem, dominado quase inteiramente por estrelas azul-brancas quentes, sem o contraste de cor de M 37 (Monks).
- Riqueza e densidade. M 37 é de longe o mais populoso, com centenas a quase 2.000 estrelas contadas conforme o critério (Kier), e por isso lembra um globular em baixo aumento (Allison). M 36 é mais compacto e "arrumado"; M 38 fica entre os dois em tamanho aparente e densidade (Tonkin).
- No mesmo campo de binóculo. Tonkin descreve como localizar os três a partir de uma cadeia de três estrelas de magnitude 7 entre Elnath (Beta Tauri) e Theta Aurigae: com essa cadeia centralizada, M 36 aparece a noroeste e M 37 a sudeste, os dois dentro de um mesmo campo de 5°; M 38 fica um pouco além, mas ainda perto o bastante para um passeio rápido de binóculo.
- O veredito visual. Em resumo: M 37 impressiona pela quantidade de estrelas e pelo "pó de ouro" de Smyth; M 36, pela nitidez e juventude; M 38, pelo par que forma com a vizinha NGC 1907. Ver os três na mesma noite, anotando as diferenças, vale mais do que qualquer descrição.
Como localizar
M 37 fica a cerca de 4° a sudeste de M 36 (Kambič), dentro do pentágono do Cocheiro, perto do pé da figura, no rumo de Elnath (Touro). Um roteiro de star-hopping mais detalhado: comece em Theta Aurigae e desloque-se cerca de 5° a sudoeste — M 37 fica perto de uma linha imaginária que liga Theta Aurigae a Beta Tauri (Moore; Tonkin). Alternativamente, comece em Capela, ache o pentágono e siga para o lado do Touro, cruzando o campo da Via Láctea até a mancha nebulosa de M 37. Do Rio, olhe para o norte, com o norte para baixo.

Quando e como observar
Do hemisfério norte. Com declinação de +32,5°, M 37 alcança cerca de 82° de altura a 40° N e cerca de 72° a 50° N. Culmina à noite entre dezembro e fevereiro, na mesma janela que M 36 e M 38.
E do Rio de Janeiro? A altura máxima é de cerca de 34° (90 − |−23° − 32,5°|), a maior dos três Messier de Auriga para quem observa do Rio, ainda que a diferença para M 36 e M 38 seja pequena. É observável, mas baixo: atmosfera espessa e horizonte norte quase sempre poluído por luz. O melhor período vai de dezembro a fevereiro, no início da noite, com o Cocheiro próximo do meridiano. Por ser rico e compacto, M 37 é um dos aglomerados que melhor resistem ao céu de Bortle 7: mesmo sem resolver todas as centenas de estrelas, a mancha granulada central já rende uma boa vista.
O gráfico anual e o da noite mostram a altura do objeto para o local do observatório.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
- Melhor horário
- 04:00 · 34° N
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 60 / 100
- Posição no céu
- 33
- Brilho
- 100 mag 5,6
- Enquadramento
- 100 ocupa 25 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | -47° | — | 138° |
| 20:00 | -41° | — | 138° |
| 20:30 | -35° | — | 138° |
| 21:00 | -29° | — | 139° |
| 21:30 | -22° | — | 139° |
| 22:00 | -16° | — | 139° |
| 22:30 | -10° | — | 139° |
| 23:00 | -4° | — | 140° |
| 23:30 | 1° | NE 54° | 140° |
| 00:00 | 7° | NE 50° | 140° |
| 00:30 | 12° | NE 47° | 140° |
| 01:00 | 17° | NE 42° | 141° |
| 01:30 | 21° | NE 38° | 141° |
| 02:00 | 25° | NNE 32° | 141° |
| 02:30 | 29° | NNE 26° | 141° |
| 03:00 | 31° | NNE 20° | 142° |
| 03:30 | 33° | NNE 13° | 142° |
| 04:00 | 34° | N 5° | 142° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Não é visto sem instrumento sob céu comum, mesmo em sítios escuros. |
| Binóculo | Uma mancha brilhante e granulada, com poucas estrelas resolvidas (Kambič); em binóculos potentes (15×70 ou mais), começam a aparecer algumas estrelas individuais na borda. |
| Telescópio de 75 a 100 mm | Cerca de 50 estrelas, com uma laranja perto do centro (Bakich). |
| Telescópio de 250 mm | Cerca de 200 estrelas (Bakich): o efeito de pó de ouro de Smyth já é evidente. |
| Telescópio de 400 mm | Cerca de 500 estrelas (Bakich), a impressão mais próxima da imagem clássica do "sal e pimenta". |
Uma brincadeira sugerida pelo Bakich: reproduza M 37 em casa, espalhando sal sobre papel preto, para sentir a distribuição uniforme de pontos que caracteriza o aglomerado.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Segundo Kier, M 37 fica bem enquadrado em campos de 30′ ou mais; o exemplo dele tem 52′ × 35′ (p. 55). Como M 37 é o mais denso e populoso dos três aglomerados, um campo um pouco mais apertado que o usado para M 36 ou M 38 ajuda a valorizar a concentração de estrelas no centro.
Desafios do alvo
- Altura baixa no Rio. Kier recomenda manter as imagens acima de 30° de altura ao usar câmera colorida, para não borrar as estrelas por refração (p. 55); aqui M 37 só passa desse valor perto do meridiano.
- Gigantes vermelhas. É preciso preservar a cor sem saturar as estrelas — um cuidado extra em relação a M 36, que não tem esse contraste de cor tão marcado.
- Densidade central. Com tantas estrelas próximas, é fácil "estourar" o núcleo em exposições longas; um histograma que privilegie as estrelas mais fracas ajuda a manter a textura granulada.
Equipamento e filtros
Câmera colorida de um disparo ou RGB simples; luminância não traz vantagem para um objeto tão brilhante (Kier, p. 55). Se usar refrator com filtros RGB, refocalize a cada troca, porque a correção de cor imperfeita desloca o foco entre canais. Aglomerados abertos são bons alvos sob céu poluído, porque os gradientes de luz urbana são mais fáceis de subtrair do que em nebulosas (Kier).
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (RGB ou colorida) | 40 a 60 | 30 a 60 s | Cor das gigantes vermelhas |
| Dark | 20 | igual aos Lights | Calibração |
| Flat | 30 | automática | Vinheta |
| Bias | 50 | mais curta possível | Ruído de leitura |
Ponto de partida, não vem dos livros.
Smart telescopes e campo de visão
M 37 cabe com folga no campo de um smart telescope, e sua alta densidade de estrelas o torna um dos melhores alvos de aglomerado para uma primeira sessão automatizada. Escolha o modelo no mapa.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
M 37 é a referência dos aglomerados abertos ricos: mais estrelas, mais cor e mais textura do que seus vizinhos. Compare-o com M 36, o mais jovem e compacto, e com M 38, que traz de brinde a vizinha NGC 1907; os três, vistos numa só noite, contam uma pequena história de evolução estelar. Veja também M 35, em Gêmeos, outro aglomerado aberto rico do céu de inverno, e o céu de inverno no hemisfério norte.
Referências
- ALLISON, Mark. Star Clusters and How to Observe Them. New York: Springer, 2006. M 37, p. 132-133.
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 970 (M 37).
- KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Cocheiro, M 37, p. 198.
- KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. "February 2: Open Cluster M37", p. 39, 55.
- MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. NGC 2099 (M 37), p. 181.
- MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Aglomerados de Auriga, p. 329.
- TONKIN, Stephen (org.). Binocular Astronomy. London: Springer, 2007. Auriga: três aglomerados abertos, p. 112.
- SIMBAD Astronomical Database. CDS. Consulta a M 37, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do CDS.