setembro 21, 2026

M 38, o Aglomerado da Estrela-do-Mar no Cocheiro: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M38 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

M 38 é o mais ocidental dos três aglomerados de Messier do Cocheiro e o mais fácil de combinar com um vizinho: cerca de meio grau ao sul está NGC 1907, um aglomerado bem mais discreto. Juntos, em baixa ampliação, lembram uma versão modesta do Duplo Aglomerado de Perseu (Bakich). Do hemisfério norte é alvo de inverno alto no céu; do Rio de Janeiro, a declinação de +35,8° o deixa baixo ao norte, o mais baixo dos três Messier de Auriga. Este guia compara M 38 com M 36 e M 37, detalha o par com NGC 1907 e traz a estratégia de captura sugerida por Kier para os dois juntos.

Texto em revisão. Guia no novo formato; fontes no final.

Imagem de referência (DSS2) de M38 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: o que é um aglomerado aberto

Um aglomerado aberto reúne estrelas da mesma nuvem, ligadas frouxamente pela gravidade, até se dispersarem pela Galáxia ao longo de centenas de milhões de anos. M 38 tem cerca de 100 estrelas e, segundo Kier, é dominado por estrelas jovens azul-esbranquiçadas, com algumas gigantes vermelhas espalhadas, numa idade de cerca de 200 milhões de anos (Monks dá 220 milhões). O Kambič descreve cerca de 80 estrelas, a mais brilhante uma gigante amarela de magnitude 8,4, com 560 vezes a luminosidade do Sol — para efeito de comparação, se o Sol fosse observado da distância de M 38, brilharia apenas como uma estrela de magnitude 15,3, só visível em grandes telescópios amadores (Kambič).

Números. O SIMBAD, com paralaxe de 0,874 milissegundo de arco, coloca M 38 a cerca de 3.700 anos-luz; os livros dizem 4.000 (Kier) e 4.200 (Kambič; Monks). A magnitude é de cerca de 6,4 (SIMBAD; Bakich; Kier), embora o Kambič traga 7,4. O tamanho aparente é de cerca de 20′ pelo SIMBAD, próximo dos cerca de 21′ dos livros.

O par com NGC 1907. NGC 1907 está um pouco mais longe: o SIMBAD dá cerca de 5.300 anos-luz (paralaxe de 0,611 mas), contra os 4.500 anos-luz do Kier. Tem cerca de 30 estrelas e cerca de 440 milhões de anos (Kier) — mais que o dobro da idade de M 38 — e uma estrela K2 de sexta magnitude dá um toque laranja ao campo (Kier). M 38 é também conhecido como NGC 1912 e Melotte 35.

Estruturas notáveis

  • A forma de pi. Alguns veem no aglomerado a letra grega pi (Kier); outros, a estrela-do-mar do apelido em inglês (Bakich).
  • O par com NGC 1907. Contraste entre um aglomerado rico, mais jovem e frouxo (M 38) e outro compacto, mais velho e pobre em estrelas (NGC 1907), separados por apenas meio grau no céu.
  • A estrela laranja. A K2 de sexta magnitude perto de NGC 1907, responsável pelo toque de cor no campo (Kier).
  • A cruz torta. Allison descreve o aglomerado, a 133 aumentos, como tendo formato de cruz torta — uma variação da leitura de "letra pi" do Kier, mostrando como a mesma distribuição de estrelas sugere figuras diferentes a olhos diferentes.

O trio do Cocheiro comparado

M 38 fecha, junto com M 36 e M 37, o trio de Messier de Auriga — o único trio de aglomerados abertos de Messier tão próximo entre si e tão fácil de percorrer numa noite.

  • Idade e cor. Com cerca de 200 a 220 milhões de anos, M 38 fica entre M 36 (o mais jovem, cerca de 25 milhões de anos, quase todo azul) e M 37 (o mais velho, cerca de 300 milhões de anos, com uma dúzia de gigantes vermelhas visíveis). M 38 já mostra algumas gigantes vermelhas, mas em menor número que M 37 (Kier).
  • Riqueza e densidade. M 38 tem cerca de 80 a 100 estrelas (Kambič; Kier), mais que M 36 pelo critério de Allison, mas bem menos que os cerca de 300 a quase 2.000 de M 37, dependendo do critério de contagem (Kier). Em tamanho aparente, fica entre M 36 e M 37 (Tonkin).
  • Um bônus que os outros dois não têm. Só M 38 tem um par próximo e observável no mesmo campo, NGC 1907, o que o torna o mais interessante dos três para quem gosta de comparar dois aglomerados lado a lado numa única imagem ou numa só passada de ocular.
  • Roteiro completo. Um roteiro de uma noite pode seguir M 36 (o mais compacto), depois M 38 com NGC 1907 (o par), e terminar em M 37 (o mais rico), fechando com a comparação de cor e densidade dos três.

Como localizar

A partir de M 36, suba cerca de 2° para o nor-noroeste (Kambič): os dois cabem no campo de um binóculo. NGC 1907 fica cerca de 0,5° ao sul-sudoeste de M 38 (Bakich). Um roteiro mais completo, partindo de Theta Aurigae: desça cerca de 5° a sudoeste até M 37; de M 37, suba cerca de 1,7° ao norte e 3,4° a oeste até M 36; de M 36, suba mais cerca de 1,6° ao norte e 1,5° a oeste até M 38 (Tonkin) — o mesmo roteiro que leva aos outros dois Messier de Auriga, terminando no mais ocidental do trio. Do Rio, olhe para o norte, com o norte para baixo.

Carta de localização de M38: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Do hemisfério norte. Com declinação de +35,8°, a altura máxima é de cerca de 86° a 40° N e de cerca de 76° a 50° N. Culmina à noite de dezembro a fevereiro, junto com M 36 e M 37.

E do Rio de Janeiro? A altura máxima é de cerca de 31° (90 − |−23° − 35,8°|). É o mais baixo dos três Messier de Auriga para o Rio, e NGC 1907, mais fraco, é bem mais difícil de resolver nessas condições. Tente de dezembro a fevereiro, no início da noite, com horizonte norte livre de obstáculos e de luz direta. Sob Bortle 7, espere ver bem a mancha de M 38, mas contar com pouca sorte para resolver NGC 1907 sem um telescópio de abertura razoável e boa transparência atmosférica.

O gráfico anual e o da noite mostram a altura para o local do observatório.

Altura de M38 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de dezembro a dezembro. O objeto chega a 31° à meia-noite em dezembro.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ12 dez · 31°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de dezembro a dezembro (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 31° em 12 de dezembro.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-13 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
03:50 · 31° N
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 12 %
Nota da noite
54 / 100
Posição no céu
31
Brilho
94 mag 6,4
Enquadramento
85 ocupa 21 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M38 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 23:10 e 04:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 03:50, com 31°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO00:0001:0002:0003:0004:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -42° — 154°
20:00 -36° — 154°
20:30 -30° — 155°
21:00 -24° — 155°
21:30 -18° — 155°
22:00 -12° — 155°
22:30 -6° — 156°
23:00 -1° — 156°
23:30 5° NE 48° 156°
00:00 10° NE 44° 156°
00:30 14° NE 40° 156°
01:00 19° NE 36° 157°
01:30 22° NNE 31° 157°
02:00 26° NNE 25° 157°
02:30 28° NNE 19° 157°
03:00 30° NNE 12° 158°
03:30 31° N 5° 158°
04:00 31° N 358° 158°
Altura de M38 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 03:50, com 31°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte03:50 · 31°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Não.
Binóculo Mancha clara e granulada; cerca de 25 estrelas até a magnitude 10 com visão desviada (Kambič). NGC 1907 é difícil sem telescópio.
Telescópio de 100 mm Cerca de três dezenas de estrelas; com mais aumento, cadeias de estrelas (Bakich). NGC 1907 mostra umas duas dúzias a 100x (Bakich).
Telescópio de 200 mm ou mais Mais estrelas, cores das gigantes, e o par com NGC 1907 se resolve melhor, com a estrela K2 alaranjada de sexta magnitude marcando a vizinha.

Expectativa honesta: o atrativo de M 38 não é a riqueza de M 37 nem a nitidez de M 36, mas o contraste com NGC 1907: dois aglomerados de tamanhos, idades e densidades diferentes lado a lado, algo que nenhum dos outros dois Messier de Auriga oferece.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Segundo Kier, M 38 é bem mais interessante quando enquadrado com NGC 1907; os dois estão alinhados no eixo norte-sul, mas a imagem é mais agradável com o par em diagonal. Isso pede um campo de cerca de 1° ou mais (p. 22).

Desafios do alvo

  • A estrela K2 brilhante. Em câmeras sem antiblooming, use exposições curtas para evitar estrias em torno da estrela de sexta magnitude perto de NGC 1907 (Kier, p. 22).
  • Altura baixa no Rio. Mais refração e mais gradiente de luz urbana do que M 37, por ser o mais baixo dos três no céu carioca.
  • Dois objetos, dois brilhos. M 38 é mais brilhante e mais espalhado; NGC 1907 é mais fraco e compacto. O processamento precisa equilibrar os dois sem apagar um deles.

Equipamento e filtros

Para aglomerados abertos brilhantes, RGB simples dá melhor resultado que LRGB, e câmeras coloridas de um disparo funcionam bem; no processamento, deixe as estrelas brilharem sem enterrar o ponto branco, para não roubar a cor (Kier, p. 22).

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light 40 a 60 30 a 60 s Cor e estrelas de M 38 e NGC 1907
Dark 20 igual aos Lights Calibração
Flat 30 automática Vinheta
Bias 50 mais curta possível Ruído de leitura

Ponto de partida, não vem dos livros.

Smart telescopes e campo de visão

O par M 38 e NGC 1907 cabe no campo de um smart telescope, o que torna esse par uma das melhores oportunidades do Cocheiro para uma captura automatizada com dois objetos no mesmo quadro. Escolha o modelo no mapa.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

M 38 fecha o trio do Cocheiro com M 36 e M 37: uma boa noite de observação é achar os três em sequência, comparando idade, cor e riqueza, e ainda ganhar de bônus o par com NGC 1907, único entre os três Messier de Auriga. Veja também o céu de inverno no hemisfério norte.

Referências

  • ALLISON, Mark. Star Clusters and How to Observe Them. New York: Springer, 2006. M 38, p. 132.
  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 948 (M 38) e verbete de NGC 1907.
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Cocheiro, M 38, p. 198-199.
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. "January 27: Open Cluster M38 with Open Cluster NGC 1907", p. 22.
  • MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. NGC 1912 (M 38), p. 181.
  • TONKIN, Stephen (org.). Binocular Astronomy. London: Springer, 2007. Auriga: três aglomerados abertos, p. 112.
  • SIMBAD Astronomical Database. CDS. Consulta a M 38 e NGC 1907, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), CC BY-SA 4.0; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do CDS.