setembro 21, 2026

M 36, o Aglomerado do Catavento no Cocheiro: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M36 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

Entre os três aglomerados abertos de Messier no Cocheiro, M 36 é o menor e mais denso. Brilha na magnitude 6,0 (SIMBAD e Bakich; outras fontes dão entre 5,8 e 6,8), no limite da visão a olho nu em céu muito escuro, e é descrito como o menos vistoso do trio, mas ainda assim mais brilhante do que a esmagadora maioria dos aglomerados do céu (Bakich). Com declinação de cerca de +34°, é um alvo de inverno bem alto para quem observa dos Estados Unidos, da Europa ou do Japão. Do Rio de Janeiro, é um objeto baixo ao norte, visita de início de noite no verão. Este guia compara M 36 com seus dois vizinhos, M 37 e M 38, para uma noite de observação em trio.

Texto em revisão. Guia no novo formato; as fontes estão no final e as divergências, nas pendências.

Imagem de referência (DSS2) de M36 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: o que é um aglomerado aberto

Um aglomerado aberto é um grupo de estrelas nascidas juntas, da mesma nuvem de gás, ainda unidas frouxamente pela gravidade; com o tempo elas se dispersam pela Galáxia, funcionando como "cápsulas do tempo". M 36 tem, segundo o Kambič, cerca de 200 membros conhecidos (Allison fala em pouco mais de 60, um critério mais restrito) e é um dos aglomerados abertos mais jovens da Galáxia, formado sobretudo por estrelas quentes e azuladas — Monks dá uma idade de cerca de 25 milhões de anos, a cifra mais específica encontrada nas fontes.

Em números. O SIMBAD coloca M 36 a cerca de 3.900 anos-luz (paralaxe de 0,835 mas); os livros variam de 4.100 (Kambič) a 4.296 anos-luz (Allison). Quanto ao tamanho aparente, a divergência é grande: os livros falam de um núcleo visível de cerca de 12′ (Bakich; Kambič; Allison: 10′), mas o SIMBAD registra um diâmetro de cerca de 120′, dez vezes maior. Não é um erro: o valor do SIMBAD provavelmente inclui um halo estelar muito esparso, indistinguível do campo de fundo da Via Láctea a olho nu ou em pequenos instrumentos, enquanto os livros descrevem só o núcleo denso que salta aos olhos no ocular. A 3.900 anos-luz, os 12′ do núcleo correspondem a cerca de 14 anos-luz de diâmetro (batendo com o Kambič); os 120′ do SIMBAD equivalem a cerca de 136 anos-luz — um halo quase dez vezes mais largo que o núcleo.

Nomes. É também NGC 1960. O apelido "Aglomerado do Catavento" (Pinwheel) vem do amador britânico Jeff Bondono, segundo o Bakich.

Estruturas notáveis

  • O núcleo compacto. M 36 é ligeiramente menor e mais denso que M 37 e M 38 (Kambič), o que o destaca mesmo em binóculo.
  • As estrelas azuis. População dominada por estrelas quentes do tipo B, sinal de juventude (Kambič; Monks).
  • O "catavento". Perto de 100 aumentos, com 100 mm, várias dezenas de estrelas sugerem braços curvos (Bakich).
  • Os corredores de estrelas. Allison descreve, num Newtoniano de 200 mm a baixo aumento (48×), quatro ou cinco estrelas centrais em destaque e faixas curvas nas bordas.
  • Companhia de luxo. M 36 e M 38 cabem no mesmo campo de binóculo, e M 37 fica a cerca de 4° dele (Kambič): o roteiro clássico do Cocheiro.

O trio do Cocheiro comparado

Os três aglomerados de Messier em Auriga nasceram em nuvens e épocas diferentes; comparar os três numa mesma noite rende mais do que observar cada um isolado.

  • Idade e cor. M 36 é o mais jovem do trio, cerca de 25 milhões de anos, quase todo azul-branco (Monks). M 38 é intermediário, 200 a 220 milhões de anos, ainda azulado mas com algumas gigantes vermelhas (Kier). M 37 é o mais velho, cerca de 300 milhões de anos, com uma dúzia de gigantes vermelhas contra o fundo azul-branco (Kier) — o único dos três com esse contraste de cor fácil de notar num telescópio pequeno.
  • Riqueza e densidade. M 37 é de longe o mais rico, com centenas a quase 2.000 estrelas conforme o critério (Kier); M 36 é o mais compacto, com núcleo denso bem definido; M 38 fica entre os dois em tamanho e densidade (Tonkin).
  • Facilidade ao binóculo. Tonkin descreve os três num só campo largo: partindo de uma cadeia de três estrelas de magnitude 7 entre Beta Tauri (Elnath) e Theta Aurigae, M 36 fica a noroeste e M 37 a sudeste, ambos dentro de um campo de 5°; centrando em M 36, M 38 aparece na borda noroeste do mesmo campo. Em 10×50, sob bom céu, resolvem-se até meia dúzia das estrelas mais brilhantes de M 36 e oito ou nove de M 38 (Tonkin).
  • Como se encaixam. Os três formam uma linha ligeiramente curva ao longo da Via Láctea de Auriga (Moore): M 38 fica a meio caminho entre Theta e Iota Aurigae; M 37 perto de uma linha que liga Theta Aurigae a Beta Tauri; M 36 entre os dois, mais perto de M 38. Um binóculo grande-angular mostra os três praticamente na mesma varredura.

Comparar visualmente cor, densidade e tamanho de M 36, M 37 e M 38 é uma das poucas oportunidades do céu de mostrar, lado a lado, três estágios de evolução de aglomerados abertos.

Como localizar

Encontre Capela e o pentágono formado pelas estrelas principais da constelação (Capela, Beta, Theta e Iota, com Beta Tauri fechando a figura). M 36 fica dentro do pentágono, entre Theta e Iota Aurigae (Allison), a cerca de 4° a noroeste de M 37 e 2° ao sul-sudeste de M 38 (Kambič). Roteiro de star-hopping, partindo de Theta Aurigae: desloque-se cerca de 5° a sudoeste até M 37; de M 37, ande 1,7° ao norte e 3,4° a oeste até M 36; de M 36, suba mais 1,6° ao norte e 1,5° a oeste até M 38 (Tonkin). Do Rio, olhe para o norte: a imagem aparece invertida, com o norte para baixo.

Carta de localização de M36: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Do hemisfério norte. Com declinação de cerca de +34°, a altura máxima é de cerca de 84° a 40° N e de cerca de 74° a 50° N; culmina à noite entre dezembro e fevereiro.

E do Rio de Janeiro? A altura máxima no Rio (latitude −23°) é de cerca de 33°, calculada como 90 − |−23° − 34°|. É possível observar, mas o objeto nunca fica alto: muita atmosfera, e o horizonte norte, com prédios e luz urbana, atrapalha. A melhor janela vai de dezembro a fevereiro, no início da noite, perto do meridiano. Sendo brilhante, M 36 resiste bem ao céu de Bortle 7, mas espere menos estrelas resolvidas do que num céu do norte: a mancha central destaca-se, mas as bordas esparsas do halo do SIMBAD dificilmente aparecem.

O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, seu caminho na noite de hoje.

Altura de M36 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de dezembro a janeiro. O objeto chega a 33° à meia-noite em dezembro.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ17 dez · 33°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de dezembro a janeiro (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 33° em 17 de dezembro.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-13 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
04:00 · 33° N
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 12 %
Nota da noite
52 / 100
Posição no céu
32
Brilho
100 mag 6,0
Enquadramento
64 ocupa 16 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M36 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 23:10 e 04:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 04:00, com 33°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO00:0001:0002:0003:0004:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -43° — 153°
20:00 -37° — 153°
20:30 -31° — 154°
21:00 -25° — 154°
21:30 -19° — 154°
22:00 -13° — 154°
22:30 -7° — 155°
23:00 -1° — 155°
23:30 4° NE 50° 155°
00:00 9° NE 47° 155°
00:30 14° NE 43° 156°
01:00 19° NE 38° 156°
01:30 23° NNE 33° 156°
02:00 26° NNE 27° 156°
02:30 29° NNE 21° 156°
03:00 31° NNE 14° 157°
03:30 33° N 7° 157°
04:00 33° N 360° 157°
Altura de M36 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 04:00, com 33°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte04:00 · 33°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Com magnitude 6,0, só sob céu muito escuro. Do Rio, dificilmente, dado o horizonte baixo.
Binóculo (7×50 a 10×50) Mancha clara e redonda, com cerca de um terço do diâmetro da Lua cheia; em boas condições, meia dúzia das estrelas mais brilhantes se resolve (Tonkin), até cerca de 25 em condições excelentes com 10×50 (Kambič). M 38 aparece no mesmo campo largo.
Telescópio de 100 mm Uma dúzia de estrelas centrais brilhantes e várias dezenas mais fracas se resolvem, com faixas curvas nas bordas; a cerca de 100 aumentos, tente ver o padrão de catavento (Bakich; Allison).
Telescópio de 200 mm ou mais Mais estrelas fracas se resolvem até o núcleo, tons azul-esbranquiçados dominam, e o fundo rico da Via Láctea de Auriga aparece ao redor (Allison).

Expectativa honesta: aglomerados abertos não têm cor forte nem detalhes finos. O prazer está no padrão, na contagem de estrelas e na comparação entre os três do Cocheiro numa só noite — em particular, na diferença de cor e riqueza entre M 36, o mais jovem e "limpo", e M 37, o mais velho e granulado.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Com cerca de 12′ de núcleo visível, M 36 cabe folgado em campos de 30′ a 60′. Kier não tem verbete dedicado a M 36 (cobre M 37 e M 38), mas recomenda, para os vizinhos, campos de 30′ ou mais (verbetes de M 37, p. 39, e M 38, p. 22); por analogia de tamanho e riqueza, a mesma faixa funciona para M 36 — uma extrapolação nossa, não recomendação direta do livro.

Desafios do alvo

  • Altura baixa no Rio. Abaixo de 35° há mais atmosfera, refração e gradiente de luz urbana; Kier recomenda, para os vizinhos, manter as imagens acima de 30° de altura com câmera colorida (verbete de M 37), o que também vale aqui.
  • Estrelas de brilhos muito diferentes. Exposições longas saturam as mais fortes e apagam a cor.
  • Fundo denso. A Via Láctea ao fundo compete com o aglomerado, mais um motivo para manter o enquadramento moderado.

Equipamento e filtros

Kier diz que aglomerados abertos brilhantes rendem bem com câmera colorida de um disparo e RGB simples, e são bons alvos sob céu poluído, porque os gradientes são fáceis de subtrair (verbete de M 37, p. 55). Filtros de banda estreita não fazem sentido aqui: o objeto é só luz estelar.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light (RGB ou câmera colorida) 40 a 60 30 a 60 s Preservar a cor das estrelas
Dark 20 igual aos Lights Calibração
Flat 30 automática Vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Ruído de leitura

Ponto de partida, não vem dos livros.

Smart telescopes e campo de visão

Um smart telescope de campo largo enquadra M 36 com folga. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

M 36 recompensa a paciência: um aglomerado jovem e brilhante, fácil de achar, ideal para binóculos e para uma noite de comparação com M 37 e M 38. Observar os três em sequência, notando a cor mais alaranjada de M 37 ao lado do azul mais puro de M 36, é uma boa lição visual de evolução estelar num binóculo comum. Veja também M 35, em Gêmeos e o céu de inverno no hemisfério norte.

Referências

  • ALLISON, Mark. Star Clusters and How to Observe Them. New York: Springer, 2006. M 36, p. 132.
  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 952 (M 36).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Cocheiro, M 36, p. 198.
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. Verbetes de M 38 (p. 22) e M 37 (p. 39, 55).
  • MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. M 36 (NGC 1960), p. 181.
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Aglomerados de Auriga, p. 329.
  • TONKIN, Stephen (org.). Binocular Astronomy. London: Springer, 2007. Auriga: três aglomerados abertos, p. 112.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a M 36, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do CDS.