setembro 21, 2026
M106 (NGC 4258), a galáxia de Cães de Caça: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
Poucas galáxias do catálogo de Messier são tão mal-amadas quanto a M106. Ela é mais brilhante do que boa parte da lista — mais brilhante, até, que vizinhas famosas como M63 ou M94 — mas fecha as fileiras do catálogo sem um apelido popular, sem uma foto icônica gravada na memória do público e sem um lugar de destaque nos roteiros de observação. E, no entanto, é um dos objetos mais estudados do céu profundo: seu núcleo abriga um dos relógios mais precisos que a astronomia já construiu para medir distâncias no universo. Fica nos Cães de Caça, a discreta constelação espremida entre a Ursa Maior e Boieiro, boa parte dela nunca aparecendo lá do alto para quem observa do Rio de Janeiro. Este guia explica o que M106 é, como achá-la, e também é honesto sobre o quanto ela é difícil por aqui.
Texto em revisão. Este guia faz parte de um lote sobre objetos Messier de declinação norte alta, adaptado para quem observa do hemisfério sul. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: uma espiral com um núcleo ativo
M106 (NGC 4258) é uma galáxia espiral de tamanho médio, catalogada por Pierre Méchain em 1781 e incluída por Charles Messier em sua lista pouco depois. Está a cerca de 23,5 a 24 milhões de anos-luz, na direção da constelação de Cães de Caça — mas fisicamente mais associada ao chamado Grupo M106, um pequeno aglomerado de galáxias que inclui a própria M106 e várias companheiras menores. O SIMBAD classifica sua morfologia como SAB (espiral com indício de barra central) e seu núcleo como Seyfert tipo 2: um dos vários tipos de núcleo galáctico ativo, alimentado por um buraco negro supermassivo que devora gás e emite radiação intensa.
É justamente esse núcleo ativo que torna M106 famosa entre os astrônomos, ainda que não entre o público. Ao redor do buraco negro central, um disco fino de gás gira e emite rádio na frequência característica da molécula de água — um fenômeno chamado megamaser. Medindo com precisão a geometria e o movimento desse disco por radiointerferometria, os astrônomos calcularam a distância de M106 de forma direta, geométrica, sem depender de escalas indiretas: é uma das distâncias mais bem determinadas de toda a astronomia extragaláctica, e serviu (e ainda serve) como padrão de calibração para outros métodos de medir o universo.
M106 em números. O disco visível da galáxia tem cerca de 17,8′ × 6,9′ de tamanho aparente pelo SIMBAD (o Bakich cita 20′ × 8,4′), com magnitude 8,41 — mais brilhante do que a maioria dos objetos Messier, mas de baixo brilho superficial porque a luz se espalha por uma área relativamente grande. A cerca de 23,5-24 milhões de anos-luz, o disco visível corresponde a mais de 100 mil anos-luz de diâmetro, tamanho comparável ao da própria Via Láctea.
Os braços "anômalos". Além dos braços espirais normais, visíveis em luz visível, M106 tem um par de braços extras, visíveis principalmente em raios X e rádio, que não seguem o disco da galáxia — são gás sendo empurrado para fora pela atividade do núcleo, um fenômeno raro e um dos motivos pelos quais os astrofísicos a estudam tanto.
Estruturas notáveis
- O núcleo ativo. Um ponto brilhante e denso no centro, alimentado por um buraco negro supermassivo — a fonte de tudo que torna esta galáxia especial cientificamente, embora visualmente pouco distinta de outros núcleos galácticos ao telescópio amador.
- O disco espiral principal. Alongado, com um bojo central relativamente destacado, inclinado em relação à nossa linha de visão de modo parecido com M31 — o que ajuda a explicar faixas de poeira visíveis em fotografias de longa exposição.
- NGC 4248. Uma galáxia companheira fraca, de magnitude 12,5, próxima no campo; um alvo difícil, só para telescópios grandes e céu muito escuro.
- Os braços anômalos. Invisíveis a olho nu ou em telescópios amadores comuns, mas um bom gancho para explicar a atividade nuclear da galáxia a quem já a está observando.
Como localizar
M106 fica numa região sem estrelas muito brilhantes, entre a Ursa Maior e os Cães de Caça. O caminho mais confiável parte de duas estrelas da "panela" da Ursa Maior: Phecda (Gama Ursae Majoris, mag. 2,4) e Chi Ursae Majoris (mag. 3,7). M106 forma um triângulo com as duas, cerca de 7,5° a sudeste de Phecda e 5,5° a leste de Chi. Em céu escuro, um binóculo ou buscador de campo amplo já revela a mancha alongada antes de apontar o telescópio.

Quando e como observar
M106 culmina (passa pelo ponto mais alto no céu) em torno de meados de abril ao anoitecer, junto com o restante do rico campo de galáxias de Cães de Caça e Ursa Maior. É a melhor época do ano para tentar observá-la, ainda que a "melhor época" aqui signifique apenas "ligeiramente menos difícil".
E do Rio de Janeiro? A declinação de M106 é +47°18′, e a fórmula simples para a altura máxima de um objeto visto do Rio (latitude −23°) é 90° menos o valor absoluto da diferença entre a latitude e a declinação: 90° − |−23° − 47,3°| ≈ 19,7°, ou seja, cerca de 20° acima do horizonte norte no momento da culminação, e mesmo assim só entre março e maio, quando a galáxia cruza o meridiano à noite. Não é um "nunca sobe" — M106 realmente aparece sobre o horizonte —, mas é uma altura baixa o suficiente para que a extinção atmosférica, a névoa e qualquer obstáculo (prédios, morros, árvores) prejudiquem seriamente a observação. Um horizonte norte livre e um céu de campo, longe da poluição luminosa do centro urbano, fazem toda a diferença aqui. Do Nordeste e do Norte do Brasil, a mesma conta dá alturas bem maiores e a galáxia se torna um alvo mais razoável.
Os gráficos abaixo usam a localização do observatório configurada no site (o Rio de Janeiro, por padrão): o primeiro mostra a altura ao longo do ano, o segundo, o caminho desta noite pelo céu.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -24°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 04:00 · -24° NE
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 49 mag 9,3
- Enquadramento
- 100 ocupa 38 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | -44° | — | 76° |
| 20:00 | -49° | — | 77° |
| 20:30 | -53° | — | 77° |
| 21:00 | -58° | — | 77° |
| 21:30 | -61° | — | 77° |
| 22:00 | -64° | — | 77° |
| 22:30 | -66° | — | 78° |
| 23:00 | -66° | — | 78° |
| 23:30 | -64° | — | 78° |
| 00:00 | -62° | — | 78° |
| 00:30 | -58° | — | 78° |
| 01:00 | -54° | — | 78° |
| 01:30 | -49° | — | 79° |
| 02:00 | -45° | — | 79° |
| 02:30 | -39° | — | 79° |
| 03:00 | -34° | — | 79° |
| 03:30 | -29° | — | 79° |
| 04:00 | -24° | — | 79° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Invisível; mesmo em céu muito escuro, a magnitude e a altura baixa tornam isso impraticável do Rio. |
| Binóculo (10×50 ou maior) | Do hemisfério norte, com a galáxia alta, aparece como uma mancha ovalada discreta, achável a partir de Phecda e Chi UMa. Do Rio, exigiria um horizonte norte perfeitamente livre e céu muito escuro — um desafio real, não recomendado como primeira tentativa. |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Com a galáxia alta (hemisfério norte), um núcleo brilhante em um halo ovalado alongado, com 50x a 100x (Mollise). Do Rio, mesmo essa abertura sofre com a baixa altura: espere um brilho apagado e pouco contraste. |
| Telescópio de 250 mm ou mais | Em céu escuro e com a galáxia bem posicionada, textura manchada e indícios de estrutura espiral começam a aparecer, com o braço norte mais linear e evidente e o sul mais difuso — um alvo que recompensa momentos de bom "seeing" (Bakich). |
Expectativa honesta: mesmo para quem observa de latitudes onde M106 sobe bem alta, ela não é um objeto de "uau" instantâneo: o núcleo brilhante ajuda a localizá-la, mas a estrutura espiral pede abertura grande e céu escuro. Do Rio de Janeiro, a honestidade é ainda maior: é um objeto de nicho, para quem já esgotou os alvos favoráveis da noite e quer testar os limites do próprio céu e equipamento.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Com cerca de 17,8′ × 6,9′, M106 cabe confortavelmente num campo de 40′ a 60′, o que a maioria dos telescópios de 500 a 1.000 mm de focal entrega com uma câmera de sensor médio (APS-C ou micro 4/3). Um enquadramento um pouco mais largo permite incluir a companheira fraca NGC 4248 e o campo estelar rico da região.
Desafios do alvo
- Altura baixíssima do Rio. M106 nunca escapa da faixa mais espessa e turbulenta da atmosfera, o que degrada a nitidez (seeing) e aumenta a extinção — a imagem fica mais fraca e mais borrada do que a mesma exposição em um alvo alto.
- Poluição luminosa perto do horizonte. O horizonte norte de cidades como o Rio costuma ser o mais afetado por luz artificial refletida, reduzindo o contraste disponível para revelar os braços espirais.
- Estrutura de baixo contraste. Os braços espirais e o disco fino de gás central pedem tempo total generoso e processamento cuidadoso para não se perderem no ruído.
Equipamento e filtros
Escolha as noites de melhor transparência do ano (outono, entre março e maio), capture o mais próximo possível da culminação e evite qualquer obstáculo no horizonte norte. Um filtro anti-poluição de banda larga (banda estreita não ajuda em galáxias) reduz um pouco o fundo de céu urbano. Câmera colorida de um disparo simplifica o fluxo de trabalho; monocromática com LRGB dá mais controle, ao custo de mais tempo total.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (RGB ou OSC) | 60 a 100+ | 120 a 300 s | Núcleo e braços espirais; priorize o tempo total, dada a altura baixa |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida e não vêm dos livros consultados; para um objeto tão baixo no céu do Rio, mais tempo total é sempre melhor do que exposições individuais mais longas.
Smart telescopes e campo de visão
M106 cabe com folga no campo de smart telescopes como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°) ou o ZWO Seestar S30, mas o desafio real não é o enquadramento — é a altura baixa e a necessidade de um horizonte norte livre de obstáculos, algo que nem todo smart telescope automatizado (que costuma depender de uma boa vista de todo o céu) consegue superar num quintal urbano do Rio. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
M106 é o tipo de objeto que ensina uma lição sobre o catálogo de Messier: nem tudo que está na lista é fácil, bonito ou bem posicionado para todo mundo. Para quem observa do hemisfério norte, é uma galáxia brilhante e cientificamente fascinante, com um núcleo ativo que ajudou a medir a escala do universo. Para quem está no Rio de Janeiro, é um objeto de horizonte, baixo e desafiador, melhor reservado para uma noite de outono com céu excepcionalmente transparente e um horizonte norte de verdade livre. Vale a pena combinar a tentativa com as vizinhas M108 e M109, também baixas por aqui, e com as mais acessíveis M81 (Galáxia de Bode) e M82 (Galáxia do Charuto), que ficam na mesma região do céu, ainda que igualmente baixas do Sudeste do Brasil.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 241 (M106, NGC 4258).
- KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Aglomerado da Ursa Maior e galáxias de Cães de Caça (menção a NGC 4258), p. 154-156.
- KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. Espirais de primavera (M106), p. 116.
- MACHHOLZ, Don. The Observing Guide to the Messier Marathon: A Handbook and Atlas. New York: Springer, 2002. Ursa Maior e Cães de Caça, p. 122-127.
- MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. London: Springer, 2006. M106, p. 99-100 (conferir página impressa).
- MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Cães de Caça e M51, p. 103-106.
- MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Adições ao catálogo de Messier (M108-M109 por Gingerich), p. 353.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, magnitude, tipo espectral e dimensões de NGC 4258 (M106), em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.