setembro 21, 2026
M 82, a Galáxia do Charuto: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
Se M81 é a elegante espiral do par, M82 é a vizinha que passou por um problema sério. A Galáxia do Charuto é vista quase de lado, mais ou menos como um traço luminoso alongado e cortado por faixas escuras. Nas fotografias, o núcleo é atravessado por um brilho vermelho de hidrogênio que denuncia um surto intenso de formação de estrelas. Para o observador de telescópio pequeno, ela é uma pequena surpresa, porque, mesmo sendo 1,5 magnitude mais fraca que M81, tem alto brilho por área e não se perde na cidade. Mas há um limite honesto: com declinação de +69,7°, M82 não sobe acima do horizonte do Rio de Janeiro. O guia foi escrito para quem observa do hemisfério norte, com uma seção curta sobre o que dá para esperar daqui.
Texto em revisão. Este é um dos guias de objetos do hemisfério norte que aparecem nos artigos de estação, como o céu de primavera no hemisfério norte. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: o que é uma galáxia com surto de formação estelar
Uma galáxia com surto de formação estelar (em inglês, starburst) é aquela que faz estrelas a um ritmo muito acima do normal, geralmente por causa de um encontro com outra galáxia. M82 é o exemplo clássico: o núcleo é um complexo de regiões de formação estelar que, segundo Bakich, ofusca a Nebulosa de Órion. O SIMBAD a classifica como AGN (núcleo ativo), com morfologia de espiral vista de perfil.
A Galáxia do Charuto em números. A magnitude total no SIMBAD é 8,41. O SIMBAD não traz as dimensões angulares, e por isso usamos os livros: entre 10,5′ × 5,1′ e 12′ × 5,6′, isto é, um objeto quatro vezes mais longo do que largo, com o eixo maior orientado a lés-sudeste e oés-noroeste (Bakich). Kambič atribui a ela um diâmetro real de apenas cerca de 28.000 anos-luz, o que faria dela uma das menores espirais conhecidas.
Distância. O SIMBAD não lista paralaxe para M82. Os livros concordam em cerca de 12 milhões de anos-luz (Kier; Kambič; Bakich), a mesma distância de M81, a companheira gravitacional.
Um encontro perturbador. Kier explica que M81, maior e mais massiva, deformou M82 por interação gravitacional e estimulou o surto de formação estelar; os centros das duas estão hoje a cerca de 150.000 anos-luz. Bakich situa a aproximação há centenas de milhões de anos (500 a 600 milhões) e lembra que radiotelescópios mostram muito gás ao redor das duas. Mollise a descreve como fonte de rádio forte, sinal de perturbação violenta; Kambič diz que a galáxia está envolta em gás e poeira arrancados dela por M81, e que por trás dessas nuvens haveria uma espiral relativamente normal. A classificação como irregular, comum em livros antigos, refletia justamente o fato de nem os maiores telescópios mostrarem braços espirais nítidos.
Descoberta. Bakich conta que foi encontrada por Johann Elert Bode em 31 de dezembro de 1774, junto com M81.
Estruturas notáveis
- A forma de charuto. É a assinatura do objeto: um traço de luz esticado, quatro vezes mais longo do que largo (Bakich).
- A faixa escura diagonal. Em telescópio médio e aumento alto, a parte mais brilhante fica a leste do centro, e uma faixa escura diagonal aparece mais a leste (Bakich). Em telescópios maiores, o disco fica cortado por muitas faixas de poeira, o que dá a Mollise a sensação de uma aparência "fervente" e perturbada.
- O brilho vermelho do núcleo. Só a fotografia com H-alfa mostra o hidrogênio ionizado por estrelas jovens ao redor do núcleo (Kier).
- O par com M81. Em campo largo, as duas galáxias aparecem juntas, separadas por cerca de 37′ (Mollise).
Como localizar
A regra é simples: ache M81 e ande 37′ para o norte. Trace a diagonal do Grande Carro por Phecda e Dubhe, prolongue por outros 10° e procure perto da estrela 24 UMa (Mollise; Kambič). M81 é a primeira galáxia a aparecer, e M82 está no mesmo campo de um ocular de médio aumento, para o nordeste, como uma pequena barra mais fraca.

Quando e como observar
M82 é circumpolar para quem observa acima de aproximadamente 20° N: nunca se põe. A altura máxima é 90° menos a diferença entre a latitude do observador e a declinação, ou seja, cerca de 60° a 40° N e 70° a 50° N. A melhor época é o fim do inverno e o início da primavera boreal (Kier sugere abril; Bakich, fevereiro), quando ela cruza o meridiano à noite, alta, sobre um céu de Ursa Maior bem limpo. Como o brilho por área é alto, aguenta um pouco de luz difusa e um pouco de Lua.
E do Rio de Janeiro?
Nada. A altura máxima seria de cerca de −3°: M82 nunca sobe acima do horizonte do Rio. Só é possível ver M82 ao norte de cerca de 20° S de latitude, e mesmo lá com o objeto colado ao horizonte norte, dentro do brilho das luzes das cidades. Para quem vive no Sul e quer uma galáxia com atividade intensa, a alternativa é Centaurus A (NGC 5128) e as Galáxias Antena (NGC 4038), outro exemplo de galáxias em colisão.
Os gráficos a seguir mostram o local do site (Rio de Janeiro); M82 fica abaixo do horizonte o ano todo, e as linhas não aparecem.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -13°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 04:00 · -14° NNE
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 65 mag 8,3
- Enquadramento
- 98 ocupa 24 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | -43° | — | 104° |
| 20:00 | -43° | — | 104° |
| 20:30 | -43° | — | 105° |
| 21:00 | -43° | — | 105° |
| 21:30 | -42° | — | 105° |
| 22:00 | -41° | — | 105° |
| 22:30 | -40° | — | 105° |
| 23:00 | -38° | — | 105° |
| 23:30 | -36° | — | 106° |
| 00:00 | -34° | — | 106° |
| 00:30 | -31° | — | 106° |
| 01:00 | -29° | — | 106° |
| 01:30 | -26° | — | 106° |
| 02:00 | -23° | — | 106° |
| 02:30 | -21° | — | 107° |
| 03:00 | -18° | — | 107° |
| 03:30 | -16° | — | 107° |
| 04:00 | -14° | — | 107° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Invisível: os livros não trazem observações sem instrumento. |
| Binóculo (7×50 a 15×70) | Em excelentes condições, uma pequena mancha alongada de poucos minutos de arco, cerca de 38′ ao norte de M81 (Kambič). É mais fácil de se perder na noite que M81. |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Um charuto sem detalhes; com aumento e paciência, faixas escuras aparecem por instantes com visão desviada (Mollise, com um refrator de 4 polegadas). Cabe no campo junto com M81 em baixo aumento. |
| Telescópio de 200 a 350 mm | Aumento alto mostra detalhes mesmo em noites imperfeitas (Bakich): a faixa escura diagonal, a área mais brilhante a leste do centro, e um disco irregular. |
Expectativa honesta: Mollise considera M82 ainda mais impressionante que M81 em céu escuro. O detalhe está na leitura do contraste entre o brilho e as faixas de poeira, e não em braços espirais, que nem os maiores telescópios mostram.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
M82 é menor que M81 e pede um campo mais estreito (Kier): 30′ a 40′ enquadram o Charuto com folga e ainda deixam espaço para as estrelas de fundo. Para a foto do par, um campo de cerca de 1° a 1,2° pega as duas galáxias, com M82 ao norte-nordeste, no alto à direita, como na imagem de Kier.
Desafios do alvo
- Núcleo muito brilhante. O núcleo tem alto brilho por área e satura com facilidade; vale testar exposições de tempos diferentes e combiná-las (recomendação geral, não dos livros).
- O vermelho do hidrogênio. Apenas dados em H-alfa mostram o gás ao redor do núcleo. Kier enriquece o canal vermelho com H-alfa, o que realça as regiões H II do surto de formação estelar.
Equipamento e filtros
M82 é brilhante o bastante para câmera colorida ou RGB comum (Kier). Um filtro H-alfa (ou dual-band, no caso de câmeras coloridas) adiciona o brilho avermelhado do núcleo. Em câmera monocromática, LRGB mais uma luminância em H-alfa é a rota clássica.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (RGB) | 60 a 100 | 120 a 180 s | Disco e faixas de poeira |
| Light (H-alfa ou dual-band) | 30 a 60 | 180 a 300 s | Brilho vermelho do núcleo |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros.
Smart telescopes e campo de visão
M82 cabe com folga em um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°); o par com M81 cabe na diagonal, sob certa orientação. Como o brilho é alto, poucas dezenas de minutos de empilhamento já mostram o charuto e as faixas escuras. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
M82 é, ao mesmo tempo, um teste de visão e uma aula de astrofísica: uma galáxia que reagiu a um encontro criando estrelas em ritmo febril, e que se deixa ver até em telescópio pequeno. Observe-a junto com a companheira M 81, a Galáxia de Bode, e explore também a Galáxia de Camelopardalis (NGC 2403) e a Galáxia do Cata-vento (M 101), todas no mesmo canto do céu norte.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 126 (M82).
- KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Ursa Maior, M 81 e M 82, p. 474-476.
- KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. "April 5: Galaxies M81 and M82", p. 82-83.
- MACHHOLZ, Don. The Observing Guide to the Messier Marathon: A Handbook and Atlas. New York: Springer, 2007. Ursa Maior, p. 122-127.
- MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. London: Springer, 2006. M81 e M82, p. 98-99.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo, magnitude e dimensões de M 82, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.