setembro 21, 2026
M108 (NGC 3556), a galáxia de Ursa Maior: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
Encostada na alça da Ursa Maior, perto de Merak, M108 é uma galáxia espiral vista quase de perfil — uma faixa alongada e fina, quatro vezes mais comprida do que larga, cruzada por uma faixa de poeira. É vizinha de campo da famosa Nebulosa da Coruja (M97), o que rendeu a dupla um roteiro clássico para quem observa do hemisfério norte: "M97 e M108, dupla para quem está no norte", como resume o próprio Bakich. Do Rio de Janeiro, ao contrário, essa dupla soa quase irônica: ambas ficam baixas demais para virar um roteiro fácil por aqui. Este guia trata M108 com o respeito que ela merece — e com a honestidade que a situação exige.
Texto em revisão. Este guia faz parte de um lote sobre objetos Messier de declinação norte alta, adaptado para quem observa do hemisfério sul. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: uma "agulha" barrada da Ursa Maior
M108 (NGC 3556) é uma galáxia espiral vista quase exatamente de perfil, o que a torna, junto de M82 e NGC 4565, uma das "galáxias-agulha" mais citadas em roteiros de observação de céu profundo. Ao contrário de M82, porém, M108 não passou por uma interação gravitacional intensa recente — é uma espiral relativamente comum, cuja aparência alongada é só um efeito de perspectiva: a estamos vendo quase de lado.
O Bakich a descreve como uma espiral barrada de perfil, quatro vezes mais longa que larga, inclinada de lés a nordeste; o SIMBAD, por outro lado, classifica sua morfologia simplesmente como "SA" (espiral sem indício de barra) e a lista como um núcleo ativo (AGN). É uma daquelas divergências de classificação comuns entre observação visual, catálogos morfológicos clássicos e levantamentos modernos — este guia registra as duas versões.
M108 em números. Pelo SIMBAD, M108 mede cerca de 14,6′ × 3,9′, com magnitude listada só no filtro B (10,7); o Bakich, que costuma citar magnitude visual, dá 10,0 e um tamanho de 8,1′ × 2,1′ — uma diferença considerável, possivelmente porque os catálogos usam limiares de brilho de superfície diferentes para definir onde a galáxia "termina". A cerca de 45-46 milhões de anos-luz (valor de divulgação geral, sem confirmação nos livros consultados), o disco corresponde a dezenas de milhares de anos-luz de diâmetro.
Uma "supernova" que não era. Uma estrela de magnitude 12, bem na frente do núcleo da galáxia, já enganou observadores que a confundiram com uma supernova em erupção — um lembrete de que, ao telescópio, é fácil confundir uma estrela de primeiro plano com um evento transiente real (Bakich).
Estruturas notáveis
- A faixa de poeira nordeste. Uma grande faixa escura, numa região de formação estelar, visível em telescópios de 400 mm ou mais em boas condições (Bakich).
- O disco alongado. A característica mais marcante ao telescópio: uma faixa fina, quatro vezes mais longa que larga, sem um bojo central muito destacado.
- A estrela de primeiro plano. Um "impostor" de magnitude 12 bem na linha do núcleo, que já confundiu observadores.
- A vizinhança com M97. A Nebulosa da Coruja (M97), uma nebulosa planetária, fica a pouco mais de 1° de M108 — as duas cabem no mesmo campo de um binóculo ou de um telescópio de baixo aumento.
Como localizar
M108 fica 1,5° a leste de Merak (Beta Ursae Majoris, mag. 2,3), uma das duas estrelas "apontadoras" da Ursa Maior que indicam a Estrela Polar no hemisfério norte. Como a galáxia é relativamente fraca e de baixo contraste, um binóculo ou buscador de campo amplo ajuda bastante antes de tentar localizá-la no ocular de alta ampliação — e, com sorte, a Nebulosa da Coruja (M97) aparece no mesmo campo.

Quando e como observar
M108 culmina em meados de março ao anoitecer, junto com o restante do rico campo de galáxias da Ursa Maior.
E do Rio de Janeiro? A declinação de M108 é +55°40′, quase 79° de distância angular da latitude do Rio (−23°). A fórmula da altura máxima — 90° menos o valor absoluto da diferença entre latitude e declinação — dá 90° − |−23° − 55,67°| ≈ 11,3°. Sobe, mas muito pouco: apenas cerca de 11° acima do horizonte norte no momento exato da culminação, e só entre fevereiro e abril. É uma altura baixa demais para ser um bom alvo em qualquer telescópio comum: a atmosfera mais espessa perto do horizonte, a névoa urbana e qualquer obstrução no caminho tornam a observação impraticável na maioria das noites e dos locais do Rio. Não é impossível — um local privilegiado, com o horizonte norte totalmente livre, numa noite excepcionalmente transparente, pode revelar a galáxia num telescópio grande —, mas é um alvo de nicho, não de rotina. Do Nordeste e do Norte do Brasil, a mesma conta dá alturas consideravelmente melhores.
Os gráficos abaixo usam a localização do observatório configurada no site (o Rio de Janeiro, por padrão) e mostram essa janela estreita e baixa: o primeiro, a altura ao longo do ano; o segundo, o caminho desta noite pelo céu.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -16°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 04:00 · -16° NE
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 38 mag 10,1
- Enquadramento
- 35 ocupa 9 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | -50° | — | 90° |
| 20:00 | -53° | — | 90° |
| 20:30 | -55° | — | 90° |
| 21:00 | -57° | — | 90° |
| 21:30 | -57° | — | 90° |
| 22:00 | -57° | — | 91° |
| 22:30 | -56° | — | 91° |
| 23:00 | -54° | — | 91° |
| 23:30 | -52° | — | 91° |
| 00:00 | -48° | — | 91° |
| 00:30 | -45° | — | 91° |
| 01:00 | -41° | — | 92° |
| 01:30 | -37° | — | 92° |
| 02:00 | -33° | — | 92° |
| 02:30 | -28° | — | 92° |
| 03:00 | -24° | — | 92° |
| 03:30 | -20° | — | 93° |
| 04:00 | -16° | — | 93° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Invisível em qualquer condição. |
| Binóculo (10×50 ou maior) | Do hemisfério norte, com a galáxia alta, uma manchinha alongada e fraca, achável a partir de Merak. Do Rio, exige horizonte perfeitamente livre e céu muito escuro. |
| Telescópio de 150 a 200 mm | Com a galáxia bem posicionada, o disco alongado aparece como uma faixa de brilho uniforme, sem muito detalhe. Na cidade (mesmo com a galáxia alta), Mollise descreve M108 como um objeto fraco e difícil sob céu urbano. |
| Telescópio de 400 mm ou mais | Em noites excelentes e com a galáxia alta, a faixa de poeira nordeste aparece como um escurecimento sutil no disco (Bakich). Do Rio, essa estrutura fina é praticamente inalcançável dada a altura baixa. |
Expectativa honesta: mesmo em boas condições e latitudes mais ao norte, M108 é um objeto discreto, sem brilho marcante — o Mollise já observa que ela é fraca até sob céus urbanos do hemisfério norte. Do Rio de Janeiro, a combinação de baixo brilho superficial com altura de apenas 11° faz dela um dos alvos Messier mais difíceis da cidade, reservado a quem já tentou (e conseguiu) alvos mais fáceis da mesma região, como M81 e M82.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Com cerca de 14,6′ × 3,9′ (SIMBAD) ou 8,1′ × 2,1′ (Bakich), M108 é um alvo de tamanho médio-pequeno: um campo de 30′ a 50′ a enquadra com folga, e ainda inclui a estrela de primeiro plano que "imita" uma supernova.
Desafios do alvo
- Altura extrema do Rio. O fator decisivo: a 11° de altura, a imagem atravessa uma coluna de ar muito mais espessa, com perda de nitidez (seeing) e de brilho (extinção) acentuada.
- Baixo brilho superficial. Mesmo alta no céu, M108 é um objeto de contraste discreto; do Rio, com a altura baixa somada, o desafio se multiplica.
- A faixa de poeira sutil. É o detalhe mais interessante da imagem, mas também o mais difícil de capturar sem tempo total generoso.
Equipamento e filtros
Para quem insiste em fotografar M108 do Sudeste do Brasil, vale a mesma receita de qualquer alvo de horizonte extremo: escolha o pico da temporada (fevereiro a abril, ao anoitecer ou de madrugada, dependendo do horário local de culminação), garanta uma vista totalmente livre para o norte e aceite tempos totais bem mais longos do que os de um alvo alto no céu. Um filtro anti-poluição de banda larga ajuda um pouco contra o brilho do céu perto do horizonte; banda estreita não contribui em galáxias.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (RGB ou OSC) | 70 a 100+ | 120 a 300 s | Disco e faixa de poeira; tempo total é o fator decisivo dado o baixo brilho superficial e a altura baixa |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida e não vêm dos livros consultados.
Smart telescopes e campo de visão
O campo alongado de M108 (14,6′ × 3,9′ pelo SIMBAD) cabe folgado no quadro de smart telescopes como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°). Como nos demais objetos deste lote, o desafio prático é a altura baixa: um smart telescope automatizado precisa de boa parte do céu visível para se alinhar e rastrear, algo raro perto do horizonte norte de um quintal urbano do Rio. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
M108 é uma "agulha" discreta da Ursa Maior, vizinha da Nebulosa da Coruja e parte de um roteiro clássico de primavera para quem observa do hemisfério norte. Do Rio de Janeiro, a mesma dupla soa como um convite a testar os limites do próprio céu: cerca de 11° de altura máxima tornam M108 um dos alvos Messier mais desafiadores da cidade, praticável apenas em condições excepcionais de horizonte e transparência. Vale combinar a tentativa com a vizinha M109, na mesma região da Ursa Maior e igualmente baixa por aqui, e com as mais generosas M81 (Galáxia de Bode) e M82 (Galáxia do Charuto), que dão um contexto melhor de quão rica — e quão baixa — é essa região do céu para quem observa do Sudeste do Brasil.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 182 (M108, NGC 3556), março.
- MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. London: Springer, 2006. Galáxias que aguentam a cidade (M108), p. 104.
- MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Adições ao catálogo de Messier (M108-M109 por Gingerich), p. 353.
- MACHHOLZ, Don. The Observing Guide to the Messier Marathon: A Handbook and Atlas. New York: Springer, 2002. Ursa Maior, Cães de Caça e Dragão (M108, mag. 9,4 segundo o livro), p. 122-127.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, magnitude, tipo espectral e dimensões de NGC 3556 (M108), em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.