setembro 21, 2026
M109 (NGC 3992), a galáxia de Ursa Maior: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
Entre as galáxias da Ursa Maior visíveis a telescópios amadores, M109 é a que mais recompensa quem tem paciência: uma barra central bem definida, que se estende dos dois lados de um núcleo brilhante, visível mesmo em aberturas moderadas sob céu escuro. É, pelo menos para o Bakich, "um ótimo exemplo de espiral barrada" — apesar do baixo brilho superficial que a torna menos óbvia do que sua magnitude sugere. Fica bem perto de Phecda, uma das estrelas da "panela" da Ursa Maior, mas, como quase tudo nessa constelação, está alta demais no céu norte para ser um alvo fácil do Rio de Janeiro.
Texto em revisão. Este guia faz parte de um lote sobre objetos Messier de declinação norte alta, adaptado para quem observa do hemisfério sul. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: a barra da Ursa Maior
M109 (NGC 3992) é uma galáxia espiral barrada, um dos exemplos mais citados da classe entre os objetos Messier acessíveis a telescópios amadores médios. Uma barra reta de matéria conecta as regiões internas do disco ao núcleo, e os braços espirais partem das pontas dessa barra — uma estrutura comum no universo (a própria Via Láctea, hoje se sabe, também é uma espiral barrada), mas nem sempre fácil de identificar visualmente numa galáxia distante.
M109 é o objeto mais fraco, em brilho superficial, entre os principais alvos de galáxia da Ursa Maior — o que significa que, apesar de uma magnitude integrada relativamente boa (cerca de 9,8), sua luz está espalhada por uma área grande o suficiente para tornar a observação mais desafiadora do que o número sozinho sugere (Bakich).
M109 em números. Pelo SIMBAD, mede cerca de 8,2′ × 4,6′, próximo aos 7,6′ × 4,3′ citados pelo Bakich. A distância é um dos pontos mais incertos deste guia: o SIMBAD lista uma paralaxe para o objeto, mas o valor não é fisicamente utilizável para uma galáxia — dá um resultado absurdo, de dentro da própria Via Láctea, um artefato comum de medições de paralaxe em objetos extensos e distantes. A velocidade de recessão (1.048 km/s) aponta para algo em torno de 49 milhões de anos-luz, e valores de divulgação amplamente citados chegam a cerca de 55 milhões — ambos adotados aqui como aproximação, sem certeza maior.
Um grupo próprio. M109 dá nome a um pequeno grupo de galáxias, que inclui companheiras como NGC 3953 e NGC 3877 nas proximidades, ainda que a relação física exata entre elas (se estão realmente ligadas gravitacionalmente ou apenas alinhadas na linha de visão) permaneça, em parte, incerta.
Estruturas notáveis
- A barra central. A estrutura mais marcante do objeto: um alongamento reto do núcleo, visível em telescópios de 200 mm sob céu excelente e ampliação de 200x ou mais (Bakich).
- O núcleo não estelar. Ao contrário de muitas galáxias, o núcleo de M109 não aparece como um ponto estelar simples, mas como uma região alongada e difusa, prolongando a própria barra.
- O disco de baixo brilho superficial. Explica por que, apesar da magnitude relativamente boa, M109 costuma decepcionar observadores de primeira viagem: a luz está espalhada, não concentrada.
Como localizar
M109 fica bem perto de Phecda (Gama Ursae Majoris, mag. 2,4), uma das quatro estrelas que formam o "corpo da panela" da Ursa Maior. Centralize Phecda no campo e mova cerca de 0,6° a lés-sudeste: a galáxia deve aparecer no mesmo campo de baixo aumento (Bakich). É uma das localizações mais diretas deste lote, já que a estrela-guia é brilhante e fácil de identificar.

Quando e como observar
M109 culmina em meados de março ao anoitecer, junto com o restante do rico campo de galáxias da Ursa Maior.
E do Rio de Janeiro? A declinação de M109 é +53°23′, cerca de 76° de distância angular da latitude do Rio (−23°). A fórmula da altura máxima — 90° menos o valor absoluto da diferença entre latitude e declinação — dá 90° − |−23° − 53,37°| ≈ 13,6°. É a mais alta das quatro galáxias deste lote, mas ainda assim baixa demais para ser um alvo confortável: pouco mais de 13° acima do horizonte norte no momento exato da culminação, e apenas entre fevereiro e abril. Combinado com o baixo brilho superficial do objeto, isso torna M109 um alvo de exceção, não de rotina, para quem observa do Rio — melhor tentado num local com horizonte norte livre e numa noite de transparência excelente. Do Nordeste e do Norte do Brasil, a mesma conta dá alturas bem mais generosas.
Os gráficos abaixo usam a localização do observatório configurada no site (o Rio de Janeiro, por padrão) e mostram essa janela baixa: o primeiro, a altura ao longo do ano; o segundo, o caminho desta noite pelo céu.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -22°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 04:00 · -22° NE
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 40 mag 9,9
- Enquadramento
- 72 ocupa 18 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | -45° | — | 83° |
| 20:00 | -49° | — | 83° |
| 20:30 | -53° | — | 84° |
| 21:00 | -56° | — | 84° |
| 21:30 | -58° | — | 84° |
| 22:00 | -59° | — | 84° |
| 22:30 | -60° | — | 84° |
| 23:00 | -59° | — | 85° |
| 23:30 | -57° | — | 85° |
| 00:00 | -55° | — | 85° |
| 00:30 | -52° | — | 85° |
| 01:00 | -48° | — | 85° |
| 01:30 | -44° | — | 85° |
| 02:00 | -40° | — | 86° |
| 02:30 | -35° | — | 86° |
| 03:00 | -31° | — | 86° |
| 03:30 | -26° | — | 86° |
| 04:00 | -22° | — | 86° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Invisível em qualquer condição. |
| Binóculo (10×50 ou maior) | Do hemisfério norte, com a galáxia alta, uma manchinha ovalada discreta perto de Phecda. Do Rio, exige horizonte perfeitamente livre e céu muito escuro. |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Com a galáxia visível até em aberturas pequenas e binóculos, segundo o Bakich, mas sem detalhes de estrutura — apenas um halo difuso. Do Rio, a baixa altura reduz bastante o contraste disponível. |
| Telescópio de 200 mm ou mais | Em condições excelentes e com a galáxia alta, a barra central aparece com ampliações de 200x ou mais (Bakich) — o momento em que M109 realmente se revela como espiral barrada. Do Rio, essa estrutura fina exige um céu excepcional e a galáxia bem próxima da culminação. |
Expectativa honesta: mesmo para quem observa de latitudes onde M109 sobe bem alta, ela pede paciência: a barra só aparece com aumento considerável e céu muito escuro, dado o baixo brilho superficial do objeto. Do Rio de Janeiro, a combinação de altura baixa com essa exigência técnica torna M109 um dos alvos mais difíceis do catálogo de Messier disponíveis por aqui — mas, das quatro galáxias deste lote, é a que sobe ligeiramente mais alta, o que a torna um objetivo um pouco mais realista do que M102 ou M108.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Com cerca de 8,2′ × 4,6′, M109 é um alvo compacto: um campo de 25′ a 40′ a enquadra com folga, deixando espaço para incluir estrelas de campo e, com sorte, uma ou outra galáxia companheira do pequeno grupo ao redor.
Desafios do alvo
- Altura baixa, mas a menos ruim do lote. Com cerca de 13,6° de altura máxima no Rio, M109 ainda sofre bastante com extinção atmosférica, mas um pouco menos do que M102 e M108.
- Baixo brilho superficial. É o desafio central do objeto em qualquer latitude: a barra e o núcleo alongado exigem tempo total generoso para emergir do ruído com boa relação sinal-ruído.
- Amostragem para revelar a barra. Como o objeto é relativamente pequeno, é preciso focal suficiente e boa nitidez para que a barra apareça como uma estrutura distinta, e não apenas como um alongamento genérico do núcleo.
Equipamento e filtros
Para quem fotografa do Sudeste do Brasil, a estratégia é a mesma dos demais objetos deste lote: aproveitar o pico da temporada (fevereiro a abril), garantir uma vista totalmente livre para o norte e acumular o máximo de tempo total possível, já que tanto a altura baixa quanto o baixo brilho superficial do objeto pedem exposição generosa. Câmera colorida de um disparo é suficiente para revelar a barra em boas condições; monocromática com LRGB permite mais controle sobre o contraste entre núcleo e disco.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (RGB ou OSC) | 60 a 100+ | 120 a 300 s | Barra e disco; tempo total é o fator decisivo dado o baixo brilho superficial |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida e não vêm dos livros consultados.
Smart telescopes e campo de visão
M109 cabe folgada no campo de smart telescopes como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), com espaço de sobra para estrelas de campo e outras galáxias próximas. Como nos demais objetos deste lote, o desafio prático não é o enquadramento, mas a altura baixa: um smart telescope automatizado precisa de boa parte do céu visível para se alinhar e rastrear, algo raro perto do horizonte norte de um quintal urbano do Rio. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
M109 é, das quatro galáxias deste lote, a mais gratificante para quem tem acesso a um céu do hemisfério norte: uma barra bem definida, visível com equipamento amador médio, e uma localização fácil a partir de Phecda. Do Rio de Janeiro, ela também é a mais "próxima do possível" — cerca de 13,6° de altura máxima, ainda baixo, mas ligeiramente melhor do que as vizinhas M102 e M108. Vale explorar as três juntas, como um pequeno estudo de caso sobre até onde vai o catálogo de Messier a partir do Sudeste do Brasil, e complementar com as mais generosas M81 (Galáxia de Bode) e M82 (Galáxia do Charuto), na mesma região do céu.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 218 (M109, NGC 3992), março.
- COOKE, Antony. Visual Astronomy in the Suburbs: A Guide to Spectacular Viewing. London: Springer, 2002. Galáxias de Leão e Ursa Maior (NGC 3992/M109, mag. 10,9, SBb), p. 217-219.
- MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Adições ao catálogo de Messier (M108-M109 por Gingerich), p. 353.
- MACHHOLZ, Don. The Observing Guide to the Messier Marathon: A Handbook and Atlas. New York: Springer, 2002. Ursa Maior, Cães de Caça e Dragão (M109, mag. 9,6 segundo o livro), p. 122-127.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, magnitude, tipo espectral e dimensões de NGC 3992 (M109), em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.