setembro 22, 2026

Hidra: guia da maior constelação do céu, de Alphard ao Cata-Vento do Sul

Carta estelar do trecho central da Hidra como aparece do Brasil, olhando para o norte: a cabeça perto de Ashlesha e Minchir à esquerda, Alphard no meio, o Fantasma de Júpiter e M 68 à direita, com o Corvo, a Taça e o Sextante ao redor

A Hidra é a maior das 88 constelações oficiais, e não por pouco: seus 1.303 graus quadrados dão quase três vezes o tamanho do Escorpião e cabem, sozinhos, mais de um vigésimo de todo o céu (Ridpath, p. 194). Ela se estende feito uma cobra por mais de cem graus de ascensão reta, da cabeça perto de Câncer até a ponta da cauda entre Libra e Centauro, atravessando o caminho de mais de uma dezena de constelações vizinhas. E, apesar do tamanho descomunal, é surpreendentemente discreta: só a estrela Alphard chega à 2ª magnitude, e o resto do corpo se desenha em estrelas de 3ª a 5ª, um fiapo de pontos que exige paciência para seguir de ponta a ponta. Neste guia você vai aprender a achar a cabeça da Hidra perto de Câncer, seguir o corpo até Alphard, e conhecer os principais objetos de céu profundo espalhados ao longo do caminho, do Fantasma de Júpiter à galáxia M 83.

Uma serpente que atravessa um quarto do céu

A Hidra (Hydra, abreviatura Hya) representa, na mitologia grega, o monstro de várias cabeças que Hércules matou em seu segundo trabalho, embora no céu ela apareça como uma serpente de água comum, de uma cabeça só (Ridpath, p. 194). É uma das 48 constelações originais de Ptolomeu, e sua extensão impressiona: ela vai de cerca de 54° N a 83° S, ou seja, é visível de quase todo o planeta, embora nunca suba muito alto nas latitudes mais setentrionais (Ridpath, p. 194).

Vista do Brasil, a Hidra é generosa: praticamente toda a sua extensão passa acima do horizonte, em algum momento da noite, das sete cidades usadas neste guia — um raro caso entre constelações tão extensas, já que grande parte do seu corpo fica próxima do equador celeste ou um pouco ao sul dele.

Quando e como achar

Melhor época. Por causa do seu tamanho, a Hidra não tem uma única data de culminação: a cabeça (perto de Câncer) culmina por volta das 21 horas locais em meados de março, Alphard e o corpo central culminam no fim de março e início de abril, e a cauda, onde fica M 83, só culmina em julho. Na prática, a Hidra domina o céu de outono e o começo do inverno austral: de fevereiro a julho sempre há alguma parte dela bem posicionada para observação.

Para onde olhar. A cabeça da Hidra fica ao norte do equador celeste, perto de Câncer; Alphard e o corpo central ficam pouco ao sul dele; a cauda mergulha bem mais para o sul, perto de Libra e Centauro. A carta abaixo mostra o trecho central, olhando para o norte, com o norte para baixo e o leste para a direita.

Cidade Altura máxima de Alphard
Boa Vista (RR) 79°
Manaus (AM) 84°
Recife (PE) 89°
Brasília (DF) 83°
Rio de Janeiro (RJ) 76°
São Paulo (SP) 75°
Porto Alegre (RS) 69°

Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós a partir da declinação de Alphard (SIMBAD) e da latitude de cada cidade; valores arredondados. Alphard passa quase no zênite em Recife. A cabeça da Hidra (mais ao norte) e a cauda perto de M 83 (mais ao sul) têm alturas parecidas, também bem visíveis em todo o Brasil.

Carta estelar do trecho central da Hidra como aparece do Brasil, olhando para o norte: a cabeça perto de Ashlesha e Minchir à esquerda, Alphard no meio, o Fantasma de Júpiter e M 68 à direita, com o Corvo, a Taça e o Sextante ao redor
Carta estelar do trecho central da Hidra como ele aparece do Brasil ao olhar para o norte: o norte fica embaixo e o leste à direita. As linhas de constelação são as oficiais do d3-celestial. O contorno tracejado dourado é o limite oficial da constelação. Em verde-claro, os objetos de céu profundo citados neste artigo. A galáxia M 83, na cauda, fica ainda mais a leste, fora do quadro desta carta. Estrelas: catálogo HYG v4.1 (CC BY-SA 4.0); limites de constelação: IAU. Gerada por Astronomia no Telhado com o Carina.

Passo a passo.

  1. Ache a cabeça da Hidra pela linha entre Castor e Pollux, em Gêmeos: um pouco ao sul e a leste, um hexágono apagado de seis estrelas de 3ª a 5ª magnitude marca a cabeça da serpente (Moore, Observer's Year, p. 91-92).
  2. De lá, siga para o sudeste: a próxima estrela de destaque é Alphard, sozinha em uma região vazia do céu, o que lhe rendeu o nome árabe de "a solitária" (Ridpath, p. 194-195).
  3. Continuando para leste, o corpo da Hidra passa por baixo do Sextante e da Taça, sobe até o Corvo e finalmente desce até a cauda, perto da fronteira com Libra e Centauro, onde fica M 83.
  4. Como referência rápida, Regulus, do Leão, fica quase 20° ao norte de Alphard, e ajuda a confirmar a identificação em céu com poluição luminosa.

As estrelas da Hidra

Estrela Posição Brilho visual (mag.) Tipo espectral Distância aproximada
Alphard (alfa) "coração" da serpente 1,97 K3 III (gigante alaranjada) cerca de 180 anos-luz
Ashlesha (épsilon) cabeça 3,38 (dupla) G1 III + A8 V cerca de 129 anos-luz
Ukdah (iota) corpo, perto do Sextante 3,91 K2,5 III cerca de 253 anos-luz
Zhang (upsilon-1) corpo, perto do Fantasma de Júpiter 4,11 G7 III cerca de 248 anos-luz
Minchir (sigma) cabeça 4,43 K1 III cerca de 375 anos-luz
Felis corpo, entre Alphard e o Fantasma de Júpiter 4,94 K5 III cerca de 574 anos-luz

Brilhos, tipos espectrais e paralaxes consultados no SIMBAD (CDS, Estrasburgo); distâncias calculadas por 3.261,56 dividido pela paralaxe em milissegundos de arco.

Alphard, "a solitária", é o coração visual da constelação: uma gigante alaranjada isolada numa região do céu sem outras estrelas de destaque por perto, o que a torna fácil de identificar mesmo sem carta (Ridpath, p. 194-195; Moore, Observer's Year, p. 91). John Herschel chegou a suspeitar de variabilidade em Alphard em 1838, mas isso nunca foi confirmado (Moore, Observer's Year, p. 92). A distância diverge bastante entre fontes: o SIMBAD, usando uma paralaxe Hipparcos revisada, dá cerca de 180 anos-luz, bem mais que os 85 a 95 anos-luz citados em livros mais antigos.

Ashlesha, na cabeça da Hidra, é na verdade um sistema múltiplo: a estrela principal (G1 III) tem uma companheira (A8 V) a cerca de 2,8 segundos de arco, separável em telescópios de 75 mm ou mais, com um período orbital de quase 1.000 anos; por sua vez, a componente principal é ela mesma uma binária espectroscópica interna, com período de cerca de 15 anos (Moore, Observer's Year, p. 92-93). É uma das três estrelas nomeadas da cabeça da Hidra, ao lado de Minchir.

Minchir, na mesma região, é uma gigante alaranjada mais distante e mais fraca. Junto com Ashlesha e outras quatro estrelas sem nome próprio (zeta, delta, eta e rô Hydrae), forma o hexágono apagado que os livros chamam de "cabeça" da serpente, perto da fronteira com Câncer (Ridpath, p. 194).

Ukdah e Zhang marcam o corpo central, entre Alphard e o Fantasma de Júpiter; nenhuma das duas tem brilho ou características fora do comum, mas ajudam a costurar visualmente o trajeto da serpente pelo Sextante e pela Taça.

Felis é a mais curiosa das seis: seu nome, aprovado oficialmente pela União Astronômica Internacional, é latim para "gato" e faz referência a Felis, uma constelação obsoleta criada em 1799 pelo astrônomo francês Jérôme Lalande, que a desenhou justamente com estrelas fracas tiradas do corpo da Hidra. A constelação do gato nunca pegou e foi abandonada, mas o nome sobreviveu, atribuído oficialmente a esta estrela isolada em 2018.

Uma variável para acompanhar. Perto da cabeça, R Hydrae é uma gigante vermelha variável do tipo Mira, que oscila entre a 3ª e a 11ª magnitude em um ciclo de cerca de 13 meses — um bom alvo para quem gosta de acompanhar variáveis de longo período ao longo dos meses (Ridpath, p. 195).

Objetos de céu profundo ao longo do corpo

A Hidra atravessa uma faixa do céu relativamente pobre em objetos brilhantes, mas os poucos que tem são de primeira linha, um aglomerado aberto grande, um globular compacto, uma das planetárias mais fotografadas do céu e uma espiral clássica na cauda.

M 48, o aglomerado "perdido"

M 48 é um aglomerado aberto grande e razoavelmente brilhante (magnitude 5,8, cerca de 30 minutos de arco, maior que a Lua cheia), com mais de 80 estrelas visíveis em instrumentos pequenos, a cerca de 2.500 anos-luz (Allison, Star Clusters, p. 154-155; Ridpath, p. 195). Fica na parte oeste da constelação, perto da cabeça, mais próximo de Monoceros e Cão Maior do que de Alphard — daí o apelido de "perdido", porque Charles Messier registrou sua posição com um pequeno erro, e o aglomerado só foi identificado com segurança dois séculos depois.

O Fantasma de Júpiter

NGC 3242, apelidada de Fantasma de Júpiter (Ghost of Jupiter) pelo disco arredondado do tamanho aparente do planeta, é uma nebulosa planetária de magnitude 7,7-7,8, uma das mais brilhantes do céu. Fica cerca de 10° ao sul e 14° a leste de Alphard, ou pode ser alcançada a partir de Regulus, descendo cerca de 24° até lambda Hydrae (Mobberley, Caldwell Objects, p. 141). Em aumento baixo, parece uma estrela; em telescópios maiores, mostra um tom azul-esverdeado e uma estrutura de duas cascas, uma interna mais jovem (cerca de 1.500 anos) e uma externa mais antiga (cerca de 100.000 anos) (Mobberley, p. 141). A distância citada nos livros é de cerca de 1.400 anos-luz, embora a paralaxe da estrela central no SIMBAD, pouco confiável para esse tipo de estrela quente e fraca, sugira uma distância bem maior — um ponto em aberto.

M 68, o globular ao sul do Corvo

M 68 é um aglomerado globular de magnitude 7,9-8,0, a cerca de 3,5° a sudeste de beta Corvi, na fronteira entre a Hidra e o Corvo (Allison, Star Clusters, p. 158). Em telescópios de 20 cm, já mostra faixas escuras cruzando o campo de estrelas resolvidas. A distância citada por Allison é de 33.300 anos-luz, mais longe que a maioria dos globulares bem conhecidos do hemisfério norte.

M 83, a galáxia da cauda

Bem mais a leste, já na cauda da Hidra, perto da fronteira com Centauro, fica M 83, a Galáxia do Cata-Vento do Sul, uma espiral barrada vista quase de frente, com magnitude 7,2 e cerca de 15 milhões de anos-luz de distância (Vieira, Identificação do céu, p. 84; Ridpath, p. 195). É um dos alvos mais fotografados do céu austral e uma fábrica generosa de supernovas, mas fica fora do quadro da carta deste artigo: a distância angular entre Alphard e M 83 passa de 60°, mais do que qualquer carta de constelação única consegue mostrar sem perder a legibilidade. Para observá-la, o caminho mais fácil é a partir do Corvo ou de Espiga (Spica), em Virgem, como descrito no guia próprio do objeto.

Um globular distante, à parte

Ainda mais a leste, quase na fronteira com Libra, fica NGC 5694, um globular pequeno e muito distante (cerca de 110.000 anos-luz), citado aqui apenas de passagem: também está fora do quadro da carta central, mas tem guia próprio no site para quem quiser se aventurar até lá.

Mitologia: o monstro que virou serpente

O nome vem do segundo dos doze trabalhos de Hércules: matar a Hidra de Lerna, um monstro de várias cabeças que, cortada uma, fazia brotar duas no lugar (Ridpath, p. 194; Moore, Observer's Year, p. 92). Apesar do mito falar em várias cabeças, a constelação é desenhada como uma serpente de água comum, de cabeça única — uma simplificação que já vem da Antiguidade greco-romana. A Hidra também está ligada ao mito do Corvo e da Taça: foi ela quem, segundo a lenda, atrasou o corvo mensageiro de Apolo, dando-lhe a desculpa (falsa) de ter bloqueado o caminho até a fonte de água (veja o guia do Corvo para a história completa).

Roteiro de observação

Instrumento O que ver
A olho nu Alphard isolada, o hexágono apagado da cabeça perto de Câncer, e M 48 como uma manchinha em céu escuro.
Binóculo (10×50) M 48 resolvido em dezenas de estrelas, M 68 como uma bola difusa, e o percurso completo de Alphard até o Corvo.
Telescópio pequeno (70 a 100 mm) A dupla Ashlesha, o Fantasma de Júpiter como um disco azul-esverdeado, M 68 começando a resolver estrelas nas bordas.
Telescópio de 20 cm ou mais A estrutura de duas cascas do Fantasma de Júpiter, faixas escuras em M 68, e M 83 mostrando os braços espirais e a barra central.
Astrofotografia M 83 com cores e detalhes dos braços espirais; o Fantasma de Júpiter com o tom azul-esverdeado bem definido.

Dicas de campo:

  • Escolha uma noite sem Lua entre fevereiro e julho, dependendo de qual trecho da Hidra você quer observar.
  • Use um planisfério ou aplicativo para acompanhar o corpo da serpente: sem referência, é fácil se perder entre tantas estrelas de brilho parecido.
  • Comece por Alphard, sempre fácil de reconhecer por estar sozinha, e ande para leste ou para oeste a partir dali.

Referências

  • ALLISON, Mark. Star Clusters and How to Observe Them. New York: Springer, 2006. M 48, p. 154-155 (impressa 146-147); M 68, p. 158 (impressa 150).
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 59 (NGC 3242), p. 141 (impressa 128).
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Alphard e Hidra, p. 91-93.
  • MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "Hydra" (referência de área e vizinhança), p. 438.
  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Hidra, a maior constelação, p. 194-195.
  • VIEIRA, Fernando. Identificação do céu. Hidra e Corvo, p. 84.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilhos, tipos espectrais e paralaxes, em 22 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.