setembro 21, 2026

M 68, o globular austral de Hidra: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M68 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos

Na borda sul de Hidra, perto do pequeno quadrilátero de Corvo, fica um dos aglomerados globulares mais bem posicionados do céu para quem observa do hemisfério sul. M 68 não tem o brilho estonteante de Ômega Centauri ou 47 Tucanae, mas é um alvo confiável, relativamente fácil de localizar a partir de uma constelação vizinha bem reconhecível, e um bom exemplo de aglomerado globular "de porte médio" para comparar com os gigantes do céu austral. Este guia reúne os dados, o mapa, os gráficos de altura e a estratégia de observação e de captura de M 68.

Texto em revisão. Este é um dos guias do novo formato de objeto do site. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de M68 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: um globular compacto na periferia de Hidra

Aglomerados globulares como M 68 são bolas densas de centenas de milhares de estrelas antigas, presas pela própria gravidade em uma esfera compacta, em órbita ao redor do centro da Galáxia como parte do halo galáctico. Ao contrário de aglomerados abertos como M 48, que se dispersam ao longo do tempo, os globulares se mantêm coesos por bilhões de anos, e suas estrelas costumam ser pobres em elementos mais pesados que o hidrogênio e o hélio — um sinal de que se formaram muito cedo na história da Galáxia, antes de sucessivas gerações de estrelas enriquecerem o meio interestelar.

Números. As fontes trazem magnitude de cerca de 7,8 a 7,96 e um tamanho angular de 11′ (Kambič; Allison) a 12′ (SIMBAD); este guia adota o valor do SIMBAD. A distância pela paralaxe do SIMBAD é de cerca de 28.900 anos-luz, um pouco menor que os 33.000 a 33.300 anos-luz citados por Kambič e Allison — a paralaxe de aglomerados tão distantes é uma medida delicada, por isso a diferença entre as fontes é esperada e não indica necessariamente um erro em nenhuma delas.

Estrutura interna. Em telescópios de abertura média a grande (200 mm ou mais), observadores relatam faixas escuras cruzando o aglomerado, um efeito de poeira em primeiro plano ou de variação real na concentração de estrelas (Allison).

Estruturas notáveis

  • O núcleo denso. Como todo globular, M 68 tem uma concentração central de estrelas que se resolve apenas parcialmente em telescópios amadores, ficando "granulado" mesmo em boa ampliação.
  • O halo de estrelas periféricas. Ao redor do núcleo, estrelas mais espaçadas se resolvem individualmente com mais facilidade, sobretudo nas bordas do aglomerado.
  • Faixas escuras internas. Relatadas em observações com telescópios de 200 mm (8 polegadas), essas faixas quebram a simetria esperada de um globular e valem a pena procurar em noites de bom seeing (Allison).

Como localizar

M 68 fica perto da fronteira entre Hidra e Corvo, e o jeito mais simples de chegar até ele é partir do pequeno quadrilátero de Corvo — uma das constelações mais fáceis de reconhecer no céu de outono austral — e usar Beta Corvi como referência: o aglomerado fica cerca de 3,5° a sudeste dessa estrela (Allison; Kambič confirma orientação semelhante a partir da constelação). Como Hidra não tem estrelas guia muito brilhantes na região, Corvo é o ponto de partida mais confiável.

Carta de localização de M68: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de cerca de -26,7°, M 68 passa muito alto no céu do hemisfério sul — no Rio de Janeiro, por exemplo, ele chega perto do zênite, uma situação privilegiada que reduz a extinção atmosférica e favorece tanto a observação visual quanto a astrofotografia. É um objeto de outono a começo de inverno no calendário austral, na mesma época em que Corvo e Hidra cruzam o meridiano em horário conveniente.

O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho de M 68 pelo céu nesta noite.

Altura de M68 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de janeiro a junho. O objeto chega a 86° à meia-noite em abril.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ1 abr · 86°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de janeiro a junho (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 86° em 1 de abril.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -3°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
04:00 · -3° ESE
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
70 mag 8,0
Enquadramento
59 ocupa 15 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M68 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 04:20 e 04:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 04:00, com -3°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -18° — 30°
20:00 -23° — 30°
20:30 -27° — 30°
21:00 -32° — 30°
21:30 -35° — 31°
22:00 -38° — 31°
22:30 -39° — 31°
23:00 -40° — 31°
23:30 -40° — 31°
00:00 -39° — 32°
00:30 -36° — 32°
01:00 -33° — 32°
01:30 -29° — 32°
02:00 -25° — 33°
02:30 -20° — 33°
03:00 -15° — 33°
03:30 -9° — 33°
04:00 -3° — 33°
Altura de M68 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 04:00, com -3°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte04:00 · -3°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Invisível.
Binóculo (7×50 a 10×50) Uma mancha redonda e concentrada, sem resolução de estrelas individuais, mas já claramente diferente de uma estrela desfocada.
Telescópio de 100 a 150 mm O núcleo aparece mais denso, com as bordas começando a "granular", indicando estrelas individuais no limite da resolução.
Telescópio de 200 mm ou mais Boa resolução de estrelas periféricas, núcleo ainda compacto, e possibilidade de notar as faixas escuras internas relatadas por observadores experientes (Allison).

Uma comparação útil: se você já observou Ômega Centauri ou 47 Tucanae, use M 68 como referência de escala — é um globular de porte médio, sem o brilho avassalador dos dois gigantes australinos, mas um bom teste de resolução para o seu instrumento.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Com cerca de 12′ de diâmetro pelo SIMBAD, M 68 é um alvo compacto que pede uma focal relativamente longa para preencher bem o quadro. Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro (campo de cerca de 1,1° × 0,75°), o aglomerado ocupa uma fração pequena do quadro, deixando bastante espaço de céu ao redor — uma focal de 1.500 a 2.000 mm enquadra o objeto de forma mais próxima e destaca melhor a estrutura interna.

Desafios do alvo

  • Núcleo muito mais brilhante que o halo. Como em qualquer globular, o centro satura facilmente enquanto as estrelas periféricas ainda estão subexpostas; uma combinação de exposições curtas e longas (HDR) ajuda a preservar os dois extremos.
  • Resolução de estrelas depende de seeing. Diferente de nebulosas, onde exposição total é o fator dominante, a resolução de estrelas individuais no núcleo de um globular depende muito da qualidade do céu e do foco em cada quadro individual.
  • Campo relativamente pobre em cor. Estrelas de globulares são majoritariamente antigas e amareladas; não espere o colorido de uma nebulosa de emissão.

Equipamento e filtros

M 68 não se beneficia de filtros de nebulosa. Uma câmera colorida de um disparo funciona bem, com atenção especial ao foco preciso em cada sessão — a nitidez da imagem estelar, mais do que o tempo total de exposição, é o que determina quantas estrelas do núcleo aparecem resolvidas na imagem final.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light curto (núcleo) 30 5 a 15 s Preservar o núcleo denso sem saturar
Light longo (halo) 40 30 a 60 s Capturar as estrelas mais fracas da periferia
Dark 20 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite.

Smart telescopes e campo de visão

M 68 é pequeno para o campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°): o aglomerado ocupa só uma fração do quadro, mas o resultado ainda vale a pena, sobretudo em noites de bom seeing, quando mais estrelas do núcleo se resolvem no empilhamento final. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

M 68 não é o globular mais espetacular do céu austral, mas é um alvo confiável, fácil de localizar a partir de Corvo, e um bom exercício de resolução de estrelas para quem está progredindo de binóculo para telescópio. Para quem quer continuar explorando a região, a constelação de Corvo e a vizinha Virgem, com seu aglomerado de galáxias, ficam a poucos graus de distância — veja o guia de Virgem, a constelação de Spica para continuar o roteiro.

Referências

  • ALLISON, Mark. Star Clusters and How to Observe Them. New York: Springer, 2006. Globulares de Coma Berenices, Virgem e Hidra: M 3, M 53, M 68 e outros, p. 149-153, 158.
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Hidra: Alphard, M 48, M 83, M 68 e NGC 3242, p. 306-310, 314-315.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensão de M 68, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.