setembro 22, 2026
Corvo: guia da constelação do quadrilátero que aponta para Spica e esconde as Galáxias das Antenas

O Corvo é uma das constelações mais fáceis de achar no céu de outono do hemisfério sul, mesmo não tendo nenhuma estrela de primeira grandeza: suas quatro estrelas principais formam um quadrilátero tão regular que salta aos olhos assim que se aponta a vista para o sul de Virgem. E, apesar do tamanho modesto, ele guarda dentro dos seus limites um dos alvos mais fotografados da astronomia amadora, um par de galáxias em plena colisão. Neste guia você vai aprender a achar o Corvo a partir de Spica, conhecer as suas quatro estrelas e a história do corvo que Apolo baniu ao céu por preguiça.
Um quadrilátero pequeno ao sul de Virgem
O Corvo (Corvus, abreviatura Crv) é uma das menores constelações do céu, com cerca de 184 graus quadrados (Mourão, verbete Corvus, p. 243), e fica encravado entre a Hidra, que o envolve por três lados, e Virgem, ao norte e a leste. Não tem nenhuma estrela mais brilhante que a 2ª magnitude, mas isso pouco importa: suas quatro estrelas principais, Gienah, Kraz, Algorab e Alchiba, formam um quadrilátero fechado tão nítido que é reconhecível à primeira vista, mesmo em céu com alguma poluição luminosa (Moore, Observer's Year, p. 162).
A curiosidade do desenho é que a estrela mais brilhante não é a "alfa": Alchiba (α Crv) é a mais fraca das quatro, de magnitude 4,0, enquanto Gienah (γ) e Kraz (β) passam de 2,6. É um lembrete de que a letra grega de Bayer nem sempre segue o brilho à risca.
Quando e como achar
Melhor época. O Corvo culmina (fica no ponto mais alto) por volta das 21 horas locais em meados de maio, então a boa temporada de observação vai de março a julho: em março e abril ele já está alto ao anoitecer, em maio domina o começo da noite, e em junho e julho se inclina para o oeste.
Para onde olhar. O Corvo fica ao sul do equador celeste e, do Brasil, culmina bem alto, quase no zênite nas regiões central e sudeste. A carta abaixo mostra o céu olhando para o norte, com o norte para baixo e o leste para a direita.
| Cidade | Altura máxima de Gienah |
|---|---|
| Boa Vista (RR) | 70° |
| Manaus (AM) | 76° |
| Recife (PE) | 81° |
| Brasília (DF) | 88° |
| Rio de Janeiro (RJ) | 85° |
| São Paulo (SP) | 84° |
| Porto Alegre (RS) | 78° |
Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós a partir da declinação de Gienah (SIMBAD) e da latitude de cada cidade; valores arredondados. O Corvo passa perto do zênite em quase todo o Brasil.

Passo a passo.
- Comece por Spica, a estrela azulada e brilhante de Virgem, fácil de achar seguindo a curva do cabo da Ursa Maior até Arcturo e depois "mergulhando" até Spica (o truque "arc to Arcturus, spike to Spica").
- O Corvo fica cerca de 20° a oés-sudoeste de Spica (Mobberley, Caldwell Objects, p. 143). Procure um pequeno quadrilátero isolado, sem outras estrelas brilhantes por perto.
- Kraz e Algorab formam o lado leste do quadrilátero (mais perto de Spica); Gienah e Alchiba, o lado oeste.
- As Galáxias das Antenas ficam cerca de 1,5° ao sul e 3,5° a oeste de Gienah, na direção da Hidra (Mobberley, p. 143).
As estrelas do Corvo
| Estrela | Posição | Brilho visual (mag.) | Tipo espectral | Distância aproximada |
|---|---|---|---|---|
| Gienah (gama) | canto noroeste | 2,58 | B8 III | cerca de 154 anos-luz |
| Kraz (beta) | canto sudeste | 2,64 | G5 II | cerca de 148 anos-luz |
| Algorab (delta) | canto nordeste | 2,94 (dupla com 9) | A0 IV | cerca de 86 anos-luz |
| Alchiba (alfa) | canto sudoeste | 4,01 | F1 V | cerca de 49 anos-luz |
Brilhos, tipos espectrais e paralaxes consultados no SIMBAD (CDS, Estrasburgo); distâncias calculadas por 3.261,56 dividido pela paralaxe em milissegundos de arco.
Gienah (do árabe para "a asa", embora aqui se refira à asa do corvo) é a mais brilhante do quadrilátero, uma gigante azul-branca. Kraz, quase do mesmo brilho, já evoluiu para uma gigante amarela (G5), mais fria e mais avançada em sua vida estelar que Gienah. Algorab é uma dupla fácil em telescópio pequeno: além da estrela principal, branco-azulada, tem uma companheira de magnitude 9 a cerca de 24 segundos de arco, separável mesmo em pouca abertura (Moore, Observer's Year, p. 163). Alchiba, apesar de levar a letra alfa, é a mais fraca das quatro, uma estrela branco-amarelada (F1) bem mais próxima da Terra que as outras três.
A estrela Épsilon Corvi, de magnitude 3,0, e Eta Corvi, de magnitude 4,3, completam o desenho, mas não têm nome próprio e não aparecem na carta.
As Galáxias das Antenas
Dentro dos limites do Corvo, cerca de 1,5° a sudoeste de Gienah, ficam NGC 4038 e NGC 4039, as Galáxias das Antenas, o exemplo mais fotografado de duas galáxias espirais em plena colisão. As duas somam magnitude 10,5, fracas demais para aparecer em telescópios pequenos como algo além de uma manchinha, mas fotos de longa exposição mostram os longos filamentos de gás e estrelas arrancados pela maré gravitacional, que deram o apelido de "antenas" (Mobberley, Caldwell Objects, p. 143).
A distância varia bastante entre fontes: o Mobberley cita cerca de 45 milhões de anos-luz, enquanto Moore (Observer's Year, p. 163) e Ridpath falam em cerca de 100 milhões. De qualquer forma, é um objeto de fora da Via Láctea, mostrando como será, em escala muito maior, o encontro futuro entre a Via Láctea e Andrômeda — sem que uma única estrela precise colidir de fato, porque as distâncias entre elas, mesmo dentro de uma galáxia, são imensamente maiores que seus diâmetros (Vieira, Identificação do Céu, p. 84). Amadores já descobriram quatro supernovas na dupla (1921, 1974, 2004gd e 2007sr), sinal de que a colisão está disparando a formação de estrelas maciças de vida curta (Mobberley, p. 143).
Em telescópios de 20 a 30 cm, sob céu escuro, dá para ver o núcleo de NGC 4038 e uma mancha alongada de NGC 4039 em forma de vírgula invertida (Mobberley, p. 143).
Mitologia: o castigo de Apolo
O mito do Corvo está ligado ao da Taça e ao da Hidra, e as três constelações ficam lado a lado no céu justamente por causa dessa história. Segundo Mourão, Apolo enviou o corvo para lhe trazer água numa taça; no caminho, o pássaro parou para comer figos numa figueira e voltou atrasado, inventando a desculpa de que uma serpente de água (a Hidra) havia bloqueado a fonte. Apolo, sabendo que era mentira, baniu os três ao céu: a Hidra, para que o corvo nunca conseguisse alcançar a água; a taça, para sempre fora do seu alcance; e o próprio corvo, condenado a ficar com sede eternamente (Mourão, verbete Corvus, p. 243). Vieira e Ridpath contam variações da mesma história, algumas com vinho no lugar de água.
Roteiro de observação
| Instrumento | O que ver |
|---|---|
| A olho nu | O quadrilátero completo, uma forma fácil de reconhecer mesmo com alguma poluição luminosa. |
| Binóculo (10×50) | O quadrilátero com mais contraste e a cor amarelada de Kraz frente ao branco-azulado das outras três. |
| Telescópio pequeno (70 a 100 mm) | A companheira de Algorab, a cerca de 24 segundos de arco. |
| Telescópio de 20 a 30 cm | O núcleo das Galáxias das Antenas, sob céu bem escuro. |
| Astrofotografia | As caudas de maré das Antenas, o alvo que rendeu ao Corvo sua fama entre astrofotógrafos. |
Dicas de campo:
- Escolha uma noite sem Lua entre março e julho.
- Use Spica como referência: o Corvo fica bem a oés-sudoeste dela, isolado, sem confusão possível com outro grupo de estrelas.
- Para as Antenas, tenha paciência: mesmo em telescópios médios, é um alvo sutil a olho, mas generoso em fotografia de longa exposição.
Referências
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 60 e 61 (NGC 4038/4039), p. 143 (impressa 130).
- MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Corvus e as Galáxias Antenas, noites de 23 a 25 de maio, p. 162-164.
- MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "Corvus", p. 243.
- RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Antenas, Corvo e Taça, p. 197.
- VIEIRA, Fernando. Identificação do céu. Hidra e Corvo, p. 84.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilhos, tipos espectrais e paralaxes, em 22 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.