setembro 20, 2026

M 83, a Galáxia do Cata-Vento do Sul: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M83 — Galáxia do Cata-vento do Sul — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos

Nem toda espiral bonita está longe do nosso alcance. M 83, na constelação de Hidra, é uma galáxia de frente para nós, com braços bem definidos e uma barra no centro, a cerca de 15 milhões de anos-luz (dos livros; o SIMBAD não traz paralaxe). Para o observador do hemisfério norte ela é uma raridade baixa no horizonte sul; do Rio de Janeiro, ela passa a cerca de 7° do zênite, o que é a melhor posição possível para um objeto difuso. Este guia mostra por que ela merece uma noite de abril a junho, como achá-la e o que esperar em cada instrumento.

Texto em revisão. Este é um guia de teste do novo formato de objeto. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de M83 — Galáxia do Cata-vento do Sul — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: o que é uma galáxia espiral barrada

Uma galáxia espiral tem um disco achatado com braços de estrelas, gás e poeira. Em muitas delas, as estrelas do centro se alinham numa barra, e os braços partem das pontas dela. Bakich chama M 83 de espiral barrada e, para alguns observadores, a melhor visível do hemisfério norte. O SIMBAD registra o tipo SAB(s)c, isto é, uma barra intermediária, com braços bem abertos. Como o disco está voltado para nós, quase de frente, a estrutura aparece sem a compressão que atrapalha galáxias inclinadas como M 31.

M 83 em números. A distância é de cerca de 15 milhões de anos-luz (Kambič; Ridpath). O diâmetro é de 45.000 anos-luz (Kambič), menor que o da Via Láctea. Com magnitude cerca de 7,5 (SIMBAD), o disco total tem cerca de 14′ × 13′ (livros trazem de 11′ a 15,5′), quase metade do tamanho da Lua cheia. Isso significa um brilho por ponto bem baixo, e é por isso que o núcleo se vê fácil e os braços exigem céu escuro.

Descoberta. Nicolas-Louis de Lacaille a descobriu em 23 de fevereiro de 1752, a terceira galáxia descoberta, depois de M 31 e M 32; Messier a incluiu no catálogo em 18 de março de 1781 (Bakich). M 83 faz parte de um grupo de cerca de 14 galáxias, do qual também é membro Centaurus A (Bakich).

O nome. Bakich a chama de "Redemoinho do Sul", e o apelido "Cata-Vento do Sul" também é usado. Cuidado: Mobberley usa o mesmo nome ("Catavento do Sul") para NGC 300, no Escultor, uma galáxia diferente. Aqui, o nome se refere sempre a M 83.

Estruturas notáveis

  • O núcleo. Pequeno, redondo e brilhante, é a parte mais fácil de ver (Bakich).
  • A barra. Uma barra curta que se estende na direção nordeste a sudoeste (Bakich).
  • O braço mais fácil. O braço que sai da ponta nordeste da barra e segue para o sul é o mais evidente, e é o que se vê primeiro com 150 mm (Bakich).
  • Grumos e regiões de formação de estrelas. Com 300 mm e uma noite escura, aparecem nós de estrelas e regiões de gás ao longo dos braços (Bakich).
  • Supernovas. M 83 é conhecida por ter tido várias supernovas nas últimas décadas; essa informação é de conhecimento geral, e não vem dos livros consultados.

Como localizar

M 83 fica no extremo sul da constelação de Hidra, perto da fronteira com Centauro. O ponto de partida é Pi Hydrae (magnitude 3,3): M 83 fica a cerca de 7,2° a oés-sudoeste dela (Bakich; Kambič também usa Pi como guia). Como o campo é pobre em estrelas brilhantes, vale a pena fazer o percurso primeiro no binóculo e conferir o campo antes de apontar o telescópio.

Como o objeto passa quase sobre a cabeça, um diagonal a 90° ou uma espreguiçadeira deixa a observação bem mais confortável. Com diagonal, a imagem pode vir espelhada, então confira a direção da barra (nordeste-sudoeste) com a carta.

Carta de localização de M83: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de −29°52′, M 83 culmina a cerca de 83° de altura no Rio, ou seja, a uns 7° do zênite. É praticamente o melhor ângulo possível: a luz atravessa a menor coluna de atmosfera, e o brilho de fundo e a bruma do horizonte quase não atrapalham. Isso é uma vantagem enorme sobre os observadores do hemisfério norte, para quem M 83 fica baixa no sul, e sobre nós mesmos quando observamos objetos do norte, como M 13 e M 31.

A melhor época vai de abril a junho: M 83 cruza o meridiano à meia-noite em meados de abril e, por volta de junho, cruza no começo da noite. Bakich indica abril. O objeto fica acima do horizonte por cerca de 14 horas, então a janela é larga. Os gráficos abaixo mostram a altura ao longo do ano e a trajetória nesta noite.

Altura de Galáxia do Cata-vento do Sul ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de fevereiro a junho. O objeto chega a 83° à meia-noite em abril.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ16 abr · 83°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de fevereiro a junho (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 83° em 16 de abril.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -3°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
19:20 · -4° SW
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
81 mag 7,2
Enquadramento
100 ocupa 30 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M83 — Galáxia do Cata-vento do Sul pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 18:20 e 19:00 durante a noite; o ponto mais alto é às 19:20, com -4°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO19:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -5° — 18°
20:00 -11° — 18°
20:30 -16° — 18°
21:00 -21° — 19°
21:30 -25° — 19°
22:00 -29° — 19°
22:30 -32° — 19°
23:00 -35° — 19°
23:30 -36° — 19°
00:00 -37° — 20°
00:30 -37° — 20°
01:00 -35° — 20°
01:30 -33° — 20°
02:00 -30° — 20°
02:30 -27° — 21°
03:00 -22° — 21°
03:30 -18° — 21°
04:00 -13° — 21°
Altura de M83 — Galáxia do Cata-vento do Sul ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 19:20, com -4°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Invisível.
Binóculo (7×50 a 15×70) Uma mancha difusa, mais brilhante no centro, e nada de estrutura. Kambič a inclui entre os alvos de binóculo de Hidra, mas o brilho por ponto é baixo.
Telescópio de 100 a 150 mm O núcleo pequeno e redondo e, com 150 mm, a estrutura espiral: a barra e o braço do lado nordeste (Bakich).
Telescópio de 250 a 300 mm Grumos de estrelas e regiões de formação estelar nos braços (Bakich). Em céu escuro, a espiral aparece bem definida.

Expectativa honesta. Esta é uma galáxia de brilho por ponto baixo, e a olho nu ou em céu urbano só o núcleo se destaca. Bakich lembra que a estrutura espiral aparece com 150 mm. No Rio, com Bortle 7, espere o núcleo e uma tênue luminosidade em volta; os braços pedem um céu mais escuro que o do quintal. A altura elevada compensa parte disso.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Com cerca de 14′, M 83 cabe com muita folga num telescópio de 1.000 mm de focal com uma câmera como a ASI294MC Pro, que dá um campo de cerca de 1,1° × 0,75° (calculado do sensor e da focal). Uma focal maior, de 1.500 a 2.000 mm, preenche melhor o quadro, e os braços externos ganham detalhe. A galáxia é vista de frente, então a orientação é livre; incline o quadro para incluir estrelas de campo interessantes.

Desafios do alvo

  • Brilho superficial baixo. Os braços externos são fracos, e é preciso muito tempo total de exposição.
  • Núcleo brilhante contra braços fracos. Ajuste o histograma com cuidado para não saturar o núcleo, sem perder os braços.
  • Cores. Os braços têm regiões azuladas de estrelas jovens e nós rosados de gás; em céu poluído, o fundo puxa para o laranja, e o balanço de cor pede cuidado.
  • Poluição luminosa. Em Bortle 7, o gradiente ainda existe, mas M 83 está alta, e isso ajuda muito.

Equipamento e filtros

Uma câmera colorida de um disparo ou uma monocromática com RGB funcionam bem. Um filtro dual-band pode realçar as regiões de formação de estrelas (H-alfa), mas o LRGB de banda larga é o que mostra a galáxia inteira. Como o objeto está quase no zênite, cuidado com o cabo e com a montagem: verifique a virada do meridiano e a liberdade de movimento do tubo.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light (RGB ou câmera colorida) 60 a 120 120 a 180 s Braços e núcleo; o mais importante é o tempo total
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros. Ajuste para o seu sensor e o seu céu.

Smart telescopes e campo de visão

M 83 cabe com folga no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), e a galáxia ocupa uma parte pequena do quadro. Como ela fica bem alta no Rio, a captura é favorável, e o empilhamento por algumas horas já mostra a barra e os braços. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre a galáxia.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

M 83 mostra a vantagem de morar no hemisfério sul: uma espiral que os observadores do norte quase não alcançam passa aqui quase sobre a nossa cabeça, com os braços à vista de um telescópio médio. É um bom alvo para quem quer começar a ver estrutura de galáxia e um excelente alvo para fotografia. Para uma noite completa de galáxias e aglomerados de outra época do ano, você pode combiná-la com M 31, no fim do ano, e M 13, no inverno, que mostram como o céu do norte fica baixo por aqui.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 336 (M 83).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Hidra, p. 306-310.
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 70 (NGC 300), Catavento do Sul.
  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Galáxias do céu austral, p. 195.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo morfológico e dimensões de M 83, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.