setembro 21, 2026

NGC 3242 (Caldwell 59), o Fantasma de Júpiter: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de NGC 3242 — Fantasma de Júpiter — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos

Entre as planetárias que um observador do sul pode ver, NGC 3242 é das que mais agradam: pequena, brilhante, azul-esverdeada e sem exigir um céu perfeito. Em telescópios pequenos parece um pequeno disco de planeta, e é daí que vem o apelido; em telescópios maiores, o interior lembra um olho que olha de volta para o observador, e por isso Steve Coe a apelidou de "olho da CBS", por causa do logotipo da emissora de TV (Mobberley; Coe). Fica em Hidra, é a Caldwell 59, e para quem observa do Rio de Janeiro passa quase no zênite, o que é uma vantagem enorme para um objeto que exige ampliação alta.

Texto em revisão. Este é um artigo de teste do novo formato de guia de objeto. Ele substitui o guia de astrofotografia e a página de exploração do objeto. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de NGC 3242 — Fantasma de Júpiter — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: o que é uma nebulosa planetária

Apesar do nome, uma nebulosa planetária não tem nada de planeta. Trata-se do envoltório de gás que uma estrela de massa parecida com a do Sol expele nos últimos milhares de anos de vida. O núcleo da estrela, agora uma anã branca muito quente, ilumina o gás e o faz brilhar (Moore e Rees). É um fenômeno passageiro na escala das estrelas. O nome vem de William Herschel, que o adotou por causa do aspecto de disco esverdeado de alguns desses objetos ao telescópio; o próprio Herschel descobriu NGC 3242 em 7 de fevereiro de 1785 (Bakich). Para conhecer o tipo em outros exemplos, veja a Nebulosa da Hélice, o Anel Sul (NGC 3132) e a Nebulosa Esquimó.

Cor. O tom azul-esverdeado vem do oxigênio, que absorve a radiação ultravioleta da estrela central e a reemite em luz visível. Por isso o filtro OIII (oxigênio duplamente ionizado) e o UHC funcionam tão bem (Bakich; Mobberley). Em grandes aberturas, o observador vê uma cor de azul elétrico ou verde-azulada. Coe descreve "verde-azul elétrico" a 160 aumentos num refletor de 16 polegadas e "aqua" com um Schmidt de 11 polegadas a 320 aumentos.

Números e distância. Os livros dão magnitude entre 7,7 e 7,8, o que a coloca entre as planetárias mais brilhantes do céu, ainda que o brilho se concentre num disco muito pequeno. O tamanho aparente da nebulosa completa é de cerca de 45″ × 35″, semelhante ao do planeta Júpiter (Mobberley; Kambič). A estrela central é de 11ª a 12ª magnitude, mas, como sempre em planetárias, é difícil de ver no meio do brilho da nebulosa (Mobberley; Moore e Rees). Coe a viu em cerca de 20% do tempo com um telescópio de 11 polegadas.

A distância é onde as fontes discordam mais: 1.400 anos-luz (Mobberley) e 2.500 (Kambič). A paralaxe listada no SIMBAD (0,7452 milissegundos de arco) dá cerca de 4.400 anos-luz, e é esse o valor que este guia adota. A essa distância, 45″ correspondem a cerca de 1 ano-luz de diâmetro. O SIMBAD não traz dimensões confiáveis para o objeto, por isso usamos as medidas dos livros.

Estruturas notáveis

  • A casca interna. É o disco brilhante que se vê primeiro, ovalado, com cerca de 16″ (Bakich). Acima de 200 aumentos, o interior parece um olho, ou uma bola de futebol, com um centro oco de uns 10″ e uma estrela central fraca (Bakich).
  • A casca externa. Uma concha de cerca de 40″ que só aparece com telescópio de 300 mm ou mais, cerca de 100 aumentos e filtro (Bakich). Em um refletor de 16 polegadas, a visão desviada mostra uma concha fraca que quase dobra o tamanho da nebulosa (Coe).
  • O "efeito olho". É o par de arcos brilhantes dentro do disco, que produz a semelhança com o logotipo da TV (Mobberley; Coe).
  • A estrela central. De magnitude 11 a 12, é mais fácil em fotografias do que ao ocular.
  • Idades diferentes. Mobberley cita cerca de 1.500 anos para a parte interna e até 100.000 anos para a externa; é um dado que indica gerações de gás, mas que deve ser lido como aproximado.

Como localizar

NGC 3242 fica em uma região com poucas estrelas de referência. O caminho mais simples, para nós, é sair de Alphard (Alfa de Hidra, magnitude 2,0) e andar cerca de 10° para o sul e 14° para leste (Mobberley). Uma opção com estrelas mais visíveis é partir da estrela Mu de Hidra (magnitude 3,8): a planetária fica 2° ao sul dela e um quarto de grau a oeste (Mobberley). Kambič também usa Mu de Hidra, uma estrela de magnitude 4, como ponto de partida. Com um binóculo, a planetária aparece como uma estrela levemente azulada de oitava magnitude, borrada (Kambič).

Carta de localização de NGC 3242: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de cerca de −19°, NGC 3242 culmina a cerca de 85° de altura no Rio de Janeiro, isto é, a poucos graus do zênite. Para uma planetária que precisa de ampliações de 200 aumentos ou mais, é a situação ideal: a luz atravessa pouca atmosfera, e o seeing é o melhor que o local pode oferecer. Os observadores do hemisfério norte, ao contrário, a veem baixa, no máximo a cerca de 20° de altura (Mobberley), o que a atrapalha muito. A melhor época vai de fevereiro a maio (Mobberley, "janeiro a março, hemisfério sul", e Bakich, "ótima no outono"). Como passa perto do zênite, a orientação no ocular muda ao longo da noite; use a carta de localização para confirmar o campo.

Os gráficos abaixo mostram a altura ao longo do ano e o caminho no céu nesta noite.

Altura de Fantasma de Júpiter ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de dezembro a maio. O objeto chega a 85° à meia-noite em fevereiro.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ20 fev · 85°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de dezembro a maio (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 85° em 20 de fevereiro.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 22°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
04:00 · 23° ESE
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
74 mag 7,7
Enquadramento
4 ocupa 1 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de NGC 3242 — Fantasma de Júpiter pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 02:20 e 04:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 04:00, com 23°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO03:0004:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -44° — 61°
20:00 -46° — 62°
20:30 -48° — 62°
21:00 -48° — 62°
21:30 -47° — 62°
22:00 -45° — 63°
22:30 -42° — 63°
23:00 -38° — 63°
23:30 -33° — 63°
00:00 -28° — 63°
00:30 -22° — 64°
01:00 -17° — 64°
01:30 -10° — 64°
02:00 -4° — 64°
02:30 3° ESE 109° 65°
03:00 9° ESE 107° 65°
03:30 16° ESE 104° 65°
04:00 23° ESE 102° 65°
Altura de NGC 3242 — Fantasma de Júpiter ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 04:00, com 23°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte04:00 · 23°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Fora de alcance.
Binóculo (10×50) Uma "estrela" de oitava magnitude, levemente azulada e um pouco borrada (Kambič). Sem nada de forma.
Telescópio de 100 a 150 mm Em baixo aumento, ainda parece uma estrela. Mobberley pede 10 cm ou mais e aumentos altos. Com 150 mm (Bakich), aparece um disco azul-esverdeado pálido. Os filtros UHC e OIII funcionam bem.
Telescópio de 250 a 300 mm Com 280 mm a 200 aumentos, Coe vê um disco levemente oval e, a 320 aumentos, o efeito de "olho" olhando para o observador (com um Schmidt de 11 polegadas). Bakich descreve a estrutura interna oca acima de 200 aumentos.
Telescópio de 300 mm ou mais A casca externa fraca, com 100 aumentos e filtro (Bakich). Em um refletor de 400 mm, a 275 aumentos, Coe destaca mais detalhes internos.

Expectativa honesta: a cor azul-esverdeada é uma impressão subjetiva e diminui com o aumento, e a parte externa é um desafio (Coe). Mesmo assim, é uma das planetárias mais fáceis de achar e de reconhecer. Em Bortle 7, ela não sofre com o céu de fundo tanto quanto as nebulosas grandes, por causa do brilho concentrado.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

É um alvo pequeno: com cerca de 45″, ocupa uma fração de minuto de arco. Numa configuração de 1.000 mm de focal com uma câmera como a ASI294MC Pro, a escala é de cerca de 0,95″ por pixel (calculada a partir do tamanho do pixel e da focal); a nebulosa fica com uns 45 a 50 pixels de diâmetro, suficiente para mostrar a forma, mas sem detalhe fino. Com 2.000 mm, a escala de cerca de 0,5″ por pixel dá mais detalhe, se o seeing ajudar (Mobberley recomenda boa guiagem e escala menor que 1″ por pixel).

Desafios do alvo

  • Tamanho pequeno. Foco, guiagem e seeing pesam mais que o tempo de exposição. Mobberley pede guiagem boa e escala menor que 1″ por pixel.
  • Brilho alto. Ao contrário das planetárias grandes, esta é fácil de registrar. O risco é estourar o núcleo, que precisa de exposições curtas.
  • Cor. O centro azul-esverdeado (OIII) e a casca externa mais vermelha pedem tratamentos distintos.

Equipamento e filtros

Uma câmera colorida de um disparo já basta. Em câmera monocromática, um conjunto de exposições em H-alfa e OIII revela a casca externa e a estrutura. Um dual-band ajuda em Bortle 7. Como a nebulosa passa quase no zênite, fotografe perto do meridiano para o melhor seeing possível.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light (dual-band ou RGB) 60 a 100 30 a 60 s Núcleo sem estourar, muitos quadros para escolher os melhores
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida do autor do guia, e não vêm dos livros.

Smart telescopes e campo de visão

Num smart telescope como o Seestar S50 (campo de cerca de 1,3° × 0,7° e escala de cerca de 2,4″ por pixel, calculada), NGC 3242 ocupa uns 19 pixels: aparece como um pontinho azulado. Ela serve mais como teste de foco e de empilhamento do que como retrato. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

O Fantasma de Júpiter é uma planetária de recompensa rápida: brilhante, fácil de reconhecer e com um efeito de "olho" que aparece com pouca abertura. Do Rio de Janeiro, com o objeto quase no zênite, ela é uma das melhores planetárias para treinar altas ampliações, comparar filtros e, com uma câmera, fotografar uma pequena nebulosa em detalhe. Combine-a com o Anel Sul (NGC 3132), outra planetária do céu sul, e com a Nebulosa Esquimó.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 152 (NGC 3242).
  • COE, Steven R. Nebulae and How to Observe Them. London: Springer, 2007. NGC 3242, p. 93-94.
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Hidra, NGC 3242, p. 310.
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 59, p. 128-129.
  • MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Nebulosas planetárias, p. 351.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e fotometria de NGC 3242, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.